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LOLA - FINAL ALTERNATIVO



Está na moda esse negócio de final alternativo. Você aluga um filme e lá está ele, todo faceiro, entre as opções do menu interativo. Já vi um filme (Amnésia –Memento, no original- de 2000, dirigido por Christopher Nolan, estrelado por Guy Pierce) no qual havia a opção de assisti-lo de trás para frente, caso o telespectador tivesse dificuldade em compreender o enredo.

Talvez essa mania se deva a um inconformismo natural do ser humano, a uma vontade inata de alterar fatos e coisas de acordo com nossas preferências. Ah, o vilão só é preso? Pois no final alternativo ele morre. O herói morre salvando o mundo. Não gostou? Experimente a versão onde ele sobrevive e se casa com a linda protagonista. Não gosto muito da ideia. Assistir a um filme sabendo que o final da história será aquele ali mesmo, que ninguém salva o planeta, que o mocinho morre, que o casal romântico não fica junto, quer você goste ou não, nos ajuda de alguma forma a encarar a vida com suas vicissitudes, a aceitá-la como ela é.

Mas, como eu faço de tudo para agradar aos meus nove leitores (o que vocês queriam? Se o Luis Fernando Verissimo tem dezessete, quem sou eu para ter mais do que nove!), ofereço aos mais sensíveis um desenlace menos dramático para a terrível saga da simpática Lola, a cadelinha yorkshire. Mas, devo avisá-los: ainda que o final não seja tão trágico, está longe de ser feliz...

Muito bem. Façamos uma rápida síntese da história. O advogado sai de casa para trabalhar. É acometido de súbita, invencível e inadiável necessidade. Para o carro, desce, vai até uma pequena, antiga e inexplicavelmente intocável floresta. Ouve barulho na mata. Volta-se e dá de cara com um pequeno, porém feroz, animal. Reconhece nele sua cadelinha de estimação, Lola, desaparecida tempos atrás. A diminuta fera, entretanto, dá mostras de não reconhecer o homem à sua frente; ao contrário, avança em sua direção, rosnando ameaçadora. Quando ela está prestes a avançar, ele a chama pelo nome, carinhosamente, como fazia nos tempos em que Lola era apenas uma dócil e inofensiva yorkshire. Fim do flashback; volta ao tempo atual.

Ao ouvir a voz do seu antigo e amado dono, Lola estaca e recua. Teria ela reconhecido sua iminente presa? Teria recordado de seu passado, do tempo em que era uma feliz e mimada cadelinha doméstica?

Ele insistiu. Apesar de apavorado com o aspecto, a atitude e os dentões de Lola, chamou-a novamente, usando todos os nomes, apelidos e tons carinhosos de que se lembrava, numa tentativa desesperada de trazer à tona a natureza amável e delicada do pequeno animal.

O artifício mostrou-se eficaz. Lola não avançou sobre ele. Ficou ali, parada, olhando fixamente para aquele que até então seria seu almoço. Deixou de rosnar, e lentamente foi se achegando a ele, cheirando o ar desconfiada em busca de aromas conhecidos, reminiscências de um passado confortável e feliz. Quanto mais ela se aproximava, mais palavras carinhosas o homem despejava em suas orelhas atentas.

Até que Lola, cheirando sua mão, afinal, o reconheceu. Reconheceu aquela mão, que tantos afagos e carinhos já lhe tinham dedicado. Mão que a alimentou, anos a fio, com o melhor que o mercado podia oferecer em matéria de ração canina. Mão que esperava que o animalzinho não se recordasse das palmadinhas que lhe haviam sido aplicadas. Lola, após alguns instantes, lambeu a mão estendida. Estou salvo, pensou ele, mal cabendo em si de felicidade. Quase foi às lágrimas; caramba, afinal de contas, adorava aquela bichinha! E, claro, não desgostava também de continuar vivo.

Lola, contudo, não lhe fez festa. A rápida lambida foi a única demonstração de afeto – afeto, não; aquilo estava mais para mera formalidade. Passou por ele, indiferente, pulou dentro do carro e acomodou-se no banco do carona. Nenhuma manifestação de alegria, nem um abanar de rabo, nem mais uma lambida. Estranhou o comportamento da cadelinha, mas estava feliz mesmo assim. Voltou correndo para casa; mal podia esperar para ver a cara de sua esposa quando se deparasse com sua estimada Lolita.

A reação da mulher foi exatamente como ele imaginara. Assim que avistou a cadelinha, dona Letícia deu um grito de alegria e correu ao seu encontro. Agarrou a bichinha, abraçou-a, beijou-a, apertou-a com força contra o peito, jogou-a para cima, fez um escarcéu. Lola aceitou a festa, deixou-se agarrar, abraçar, beijar, jogar para cima; porém não correspondeu aos arroubos de alegria, logo ela que sempre fora tão faceira, tão serelepe. A mulher estranhou. Deve estar meio traumatizada, disse o homem, acho que depois de um tempo ela volta ao normal.

Mas Lola nunca voltou ao normal. Havia mudado muito, estava irreconhecível. Seus intrigados donos notaram que, assim que ela entrou em casa, os outros dois cãezinhos, Luke e Luna, da mesma raça, encolheram-se amedrontados e, rabinho entre as pernas, afastaram-se dela. Nunca mais ousaram chegar perto de Lola. Quando ela entrava em algum cômodo da casa, eles, cabisbaixos, submissos, saíam imediatamente. Ela apenas os observava, ameaçadora, superior. Dominava-os apenas com o olhar. Com o olhar, não; com sua mera presença. Os outros dois, então, procuravam abrigo em algum canto da casa, debaixo da cama, ou no colo de seus donos, onde se aninhavam, olhinhos esbugalhados de terror.

Além disso, nunca mais foi possível dar-lhe um banho ou tosar-lhe os emaranhados pelos, tampouco cortar-lhe as unhas, ou melhor, as garras. Nenhum tratador, de nenhum pet-shop das redondezas, conseguiu realizar a proeza. Lola os atacava violentamente, dentes à mostra, subjugava-os à custa de fortes mordidas e arranhaduras. Sua fama percorreu os estabelecimentos do ramo, e em pouco tempo ninguém mais se arriscava a tentar dominar a pequenina fera resgatada da selva.

Às vezes, no meio da noite, ele acordava e dava falta de Lola. Procurava em vão por toda a casa e não a encontrava. Ela fugia, sabe Deus como, e para onde, e retornava ao raiar do sol, ainda mais desgrenhada, às vezes mancando, ou coberta de arranhões, sangrando. Voltava, então, para a cama, para perto de Letícia, e lambia, cuidadosamente, calmamente, suas feridas. Com quem, e por que, teria lutado?

Seus donos observavam tudo isso e ficavam preocupados. Pensaram até em se livrar dela, com medo de que ela pudesse atacar e ferir alguém, a empregada, o carteiro, as crianças da vizinhança. Mas não tinham coragem. Não poderiam abandoná-la. Não de novo.
 
Enquanto ela dormia aos pés de Letícia (esse foi o único hábito que Lola retomou, após sua volta do mundo selvagem), eles a olhavam, contemplando as várias cicatrizes que agora ela ostentava pelo corpo, imaginando o que poderia ter acontecido com a meiga cadelinha no tempo em que esteve perdida, que pudesse ter gerado tamanha transformação. Que perigos, que dificuldades, que sofrimentos a pobre Lola teria enfrentado, para embrutecer daquela maneira! Perdida nas entranhas daquela mata, precisou aprender a sobreviver sozinha, a lutar pelo alimento diário, a lutar para não ser ela mesma o alimento de outro animal, maior e mais selvagem. Deve ter passado fome, frio, deve ter sofrido de saudades do carinho de seus donos e do aconchego do seu lar... Pobre Lolita!

Muitas vezes Letícia chorava, olhando para Lola e pensando na fera selvagem em que havia se transformado sua cadelinha favorita. Até que um dia, Lola, vendo sua dona chorar, aproximou-se dela, aninhou-se em seu colo, lambendo as mãos de sua dona demoradamente, e adormeceu. Letícia acariciou-lhe os pelos amarfanhados. Era como se Lola estivesse pedindo desculpas pelo monstrinho em que havia se transformado, quase como se estivesse prometendo mudar.

Mas ela não mudou. Continuou arredia, continuou refratária aos carinhos dos donos, fugindo à noite, lutando contra adversários desconhecidos, voltando para casa coberta de ferimentos, amedrontando os outros animais da casa.

Com o passar do tempo, o jovem casal acostumou-se aos novos modos de Lola, e, de toda essa história, concluíram, resignados: quando somos confrontados com a necessidade, cai nossa máscara social, e aflora nossa verdadeira natureza. No fundo, no fundo, somos todos selvagens...
paulo marreco
Enviado por paulo marreco em 20/11/2012
Código do texto: T3995236
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
paulo marreco
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