DISSECADO VIVO- PARTE 2

Dissecado Vivo - Parte 2

Jorge Linhaça

Desperto com um novo acender de luzes sobre meus olhos ainda presos por aquela espécie de ganchos. A dor é medonha durante alguns segundos. Nada mudou em minha situação, ainda permaneço sem poder me mover, sei lá se por alguma droga colocada no soro, ou se por algum procedimento cirúrgico. A verdade é o que horror está presente em cada instante de consciência.

Finalmente consigo começar a vislumbrar o tal espelho maldito que me obriga a presenciar meu corpo sendo retalhado pelo meu nefasto anfitrião. Posso ver os ossos das minhas pernas, tíbias e perônios expostos em meio a uma massa de pele e carne disformes, aquilo que restou da extração de meus músculos.

Ouço os passos arrastados de meu algoz, aproxima-se de mim trazendo um vidro onde estão depositadas minhas partes, não há como fechar os olhos, não há como fugir das imagens que se fixam em minha mente... Deposita o tal frasco em uma prateleira ali próxima, volta com o bisturi em riste, aproxima seus olhos dos meus e vejo os sinais da loucura estampados nele, aquele olhar psicótico é o final de todas as minhas esperanças, é como um túnel que me conduz aos labirintos do inferno, onde almas penadas aguardam pela minha chegada.

O bisturi desliza pelo meu peito sem feri-lo, percorrendo meu corpo em direção ao ventre, para ali por alguns segundos, como as unhas de uma mante que busca minha virilidade mais abaixo.

O carrasco agarra meu pênis, ergue-o, fá-lo repousar voltado para cima e num corte preciso de seu bisturi maldito abre o meu saco escrota, expondo meus testículos. Minha alma gela dentro de mim, e sinto a expectativa mórbida de ser alijado de minha virilidade, de minha masculinidade. Imerso em uma dor psicológica intensa, sou obrigado a ver aquele maldito emissário das trevas retirar os meus testículos calma e demoradamente, num ritual de sadismo que só tem por fim fazer-me imergir nas raias do mais profundo desespero.

O pouco sangue escorre pela maca, mas é como se por ela escorresse minha própria alma, meus sonhos de ter uma vida, de desfrutar do prazer do corpo de uma mulher em sua plenitude, de poder um dia ter meus filhos... Não eram apenas meus testículos que ele arrancava de mim, era a minha capacidade de perpetuar a espécie.

Deposita as minhas partes em um novo frasco, este menor que o primeiro, onde ficam flutuando em um liquido qualquer e o aproxima de meus olhos , fazendo-os girar no frasco , como se fossem azeitonas em conserva. Cauteriza meu corpo, limpa a incisão e a sutura a bolsa sem necessidade alguma, apenas para me fazer sentir um asco ainda maior, ou para dar-me a falsa esperança e/ou impressão de que nada me falte.

Volta a olhar-me profundamente nos olhos, com aquele olhar infernal, maldito, e um som horrendo, um arremedo de gargalhada, brota das profundezas de sua garganta.

Suas mãos se aproximam de meus olhos e retira os tais instrumentos que os mantinham abertos, não por compaixão, mas, pela simples preocupação de evitar a minha cegueira precoce. De qualquer maneira é quase que um alívio poder não olhar aquele espelho maldito.

Ainda assim todas as imagens estão indelevelmente gravadas nos recônditos de minha mente, ou daquilo que ainda possa receber nome semelhante, pois, assim como meu corpo ela também se dilacera a cada incursão do destruidor de meu corpo e alma.

As trevas dos olhos cerrados já não são mais trevas, são como um cinema onde desfilam incansavelmente as cenas de minha própria mutilação que tenho sido obrigado a presenciar pelo espelho, aquele espelho que, qual uma janela para o inferno se escancara diante de meus olhos e revela-me a crueldade da alma humana.

Finalmente adormeço em meio ao meu pesadelo real...

Continua.