A PASSAGEM (UM ENCONTRO COM O ANJO DA MORTE)

A PASSAGEM (UM ENCONTRO COM O ANJO DA MORTE)

Algumas vivências, tanto de pacientes, quanto de pessoas de minha família, amigos, etc, maravilham-me, ao me fazer constatar o quão rico e, ao mesmo tempo, o quão ainda desconhecido é esse vasto continente obscuro que Freud percebeu e chamou o inconsciente. Entra ano, sai ano, teorias e contrateorias, mais coisas descobrimos a respeito dele. Simultaneamente, mais espaços no inconsciente temos ainda a explorar, mais fronteiras a desvendar...

A forma preferencial de comunicação de que o inconsciente se utiliza para se comunicar conosco, ou se expressar para o consciente, é o sonho. Raras vezes as pessoas se dão conta de quanto a expressão “foi apenas um sonho” é incompleta e injusta, o quanto estão desperdiçando com essa concepção do inconsciente e seus corolários. Os sonhos não são irreais, como costumamos pensar. Eles são outra realidade, habitantes e expressão de um outro universo que trazemos em nós mesmos. Por isto podem às vezes parecer estranhos, doidos, sem sentido. Eles falam um outro “idioma”, uma outra “língua”, que temos de aprender a conhecer. Porque eles falam conosco.

Gostaria de dar um exemplo da riqueza do inconsciente, e do instrumental poderoso que representam os sonhos, que permite que essa sabedoria interior possa ser partilhada. Embora tenha exemplos muito ricos, colhidos junto a meus pacientes nas muitas sessões de psicoterapia que tenho realizado, ao longo de tantos anos, acredito que uma história, que ouvi de minha esposa, no meio da noite, possa ilustrar muito bem o que proponho aqui.

Ela me acordou angustiada, por causa de um sonho que acabara de ter. Estava muito assustada, de modo que providenciei um copo d’água, para tranquilizá-la, enquanto lhe pedia que se acalmasse, e que me falasse sobre o conteúdo do sonho. Ela bebeu alguns goles, sorriu-me um sorriso nervoso, e esvaziou o copo. Procedeu a algumas respirações profundas e riu novamente. Agora com mais calma. E passou-me a narrar a sua aventura onírica.

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Eu caminhava pelos corredores do Pronto Socorro de Alcântara , num plantão noturno de sábado. Vi você, com outros colegas, atendendo uma emergência, um acidentado do trânsito, que acabara de chegar, trazido pelo Corpo de Bombeiros. Aproximei-me e tentei falar com você. Mas você não me ouviu! Nem você, nem os colegas que trabalhavam junto naquela emergência! Não me viam, nem me ouviam! Insisti em chamá-los, já aflita, mas ninguém dava atenção a meus apelos. Era como se eu simplesmente não estivesse ali.

Já estava ficando desesperada com a situação, sem saber o que fazer, quando aproximou-se uma enfermeira (vestia um uniforme branco do serviço de enfermagem). Aparentava ter uns 50 e poucos anos, estatura mediana, mulata, cabelos pretos, os olhos também escuros e tranquilos. Ela toda parecia serena e amigável, mas talvez fosse nova no plantão, porque eu não a conhecia, nunca a havia visto. Aproximou-se de mim, e com um sorriso apaziguador, falou-me:

— Não adianta, minha filha, eles não conseguem lhe ouvir, nem lhe ver, e por mais que você tente, não conseguirá que a vejam ou a escutem. Qualquer tentativa de comunicação será em vão... Tenha paciência e resignação...

—Mas eu os vejo e os ouço — argumentei — como eles não me veem?

Minha interlocutora apenas continuou sorrindo para mim, olhando-me com candura, sem nada dizer. Foi aí que notei que ela era diferente das outras pessoas. Parecia mais leve, mais sutil. Quase luminosa. Eu mesma me sentia diferente. Olhei instintivamente para minhas mãos, e percebi que eu também tinha uma discreta qualidade luminosa. Voltei a olhar para ela, aflita:

— Eu por acaso morri? — indaguei, assustada.

— Sim — respondeu-me o mais brandamente que pôde — É como você disse. Você está morta...

Aquilo foi um choque para mim. Como “morta”? Eu não sofri nenhum acidente, não estava passando por nenhuma doença. Trabalhava normalmente no plantão... será que naquele atendimento domiciliar no Jardim Catarina, em que houve tiroteios entre facções rivais de traficantes, eu....? Teria acontecido algo comigo? Como é possível que eu tenha morrido ? Ao entender tudo, uma tristeza infinita tomou conta do meu ser. Se realmente estivesse morta, isto significava que eu não veria mais o meu marido ! Ele nem sabe ainda o que me aconteceu... Como reagirá? E os meus irmãos, meu sobrinhos! Meu Deus! O que será de mim? Minha desconhecida amiga pareceu adivinhar meus pensamentos...

— Não fique triste minha filha. Estou aqui exatamente para lhe ajudar a enfrentar esse momento difícil. Fique calma e verá que no fim tudo dará certo.

— Então você é uma espécie de Anjo? — perguntei. — E se eu morri, isto significa que eu posso ir ao encontro da minha mãe e de meu pai , irmã e avós?

— Não , minha filha... Não poderá encontrar os seus entes queridos. Ao menos por enquanto. Eles estão em outro lugar, um outro plano espiritual , como se você estivesse aqui, nesta cidade, e eles bem longe, em outro país, compreende?

— E você é um tipo de anjo?

Ela apenas sorriu e disse:

— Agora venha, minha filha, acalme-se e venha...

Percebi então que você e os colegas do plantão iam se distanciando, desaparecendo, como se uma névoa fosse tomando conta do local. Um outro caminho se abria à minha frente, uma luz muito forte ia dominando o ambiente, e uma grande paz tomou conta do meu ser. Aquele caminho que aos poucos se abria transformou-se paulatinamente num túnel de luz, e senti uma discreta euforia que, no entanto, não afetava aquele sentimento de paz que me tocara antes. Minha nova amiga transfigurou-se de enfermeira no ser celestial que eu adivinhara que ela era, com seu corpo tecendo-se em luz, glorificado...Tomou-me por uma das mãos e conduziu-me àquele túnel luminoso, que se definia cada vez mais, diante de meus olhos... e então eu acordei!

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Ao final de seu relato, eu também estava muito impressionado com aquela experiência. Digo experiência porque, por mais que tudo fosse apenas um sonho, ela vivenciou tudo aquilo, como se estivesse acontecendo mesmo com ela. E num certo sentido... estava! Então, em última análise, foi efetivamente uma experiência. Mas não quis “interpretar” aquilo tudo, nem levá-la fazê-lo... Eu sou o marido dela, não o seu psicoterapeuta! No entanto, comentei sobre as chamadas experiências de quase morte, que têm acontecido em toda parte, detectadas pelas condições que a medicina tem hoje, no sentido de ressuscitar pacientes em processos próximos à morte. Muitas pessoas (não todas) têm narrado experiências semelhantes àquela que ela havia vivido em sonho. Talvez isto já acontecesse antes, com outras pessoas, em outras épocas, mas a tecnologia de então era insuficiente para trazer os pacientes de volta à vida, e eles se iam, sem poder ser salvos e retornar para contar o que haviam vivido, e acabavam por morrer realmente. Há uma farta literatura sobre as EQMs atualmente, e nem todos os médicos concordam que sejam experiências reais. Muitos acreditam que se trata de processos alucinatórios que sobrevêm nos momentos extremos à beira da morte.

— Tenho de pensar sobre isto — resumiu ela — Mas agora eu quero dormir...

— Passou o medo? — perguntei — Já não está mais assustada?

Ela me deu um beijinho:

— Não, meu amor, nada de medo. Aquela paz toda que me veio no sonho está voltando agora, e me fazendo relaxar. Vou aproveitar para dormir outra vez...

Olhei-a longamente, e talvez tenha feito alguma cara engraçada, arregalado os olhos, não sei. Ela sorriu e me tranquilizou também:

— Não tenha medo, querido, é apenas uma noite de sono. Eu sei que vai chegar a minha vez e aceito isto agora com serenidade — disse, sorrindo e piscando o olho — mas algo me diz que ainda não é desta vez.

Virou-se para o canto, puxou as cobertas e caiu imediatamente num sono profundo e sereno.

Fiquei uns instantes ainda acordado. Pensei o quanto nossa cultura não sabe lidar com a morte. Nunca dizemos “hoje é um bom dia para se morrer”, como dizem os sioux oglala, índios da América do Norte. Nem preparamo-nos para a morte, como fazem os tibetanos a partir da meia idade, quando, aparentemente, ainda falta muito para morrer. Em nossa cultura, não aceitamos a morte, agimos diariamente como se ela não existisse para nós. Para a minha esposa, naquela noite, o inconsciente a colocou frente a frente com a ideia da própria morte. Talvez tenha sido um presente dos reinos interiores da mente, para que ela pudesse aceitar a sua morte, que, como para todos nós, certamente virá um dia. Talvez uma experiência destas não queira absolutamente dizer que a morte está próxima para aquele que sonha. Mas que a vida pode ser muito mais rica e ampla – independentemente de sua duração – para aquele, ou aquela que olhou a sua própria morte de frente e a aceitou.

O sono finalmente chegou outra vez. Virei-me para o outro canto e deixei-me adormecer num sono sem sonhos. De alguma forma, eu também estava mais tranquilo agora.