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MEU SURFISTA MISTERIOSO (Cap. 2)

À tarde o seminário transcorreu motivador e interessante. Embora Joana não fosse falar ao público, sua presença foi citada diversas vezes. No final, perto das 19 horas, todos foram convidados para um jantar de confraternização.
No quarto, empolgada, Simone se perguntava qual roupa vestiria logo mais. Sentada na cama, Joana dava seus palpites. Pegando um vestido preto, Simoneperguntou, curiosa:
— Viu o bonitão que não tirava os olhos de cima de você?
Joana ficou surpresa. Não havia reparado em nada.
— Quem? Não vi nada.
— Mas eu vi. Sou ótima observadora. O nome dele é Pedro e é de São Paulo. Desculpe, eu sei que você é casada.
— Não sou casada — confessou Joana pouco à vontade. — Também não estou interessada em me prender a nenhum cara.
— Bem, mas o tal vale a pena. Depois eu mostro a você quem é, caso não se importe.
— Tudo bem — Joana sacudiu os ombros. — Desde que você não nos apresente.
— Tenho certeza que ele irá se apresentar a você.
Mais tarde, com os trajes devidamente escolhidos, as duas colegas se dirigiram ao bonito salão do hotel, onde aconteceria o jantar. Joana optou por usar um vestido claro que salientou sua pele morena e os cabelos loiros. Realmente não foi preciso Simone lhe apresentar Pedro. Quando Joana foi até o buffet de sobremesas, escutou uma voz atrás de si.
— Olá, boa noite.
Ela se voltou devagar, antevendo quem era. Deparou-se com um homem jovem, aparentando uns 33 anos. Ele lhe sorria, de forma sedutora. Sim, era bonitão, mas Joana não gostou do jeito que ele a olhava.
— Pois não?
— Meu nome é Pedro. Também sou um dos participantes do seminário.
— Ah, boa noite — Joana tentou sorrir amigavelmente. — Eu sou…
— Joana Villar. Nós todos sabemos quem você é.
Joana ficou surpresa. Serviu-se de uma das sobremesas, procurando não exagerar em nome da boa forma. Percebeu que ao longe Simone a observava com atenção.
— Não sabia que eu era tão famosa assim — retrucou Joana sem graça.
Pedro riu, colocando pudim de leite em um pratinho. Comentou:
— Você já deve saber que estamos muito ansiosos por sua palestra.
—Você faz as coisas parecerem maiores.
“Cara chato”. Joana pretendia pedir licença e se afastar, nem que fosse para ir direto ao quarto.
— Vamos até o terraço?
— Terraço?
— Sim, há uma vista maravilhosa para o mar. O que acha?
Joana não queria ir a terraço nenhum, mas tampouco queria ser indelicada. Decidiu aceitar o convite de Pedro e dez minutos depois inventar uma enorme dor de cabeça. Os olhares das demais pessoas seguiram o casal por todo o salão, deixando Joana com o rosto ardendo de vergonha. Quando chegou ao local e sentiu a brisa do mar, chegou a respirar fundo. Era só o que faltava virar comentários dos seus colegas.
Pedro se escorou na amurada do terraço. Alguns casais estavam por ali também, usufruindo da beleza da noite. Todos, com exceção de Pedro e Joana, viviam um clima de maior intimidade. Talvez fosse por isto que ele a trouxera ali. Ainda segurando sua sobremesa, Joana deu a primeira garfada na torta que pegara. Se sentia apreensiva e não foi capaz de saborear o doce.
— Você provou o pudim? Está dos deuses.
— Eu… Não. Não quero exagerar demais com o açúcar.
— Por quê? — ele se mostrou interessado. — Você tem algum problema de saúde?
— Só estou tentando manter meu peso. Na verdade, emagrecer um pouco.
— Não faça isto.
— Isto o quê?
— Você não precisa perder peso. Está ótima assim — Pedro a olhou de alto a abaixo, causando aversão em Joana.
— Muito obrigada — respondeu ela comendo mais um pedaço da torta. Bem que Simone podia aparecer ali para lhe salvar.
— Quer dar uma volta na praia?
— Agora?
— Sim. Qual o problema?
— Todos. Não conheço você.
Entre os dois formou-se um silêncio desconfortável. Pedro colocou o pudim sobre a amurada e declarou:
— Não precisa ficar com medo de mim. Somos colegas, lembra? E admiro muito você.
Joana continuou muda. Desviou os olhos dele. A areia da praia estava vazia, porém um pouco mais para a direita ela pôde enxergar um vulto. Havia alguém sentado sozinho na areia, muito próximo do mar. Quem seria?
O celular dele tocou naquele instante. Pedro olhou o visor e depois encarou Joana.
— É uma ligação urgente. Espere-me, volto já.
Aliviada, Joana observou Pedro entrar novamente no resort. Era sua chance de escapar. Colocou o pires com a torta em uma mesa e,rápida, desceu as escadas que levavam à praia. Pretendia fazer a volta no resort e entrar pelo outro lado. Talvez assim conseguisse evitar Pedro. Porém, mal pôs os pés na areia, Joana sentiu uma vontade de caminhar um pouco pela beira da praia. Precisava arejar. Pedro realmente era um cara chato e inconveniente. Bendito celular! Talvez fosse até mesmo a esposa dele quem estivesse ligando.
Joana andou alguns passos olhando para o céu estrelado. Uma paz enorme tomou conta do seu coração. Fazia tempo que não se sentia assim. Nos últimos meses seu peito parecia pesado demais. Não se lembrava da última vez que respirara livremente. Quando olhou novamente para frente, percebeu que estava muito próxima da pessoa que flagrara lá do terraço. Joana diminuiu os passos. Um homem jovem, de aproximadamente 25 anos estava sentado na areia, com os olhos fixos no horizonte. Uma prancha jazia ao lado dele. Uma nuvem saiu de frenteda lua e de repente a areia se iluminou. Joana pôde observar melhor o rapaz. Ele era loiro, talvez fosse alto, seu perfil era muito bonito. A concentração dele era tão grande que Joana ficou receosa de se aproximar.
— Olá.
Tímida. Era assim que Joana se sentia. Em pé, há poucos centímetros do rapaz, ela esperava ansiosamente por uma atenção dele, por menor que fosse.
— Desculpe, não quero atrapalhar você.
Ela já estava praticamente batendo em retirada, com o rosto outra vez vermelho de vergonha, quando escutou a sua voz.
— Não está me atrapalhando.
O rapaz a olhou ligeiramente e outra vez voltou seus olhos para o mar. Vencendo o constrangimento, Joana se aproximou dele e sentou ao seu lado na areia.
— Meu nome é Joana — apresentou-se, tentando mostrar sua simpatia. — Sou uma das palestrantes do seminário que está rolando aqui no resort. Bem, você deve estar sabendo.
— Sim.
Um homem de poucas palavras, Joana disse para si mesma. Não queria desanimar enquanto olhava encantada para aquele perfil perfeito.
— Você mora aqui?
— Moro.
— Humm... Você tem sorte de morar aqui, sabe? Eu moro no sul. E lá faz muito frio. Mas eu prefiro o calor. Sempre.
Quando ficava nervosa, Joana falava rápido demais. Era o que acontecia naquele momento. E falava besteira também. O que interessaria a ele se em Porto Alegre fazia frio? Ou a sua preferência pelo calor? Grande merda, era o que o cara podia estar pensando.
— Você é surfista?
Desta vez ele virou a cabeça para ela. Joana segurou o fôlego. Que rapaz bonito! Os olhos eram claros, mas a escuridão da noite não permitiam que ela conseguisse distinguir qual era a cor exata. Ele vestia a roupa tradicional dos surfistas. Um vento soprou e balançou o cabelo de ambos.
— Sou.
Pareceu a Joana que ele deu um meio sorriso e de repente sua vida se tornou mais leve.
— Você vai surfar agora à noite?  — Joana sentia uma vontade urgente de tocá-lo.
— Eu posso surfar a qualquer hora — o sorriso dele era encantador.
— Ah… Que legal. Legal mesmo.
Quando Joana ía falar outra coisa, o rapaz subitamente falou:
— Aquele cara que estava com você...
— O que tem ele? — Joana se surpreendeu. Como ele sabia que estivera com Pedro? Ora, talvez estivesse a observando também. Isto era demais!
— Está no terraço procurando você — ele olhou de soslaio para trás. Um vento mais forte começou a soprar. — Ele já lhe viu — e encarando Joana direto nos seus olhos, prosseguiu — Saia por este lado. Dê a volta pelo resort e procure o salão azul. De lá você sairá perto das escadas e dos elevadores. É mais fácil escapar por ali.
Joana se levantou rapidamente. Gostaria que o garoto fizesse o mesmo, porém ele permaneceu sentado olhando para o mar, como antes de ser interrompido.
— Encontrarei você aqui amanhã?
Não houve tempo para uma resposta. Joana viu quando Pedro começou a descer apressado as escadas que davam na areia e deu meia volta. Antes de desaparecer na escuridão, ela ainda gritou:
— Eu vejo você aqui amanhã!
 
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 24/07/2015
Código do texto: T5322395
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48888 leituras)
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Patrícia da Fonseca