O momento era de temor e medo. Estava em voo internacional viajando em uma aeronave sem piloto.  Vannini afastou a mexa de cabelo que lhe cobria os olhos e tocou nalguma coisa áspera, como um diadema. Esquecera-se de retirar os fones de ouvido. Insistiu na tentativa de contato, mas a torre não respondeu. Mayday... temos ricos de acidente...
Que diria? O Piloto sumiu!... Não. Diria a verdade: O piloto morreu. O copiloto também...
O  botão indicador de altitude estava desligado. Vannini acionou o side-stick com a intenção de arremeter a aeronave, mas o equipamento não respondeu. O copiloto caído, tinha sangue nas mãos e um cinto preso ao pescoço. E o piloto, um corte transversal na barriga. 
— É impossível arremeter. Tente a aterrissagem — disse Fernão.
— Assuma o comando!
— Não posso.
— Ainda não recebeste o brevê?
— Não.
— Assuma o comando, salve nossas almas.
— Não quero ser condenado depois de morto.
— Ordeno que assumas o comando, Fernão!
— A viúva não velará o corpo do marido, pois quem sobreviver ao impacto com as águas será sepultado vivo no mar.
— Vá para o inferno!...
— Nunca mande alguém para a sombra da morte, porque serás a sombra que o acompanha.
 Flap.
A cauda toca a superfície das águas. Fernão traçou uma cruz em sua boca, como se dissesse: Fecha-te. Há muito  mais na vida do que comer, beber e acumular divisas, brasões e estrelas nos ombros; há muito mais do que ser um líder, um formador de opiniões. Há mais beleza na imagem projetada pela sombra de duas asas descendo na pista do que todo encanto das sete maravilhas do mundo.
Feliz aterragem, Fernão!
 A voz de Bach, encheu  de coragem a alma de Fernão Capelo. Ele sabia que a uma velocidade superior a mil quilômetros por hora,  o impacto com a água,  seria fatal.   Sacou a porta de emergência e tentou ficar em pé sobre a asa do avião. Desceria com calma, deixaria o corpo escorregar na horizontal e depois, se a sorte conspirasse em seu favor, qualquer ilha que alcançasse, seria  sua nova morada. Sem o brevê, sem incorporar-se à Esquadrilha da Fumaça, não poderia fazer um loop diante do olhar atônito de Vannini, senão naquela hora. Deu ordens à sua mente: Fernão, você é uma folha. Estendeu os braços como se quisesse abraçar o mundo, abraçar tudo que antes desprezava. Todo seu ser  pareceu leve.  Deixou o corpo cair, e rolar tocado pelo vento. Flutuava,  sem nenhum controle ou direção por ele definida. Não sabe dizer quanto  tempo durou a ‘viagem’. Nem mesmo sabia se estava vivo, ou morto, se sonhava ou estava acordado. A água quebrava suas carnes, ardendo como choque contra uma parede rochosa.
***

Adalberto Lima, últimos capítulos de Estrela que o vento soprou.