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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 4

Uma vez por mês Dona Iara reunia as amigas para um chá animado. Ela abria a casa e oferecia quitutes doces e salgados. Estas reuniões já eram famosas, mas para Clarissa era a primeira vez. Ela ajudou a avó a preparar as gostosuras e, quando já estavam todas as senhoras reunidas, Mariana chegou.

Clarissa passou a observar seus movimentos, não tão discreta como deveria. Apesar de toda a descontração presente, Mariana sentava ereta, agarrada à bolsa, só falando alguma coisa quando era perguntada. Os cabelos estavam presos em um coque horroroso conforme a opinião de Clarissa, deixando-a com aparência de mulher mais velha. Quem teria sido o homem que partira o coração de Mariana para deixá-la tão retraída? Que coisa, disse a moça para si mesma enquanto bebericava o chá. Naquele momento o olhar de ambas se encontrara e Clarissa ficou tão constrangida em ser pega no flagra que engoliu o chá direto, queimando a garganta. Ela tossiu, quase engasgada e Mariana lançou mais um dos seus sorrisinhos tímidos, parecendo querer falar alguma coisa. Clarissa pegou um pedaço de bolo e tentou disfarçar, olhando para outro lado.

As duas só foram ficar frente a frente na hora das despedidas quando Mariana resolveu quebrar o gelo e perguntar:

– Não soube mais do moço bonito?

Clarissa não teve coragem de dizer que da última vez que o vira aterrissara sobre vários sacos de lixo. Era melhor não falar sobre aquilo, ainda mais que Mariana presenciara o vexame.

– Nunca mais – mentiu Clarissa tentando não ficar vermelha. – Acho que foi tudo uma miragem minha.

Mariana riu de forma contida.

– Quando menos esperar quem sabe você topa com ele em alguma esquina?

A jovem torceu para que Mariana fosse uma espécie de vidente.

– Espero que você esteja certa e que isto não aconteça quando eu estiver para ir embora.

Em voz baixa, Mariana disse quase para si mesma:

– Espero que você tenha mais sorte do que eu tive.
– Hein?

Mariana se calou subitamente e caminhou apressada para porta. Clarissa ficou parada no mesmo lugar, olhando para aquela figura misteriosa que era amiga da sua avó. Seria tão interessante se tivesse a oportunidade de entrar escondida na casa dela e tentar desvendar os seus segredos... Talvez Mariana fosse uma bruxa e ninguém soubesse. Com suas roupas escuras, dava bem para desconfiar que Mariana mexesse com ciências ocultas.

Clarissa se arrepiou todinha.

                                                     *

O dia estava particularmente tedioso. Clarissa havia saído de bicicleta pela manhã, mas não encontrara ninguém. Estava bem desconfiada que Dani já nem estivesse mais na cidade. Será que sua procura havia sido inútil todo aquele tempo? Para piorar, tivera um sonho romântico com ele e nem isto deu certo. Acordou justo na hora do beijo com a avó fazendo barulho com as panelas na cozinha.

Por volta das cinco horas da tarde Dona Iara pediu que ela fosse até o armazém comprar mais farinha para preparar os doces. Clarissa deu graças a Deus. Assim poderia dar uma voltinha, ainda que o dia estivesse feio, ameaçando chuva. Com o dinheiro dentro do bolso da calça jeans, ela se dirigiu sem muita pressa até o estabelecimento do seu Joca. Não era muito longe da casa da avó.

Clarissa comprou o que pretendia e saiu de lá comendo um picolé de chocolate. Vinha distraidamente saboreando o picolé quando viu, na calçada contrária, Dani caminhando calmamente. Era ele, sem dúvida nenhuma. E mais bonito que nunca.

Ele vestia a mesma roupa e desta vez Clarissa pôde observar melhor os traços do seu rosto, ainda que estivesse do outro lado da rua. Era uma pena que não estivesse com o celular para tirar uma foto e mostrá-lo para sua avó. Com certeza, Dona Iara também iria se apaixonar por ele.
O rapaz seguia na direção contrária e não reparou Clarissa parada, sem ação, a encará-lo fixamente. O picolé desabou no chão, quase aos pés dela. Por alguns instantes, Clarissa não soube o que fazer. A avó esperava a farinha. Dani já estava tirando uma boa distância dela. A chuva ameaçava cair e nem de bicicleta ela estava. E agora? O que fazer?

Clarissa deu meia volta e foi atrás dele. A coragem para falar com Dani sumira por completo, mas pelo menos tentaria ver para onde ele iria. Com sorte, descobriria onde o rapaz morava ou pelo menos o hotel que se hospedava. As pernas tremiam quando teve que apressar o passo para não o perder. Somente esperava que Dani não se afastasse tanto da casa da avó Iara.

Por mais que tentasse ser rápida, era muito difícil acompanhar os passos de Dani. Quando ele dobrou a primeira esquina, Clarissa o perdeu de vista completamente. Foi preciso que a garota corresse para alcançá-lo. Não podia deixar que ele se distanciasse de vez. Algo lhe dizia que não teria outra chance como aquela.

A corrida deu resultado. Ele estava um pouco longe, é verdade, mas ao alcance da sua visão. Seu objetivo era saber onde Dani iria entrar. Clarissa tinha a impressão que a qualquer momento Dani sumiria, pois ele caminhava muito depressa. Tinha alguma noção que estava se afastando demais de casa e somente esperava que soubesse fazer o caminho de volta. Coitada da avó. Ela já deveria estar bem preocupada com a sua demora.

“Desculpe, vó”, pediu a jovem, mentalmente, tentando diminuir a culpa que sentia. Clarissa se sentia ofegante, mas não pensou por nenhuma vez em desistir. A perseguição durou em torno de vinte minutos. De repente, Clarissa se viu em um bairro mais afastado, arborizado e tranquilo. Dani caminhou até o fim da rua e, de repente, olhou para trás.
Clarissa diminuiu os passos, segurando com força o pacote de farinha. Dani havia parado frente a algum lugar e havia voltado a cabeça na sua direção. A garota não tinha certeza, mas a impressão era que o rapaz olhava diretamente para ela.

– Ai, meu Deus... – gemeu, as pernas fracas. – E se ele voltar? O que eu vou dizer?

Dani ficou mais alguns instantes olhando para o lado de Clarissa. Depois, lentamente, o rapaz entrou em algum lugar que ela não soube precisar o que era. Uma casa?

Por uns cinco minutos, Clarissa ficou parada, tentando se recuperar. A emoção era grande. Consultou o relógio. Já fazia mais de quarenta minutos que saíra de casa. O correto era dar meia volta e retornar. Mas ela sabia que não faria aquilo. Estava perto demais de descobrir onde Dani morava. Bastava caminhar mais um pouquinho e desvendar de vez aquele mistério. E no outro dia, quando estivesse mais calma e com mais tempo, pegaria a bicicleta e voltaria naquele bairro. Estava fora de cogitação de sair daquele lugar sem saber onde Dani tinha entrado.
As pernas ainda estavam moles quando Clarissa tomou a direção que Dani havia seguido. Cada passo dado, o coração acelerava mais. Era uma emoção esquisita, aliada a um friozinho na barriga. Clarissa não sabia o que fazer se ele estivesse na frente da casa. Talvez Dani estivesse lhe esperando.

– Acho que não vou suportar... – disse Clarissa para si mesma rindo de nervosa.

À medida que prosseguia, a bonita rua ficava mais arborizada. As casas possuíam lindos e grandes jardins na frente. Não havia muitas pessoas por ali. Nenhum carro passava. Era tudo calmo demais.

Depois de passados cinco minutos, Clarissa chegou a uma casa com um muro feito de pedras grossas. Na verdade, a casa não era vista da rua. Um caminho de pedras serpenteava terreno acima e desaparecia entre as árvores lá em cima. Tinha quase certeza que havia sido ali que Dani havia entrado. Havia uma placa de madeira entalhada, um tanto malcuidada, pregada em uma árvore à vista de quem passava.

– Hospedaria Castelo de Pedra – leu Clarissa, lentamente. – Hospedaria?
Um relâmpago riscou o céu e Clarissa deu um pulo. Nuvens grossas de chuva pairavam sobre o céu e a moça soltou um pequeno grito. Foi quando realmente sentiu medo. Estava em um bairro estranho, praticamente deserto e longe de casa. Fora atrás de um cara com quem que nunca trocara uma palavra na vida e não sabia sequer se ele era do bem ou do mal. Além disso, uma chuvarada iria cair a qualquer momento e Clarissa morria de medo de temporais. Era melhor voltar de uma vez.

O temporal caiu quando ela estava a cinco minutos de casa. Dona Iara a esperava no portão, protegida por uma sombrinha. Quando viu a neta toda molhada correndo debaixo da chuva, deixou escapar um suspiro de alívio.

– Por onde você andou, menina? – Dona Iara a puxou para dentro de casa.

Clarissa entregou o pacote de farinha, bem embrulhado em uma sacola plástica. Pelo menos aquilo estava seco.

– Fui dar uma volta. Mas acho que estiquei demais o caminho.

Dona Iara pegou a farinha e colocou sobre a mesa. Depois se voltou para a neta com as mãos na cintura.

– Foi só isto mesmo? Não foi se encontrar com ninguém?
– Não, vó! – ela negou imediatamente. Precisava convencer Dona Iara. – Estava tudo tão monótono que decidi aumentar a volta. Mas acho que exagerei...
– Nunca mais faça isto sem me avisar. Fiquei muito preocupada. E ainda havia o temporal que estava por cair.
– Desculpe. Não tive a intenção. Perdi a noção do tempo. Pelo menos a farinha voltou seca.
– Vá se secar de uma vez antes que pegue uma gripe que estrague suas férias.

Quando mais tarde Clarissa se deitou na cama para dormir, o sono não veio logo. A angústia havia sido sua companhia desde que descobrira que Dani havia entrado em uma hospedaria. Ora, então ele estava somente de passagem pela cidade. Isto era ruim demais. A qualquer momento Dani poderia partir e então Clarissa nunca mais o veria.

Precisava fazer alguma coisa urgente.

Precisava voltar mais uma vez àquele lugar.


Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 21/03/2018
Código do texto: T6286171
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca