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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 11

As duas foram até a casa de Mariana no outro dia pela manhã. A ração estava na despensa e as tigelas dos gatinhos precisavam ser cheias. A casa era bem arrumada, embora algumas coisas estivessem fora do lugar. Dona Iara comentou enquanto juntava uma almofada do chão.

– Acho que Mariana saiu apressada de casa.

Na cozinha Clarissa limpava a louça do café. Um dos gatos começou a se esfregar na sua perna.

– Pschh, gatinho. Não posso brincar com você agora.

No primeiro piso da casa havia um banheiro, uma sala pequena e a cozinha. No andar de cima Clarissa ainda não tinha conseguido ir. A avó estava varrendo a casa e espanando o pó.

– Vó, eu posso ir lá em cima ver como estão as coisas – ofereceu-se ela enxugando os pratos. Era tudo o que Clarissa queria. Mariana deveria ter fotos guardadas, cartas, um diário. A garota desejava ardentemente descobrir alguma pista.
– Quando você terminar aí na cozinha dê uma subida. Se estiver muito bagunçado me avise para eu ir ajudá-la.
– Já terminei aqui – disse ela pendurando o pano de prato no varal e atravessando a sala com rapidez. – Vou ver se está tudo em ordem por lá.

Clarissa subiu, ansiosa, as escadas. A casa era simples, mas tudo era muito bem arrumadinho. A jovem deu falta de quadros na parede, dos famosos retratos onde as famílias apareciam inteiras. Quando chegou ao segundo piso descobriu uma escada estreita que levava ao que seria o sótão. O coração de Clarissa chegou a acelerar. Um sótão! Nos livros que havia lido era sempre neste lugar onde os maiores segredos eram escondidos. E descobertos. Bem, desvendaria o sótão em outra ocasião. Precisava saber o que havia no quarto de Mariana.

Ela abriu a porta vagarosamente. O quarto era em tons de verde, bem decorado. Havia um guarda-roupa de bom tamanho, penteadeira e uma cama de solteiro. Nada estava fora do lugar ali. Clarissa chegou até a janela que dava para os fundos da casa. No quintal tinha uma pequena horta que talvez necessitasse de cuidados mais frequentes. Antes que a avó subisse, Clarissa abriu o guarda-roupa.

As roupas sóbrias de Mariana estavam penduradas ali. Com pressa, Clarissa afastou as peças procurando por alguma coisa que nem ela sabia direito. Mexeu nas gavetas, cuidando para que nada saísse do lugar. Sentiu-se um pouco culpada por estar fazendo aquilo e pensou seriamente em desistir. Mas quando teria uma chance daquelas? Não tinha a menor ideia de quando Mariana iria voltar. Uma oportunidade daquele tipo não podia ser jogada fora. De repente as mãos de Clarissa tocaram em algo no fundo do guarda-roupa. Com cuidado, ela afastou as peças até que conseguiu distinguir uma caixa de sapatos. Clarissa deixou escapar um suspiro de surpresa.

Ela trouxe a caixa mais para frente. Estava pesada.

– Clarinha!

Clarissa se afobou. A avó subia as escadas.

– Já vou!

Segundos antes de Dona Iara entrar no quarto, Clarissa conseguiu ver que a caixa estava cheia de fotos antigas. Rápida, empurrou a caixa novamente para o fundo do guarda-roupa, colocou as roupas no lugar e fechou as portas. Dona Iara entrou naquele momento e estranhou a atitude da neta.

– Você está bisbilhotando as roupas da Mariana?
– Estou procurando um espelho. Não achei. Isto explica porque ela se veste daquele jeito.

Dona Iara encarou a neta sem saber se acreditava nas palavras dela.

– Tudo certo por aqui?
– Sim, vó.
– Certo, vamos descer. Enchi os potes dos gatos com bastante ração e água. Dá para eles se manterem até amanhã.
– Eu posso vir aqui, se você quiser.
– Sim, pode ser – Dona Iara deu uma última olhada no quarto antes de fecharem a porta. – Vamos embora. Está tudo em ordem agora.

*

O dia passou devagar para Clarissa. Mesmo tendo ajudado a avó a preparar os doces e depois embalá-los, as horas passaram lentamente. Clarissa sentia um friozinho na barriga só em pensar que retornaria à casa de Mariana. As fotos dentro da caixa poderiam revelar muita coisa.
Um pouco antes das dez horas da manhã do dia seguinte, Clarissa girou lentamente a chave da porta de entrada da casa de Mariana. Os gatos se aproximaram miando, esfregando-se nas pernas de Clarissa.

– Calma, crianças – pediu ela tentando caminhar com os bichanos a sua volta. – Já vou alimentar vocês.

Felizmente não havia nenhum gato mais bravo. Todos eram mansinhos e olhavam para Clarissa com suas carinhas redondas e simpáticas. Conversando com cada um deles, Clarissa renovou a ração e trocou de água. Assim que viu todos compenetrados nas suas comidas, ela respirou fundo e olhou para cima. Que Mariana jamais soubesse o que ela estava prestes a fazer.

Não tinha muito tempo. A avó dissera para que ela alimentasse os bichos, recolhesse as sujeiras deles e arrumasse qualquer coisa que estivesse fora do lugar. Depois, direto para casa. Mas depois de uma noite mal dormida em que sonhos esquisitos perturbaram seu sono, seria injustiça demais ir até a casa de Mariana sem ver nenhuma foto.
Clarissa entrou no quarto com o coração saltando para fora do peito. Sentia uma pontada de culpa por mexer nas coisas de Mariana, mas ao mesmo tempo dizia para si que aquilo não seria nada demais. Ora, não iria roubar e muito menos sair mostrando os retratos pela vizinhança. A única coisa que ela queria era descobrir quem era Mariana. Talvez ali tivesse fotos da sua família, amigos... namorados. Ela consultou o relógio. Sua avó estipulara o tempo em uma hora para que ela pusesse tudo em ordem e voltasse para casa. Não podia perder tempo com consciência culpada.

A caixa estava no fundo do guarda-roupa como se estivesse aguardando Clarissa chegar. Com muito cuidado, a garota levou a caixa para a cama de Mariana onde se sentou. Tinha que ter cuidado para não alterar a ordem. Qualquer foto fora do lugar poderia chamar a atenção.

Com a respiração suspensa Clarissa tirou a tampa. As fotos eram antigas mesmo. Não havia nenhuma foto recente. Surpresa, Clarissa pegou duas fotos onde Mariana aparecia com outra moça, provavelmente a irmã, pela semelhança. O retrato devia ter uns trinta anos.

Clarissa não pôde deixar de observar como ela tinha a aparência mais suave e relaxada. Nada do semblante sisudo e sério que Mariana trazia nos dias de hoje. Seu sorriso era mais franco e espontâneo. Os cabelos desciam escuros pelas costas. Mariana havia sido uma jovem bem bonita.

– Com sua estampa, Mariana – murmurou Clarissa para si mesma, – não é possível que nenhum garoto tenha se apaixonado por você.

Motivada pela busca, Clarissa pegou mais algumas fotos. Mariana, sempre sorridente e simpática, aparecia em fotos no lago da cidade, com as colegas da escola, no parque e em casa, com a mãe e a irmã. Aos poucos, Clarissa foi perdendo um pouco da sua motivação. As fotos eram óbvias demais e não traziam nada de novo.

– Que droga...

Ela colocou a mão mais para baixo da pilha. Prometeu para si mesma que seria a última foto que veria. Desanimada, ela pegou uma qualquer, aleatoriamente.

– Ah, sua danada! – exclamou Clarissa quase rindo. – Então você tinha mesmo um namoradinho!

Os olhos de Clarissa se fixaram melhor na foto. Mariana estava abraçada a um garoto, ambos sorridentes, muito felizes. A garota sentiu o sorriso morrer nos lábios à medida que reconhecia quem estava ali.

– Nossa, mas parece o Dani...

Algo incomodava Clarissa. Era semelhança demais. Ela levantou da cama e caminhou até a janela buscando mais luz natural. Ela se sentia estranha. Era como se Dani houvesse se materializado naquela foto.

– Ai, meu Deus.

Clarissa sentiu as pernas faltarem e deixou-se cair no chão, lentamente. Sentada no piso frio, ela não queria acreditar no que estava vendo. Dani e Mariana. Juntos e namorando em 1986? Um dos gatos entrou no quarto e foi direto até Clarissa se roçar nos joelhos dela. A garota mal podia raciocinar direito.

– Não pode ser! – ela gemeu fixando seus olhos no retrato. Dani parecia muito à vontade com o braço repousando protetor nos ombros de Mariana. Aliás, ambos estavam muito felizes.

Clarissa ficou enjoada de tanta tensão. Deveria haver outras fotos. Ela afastou o gato e levantou. Afobada, ela procurou mais fotos e não custou a achar o que procurava. Mariana tinha deixado todas as fotos em que estava com o rapaz presas em um clips. Cada uma delas possuía sua respectiva data.

– Deve ser algum parente dele – disse Clarissa para si mesma quase sem voz. - Eles não podem ser a mesma pessoa.

A quarta ou quinta foto era do rapaz tocando piano em alguma apresentação. Clarissa praticamente deu um grito e a foto escapou-lhe das mãos indo parar no chão, virada para baixo.

Havia alguma coisa escrita no verso.

As mãos trêmulas de Clarissa pegaram o retrato. A bela letra de Mariana havia escrito: Felipe Mateus – apresentação Castelo de Pedra – 1986.
Clarissa pôde reconhecer o salão iluminado da hospedaria, o lustre imponente pendendo do teto. O fotógrafo havia capturado o rosto encantado das pessoas escutando Felipe Mateus tocando o piano. Ele próprio parecia absorto na beleza da sua música, os olhos fechados e a boca semiaberta. Estava tão belo que o coração de Clarissa chegou a doer.

– Felipe Mateus. Era por você que Mariana quis tanto voltar à hospedaria?

Ela não sabia quem poderia responder àquelas perguntas. Será que Dani era filho de Felipe Mateus? Passados mais de 30 anos isto era bem possível.

As dúvidas eram demais para Clarissa aguentar sozinha. Sua cabeça era um tumulto só. Colocou a foto de Felipe dentro da bolsa, juntou os demais retratos desordenadamente dentro da caixa e decidiu ir embora. Uma dorzinha de cabeça começou a incomodá-la.


Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/04/2018
Código do texto: T6320262
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca