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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 14



Depois de se afastarem o suficiente, Ricardo relaxou. Diminuiu a velocidade e deixou escapar o ar lentamente. Olhou para o lado e se deparou com a neta ainda pálida.

– Não sei o que aconteceu lá em cima – confessou ele parecendo incrédulo com tudo aquilo que vivenciara. – Mas não se impressione. Se você acredita em fantasmas deve saber que muitos deles voltam aos lugares que foram marcantes em suas vidas terrenas.
– Será que… será que eles não sabem que morreram? – perguntou Clarissa pensando em Felipe Mateus.
– Pode ser. Ou então não se conformaram com a morte.

Felipe Mateus, morto quase no auge do seu sucesso, não deveria estar muito contente por ter morrido tão cedo.

– Você está arrependido de ter ido até lá?

Ricardo soltou uma risada nervosa.

– Não exatamente. Mas não conte para sua avó. Ela não irá acreditar em nós. E ainda vai nos chamar de loucos.
– Acho que não vou dormir esta noite – retrucou Clarissa lembrando da sua última visão de Felipe. Coitado, ele realmente precisava de muitas orações para descansar em paz.
– Você já tem história para contar aos seus netos.

Clarissa suspirou pensando nos últimos acontecimentos. Era uma descoberta atrás da outra. No dia seguinte teria que ir novamente à casa de Mariana. Os segredos de Mariana a deixavam excitada e triste ao mesmo tempo. Sentia pena de Felipe, da sua morte besta. Queria poder dizer algumas palavras de carinho para Mariana por ela ter perdido seu amor tão cedo e, pelo visto, nunca ter superado a ausência dele. Tinha esperança de encontrar mais coisas, na casa, sobre o relacionamento dos dois, só não sabia exatamente o quê.

Dona Iara achou o marido e a neta um pouco estranhos durante o jantar naquela noite. Ricardo, sempre tão brincalhão, estava quieto, pensativo. Clarissa não tinha mais conseguido deixar o coração no lugar desde que saíram correndo da hospedaria. A ansiedade batia forte no seu peito, formando um bolo na garganta. Ela, que já não havia almoçado direito, comeu muito pouco no jantar. Dona Iara cansou de falar sozinha. Lá pela sobremesa ela resolveu perguntar:

– Posso saber por que vocês dois estão com estas caras?

Clarissa olhou direto para o avô esperando que uma boa resposta partisse dele próprio. Ricardo olhou para a esposa, tomou um gole de suco e respondeu, misturando verdades e mentiras:
– Não é nada, Iara. É que ver a hospedaria naquele estado mexeu um pouco comigo.
– Mas o lugar está tão ruim assim?
– Sim – Ricardo começou a remexer no prato sem vontade de comer. – Eu ainda tinha na mente os dias de glória de Castelo de Pedra. Por mais imaginação que eu tenha, jamais poderia acreditar que estivesse naquele estado.
– Bom, então é melhor irmos nos acostumando com os fatos. A paisagem vai mudar bastante por aqueles lados – ela ficou em silêncio por alguns instantes e comentou. – Fiquei curiosa em saber como está a hospedaria. Você bem que podia me levar uma hora destas lá, antes que destruam com tudo.

Ricardo concordou com a cabeça evitando olhar para a esposa. Clarissa tinha uma única certeza: seu avô jamais iria voltar novamente à hospedaria.

                                                   *

Dona Iara recebeu uma grande encomenda de doces e por isto não pôde acompanhar Clarissa até a casa de Mariana. A garota levantou as mãos para o céu. Tudo o que mais queria era estar sozinha e ir atrás de novidades.

A única questão é que não sabia nem por onde começar.

Os gatos de Mariana já estavam gostando de Clarissa e quando ela chegou os seis se reuniram ao seu redor. Ela tratou de encher bem os potes dos bichanos, acariciou alguns deles e ficou parada por alguns instantes no meio da sala pensando no que fazer.


O sótão!

Clarissa voou escada acima, empolgada. Quem nunca escondeu segredos dentro de um sótão? Pelo menos nos filmes isto acontecia com muita frequência. A escada estreita que levava ao sótão surgiu a frente dela como se estivesse a convidando para desvendar um grande mistério. Não precisava nem ter pressa. Tudo o que tinha que fazer era procurar as pistas com calma e sem correria.

O sótão nem parecia um… sótão. Pelo visto, dada a limpeza, Mariana cuidava muito bem dali.  As prateleiras estavam organizadas e havia caixas empilhadas nos cantos. Nem pó havia muito. Talvez Mariana não usasse o sótão somente para guardar velharias. Lentamente, Clarissa foi até as estantes procurar alguma coisa, qualquer coisa. Contudo logo ficou desanimada.

Mariana guardava, sobretudo, livros antigos. Era quase uma biblioteca. Talvez nas caixas pudesse encontrar alguma coisa. Clarissa olhou os títulos. Alguns eram bem interessantes. Mas não era aquilo que ela procurava. O tempo passou rápido e quando se deu conta já se haviam passado vinte minutos. Clarissa perdera minutos preciosos folheando livros e revistas de trinta anos atrás. Era melhor descer e procurar no quarto de Mariana. Talvez no fundo do guarda-roupa, onde estavam as fotos, encontrasse alguma coisa de relevância.

Ao colocar um dos livros de volta para o lugar, uma encadernação dourada lhe chamou atenção. Que livro seria aquele? Sem muitas esperanças, Clarissa o tirou da estante. Não havia título nenhum na capa e nem o nome do autor. A garota o abriu com um súbito interesse. Na segunda folha havia uma mensagem escrita:

Não ultrapasse esta página

Clarissa sentiu um arrepio percorrer a espinha. Aquilo era o diário de uma adolescente. Havia uma data: 24/12/1985. Havia sido um presente de Natal, conforme Clarissa deduziu com o coração acelerado. O nome de Mariana estava escrito com tinta dourada ao pé da mesma segunda página.

Não ultrapasse esta página

Como toda adolescente, Mariana não gostava que lessem seus escritos. Clarissa também não gostava e quando virou para a página seguinte chegou a sentir um aperto no peito. O que estava prestes a fazer era algo reprovável. Muito feio, inclusive. Mas Clarissa seguiu em frente. Na outra página havia um coração tomando todo o espaço e dentro escrito em letras cor-de-rosa os nomes de Mariana e Felipe Mateus.

A garota fechou os olhos e respirou fundo. Havia descoberto a pista que tanto procurava. Decidiu que levaria o diário para casa e passaria o dia todo lendo os segredos de Mariana. No outro dia traria de volta o diário, colocaria no lugar e guardaria consigo, para sempre, tudo o que ela havia escrito. Era simples, embora a consciência estivesse um pouco pesada.

Ela retornou para casa, ajudou a avó no preparo do almoço e foi para o quarto. Sentada na cama ela começou a ler o diário.


Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 15/05/2018
Código do texto: T6336869
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48684 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/19 02:46)
Patrícia da Fonseca