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MEU AMOR MISTERIOSO - Parte 18

Mariana esperou que a porta batesse para pegar o diário de volta. Fazia muito tempo que não o segurava e quando o fez, sentiu aquela velha dor tão conhecida afundar seu peito.

Não teve coragem de abri–lo e ler seus escritos. Seria doloroso demais. Sentada no chão, Mariana abraçou o diário como se fosse Felipe. E então relembrou a última vez que o vira:

Mariana saiu de casa sem que a mãe e a irmã vissem. Nem foi tão difícil. Somente esperou as luzes da casa apagarem para abrir a janela em silêncio e ganhar a noite. Lá fora estava um pouco frio e Mariana aconchegou–se com o capuz. A roupa negra que vestia, estrategicamente, seria um bom disfarce para o que faria em seguida.
Seguir os passos de Felipe era algo que lhe doía no peito e a sufocava. Seu namorado, ou seja lá o que ele fosse, estava lhe traindo. Sua mãe bem lhe avisara. A irmã mais velha lhe dera conselhos. Mas Mariana, apaixonada, não quis enxergar nenhuma das evidências. Bem, agora veria com seus próprios olhos e teria que tomar uma decisão. Só tinha certeza de uma coisa. Se Felipe não ficasse com ela, também não ficaria com mais ninguém.
À beira do lago estava mais frio ainda. Mariana conhecia o lugar como a palma das suas mãos. A mãe lhe trazia quando criança para brincar lá e andar nos pedalinhos. Conhecia cada recanto e sabia muito bem onde Felipe poderia estar escondido com sua nova namoradinha. Ela havia trazido uma pequena lanterna para clarear o caminho pouco iluminado.
Mariana tomou o caminho feito de pedregulhos, iluminando fracamente o chão. Rezava em voz baixa, quase um sussurro, para estar errada. A irmã Solange fora bem clara. Havia visto Felipe de cochicho com a ordinária da Valéria. Logo quem, a vagabunda da cidade.
O ar já estava lhe faltando de pura angústia quando Mariana escutou alguns gemidos e risadinhas. Ela deu mais alguns passos, incertos devido ao seu nervosismo. Diminuiu ao máximo a luz da lanterna e se escondeu entre alguns arbustos. Reconheceu a voz de Felipe. Ele usava o mesmo tom quando se dirigia a ela, carinhoso e sedutor. O coração de Mariana doeu.
Quando a primeira lágrima caiu, Mariana tomou a decisão de ir embora. Porém, suas pernas recusaram–se a sair do lugar. Agachada entre as folhagens, ela escutou mais do que deveria. Valéria parecia estar gostando muito da companhia de Felipe.
Sem querer, Mariana pisou em um galho seco e o casal escutou o barulho. Ela imediatamente parou de respirar com medo de ser descoberta. Mal se mexia, o coração batia descompassado. De repente, Mariana ouviu Valéria dizer:
– Você chamou alguém?
– Como assim? Lógico que não! – Felipe demonstrou estar surpreso com a pergunta descabida de Valéria.
– Tem alguém aqui!
Mariana não se mexia. Conforme o som dos movimentos que Valéria fazia, Mariana teve a impressão que ela se vestia. Não demorou muito, ela anunciou, furiosa:
– Vou embora. Você está aprontando alguma para mim.
– Ei, sua louca! Não tem nada disso! Não acredito que você vai me deixar aqui.
Valéria realmente não parecia disposta a permanecer mais nenhum segundo.
– Felipe, tem mais alguém por aqui – a moça tinha medo na voz. – Você jurou que estaríamos sozinhos.
Mariana percebeu quando Valéria passou rente ao arbusto e partiu correndo, segurando ela também uma pequena lanterna. Felipe ficou no escuro. E praguejando.
– Desgraçada. Vadia.
A jovem sabia que Felipe precisaria de algum tipo de iluminação para sair dali, a não ser que o seu senso de direção fosse muito bom. Em silêncio, Mariana saiu do esconderijo e, com a lanterna acesa, dirigiu–se até onde Felipe estava.
O rapaz estava colocando a calça quando foi iluminado por Mariana de alto a baixo. Em um primeiro momento, a luz o cegou. Somente depois que Mariana baixou a lanterna ele se deu conta de quem era.
– O que você está fazendo aqui? – Felipe pôs as calças. Ele vestia um blusão preto de lã, pesado, para se proteger do frio.
– Você não tem vergonha na cara, Felipe? – perguntou ela com a voz tremendo de raiva. Sabia que a qualquer momento poderia explodir em choro. – Vir neste frio se encontrar com aquela vagabunda! Como pôde?
– Ei, não tem nada demais este encontro, Mariana – Felipe tentou se justificar, sem sucesso nenhum. – Ela, a Valéria, não significa nada para mim.
– Mentiroso – a voz de Mariana saía baixo, mas carregada de raiva. – Você jurou para mim que eu era a mulher da sua vida.
– E é. Já lhe disse. A Valéria não é nada para mim. Eu só queria me divertir um pouco.
– Se divertir, Felipe? Você não pode se divertir comigo?
O rosto de Mariana, mal iluminado pela lanterna, era o quadro do sofrimento. Felipe pareceu entender isto.
– Olha, eu estou arrependido. Não devia ter feito isto com você. Foi burrada minha – ele fez uma pausa. – Você me perdoa? Juro nunca mais fazer isto.
– Como assim? Perdoar? Você me perdoaria se eu fizesse coisa igual?
Ele ficou em silêncio por alguns instantes.
– Você não está sendo razoável. Nem um pouco – ele se abaixou para apertar o cadarço dos tênis.
De repente Felipe viu–se jogado para trás com tanta força que chegou, por poucos segundos, a acreditar que Mariana não estava sozinha. Ele se desequilibrou violentamente, caminhou alguns passos para trás sem controle algum sobre seus passos e em seguida caiu dentro do lago.
O som do corpo de Felipe caindo na água gelada e escura surpreendeu Mariana, mas não abrandou sua raiva. O rapaz afundou por alguns instantes enquanto o facho da lanterna iluminava a superfície da água a sua procura. Quando a cabeça de Felipe voltou à tona, Mariana estava ali, na beira, encarando–o.
– Por que você fez isto? – ele conseguiu perguntar com a voz tremendo de frio. – Você está louca? Me ajude a sair daqui!
Mariana ignorou o desespero contido na voz dele. Para ela era tudo fingimento.
– Pois saia sozinho! Você sabe nadar muito bem.
Ela se virou para ir embora. Ainda tremia. Não de frio, mas de raiva.
– Não, por favor! Não me deixe aqui sozinho! A água está muito gelada, não estou conseguindo me mexer!
A moça ainda se voltou para ele, iluminando seu rosto desesperado.
– Dê um jeito. Você sempre dá um jeito para tudo!
Mariana foi embora pisando duro, sem sentir espécie nenhum de arrependimento. Se encontrasse Valéria por ali não hesitaria em fazer o mesmo. Que os dois fossem para o inferno juntos! Ela voltou para casa, percorrendo as ruas escuras e solitárias da cidade. Nunca mais, jurou para si mesma, queria ver a cara de Felipe. Ele podia vir ajoelhado pedir perdão que não daria a menor bola. Felipe que ficasse com Valéria para sempre. Eles se mereciam.
A moça chegou em casa e entrou do mesmo que saiu: pela janela. Custou um pouco a dormir já que a raiva era ainda tão grande que fazia o coração bater acelerado demais. Foi acordada no outro dia por Solange que a sacudia violentamente.
– Mari, acorda! Acorda!
Mariana sentou na cama em segundos, meio tonta, meio acordada. Havia uma urgência terrível na voz da irmã, um tom que prenunciava uma desgraça.
– O que houve? – ela olhou para os lados, agora totalmente acordada. – Onde está a mamãe?
– Mari – Solange estava muito pálida. – Encontraram o Felipe no lago. Boiando. Morto.
                                                  *
Os dias seguintes à morte de Felipe foram os mais terríveis na vida de Mariana. Por ser uma pessoa relativamente conhecida, os jornais fizeram grande sensacionalismo com o trágico passamento de Felipe. As fotos do rapaz estamparam manchetes de revistas e jornais, sendo notícia também na televisão.
Mariana caiu em uma espécie de letargia. Por um bom tempo não saiu de casa. Ficava enrolada em um cobertor, sentada no sofá, sem desgrudar os olhos da parede. Não tinha medo de ser descoberta. No fundo queria que isso acontecesse. Talvez assim a culpa diminuísse um pouco. Mas a polícia concluiu que a morte foi acidental e ninguém foi acusado.
Naquela época Mariana perdeu quase dez quilos e foi parar em um hospital para se recuperar. O ano escolar foi perdido, mas ela pouco se importou. Quando chegou o verão e já estava um pouco melhor, Mariana se perguntou se Felipe seria capaz de escutar seus pedidos de perdão. Ele jamais aparecera nos seus sonhos, embora ela implorasse por isto. Os anos foram passando e Mariana jamais conseguiu esquecer seu primeiro namorado. Houve outros homens na sua vida, mas nenhum era Felipe. Então um dia ela desistiu de buscar o amor e concluiu que viver quieta e sozinha com seus gatos era a melhor maneira de fugir da tristeza que a acompanhava há mais de trinta anos.
Então a sobrinha de Dona Iara apareceu na cidade. Simpática, ingênua e também enxergava coisas demais. Assim que Clarissa revelou que havia visto um rapaz com as características de Felipe Mateus na feira, todos os instintos de Mariana lhe disseram que podia ser ele. Mas como assim? Não, não era possível. Felipe estava morto e ela desejava sinceramente que sua alma estivesse em paz.
Os acontecimentos foram deixando Mariana cada vez mais acabrunhada. Felipe vagando pela cidade, mas incapaz de aparecer para ela. Por quê? “Então você não me perdoou?” Mariana fazia a mesma pergunta todas as noites olhando para o céu. Quando foi à hospedaria com Clarissa esperava do fundo do seu coração vê–lo por lá.
Mas nada aconteceu.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 20/06/2018
Código do texto: T6368918
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca