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Amanhecer na praia rosada


Acordou com um sorriso no rosto que transluzia. Ele sequer sabia exatamente o que aquela palavra queria dizer!
Transluzir. Procuraria no dicionário depois… ou digitaria no google…
Enfim, percebeu-se idiota pela primeira vez, naquele amanhecer que parecia ser o mais belo, mais colorido… o mais mais de todos os amanheceres.
Sim, ele estava idiota, mas, convenhamos, era por um bom motivo!
(Havia passado a noite com uma mulher!) não conte para ninguém.
Sim, estava amando. Seu corpo ardia em puro êxtase, algo que misturava o cheiro e o sabor do sexo, com o básico prazer de estar ao lado de uma mulher.
Com certeza, elas são mais cheirosas, mais perfumadas, mais doces e mais saborosas que chocolates. Quem os comparou, com certeza, era virgem… ou homossexual!
Sua opinião era parcial, com certeza!
Ele a olhava, com tanto desejo que parecia ser um mestre na arte do sexo. Não, ele acabara de perder a virgindade!
E com ela, a mulher que ele amava.
Tudo bem, eles não eram homem e mulher… não passavam de adolescentes… mas, qual melhor momento para conhecer o prazer, o toque, o completar-se, do que nesse momento tão instável do ser? Sim, digo e reafirmo, o sexo é para adolescentes, não há como negar!
Passaram a noite dos sonhos! Haviam saído para a praia, com um grupo de amigos, um dia antes. Haviam falado para seus pais que iriam com seussuas amigosamigas. Não haveria, de forma alguma, pessoas do outro sexo! E como não havia…
O céu estava rosa! Nunca tinha visto um céu rosa! As coisas dentro da kitnet  brilhavam em rosa, até mesmo o sofá que já fora vermelho.
Ele havia transado.
Nossa, que paradigma!
Para quem diria que havia transado?
Seus amigos, seus mais íntimos, achavam que ele já havia transado até em grupo! De todas as formas possíveis, com inúmeras!
- Você é quietinho, mas é pegador, hein?
- Eu tenho as manhas!
Baita de um mentiroso.
Tinha medo, confessa!
Medo de dizer para os colegas aquele segredotabu.
- o quê? Você é virgem? Só você mesmo! HAHAHAHA
Ririam dele… seriam capazes de calcular quantos dias dariam…
- Quantos dias têm em 16 anos?… espera aí… espera… 5840 dias! CINCO MIL, OITOCENTOS E QUARENTA DIAS SEM SEXO!!! HAHAHA
- Eu…eu… eu… eu só estou procurando a pessoa certa, não posso?
Vergonhoso.
Mas, para falar a verdade, aquele segredinho não lhe incomodava tanto pessoalmente, já que havia se acostumado com a idéia de que, um dia ou outro, perderia a virgindade com ela.
Ela era perfeita… desnecessário descrevê-la… imagine-a como a mulher mais linda para você.
E, estudavam quase juntos. Classes diferentes, idades iguais… mudavam as letrinhas junto aos números.
Olhou novamente para o quarto rosado. Que belo, que lindo… realmente, não havia visto algo parecido nunca…
Ela, ele sabia, já havia provado daquela sensação única com outro. Ou até mesmo outros. Ou sabe-se lá…
Mas, mesmo assim! Ela fora dele naquela noite e, depois de tudo que ela havia falado, ela seria dele para todo sempre!
Levantou-se e foi até a beira da janela, olhando para o mar.
Berço maravilhoso.
Berço.
Lembrou, que alguém dia, o filho teria os olhos dela; cintilantes. Seria forte e alegre, já que dos dois deveria herdar algo. Seria um pão, como diziam as garotas… seria feliz, pois teria pais felizes.
Um nome? Depende de tanta coisa… principalmente porque seria ela quem decidiria. Ele, com certeza, não duvidaria de nada dela.
Olhou-a novamente. Seu olhar não estava tão transluzido quanto o dele. Aliás, as pálpebras fechadas com peso, nada diziam, a não ser que estava…
Entediada?
Não, não podia ser! Seu olhar… desgosto. Não, não dava para ver seu olhar, mas, seu semblante, a nada de bom lembrava!
Estava respirando com certa lentidão, vagarosa. Olhou para ela melhor.
Lembrou da noite anterior. Ouviu-a chegar ao ápice do prazer várias vezes, não foi?
- Cara, alguma garota já fingiu orgasmo com você?
- Não, nunca! Eu sou fera!
Ela não parecia alegre, nem mesmo ontem…
Lembrou de alguns sons… não sentiu são mãos deslizarem como ontem. Não se recordava das mãos deslizando pelas suas costas, até chegarem aos ombros, apoiando-se, forçando-o.
Lembra de vê-la virar o rosto ao tentar beijá-la.
Lembra de… de…
Ao lado do sapato dela… tinha umas notas de 10. Eram umas 4 ou 5 notas, não dava para perceber.
Era dinheiro. Um dinheiro que não estava ali quando deitaram. Eles haviam corrido, tensões e tenros para o sofá-cama. Estavam eufóricos por aquela noite!
Não estavam?
Ali havia dinheiro. Dinheiro que não fora ela que colocou, muito menos ele.
Ela seria capaz?
Teria feito aquilo com ele?
- Se você transar com ele, a gente te garante a viagem, uma grana e ainda um por fora.
Imaginou-se idiota.
Viu-se idiota.
Ela teria feito aquilo?
Será que ela tinha aceitado aquele acordo absurdo?
Sentiu-se menos que um menino.
Olhou-a novamente.
Já estava sentado ao lado dela, na beiradinha, olhando para seu rosto desfigurado pela droga. Do lado dela estava um pedaço de plástico, o tubo de uma caneta.
Ele havia se esforçado muito, sabia?
Ele havia feito o melhor de si! Pela mulher que amava!
- Oi, bem.
- Você… você… acordou, bem?
- Que noite maravilhosa foi essa!… você é mais do que perfeito, sabia?
Ele olhava para a caneta…
- Será que os meninos deixaram o troco do dinheiro que eu emprestei para eles? Disse ela, tampando o hálito dormido.
- tem um dinheiro colocado ali.
- Está acordado há muito tempo?
- Essa caneta…
- Minha mãe ligou ontem… pediu para eu anotar uma coisa. Eu peguei a bolsa, mas a única caneta que tinha estava sem a porcaria do tubinho de tinta.
- Eu não ouvi seu telefone tocar.
- Você desmaiou ontem, bem. Também, ninguém normal agüentaria tantas vezes como você fez ontem.
- Você me ama?
Ela olhou-o na boca. Vira que estava seca, trêmula.
- Aconteceu alguma coisa, benzinho?
- Eu… posso pegar o dinheiro para comprar uns pães?
Ela assentiu.
Ela seria capaz? Capaz de enganá-lo por uma pequena quantia de dinheiro e droga?
Olhou-a no rosto de novo. Foi pegar o dinheiro.
No tubo, que agora estava tão próximo de seu olhar turvo, estava ressacado, rachado. Típico de uma caneta velha.
Não havia pó algum dentro dele. E a tampa estava forçada na parte de trás do tubo vazio.
- Mas não vá gastar tudo! Eu emprestei o dinheiro para eles irei comprar as cervejas, mas esse é o único dinheiro que tenho para voltar de ônibus.
- tudo bem.
E saiu.
Saiu correndo pela praia desesperado! Sem rumo, sem desejo algum por acertar o caminho de canto algum.
- Ela me enganou! Me usou e me traiu! A mulher que eu amo!
… ela explicou de onde havia saído o dinheiro, não? E o tubo da caneta?!
Ela explicou também, não foi? Não foi o bastante.
Ele sabia que tinha o sono pesado. Dependendo do toque do celular, ele não acordaria por nada!
Teria coragem de voltar para a casa?
Teria coragem de encarar mais alguém?
Mas, diabos, por que estava com tanto medo?
Ela falou de onde veio o dinheiro e o tubo... não falou?
- BEM!
Entrou correndo pela casa… ela estava cochilando, tranqüila.
- O que foi, benzinho?
- Você fingiu ontem?
Foi direto. Mas será que a resposta, mesmo que ela pudesse responder, seria verdadeira?
- Não?
E ele saiu de novo.
- Bem, você comprou os pães? Estou com fome!
Michel Montsalvy
Enviado por Michel Montsalvy em 08/09/2007
Código do texto: T644422
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Sobre o autor
Michel Montsalvy
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
50 textos (4587 leituras)
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Michel Montsalvy