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SEGREDO DE FAMÍLIA


Tenho um amigo que apesar de já ter completado noventa anos, encontra-se em pleno vigor físico, disposto e lúcido.
Ele é um imigrante espanhol que aqui chegou para ficar aos treze anos, em companhia de seus pais e não sei quantos irmãos.
Apenas para cumprir o papel cultural de meus escritos, vou esclarecer que o meu amigo é espanhol, porém, ao ser indagado sobre sua nacionalidade responde que é catalão. É para aqueles que, como muitos que já vi, ficaram sem entender, informo que catalão é aquele que nasce na Espanha, em uma região denominada Catalunha, cuja capital é Barcelona. E, mesmo sendo um só país, os que nascem nesta região fazem questão de dizer que são catalões e não espanhóis. Têm  dialeto, costumes e até bandeira próprios. O curioso é que são tão teimosos como todos os espanhóis, ou até mais.
Mas voltando ao meu amigo, depois de trabalhar por mais de quarenta anos em algumas empresas multinacionais, sempre viajando pelo mundo afora,  aposentou-se .
Com as economias que fez e a aposentadoria que recebe mensalmente pode dar-se ao luxo de continuar viajando, agora evidentemente por sua própria conta.
Ele conhece boa parte do mundo e até já perdi a conta de quantos cartões postais já recebi dele sempre remetido de um país diferente.
Uma vez recebi uma foto dele montado em um elefante e no verso estava escrito:  Atualmente estou aqui. Espero que quando você estiver lendo isto eu já tenha conseguido descer deste monstro áspero e fétido.
Sempre que retorna de suas viagens liga para os amigos, inclusive eu e convida todos para um jantar em um restaurante qualquer para contar suas aventuras.
E, uma de suas estórias, que na verdade é uma história, me impressionou tanto que vou contá-la, já me desculpando se por acaso omitir ou acrescentar algum detalhe por falha da memória ou mania de escritora.
Em uma de suas viagens ao Japão ao ver uma jovem senhora oriental levando  ao colo uma criança de mais ou menos um ano e meio, estranhou quando ela despedia-se de outros orientais que a acompanhavam e abraçados choravam copiosamente, porém ela sempre com a criança fortemente segura em seus braços como se estivesse dormindo.
Distraído embarcou e como a decolagem sempre o incomodava um pouco, assim que sentou-se, fechou os olhos e só os abriu depois de uns cinco minutos.
Ao olhar para o lado, percebeu novamente aquela mulher com a criança nos braços, sentada bem próximo. Acenou-lhe com a cabeça tentando mostrar-se simpático mas recebeu apenas um olhar triste e desconfiado.
Depois de várias horas, levantou-se para ir ao banheiro e pode ver o rosto da criança. Achou-a um tanto pálida, mas, afinal era uma criança oriental e eles são mesmo meio amarelados.
Voltou ao seu lugar, leu o jornal, pediu um whisky duplo, ouviu música, conversou com o rapaz que estava no assento a seu lado, passou para o assento que estava vazio, olhou para as nuvens, enfim fez de tudo que pode para tentar encurtar  as intermináveis horas que enfrentaria até que adormeceu.
Acordou com um suave mas persistente toque em seu ombro. Era a tal senhora oriental que lhe pediu para dar uma olhadinha em seu filho pois precisava ir ao banheiro.
Prontamente foi levantar-se para sentar-se ao lado da criança mas foi impedido pela mulher e então percebeu que ela havia deitado o filho ocupando os dois assentos.
Ela informou que o filho estava dormindo e que iria ausentar-se apenas por um instante, por isso não precisava que ele saísse de seu lugar. Era somente para dar uma olhadinha caso alguém se aproximasse dele.
A mulher voltou rapidamente do banheiro e agradeceu-lhe, tomou novamente a criança nos braços sem que esta acordasse.
O fato de a criança estar dormindo há tanto tempo começou a intrigá-lo, mas talvez ela tivesse acordado enquanto ele dormira, afinal depois do whisky tinha dormido horas seguidas.
A viagem transcorria normalmente, porém algo o incomodava toda vez que olhava para aquela mulher com a criança.
Durante as refeições percebeu que a mulher nem tocava nos pratos que lhes serviam e sempre recusava a ajuda das comissárias quando se ofereciam para cuidar da criança.
Ficou mais tranquilo quando ouviu a mulher dizendo à uma das comissárias que seu filho estava um pouquinho enjoado e por isso estava tão quietinho.
Deu uma volta pelo avião, encontrou um grupo de turistas que estavam super animados e resolveu ficar por ali.
O rapaz que estava no assento ao lado do seu já estava por ali também paquerando abertamente uma jovem aparentemente mais velha que ele. Pensou que talvez eles estivessem "ficando". Nunca entendeu direito o que sua neta queria dizer quando chegava em casa dizendo que tinha "ficado" com um "carinha".
Quando o piloto anunciou que iriam pousar em trinta minutos resolveu voltar ao seu lugar.
Enquanto caminhava lembrou-se da mulher com a criança e pensou em oferecer-se para ajudá-la desembarcar. Mas, o lugar da mulher estava vazio e sua bagagem também não se encontrava ali.
Perguntou à comissária sobre a mulher e foi informado que ocorrera um imprevisto e que ela estava na cabine das comissárias.
Quando o avião finalmente parou observou que havia uma movimentação estranha entre a tripulação. Discreta, mas estranha.
Desembarcou, apanhou sua bagagem, tomou um táxi e foi para o hotel. Tomou um bom banho e dormiu até que seu relógio biológico acertasse os ponteiros com o fuso horário.
Eram dez horas da manhã quando ligou a televisão e assustou-se quando viu a mulher que viajara com ele sendo levada por policiais e a seu lado um jovem senhor.
Como não conhece o idioma japonês não conseguia entender nada. Só estranhou a ausência da criança.
Curioso ligou para a recepção e falando com o funcionário em inglês ficou sabendo o que acontecera.
Pasmem! A mulher estava retornando ao Japão para encontrar seu marido que estava trabalhando naquele país há três anos,  desde quando os dois se casaram e decidiram ir ganhar a vida.
Por um erro de cálculo ela engravidara e aos seis meses de gravidez  resolveram que ela deveria voltar ao Brasil para dar à luz. O marido ficaria e assim que a criança completasse um ano ela a levaria para conhecer o pai.
No Brasil a família morava em uma cidade próxima a São Paulo, onde a mulher deu à luz a um belo garoto e vivia com ele enquanto o marido trabalhava no Japão ansioso para conhecer o filho.
Um dia antes da viagem alguns familiares a acompanharam a São Paulo e hospedaram-se na casa de um parente para evitar correria pois deveriam seguir para o aeroporto por volta de onze horas da manhã.
Um pouco antes da saída, duas ou três horas mais ou menos, o menino que estava com um ano e três meses engasgara-se com um objeto e morrera em questão de minutos sem que fosse possível prestar-lhe algum socorro médico.
Todos entraram em pânico e não sabiam o que fazer durante alguns instantes até que resolveram telefonar para o pai do menino no Japão.
O pai chorou muito e como seria impossível vir ao Brasil  decidiu que a esposa deveria viajar como se nada tivesse acontecido. Que dessem um jeito, que simulassem que a criança estava dormindo, enfim, que fizessem qualquer coisa para levarem seu filho mesmo morto para que ele pudesse conhecer.
Depois de muita discussão a família resolveu atender o pedido do pai da criança, combinaram tudo e a mulher conseguiu viajar até o Japão com seu filho morto apertado nos braços.
Faltou pouco para que não tivesse sido descoberto o segredo da família, mas o que realmente importa é que o pai pode conhecer seu filho e abraçá-lo pela primeira e última vez quando no aeroporto de Tókio o encontrou  morto nos braços de sua esposa que não conseguia dizer nada pois o grito de desespero lhe sufocava.
Meu amigo e  eu não sabemos se foi cometido algum  tipo de crime por aquela família, segundo as leis dos homens, mas de uma coisa sabemos: o amor é capaz de levar o ser humano a cometer atos de verdadeira loucura!






Eunice Cruz
Enviado por Eunice Cruz em 05/10/2007
Código do texto: T681056

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Sobre a autora
Eunice Cruz
Presidente Prudente - São Paulo - Brasil, 64 anos
11 textos (313 leituras)
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