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O Nascimento

O Sr. e a Sra. Werneck se conheceram vinte anos atrás e quinze anos depois tiveram Jack, e cincos anos adiante tiveram Smith, ambos loiros. Amanda sempre sonhara em ser mãe, mas era frentista e o marido um alcoólatra que não trabalhava. Ela era totalmente apaixonada pelo marido e nunca queria contrariá-lo. Aceitou a idéia de dar o primeiro filho ao primo rico, e até tiveram a esperança de uma ajuda, mas nada. O governo poderia dar assistência, mas ele não queria. Até que também não dava muito trabalho para ela tendo em vista que não era alcoólatra chato, muito pelo contrário ficava bastante carinhoso com ela e no auge da bebedeira o máximo que fazia era dormir roncando.
Brigavam nas poucas horas em que ela estava em casa. Mas ele era a única pessoa na vida dela. Ele e seu primeiro filho, cujo dor da doação nunca cicatrizara nela. Algumas vezes culpava o marido pela dor e na maioria das vezes se culpava.
Jack nasceu em Toronto em uma tempestade de neve. Nasceu na casa do primo de Amanda em uma cama bonita e confortável. Os pais se olharam. O Sr.Werneck deu um gole da sua cerveja e disse aproveitando a ausência do primo da esposa:
“Eu acho que ele nasceu em um lugar ótimo! Já podemos deixá-lo aqui.”
“Aqui?!”
“Claro, dá para o seu primo. Você sabe, não temos condições nenhuma de sustentar uma criança agora. Pelo bem dele, vamos dá-lo.”
Amanda olhou para a criança no seu colo e olhou em volta, como se analisasse o lugar. Era uma casa belíssima, nos arredores de Toronto. Olhou novamente para o filho e sentiu lágrimas descerem dos olhos. Sabia e muito bem da realidade que vivia. O governo lhe daria um cheque, mas não seria o suficiente para ser uma verdadeira mãe, acreditava ela. Estava assustada.
“Acho que você tem razão. Não podemos criá-lo bem nas nossas condições. Conversarei com Harold.” Deu o bebê para a enfermeira e mandou chamar o primo. Pediu a todos que os deixassem a sóis.
Harold chegou perguntando se estava tudo bem e viu que a prima chorava muito. Sentou-se ao seu lado e colocou as mãos nos seus ombros. Amanda tentava entre um soluço e outro falar. Ele a acolheu carinhosamente nos seus peitos e tentou acalmá-la. Ela respirou fundo, tomou coragem e disse:
“Hal... eu preciso muito de você! Preciso que fique com Jack.”
“Você tem certeza disso Amanda?”
“Tenho... você e Christine nunca tiveram filhos, e eu acho que vocês seriam os pais ideais. Você sabe dos meus problemas com Richard, jamais teríamos condições de sustentá-lo.”
“Acho que posso te dar essa força. Por você, por que você sabe o que eu penso desse cidadão.” Ele pegou a criança e saiu do quarto.
Amanda estava só, acabara de gerar uma vida mas estava só. Parecia que tinham lhe tirado um pedaço dela. Chorou muito e pediu para nunca mais ver o filho, apenas queria notícias sobre seu desenvolvimento. Voltaram para Winnipeg. Richard sentia um alívio imenso no peito enquanto ela sentia um peso incalculável.
Voltaram ao velho apartamento. A vida voltou quase ao normal. Quase porque o tempo todo Amanda pensava em seu filho muitas vezes por dia. Pegava as poucas roupinhas que tinha feito para ele e ficava namorando-as. E sempre quando estava triste em casa a noite seu marido chegava bêbado e era um amor com ela. Acolhia ela e confortava muito sua dor. Ela então passava a agradecer pelo marido que tinha. Sentia-se uma mulher fraca e precisava dele sempre.
Algumas vezes Richard arrumou alguns empregos, mas não dava certo em nenhum, pois de manhã acordava de ressaca e a tarde ia beber. Quando Amanda brigava com ele, ele se derretia em lágrimas e pedia a ela que pelo amor de Deus não fizesse nada. Dizia que precisava de ajuda mas não queria a ajuda do governo e ficava inventando coisa para ela dizendo que ele seria preso se fosse ajudado pelo governo. Ela se derretia mais ainda e sentia pena do marido ai o perdoava por deixar apenas ela manter a casa.
Todo dia deixava dez dólares para ele comprar sua cerveja. Sabia que se não deixasse ele roubaria o pouco dinheiro que tinham dentro de casa. E viveram assim por mais cinco anos até o dia do nascimento do segundo filho, Smith.
Smith J. Werneck nasceu em um dia de muita chuva em Winnipeg, Canadá. Os pais ao invés de estarem ansiosos estavam nervosos. Não sabiam o que fazer com aquela criança. O dinheiro era curto, o apartamento era velho e o aquecedor mal funcionava.
O parto se deu em cima da cama do Sr. e da Sra. Werneck e foi feito por uma vizinha que havia sido enfermeira de um grande hospital da cidade. Os pais se olhavam com um olhar vazio, queriam aquela criança, mas ao mesmo tempo sabiam o que teriam que passar.
A enfermeira lavava a criança em uma bacia esterilizada com água morna enquanto esta chorava muito. A Sra.Werneck tinha um pensamento tão distante que não ouvia o choro do filho. Era um final de primavera chuvoso. Lembrava muito do seu primeiro filho e a pergunta O que fazer agora? nunca lhe saia do pensamento.
A enfermeira deixou a criança no berço, lavadinha. Os pais continuavam se olhando. Amanda no fundo estava feliz, afinal dera a luz a uma segunda vida. Ali tinha um pedaço dela e ela tinha uma vontade imensa de criá-lo e vê-lo crescer e se desenvolver em um homem.
“O que faremos com ele querida? Vamos entregá-lo ao Estado?”
“Jamais! Quero educar o meu filho. Esse nós vamos criar.”
“Como? Com que condições?”
“Não me interessa. O governo dá uma boa assistência com saúde e educação eu sou forte, posso trabalhar em dobro se for preciso. Mas farei por meu filho!”
“Então faça só! Eu não vou ficar ouvindo merda de choro de criança de madrugada! Vai criá-lo sozinha!” Discutiram como nunca haviam discutido antes e ele se tornou uma pessoa cheia de fúria. Quebrou um copo no braço dela. A mulher ficou chorando muito e o filho mais ainda do berço. Richard foi para a sala e Amanda começou a dar de mamar para o seu bebê.
Quando ela terminou ele entrou no quarto solenemente e veio pedir desculpas. Caiu no choro novamente com seu cheiro de cerveja. Abraçaram-se e dormiram juntos. A criança chorou de madrugada, mas Richard não ouviu devido ao seu estado alcoólico.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 13/11/2007
Código do texto: T735868

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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