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Revelações

— Sinto cheiro de chuva.
—Estás enganado, sente na verdade cheiro de revelações.
— Desde quando chuva e revelações têm o mesmo cheiro?
— As nuvens estão carregadas e de repente soltam tudo que tem dentro de si, e quem detém a verdade também pode a qualquer momento falar tudo que sabe.
— Por que está falando isso?
— Não sei, falei por falar.
— Não acredito. Espera, sua comparação não é tão plausível, pois quem detém a verdade não vai contar tudo do nada, ela precisa de uma motivação, de um porquê.
— É verdade, mas há quem revele certas verdades sem qualquer motivo.
— A troco de quê?
— Quer simplesmente deixar tudo às claras.
— Não me convenço.
— Chuvas podem trazer benefícios ou malefícios, a verdade idem.
— Tem algo para me contar? Se tem, diga logo!
— Por que está falando assim?
— Foi você quem começou, com toda essa comparação estapafúrdia. A chuva logo virá, vamos embora!
— Tem medo da verdade ou da chuva?
—Não fale bobagem. Ainda insiste na comparação. Desista logo. Não tem fundamento. Se não tem verdades a contar, então me diga quem as tem?
— Quer que eu diga mesmo?
— Óbvio, conte logo.
— Você.
—Eu?
— Uhum.
— Nada tenho a contar.
— Então por que me trouxestes para ver o jazigo da minha finada esposa? Terá sido você quem a matou por ter se casado comigo e não contigo, o exemplo do bom homem?
— Acusa-me sem provas.
— Não acusei, apenas supus, mas você acabou de se entregar.
— Mentira. Mentira. Tudo mentira.
— Engraçado como o ser humano com consciência pesada carrega dentro de si todo um peso e a qualquer choque já conta tudo, tal qual a nuvem sobre nós que derrama suas águas.
— Cala-te!
— Peça para as nuvens pararem de derramar suas águas, pois terei dificuldade para abrir uma cova.
— Vai me matar?
— Não, eu me matarei.  Não quero me sujar com seu sangue, prefiro que você carregue em sua memória a morte de um amigo.  Sabe, sinto cheiro de traição.
— É uma pena, mas você sabe que foi você quem a matou, só não quer aceitar. Bem que você disse, o ser humano com consciência pesada na verdade prefere não aceitar a realidade que não tem volta e ainda tem a capacidade de culpar outros.  Isso muda tudo e passa a ter cheiro de arrependimento. Eu como amigo, vou deixar que se mate, pois continuar vivo com essa dor não é fácil, será como uma chuva carregada que não pode derramar suas águas. Vá com paz e que essas águas irriguem essa terra que seu corpo repousará, dela nascerá verdes ramos de esperança de que as pessoas aceitem os fatos como são. Verdade seja dita, o arrependimento é um sentimento que inquieta a alma humana.
— Belo discurso! Agora pode ir em paz! – e o tiro de revólver dispara ao mesmo tempo em que um trovão explode no ar.

28/11/07
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 28/11/2007
Código do texto: T757095
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 34 anos
1514 textos (44527 leituras)
6 e-livros (1682 leituras)
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Miguel Rodrigues