Amor Morto

Há um tempo. Ele passa sem interromper e sem se importar. Faz mover nossas vidas, como o vento nas velas de um barco. Mas, não é para sempre que devemos andar, é preciso saber parar, deitar-se e morrer.

As cartas do irmão ficavam em uma caixinha de madeira ensebada no mais fundo espaço do maleiro. Pensavam que se ficassem ali e ninguém pensasse nelas, deixariam de existir e, quem sabe, levariam seu remente consigo. Não eram lidas, nem abertas, simplesmente tentavam empurrá-las para o esquecimento mofado, mas não morto. Os homens são assim, mas as mulheres são anormalmente proficientes. Sempre tentando moldar a realidade, mesmo que para tal seja necessário lançar mão de métodos não convencionais. Mentir, esconder, proteger. Tudo para o bem de todos, isso é o que elas pensam. Na verdade, pensam mais em si mesmas do que em qualquer outra coisa. Exemplo disso são as irmãs do remetente. Sim, as três, não há uma gota sequer de diferença entre elas. São mesquinhas e egoístas, embora não seja fácil perceber esses pecados no meio de tantos cuidados redobrados e preocupações excessivas.

Primeiro a casa. Os lugares transformam-se, como se em alguma parte, sob algum tapete ou dentro de algum armário, pulsasse vida. Em alguns casos, eles são mais vivos do que os seus moradores, suas vidas são mais livres, libertas da rede infalível que nos impede de ir contra a correnteza, mesmo quando o vento-tempo sopra para lá. A casa mudou, acompanhou com olhos velados e mudos o que se passava em seu coração. Lamentou e comemorou, como se assistisse a um filme de muito mau gosto. A terra dos canteiros da varanda morreu e matou as plantas, azaléias vermelhas foram arrancadas, sem sangue e sem dor, pelo abandono, único jardineiro. A tinta descoloriu, roubaram-lhe a força e jogaram fora, trouxeram para a superfície o marrom sujo e vergonhoso. A árvore da calçada morreu sozinha, sem assassino, espada ou veneno; murchou sem coração para bater. Tudo morreu? Não, elas não morreram, mas deveriam, pelo menos, uma delas. Moravam cinco mulheres. As três bondosas e pedantes irmãs, a filha mimada, ingênua e gorda de uma delas e a Flor.

Para todos, para aqueles que estão à deriva na superfície, um apelido carinhoso, cuidadosamente escolhido. Realmente, não há motivo para discordar. Mas certamente há mais nesse mar viscoso do que superfície. Fundo, no abismo, onde as coisas se alargam, é possível divisar escondido, algo que o apelido se esforçava para perder. Com certeza, fora meticulosamente escolhido e com um significado perfeito sob a derme. Ela era uma flor, a florzinha de suas filhas, tão linda e frágil, escravizada pelo amor alheio, presa na rede até o pescoço. Como uma flor quase sem vida para viver, imóvel, bebendo sem ter sede dos cuidados impiedosos das filhas amorosas e cegas. Amarrada pela velhice a uma cadeira, a uma sombra de vida que não mais era sua. Roubaram-lhe a vida e esconderam a morte, era ela quem tinha que estar no limiar da vida, o suspiro da vida deveria ser o sorriso desdentado da morte, a morte morta e não a morte viva que há anos apoderara-se da Flor.

As donas da Flor, suas zelosas carcereiras. Fracas, medrosas, presas a saia de uma mãe artificial que elas insistem em reconstruir, reparar e manter quase morta. Talvez, seja possível separá-las, pelo menos para dizer quem são. A mais velha já vivera demais ao lado da mãe, por que não deixá-la se despedir? É só erguer a mão e dar adeus, não é preciso dizer nada, palavras doem e gostamos de evitá-las, matar elas podem. Estatura baixa, atarracada e sorridente, sorriso de dever cumprido ou cumprindo, dever comprimido demais, muito mais do que deveria ter sido. Nunca foi a lugar algum. Nenhum homem, nenhuma festa ou amiga. Só andou calçada pela superfície, tinha medo de se molhar. A outra, a do meio, tinha vida sua e abandonou, fugiu, saltou das nuvens. Casou-se e separou-se, amou e deixou morrer, por que não deixa a Flor também? É mãe, mas não é. Não passa de uma criança, magra e velha. Espichada e ranzinza. Tem ciúmes da filha, na verdade, não gosta muito dela e não se importaria muito se a roubassem de vez, mas teriam que levar tudo, roupas, sangue e olhar, e levar para longe, sem condições de voltar. Tem medo, todos têm afinal, de um dia não poder afundar, de começar a se afogar e a mão bondosa da filha vier lhe salvar e viva permanecer, morrendo para sempre. Por último, a desconhecida caçula. Tão pouco tempo viveu ao lado da mãe que nem mesmo a Flor é capaz de se lembrar, esqueceu-se. Por que ela não se esquece também? É pequena demais, delicada e carente para viver por si só. Precisa de alguém para lhe ajudar a atravessar a rua e servir-lhe a comida. Certamente, nunca viveu, ainda é um feto. Uma pequena criatura de vida inconsciente, enrolada ao redor de seu próprio corpo. As três parecem crianças? No abismo realmente são, mas não na superfície, são senhoras. 55, 50 e 47.

Cuidam da Flor, torturam-na. Levam comida na cama ou na cadeira, ela não vai a nenhum outro lugar, mesmo se fosse, elas iriam atrás. Preparam-lhe suco e contam seus remédios para não faltar nenhum comprimido. Trocam-lhe a roupa, vestem agasalhos e dão banho. Dormem com ela, dedicadas e carinhosas. Colocam-na no sol, colocam-na na cozinha, na sala. Levam, primeiro a cadeira, depois carregam o brinquedinho das três filhinhas. Cabelo escovado, olhos esbugalhados e opacos, boca seca e vazia. Mente confusa que busca refúgio seguro no passado em que ainda era viva. Esconde-se em sua infância e mal vislumbra a realidade dos outros, pois, a sua, é onde ela está viva e viva, aqui ela não é mais. Vez ou outra fala dos cavalos, dos biscoitinhos assados, das vacas e das galinhas, com uma ameaça de sorriso sincero, um ínfimo momento de sobriedade verdadeira. Não gosta de mentir, mas é obrigada a fazê-lo. Mente para o mundo, diz que está viva, não há outro jeito, seu coração teima em bater. “Pára, pára, pára”. Chora entre os travesseiros enquanto ainda lhe restam lágrimas. Quem são aquelas mulheres perdidas em tanto amor? Serão minhas meninas? Amor demais, amor demais, o que é isso? Não é o mesmo amor, é outra coisa, triste e obstinada, má. Tudo se move em câmera lenta e ela não vê a hora de tudo parar de vez, de fechar os olhos e ninguém lhe chamar, morrer livre, sem ter que pedir permissão e com silêncio ao redor. No passado, não havia apenas meninas, havia um garoto branquelo. Onde ele está?

Dia de tempestade. Quase manhã molhada, pois ainda não havia mais do que dedos ensolarados enlaçando a noite fugidia ou o que restou dela. O suor escorrendo pelo rosto mergulhado no pesadelo, José acordou, enfim, havia ar para respirar. A mulher dormindo serenamente ao seu lado, como se estivesse em outro mundo, aliás, ela sempre estivera em um mundo diferente do dele. Sentou-se na cama, precisava voltar para casa. Viajou sozinho e não havia nada em sua cabeça, senão uma frágil mãe delirante que cruzara a distância das duas cidades e enlouquecida afundara até contaminar um de seus sonhos. Não parou na porta da casa. “Será que era ali mesmo?” Atravessou toda a rua com os olhos pousados na fachada marrom hipnotizante. Parou e pôs-se de pé diante da porta de vitral colorido, a mesma da sua infância. Ainda indeciso, apertou a campainha. O som estridente e familiar chamava o passado, o fantasma dos anos antigos, descarnado e faminto. José esperava de pé e certamente não era corajoso o bastante para tal. Ouviu os passos do fantasma, vinha devagar. Enganou-se ao pensar que seria emboscado, seu algoz viera de frente e com a chegada anunciada. Um cachorro começou a latir e as chaves giraram do lado de dentro. “Mamãe!!! Tem um homem aqui fora!!!”, a menina gritou ao vê-lo, deixou apenas uma frestinha aberta, por onde o fitava com um misto de entusiasmo e medo. Vieram ver o motivo da gritaria, finalmente, veio o fantasma, um deles, pelo menos. A surpresa não poderia ser menor. Mirou nele um par de olhos apáticos, feitos de algum sentimento muito parecido com uma porção de ódio bolorento. José, por sua vez, forçou um sorriso plástico. “Estou aqui para ver a nossa mãe”, ele fez as palavras saltarem entre os dentes. Por um instante ela quis não deixá-lo entrar, mas isso não era uma opção, já que ele também era filho da Flor. Sem dizer nada, deixou que ele entrasse.

A casa pareceu-lhe estranha. Os mesmos móveis, os quadros, os enfeites eram os mesmos. No entanto, o semblante era outro, o egoísmo escorria pelas paredes, respingava no assoalho e cheirava a desprezo. Os pensamentos emaranhados de José rastejavam por todo o seu corpo, sob a pele, como cobras de couraça espinhenta. Por um instante imaginou que tudo ao seu redor houvesse parado, parecia que o vento-tempo havia engasgado e enquanto não recuperasse o fôlego, mesmo que isso durasse apenas alguns momentos, ficaria sem soprar. Nesses fiapos de tempo, e eles foram o bastante, sua mente percebeu, como se houvesse estado presente quando aconteceram, as maldades e o terror que moravam ali. Estremeceu, um frio repentino, neve vermelha de covardia, de sangue derramado, não sangue de verdade, sangue da alma, do fundo dela. Uma lágrima pingou no assoalho, ele estava chorando, não percebera. As outras duas irmãs fantasmagóricas estavam diante da porta do quarto da mãe, montavam guarda. Olhavam de lá, cínicas e medrosas, como se ele, o pequeno irmão, fosse um ladrão que planejasse roubar seu tesouro. José, mais uma vez, não teve medo, continuou. Não olhava para elas, seus olhos não enxergavam o que estava diante deles, nada, só vermelho puro e amor perdido, distorcido. Elas se entreolharam e receosas se afastaram da porta. Ele abriu-a hesitante, sabia o que teria que fazer, respirou, sentiu o ar preencher seus pulmões e entrou.

Ao vê-la, não disse nada, a Flor também não precisou dizer. Aproximou-se vagarosamente, os olhos fixos no rosto ossudo e frágil. Um azul fluido germinou e tingiu tudo o que via, um conforto sólido abraçou-o com carinho, talvez fosse a Flor que quisesse abraçá-lo. Ela olhou do fundo de sua agonia e ele retribuiu o olhar com uma tristeza sem tamanho. Um toque de olhares, momento em que as mãos invisíveis que nos fazem enxergar encontram outras, trocam palavras secretas na língua dos Deuses, silêncio. Não havia outro jeito, ele percebeu. As lágrimas voltaram, dessa vez, ele quis chorar, precisava de força.

Do lado de fora, ouviram o tiro, entraram preocupadas imediatamente, a porta não estava trancada. José ainda apontava o revolver para a Flor. Ela estava deitada, morta e livre. Finalmente, azul.

Mais difícil do que partir é ficar e se despedir. Mais difícil do que morrer é deixar morrer. A morte não sabe chorar, ela apenas sorri, mesmo enquanto todos se desesperam. Mais difícil do que morrer é matar, ainda mais quando não há outro jeito. Amor demais, amor demais, o que é isso? Não é amor. Amor nunca é demais, é na porção certa. O amor não está em quem amamos, ele está em nós mesmos. Fundo, no abismo, onde as coisas são pequenas e brilhantes. Nós morremos, precisamos morrer, mas o amor não, ele continua.

Fillipe Evangelista
Enviado por Fillipe Evangelista em 26/12/2007
Reeditado em 30/12/2009
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