Réveillon

Ela abriu a gaveta e não hesitou em guardar um volume dentro do bolso esquerdo da calça jeans que usava. Penteou os cabelos pretos e crespos diante do enorme espelho. O black power estava quase perfeito. Passou o laquê por cima para deixá-los fixos. Era a primeira vez que deixava o cabelo como tal. Começava ela a se aceitar desde que nascera. Por muita pressão da mãe, das tias e das primas – que não tinham cabelos considerados “ruins” – por muitas vezes resolvia alisá-los. Dessa vez não iria ceder. Passou um batom de tom escuro sobre os lábios.

Faltavam cinco horas para a virada do ano e Stela não saberia o que dizer àquelas pessoas que conheceriam sua casa nova pela primeira vez. Insistiu tanto aos pais que não fizessem a passagem com seus parentes, mas os patriarcas queriam exibir a casa nova comprada com tanto esforço. Muitas vezes, quaisquer ganhos oriundos do esforço no capitalismo têm que ser mostrados como troféus àqueles menos entusiasmados com as nossas conquistas, pensou ela.

Desligou o rádio de seu quarto – que tocava uma música de Lauryn Hill. Apagou as luzes e desceu as escadas da bela casa que haviam comprado perto do centro da cidade. Era a única família negra da vizinhança. A diferença era que a mãe tinha a pele clara – pois puxara os traços do pai como outras duas irmãs. Já os irmãos, pareciam à mãe. Dessas situações que um bom livro de biologia pode explicar com mais precisão.

Ao chegar à sala de estar, foi advertida pela mãe:

- Filha, me ajuda a preparar a mesa, por favor – exclamou a mulher, que corria ao fogão ver se o peru estava assando perfeitamente. Fazia horas que ela estava ali, a cozinhar.

O pai, que não movera-se um só instante de cima do sofá, assistia ao telejornal – como quem esperasse que a comida pôr-se-ia sozinha sobre a mesa. Não demorou muito, desligou a tevê e abriu o jornal do domingo passado.

Stela lhe perguntou:

- Tio Pedro e companhia virão?

- Claro, seu tio não perde a oportunidade de comer de graça na casa dos outros!

- Pior que ele são teus sobrinhos...

- Teus primos – resmungou o homem, a virar uma página que mal acabara de ler.

A mãe ouvia um samba na cozinha – que embalava a feitura da refeição. Estava entusiasmada. Sempre fora cear em casa das irmãs ao invés da sua própria. Suas casas anteriores eram sempre tão pequenas que mal cabiam Juvenal, Stela e ela.

- Tem alguma coisa para beliscar, Claudia? Estou com fome – resmungou Juvenal, novamente, a virar outra página. Chegara à página de esporte. Estava vendo as contratações que o seu time faria para a temporada do ano seguinte.

- Não – redarguiu prontamente a esposa, embora houvesse um pouco das sobras do almoço na panela.

Stela punha os pratos com esmero, mas estava a pensar nos terríveis diálogos que teria de enfrentar horas mais tarde.

- Como teu cabelo está volumoso!

- E os namoradinhos?

- Deu uma engordadinha, né?

- Já escolheu a faculdade? Tua prima está cursando nutrição na federal...

Ou algum a fazer a clássica piada com o pavê.

Coisas que a ela lhe causavam náusea só de ouvir. Porém, respirou fundo ao aprontar a mesa. Era uma mesa para doze pessoas. Dispôs ali os garfos e facas, colheres – a quem quisesse se servir de sucos naturais, copos de cristal – que Claudia comprara apenas para aquela ocasião solene – e os pratos de porcelana. Tudo isso para impressionar os parentes que chegariam. À Stela aquilo era um enfado terrível.

Por fim, sentou-se ela ao sofá, ao lado do pai, mas nada disse. Conferiu mensagens no celular, em silêncio. A vida online tampouco a aprazia. Sentia-se mais solitária que o normal sob aquele mar de informação e cultura inútil. Preferia passar suas horas a ler seus livros de ficção água com açúcar, a ouvir suas músicas internacionais ou a assistir a séries sul-coreanas. Não nutria um sentimento ufanista. Àquela idade, quem sentiria?

Não demorou muito para que a Claudia os avisasse para que cuidassem o arroz no fogão, pois tomaria banho. Ela avisou ao marido e à filha, porém, claro que a incumbência era só de Stela – se caso o arroz queimasse, a responsabilidade seria pura e exclusivamente sua. O mundo ainda era machista – ela tinha prestado atenção nisso desde que percebera que seu pai não lavava o copo que bebia, tampouco o prato que comia.

A campainha tocou. Carros estacionaram na frente da casa. Pela primeira vez em horas, Juvenal levantou-se. Recepcionaria os irmãos. A ele também lhe apetecia o fato de exibir a casa nova. Stela desligou o arroz e sentou-se apressadamente ao sofá, a cruzar os braços e a colocar seus fones de ouvido. Só levantou-se para cumprimentar os tios – que falavam algumas coisas consigo, porém ela só assentia. Devia ser o mesmo assunto de sempre: como você cresceu, como está bonita, como está encorpada. Assuntos estapafúrdios que não eram dignos de serem ouvidos.

Os primos começaram a correr pela casa nova – a perceberem o espaço grande que tinha a residência. Eram menores que Stela, porém não tanto assim. Algo que três ou quatro anos mais jovens. Ela não sabia ao certo. Nem se importava. Estava a esperar com ansiedade o horário que aquela gente ia embora dali.

Com o novo disparo da campainha, Juvenal foi receber os parentes da esposa – que eram muitos. Cumprimentou-os e ofereceu-lhes assentos à sala. Stela recepcionou-os da mesma forma que os parentes por parte de seu pai – com o fone de ouvido nas orelhas. Porém, pôde ouvir a reclamação de uma das tias maternas à outra.

- Que falta de educação – falou a tia à irmã. – Ela nem tirou o fone de ouvido e nem sorriu. Parece que estamos aqui de favor.

Stela sentiu certa satisfação em perceber a insatisfação daquela tia em especial: Irene. A irmã mais velha de Claudia. Era uma criatura repugnante.

- Por que não passaram o Natal conosco? – perguntou Irene a Juvenal.

- Ainda estávamos arrumando a casa desde a mudança – desculpou-se ele. – Tudo tão recente que...

E Claudia desceu as escadas. Entusiasmada, abraçou as irmãs e os irmãos. Abraçou os cunhados. Beijou os primos. Dizia aquelas coisas que quaisquer anfitriões diriam para agradar os hóspedes.

E as horas foram passando... Os primos ainda corriam e comiam tudo – exceto o que estava sobre a mesa, a mãe e as tias falavam sobre suas vidas e o pai e os tios comentavam sobre futebol e outras coisas estapafúrdias. Porém, sobrava algum tempo para todos mexericarem a respeito de Stela – que era a mais silente daquele ambiente. Ela permanecia incólume, inerte, sobre o sofá, a ouvir suas músicas.

Ao bater a meia-noite, todos fizeram as mesuras de sempre: abraços, votos de saúde e prosperidade e um ótimo ano novo. Nada diferente da casa de milhões de pessoas que comemoram o ano novo no dia 1 de janeiro do calendário gregoriano.

- É hora da ceia – exclamou Juvenal, que havia horas estava morrendo de fome.

Tia Irene começou uma oração que não tinha fim. Desde que se convertera, trocara o Padre Nosso e a Ave Maria por uma verborragia que irritava Stela. Foi o único momento que ela fora obrigada a tirar o fone de ouvido e a fechar os olhos – como se acreditasse em alguma daquelas coisas. Para ela, um dia a mais era um dia a mais. Por que as pessoas comemoravam o ano novo? Qual é a diferença do dia 1 de janeiro para o dia 13 de março, seu aniversário? Tais efemérides eram uma grande perda de tempo, pensava ela.

Fim da oração. Todos se sentaram e começaram a preparar seus pratos. Stela estava refém das inúmeras perguntas. Sabia que seria extrema falta de educação ouvir música durante a ceia. Por ela mesma, o faria. Mas respeitaria os pais. Ademais que já estava fazia tempo muito calada.

- Está namorando, Stela? – perguntou a inconveniente tia Irene, que sempre tinha algum assunto para puxar. Sentou-se propositalmente ao lado de Stela, pois sabia que a menina lhe tinha muitas rusgas.

Ela balançou negativamente a cabeça, sem tirar os olhos do prato.

- Essa menina não fala? – inquiriu a tia à Claudia.

- Ela deve estar tímida hoje – desculpou-se a mãe. – Responda a tua tia, Stela.

Com fúria no olhar, mirou as pupilas da tia.

- Não. Não estou namorando. Nem quero!

- E esse cabelo? – perguntou tia Irene. – Não está um pouco... grande?

Stela arfou com ódio. Não respondeu.

- E a faculdade? – perguntou a outra tia, também irmã de Claudia, a mudar o tópico. – Já terminou?

- Comecei este ano.

- Você está com...

- 18.

- Ainda é muito jovem – comentou um tio, esporadicamente, irmão de Juvenal. – Deveria fazer um curso técnico antes...

- Concordo – exclamou Juvenal -, insisti tanto. Mas com Claudia e ela não há diálogo!

E por um bom tempo o assunto acabou sendo Stela, até que alguém – um dos primos mais velho – desviou o assunto. Stela sentiu-se aliviada, pois já estava incomodada com os pitacos dos parentes sobre sua vida e suas decisões.

Começaram a falar planos para dali em diante. Sobre o que fariam naquele ano. Viagens. Projetos. Trabalho. Reformas de casa. Compras de carros mais novos. Pagamento dos impostos que aparecem sempre em janeiro. Entre outras coisas que pouco importava à Stela e aos seus primos menores.

- Está trabalhando, Stela? – tornou a perguntar Irene. – Com a tua idade, eu já estava trabalhando e...

Stela cravou um canivete no pescoço da tia. Irene começou a mexer-se, sofregamente. Caíram alguns talheres – inclusive o garfo de Stela. O sangue começou a jorrar e caiu sobre o pudim e o pavê. Stela havia acabado de retirar do bolso esquerdo o canivete que ali guardara. Estava satisfeita. A tia parecia querer falar algo, mas estava a se engasgar com o próprio sangue. Ela caiu com o rosto sobre o peru. Estava morta.

Os parentes se levantaram em desespero. Os primos correram, os tios não sabiam o que fazer. Os pais de Stela estavam horrorizados com a calma da filha.

Suja de sangue, Stela recolheu o seu garfo do chão, sem se levantar. Limpou a boca com o guardanapo – a manchá-lo com o batom de tom escuro – e tornou a comer. Estava em paz.

O melhor réveillon de sua vida.

Guilherme Zelig
Enviado por Guilherme Zelig em 04/01/2024
Código do texto: T7968490
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2024. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.