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FOBIA

O bipe irritante do celular não para de me avisar que o nível de carga da bateria está prestes a acabar. Meu desespero aumenta na mesma proporção perante a iminência desse fato. Sinto que a luminosidade azul, indispensável para minha existência, está cada vez mais fraca.

Maldita sina! Maldita viagem! Se eu estivesse na segurança da minha casa nada disso estaria acontecendo, não teriam levado a minha valise com todos os meus preciosos bens: lanternas, velas, isqueiros e fósforos.

Esse blackout que trancou-me no elevador não fornece mostras de se reverter antes da derradeira iluminação se esvair por completo, o suor gelado em minhas mãos chega a escorrer...

A imagem dele, daquela criatura nefasta, não abandona a minha mente, não me deixa em paz, traz à tona todo o terror que passei.
Brincávamos nas imediações do ferro-velho, misturados às carcaças abandonadas e toda sorte de sucata, foi quando a avistamos incrustada na parede: a abertura para saída de dejetos da antiga fábrica desativada.

Um pequeno ponto luminoso provinha do local, o suficiente para aguçar nossa curiosidade e instigar a necessidade de auto-afirmação, típica de garotos entrando na adolescência. Repletos de ansiedade, inquietação e um medo não declarado, entramos pela abertura que não possuía mais de um metro de diâmetro.

Engatinhamos por cerca de cinco minutos até chegarmos a um pavimento amplo, cujo odor fétido nos causava náuseas. Uma água de aparência duvidosa alcançava nossos tornozelos, e de uma forma inexplicável a luminosidade que havíamos vislumbrado era produzida por uma espécie de fumaça densa e de tonalidade esverdeada.

Não havia palavras que pudessem traduzir o nível de euforia que nos revestia àquela altura, quebrar regras, sair do lugar comum, tudo nos tornava maiorais, teríamos motivos para nos gabar com os demais amigos. Mas, algo estranho e inesperado aconteceu, algo que eu lamento e que me atormenta até hoje.

Lembro bem que Luís foi o primeiro a notar aquele ruído peculiar, lembrava o cricrilar de inúmeros grilos, logo o som tomou conta de todo o ambiente e a valentia da qual nos orgulhávamos diluiu-se imediatamente.

Nos agrupamos ao máximo, Maxi, que estava logo ao meu lado, gritou repentinamente, algo o havia agarrado pelas pernas, até hoje tenho pesadelos com o seu rosto apavorado me olhando. Eu poderia ter tentado ajudá-lo, mas o pânico havia congelado os meus movimentos, ouvimos sua voz ao longe, mescla de choro e grito, em seguida, algo parecido com o som de ossos sendo triturados.

Fora a senha para um desencanto, começamos a correr, sem olhar para trás, pois não possuíamos coragem para tal, pude ter a certeza absoluta de que algo nos perseguia. A luminosidade era completamente nula. Sem fumaça brilhante. Nada. Só a escuridão total e absoluta. Corríamos às cegas pelo chão encharcado, Ricardinho gritou, e dessa vez virei a cabeça para olhar, fato que me arrependo amargamente. Eu via flashes, rápidos, curtos, como uma sucessão de fotos. Olhos grandes e arredondados, pele levemente reluzente, dentes, muitos dentes, o sangue espirrava pelo ar...

Luís me agarrava pelos braços, estava desesperado, nessa hora meu instinto me fez empurrá-lo, o garoto foi ao chão e lá ficou, corri, corri com toda a força que minhas pernas eram capazes de produzir, uma voz me dizia que eu não escaparia, que eu poderia correr, mas que a fuga seria impossível.

Ignorei tudo isso e continuei a correr, deixei o cricrilar, os gritos e o pânico para trás, parecia que eu estava em um longo corredor. Aquela sensação de perseguição retornava com mais intensidade e com isso eu apertava mais e mais o passo, a coisa parecia gargalhar perante a minha aflição, ela se aproximava.

Caí e deslizei com o auxílio da água lodosa, senti o deslocamento de ar às minhas costas, a criatura me alcançaria, no entanto, nada me aconteceu. Então percebi que um filete de luz escapava por uma fresta de um bueiro semi-aberto, e essa simples luminosidade impunha uma barreira intransponível entre nós.

Na escuridão eu conseguia notar apenas as grandes órbitas amareladas e ameaçadoras, sentia toda a ira e maldade a apenas alguns metros de mim. Comecei a saltar na tentativa de alcançar a borda da abertura, o ser debochava, insisti inúmeras vezes até que as pontas dos meus dedos agarraram o concreto armado e até hoje não sei como consegui erguer meu corpo e deslizar a tampa para o lado, deixando o sol forte de Janeiro preencher a escuridão aos meus pés, não olhei novamente para lá, simplesmente desmaiei.

Quando acordei estava em um hospital, obviamente ninguém acreditou no meu relato, todos creditavam ao trauma ocorrido pela confusão do depoimento. Atribuíram a um maníaco as mortes no subterrâneo. Nunca mais consegui conviver com a escuridão, nunca mais tive paz. Mantive sempre alguma luz perto de mim durante a noite. Não freqüento boates, cinemas ou coisas do tipo, perdi inúmeras namoradas por conta disso.

Agora estou aqui, enclausurado nesse elevador com a fraca iluminação do visor do telefone a fazer-me companhia, e ela esta me abandonando, me deixando a mercê da malévola criatura que jurou me alcançar. O bipe continua, tenho a impressão de começar a ouvir a sinfonia dos grilos, vejo uma névoa esmeralda escapar pelas aberturas nas paredes metálicas. Fecho os olhos tomado pelo desespero, sinto algo apertar minha nuca, queimar a pele do meu pescoço, lágrimas escorrem sem receio. O celular apaga e de forma doentia e sádica o elevador coloca-se em movimento acompanhado pelas luzes internas, sinto um alívio imediato no corpo.

A porta se abre e saio em disparada, preciso achar uma loja para comprar uma lanterna, faço sinal para um táxi e peço para o motorista me levar imediatamente para o aeroporto, lá comprarei o que preciso e partirei para casa o mais breve possível.

- Para onde você está indo, rapaz? Conheço um atalho, o trecho está interditado, mas consigo passar e chegar num instante ao aeroporto...

- Não amigo, eu não passo por tún...

Tarde demais, o veículo havia mergulhado no imenso caminho escuro e abandonado, o carro para no meio do percurso, completamente apagado, começo a chorar.

- Calma patrão, deve ser a bateria , já dou um jeito nisso...

- Já é tarde demais...

- Que barulho é esse? Parece um monte de grilos?!? O que é isso?!?

Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Flávio de Souza
Enviado por Flávio de Souza em 26/06/2009
Reeditado em 23/11/2009
Código do texto: T1668870

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Sobre o autor
Flávio de Souza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 45 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/09/20 00:47)
Flávio de Souza