Malaquias (19)

A atmosfera venal do interior do Sol Morto não iria deixar muitas saudades a Malaquias, o Grande, a não ser pelas gordas pipocas, não pelos tremoços, nunca pelos tremoços, que sabiam a terra pantanosa, e mesmo a vontade de voltar para trás e pedir mais um balde de saboroso milho implodido e salteado e barrado em manteiga desvaneceu-se da sua mente vigilante assim que ele se apanhou mais uma vez cá fora, na ambiência empoçada das artérias do meretrício e da mercancia de estupefacientes, tudo feito às claras, embora estivesse sempre escuro na Cidade Baixa ou, na melhor das hipóteses, pardacento, o que vinha a dar ao mesmo, e se Malaquias fosse a autoridade por ali aqueles vermes logo viam a força bruta do longo braço da lei, aqueles lombricóides sub-humanos depressa aprenderiam a comportarem-se como cidadãos decentes e bem apresentados, Malaquias até estava tentado a tomar a si a árdua tarefa de lhes ensinar o bê-á-bá da rectidão, ou não tivesse ele passado trinta anos do outro lado das colinas a manter a mole humana na linha, mas isso era do outro lado das colinas, ele agora estava do lado de cá e tinha outros assuntos em mãos para resolver, coisas pendentes, nomeadamente o Palhaço, sim, o Palhaço, patife indómito, mastigador dos seus parentes, assassino em série de difícil apanho, que o atraíra àquele buraco fundo, imundo, aberto no meio do mundo, agitando-lhe à frente das faces avermelhadas a reduzida possibilidade de ainda conseguir salvar um dos seus sobrinhos, a metade ainda viva, talvez, dum par de gémeos, um com e outro sem, impossível saber qual deles ainda tinha pulso sem ir ao covil do assassino e ver pelos seus próprios olhos, aqueles que a terra, um dia, tinha o seu consentimento para comer, não o Palhaço, nunca o Palhaço, que já comera o suficiente, já comera por todos os anos de vida que lhe restassem, não eram muitos, não eram nenhuns, se dependesse de Malaquias o Palhaço não voltava a ver a luz do dia, quanto mais a Primavera seguinte, se dependesse de Malaquias o Palhaço não voltava a ferrar o dente nalguma criançola ingénua, que a infância não era nenhum jantar volante para ninguém, a petizada merecia crescer, não ser digerida, e em nome de todas as crianças do Mundo Malaquias ia pôr o Palhaço a dieta, ai não que não ia, a dieta, de chumbo, e do grosso, e de sanduíches de nós dos dedos, dos dedos dele, dele, Malaquias, Malaquias, o Bombardeiro, Malaquias, o diplomado nutricionista acabado de chegar à Cidade Baixa com complicados cálculos de calorias a nadar-lhe no mar agitado do seu cérebro, enquanto seguia do passeio o rapaz que seguia no meio da estrada, mais uma infracção no livro de regras do bom peão, o rapaz que o viera buscar ao Sol Morto e prometera levá-lo até ao assassino e com quem a certa altura trocou estas breves impressões:

“Quem és tu, puto?”

“Tattoo.”

“Quantos anos tens?”

“Treze. Sou pequeno para a idade.”

“Como conheces o Palhaço?”

“Por causa da minha mana.”

“Fez mal à tua mana, o Palhaço?”

“Trincou-a, mastigou-a, roeu-a, mordiscou-a, engoliu-a, digeriu-a e no fim evacuou-a. Os meus pais tiveram de reconhecer os restos mortais da minha mana através das fezes tipo fartura que o Palhaço deixou a boiar na sanita do infantário.”

“Não puxou o autoclismo?”

“O Palhaço? Não.”

“Sacana.”

“O meu pai é que puxou. Foi o único funeral que a minha mana teve.”

“Sacana.”

“Cuidado com os anjos.”

“Anjos? Que anjos?”

Assim que Malaquias colocou a dupla interrogação impregnada de estranheza no extremo inferior deste lacónico colóquio, algo se precipitou nem um metro à sua frente, vindo de cima, vindo de muito alto, algo que explodiu com um ruído seco e molhado, rebentando como um saco cheio de fluidos viscosos que se esparramaram nas pernas das calças de bombazina azul de Malaquias, que deixaram de serem azuis, ficaram mais parecidas com os tons mais escuros do magenta, e quando Malaquias percebeu finalmente o que era que viera a abrir do céu de chumbo e que por pouco não tinha logrado atingi-lo, apressou-se a juntar-se a Tattoo quase no meio da estrada, os sapatos embebidos em porções gelatinosas de sangue tipo O do tipo que decidira pôr fim à sua vida, sem dúvida a isso levado pelo ambiente opressivo da Cidade Baixa, pelas nuvens sem sol, pelos dias sem luz, pela loucura que cansava um gajo que se demorasse muito por aquelas paragens, pelo desespero que essa loucura engordava, Malaquias não precisava que lhe fizessem um desenho, ele próprio experimentara essa loucura em primeira mão quando a mulher, falecida ia para algum tempo, o acompanhara espiral abaixo no caminho para cá, lhe moera o juízo duma forma que nunca em vida fizera, e depois abrira a porta do carro e desaparecera na multidão de mortos-vivos que habitava aquele círculo do Inferno, profundo, onde os anjos iam cair e, Deus, aquilo no seu sapato serra mesmo parte da massa encefálica do desgraçado?

Malaquias preferiu não descobrir que partes daquele anjo tinham ido parar ao seu guarda-roupa, procurou concentrar-se no problema de encontrar o Palhaço, focar a sua atenção no Palhaço, esquecer os miolos de maníaco-depressivo que faziam os seus sapatos soar como se estivesse a atravessar um rio com eles calçados, slosh, slosh, macerando as memórias do suicida a cada passo, seguindo o miúdo chamado Tattoo, como o tipo baixinho da Ilha da Fantasia, outro suicida, tentar esquecer o suicida, olhar para os topos altos dos prédios negros, tentar parar de tremer, Malaquias, o Grande, não tremia, era aquele lugar maldito a mexer-lhe com os nervos até ali de aço, a Cidade Baixa a tentar influenciar o seu estado de espírito, a tentar e a conseguir, Malaquias abstraiu-se da humidade peganhenta que sentia nas pernas das calças com novo diálogo trocado com o miúdo, que era mais um monólogo, que Malaquias não arriscava a falar não fosse Tattoo perceber o quanto a sua voz tremia, e o que o miúdo disse foi muito parecido com isto:

“A mãe enlouqueceu. Nem tinha feito um ano da morte da minha mana quando se tornou um anjo na calçada. Manchas de sangue nos sapatos de estranhos. O pai tinha muito menos curiosidade nos prazeres do voo livre. Afogou-se na garrafa. Demorou mais tempo mas pelo menos morreu alegre. Fiquei sozinho neste lugar. Há dois anos que procuro o Palhaço. Acho que o encontrei. Vai ajudar-me a matar o Palhaço?”

Malaquias acenou afirmativa e distraidamente, olhava em frente, para o passeio oposto daquela avenida larga onde uma mulher estava parada de pé a mirá-lo, era a mulher dele, a falecida, ainda no vestido com que fora a enterrar, ainda a olhá-lo com desaprovação nos olhos, a cobrar-lhe pelo desprezo que ele toda a sua vida demonstrara pelos mais novos, o desamor pela ideia da paternidade, a alergia à mesma, para tristeza da falecida, único amor da sua vida, por quem faria tudo menos fecundá-la, isso não, que a entregara à morte em grande estado de depressão, negando-lhe descendência, e agora ali andava ele, quase de mão dada a um rapazinho que não lhe era nada, mergulhado na demência da Cidade Baixa por causa dum sobrinho que nunca lhe dissera muito, Malaquias devolveu o olhar à mulher, juntando-lhe uma promessa muda, a de ir à procura dela quando o assunto com o Palhaço estivesse resolvido, ir à procura dela e irem-se os dois embora daquele sítio escuro e desesperado, e a mulher encolheu os ombros a mais aquela promessa dele e pôs-se a andar pela calçada na direcção contrária como quem dizia que não queria ser encontrada, ele que ficasse com o miúdo, o tal que estava a falar e a dizer coisas neste género:

“Aquela senhora, é alguém que conhece?”

“É a minha mulher.”

“Ah.”

“Está morta.”

“Ah.”

“Estou a enlouquecer, puto?”

“Está.”

“Porquê?”

“É a Cidade. Não se preocupe.”

“Não?”

“A vida e a morte são só mais dois estados de espírito na Cidade Baixa.”

“Que porra.”

“Também vejo fantasmas, às vezes. A minha mana vem ter comigo quando estou mais triste. Incentiva-me a continuar a minha busca. Sem a minha mana, nunca teria descoberto onde se esconde o Palhaço.”

Continuaram a andar, Malaquias cada vez mais febril, pelo meio da estrada onde poucos carros passavam, e os que passavam não traziam ninguém ao volante, ninguém que Malaquias identificasse como ser humano, eram mais almas gastas com olhos abertos, que davam pena ver passar, até que deixou de olhar, olhos apenas postos no caminho que levou a um desvio, Tattoo a guiá-los para uma rua transversal e retorta e mais escura ainda de prédios mais baixos mas inclinados para a frente, janelas iluminadas por luzes fantasmagóricas, fracas, fracas como Malaquias se sentia fraco, ausentes como Malaquias se sentia ausente, os passos molhados dele a deixarem pegadas húmidas de sangue e tripas de anjo, o estômago às voltas como uma máquina de lavar, pipocas e tremoços semi-digeridos a subirem-lhe à boca e ele e engolir tudo de volta, azia para todos os gostos, quente e amarga, subiram a rua íngreme em silêncio, o coração a palpitar entre as mamas masculinas de Malaquias, o ar a faltar-lhe, a transpiração a manchar-lhe o colete, até que Tattoo parou e esticou o braço e o dedo e disse:

“É aqui.”

E esse “aqui” era uma escola primária em ruínas.

Nuno Lopes
Enviado por Nuno Lopes em 24/05/2010
Código do texto: T2276579
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