Desenho animado

Ali estava ele mais uma vez. Parado no final do corredor. Me olhando e depois sumindo rapidamente como das outras vezes.

Mas não, não podia ser real. Ele era um desenho animado. Seu rosto arredondado e com um sorriso que parecia um risco feito com caneta piloto indo de um canto ao outro.

Não era a primeira vez que ele aparecia.

Eu não havia comentado com ninguém. Tinha medo que rissem de mim.

Alguns dias se passaram e não o vi mais.

Achei que tivesse me deixado em paz e que minhas orações pedindo que ele fosse embora tivessem sido atendidas.

Mas...

Um dia pela manhã quando eu estava me aprontando para ir para a escola senti uma presença estranha em meu quarto ou próximo dele. Não uma presença física mas algo sobrenatural.

Olhei para todos os cantos e não vi nada.

Mas de repente notei pela porta entreaberta do quarto que alguém me observava.

Era ele, com seu rosto redondo e aquele sorriso desenhado no rosto.

Ficou ali parado a me olhar.

Senti medo, coisa que nunca sentia das outras vezes que o vi.

Apesar do sorriso, seus olhos expressavam raiva.

Ele estendeu os braços para mim como se pedisse para que eu pegasse em sua mão.

E apesar do medo caminhei até a porta onde ele estava e tremendo por saber que aquela cena toda não poderia ser possível, aquela ser era um desenho animado. E estava ali na minha frente.

Senti que ele tentava sorrir, mas algo não deixava isso acontecer.

Senti sua mão fria tocando a minha. O medo que eu sentia aumentou.

Para meu desespero notei que ao tocar em sua mão as minhas também estavam se tornando em desenho. Eu via perfeitamente isso acontecendo.

Surreal é a palavra correta. O pavor tomou conta de meu ser. Tudo ao meu redor estava se transformando em desenho animado.

Eu era um desenho até os cotovelos já.

Minha voz não queria sair. Tentei gritar.

O sorriso no rosto daquele ser ficou sinistro. Ele deu um passo para trás me puxando.

Atrás dele era tudo escuro. Não havia nada lá.

Tentei me soltar e nada. Ele me puxava.

Fechei os olhos no auge de meu desespero e implorei a Deus com todas minhas forças para que ele me livrasse dessa criatura e desse mal que tentava me puxar sabe-se lá para onde.

Senti que ele me soltara apesar de ainda manter os olhos fechados. Senti que estava caindo como se fosse um poço ou algo assim.

Tive medo de abrir os olhos, ouvia risos e gritos ao mesmo tempo.

Quando senti que havia caido em algum lugar, criei coragem e abri os olhos.

Estava sentado no chão de meu quarto e minha mãe chegando correndo e entrando no meu quarto assustada.

Ela me perguntou o que estava havendo e porque eu estava gritando.

Eu não sabia o que responder porque não sabia exatamente o que aconteceu.

Fiquei ali sentado, olhando para minha mãe sem dizer nada.

E simplesmente acabei dizendo que não sabia o que estava acontecendo e o que havia acontecido. Se foi real ou se foi sonho.

Essa foi aúltima vez que o vi. E isso foi há muito tempo atrás.

E até hoje não sei o que aconteceu naquela manhã.

Conto baseado em um relato de uma leitora Camila F.

Paulo Sutto
Enviado por Paulo Sutto em 04/06/2011
Código do texto: T3013726
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