Inferno - Parte II - A Travessia

E lá estava eu, de frente para o portão com todos os parentes e amigos me observando. Não me observavam de fora do castelo, mas de dentro dele, através do imenso portão de fogo que erigia de fronte da morada do Diabo. Suas faces, como já dissera, caminhavam lentamente pela lava que corria como cachoeira, formando uma barreira intransponível pelos seres viventes castelo adentro.

'Perdão, pai' - e entrei.

Ouvi o grito de desespero de meu pai sendo abafado pelo som da correnteza de fogo que passou a rasgar minha pele. Corroía até a alma! Com um som de dor lasciva caí de joelhos, e a lava sobre meus ombros e cabeça, banhando-me com força, arrancando cada centímetro de pele.

Era apenas o início das dores, e eu mal sabia que podia piorar.

Ergui-me com toda a força que me restava. Meus olhos queimavam embora eu pudesse enxergar. Os rostos retornaram para me perturbar. Suas reclamações fizeram-me mais irritado do que já me encontrava. Pudera! Enquanto sofria as dilacerações epiteliais pelo arder, as vozes giravam ao derredor, me dizendo para fugir ou gritando 'não' em meu ouvido, como se houvesse saída!

- Não há saída do Inferno- eu respondia, irado!

Caminhava em pesados passos por dentro do portão. Surpresa para mim foi descobrir que a entrada do castelo do Inferno não se tratava apenas de uma porta com uma cachoeira de fogo, mas sim de um longo caminho de material incandescente borbulhando. Aos poucos fui me apressando. Sentia como milhões de agulhas fervendo penetrando minha carne e repuxando, rasgando!

De repente, pelo lado direito do caminho mergulhado em lava que eu percorria aos tropeços, caindo e levantando, diversas vezes, uma imagem começou a se formar lentamente. A figura balançava-se com o mover da correnteza amarela e vermelha.

'Um menino caminhando por uma calçada larga. Atrás dele diversas lojas, sapataria, sorveteria, um jornaleiro...espere, é minha rua! A rua onde morei quando criança! E esse menino...roupa de colégio como todos os outros, mas este boné com uma âncora...era meu! Esse menino sou eu!'

Um homem jogado na rua estendia a mão. Sua bermuda rasgada, sem camisa, barbudo e o corpo repleto de feridas indicavam se tratar um mendigo. O menino passa por ele, puxa uma faca e enfia-lhe no peito, no abdômen, rasga-lhe a garganta e o sangue jorra por seu uniforme escolar. Ele ri sadicamente com a arma do crime em punhos.

'Eu não fiz isso! Nunca matei ninguém ou será que matei? Não, não! Não fiz isso!'

A imagem ampliou-se de tamanho e fechou-se à minha volta, me obrigando a assistir aquela cena! Mãe, eu nunca matei ninguém, ou matei? A senhora lavou minhas vestes encharcadas de sangue? Esse pesadelo me cercava enquanto eu caía ao solo abrasante e me rastejava como um inseto sem patas. Sentia o cheiro da minha carne queimando, bem como o da gordura. Olhei para trás para tentar não mirar aquela terrível imagem, mas para onde eu volta-se os olhos, lá ela estaria. Pelo trajeto, restos da minha pele que colavam no chão quente e derretiam.

Fechei os olhos com força, e eles ardiam demais! Abri-os e tudo havia desaparecido. Levantei sufocado, tonto, procurei uma pilastra para me apoiar mas nada havia naquele local, agora além do breu. Não enxergava nada um palmo a frente seque. Atordoado, fui caminhando para o que eu achava ser a minha frente. Cambaleava, tropeçava em meus próprios pés e seguia meu destino, seja qual fosse.

Algum tempo depois, talvez alguns dias de caminhada pelo escuro, avistei um ponto de luz fosca. Não uma luz brilhante e salvadora, mas algo menos terrorífico do que a cegueira proporcionada por este local em que me encontrava. Tentei correr em direção mas caí. Senti uma dor aguda sobre o olho. Levantei e continuei andando rumo à saída.

Enfim estava perto, mais dez passou e alcançaria o fim do túnel. Podia ver tacos lisos de madeira, em uma sala repleta de móveis também de madeira, tal qual os da época da colônia. A sala lembrou-me a de minha avó. Seria a dela? Não me lembro bem, mas ao certo aquele cenário em tons envernizados me remetia às antiguidades de vovó.

Alcancei a boca do túnel, sairia da entrada para o seio do Castelo. Parado no liame entre a sala e o caminho escurecido observava a sala que me lembrava a de minha avó. Tentei sorrir, mas a carne do rosto estava completamente queimada e repuxava a musculatura, tornando minha face rígida como pedra. Não que estivesse feliz, mas naquele momento parecia óbvia minha motivação para tal.

Primeiro passo rumo à sala foi impedido por uma mão que agarrou meu pé direito, fazendo me cair nos tacos de madeira de cara. Me puxava para dentro do buraco negro.

' Volte...volte e encare seu passado....pecador....' - sussurrava uma voz rouca e suave.

Tentava me erguer, mas mal tinha forças. Segurei no arco do portal esquerdo,feito de pedra, entrada do caminho da obscuridade. Ao fundo pude ouvir o som da cachoeira de fogo novamente, correndo, vindo de algum lugar no túnel escuro em minha direção e desesperei-me

'Está vindo!!!' Não!! Solte-me'

'ESSA É A DOR QUE SE RESERVA PARA TI! POR TER ME ESFAQUEADO HÁ TANTOS ANOS! PENSOU QUE PASSARIA IMPUNE, MOLEQUE? QUANDO TE PEDI PÃO ME DESTE PEDRA! QUEIME NO CAMINHO DE ENTRADA DO INFERNO PARA SEMPRE!'

O arco de pedra passou a se aquecer e queimar minhas mãos que se agarravam nele como uma criança na barra da saia da mãe, enquanto o espírito que saía da negritude me puxava com força para dentro. Olhei em seu rosto e vi aquele mesmo mendigo da imagem , porém como névoa, contudo concreto o suficiente para me agarrar com força.

'Minhas forças...não aguento mais, alguém ...' -eu tremia miseravelmente.

Duas mão agarraram agora meus braços, e eu desmaiei de dor e cansaço, antes que pudesse ver o que era.

Rafael do Nascimento
Enviado por Rafael do Nascimento em 24/10/2011
Reeditado em 24/10/2011
Código do texto: T3295498
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