Uivos

Cheguei tarde aquela noite. Um acidente de trânsito envolvendo um motoboy e um alguém que bebeu além do ponto causou um enorme engarrafamento. Que ainda não tinha terminado quando desci do ônibus e resolvi vir embora a pé. Cheguei tão exausta que nem vi a pia lotada de vasilhas, as bolas de pêlo voando chão a fora, o cesto de roupas cheio... Meu banho nem de longe foi quente e relaxante, se eu não poupasse energia, ela seria cortada por falta de pagamento.

Já havia me largado na cama, feita há mais de uma semana e cheirando mal pelas noites que desabei suada, sem ânimo para tomar banho. Estava de olhos fechados quando ouvi um uivo. Longo, sentido, profundo... Saltei da cama como se tivesse levado um choque e fui até a janela. À minha frente, a janela de um edifício. Ao meu lado, também. Do outro, a parede do meu próprio apartamento (apartamento? Um apertamento, isso sim!) e lá em cima, bem lá em cima, um pedacinho do céu coberto de nuvens, numa palidez mortiça. A Lua estava crescente, com um brilho opaco por causa das nuvens.

Respirei fundo aquele ar pesado e sufocante, bem diferente da minha amada cidadezinha natal. Não ouvi o uivo de novo e fui me deitar, contrariada. Dormi o sono pesado e sem sonhos de quem teve um dia estressante e mil problemas financeiros a atormentar.

Na noite seguinte, entrei em casa já devorando um pão com presunto. A fome falara mais alto. Apenas joguei água fria no rosto, amarrei o cabelo, pus um pijama. Antes de alcançar a cama, o uivo. Ainda mais carregada de emoção. Estremeci, mas o ignorei, prosseguindo. De novo. Parei. Mais uma vez. Estava me chamando? Pus a cabeça para fora da janela e busquei a direção do uivo. Onde estava o cachorro? Era cachorro? Ora, é claro que é, o que poderia ser? De rua? Em plena Belo Horizonte, não. Estaria atropelado ou na carrocinha. E que prédio aceitaria um cão que uiva tão alto? Pensando bem, naqueles formigueiros humanos com, às vezes, mais de dez apartamentos por andar e brigas constantes, alguém notaria o cão?

Ah, minha Antônio Carlos! Saí de lá em busca de emprego, vendi a casinha que herdei de meus pais para começar a vida na capital, e agora? Chorei desamparada e quis responder aos uivos naquele mesmo tom sentido, mas o impulso se foi e apenas chorei. Melada de suor e lágrimas, finalmente dormir.

Na noite seguinte, não quis voltar para casa (aquele buraco de periferia não era minha casa!), mas o cansaço me obrigou. Antes de entrar, olhei para a Lua. Quase cheia. O outro dia seria o plenilúnio.

Assim que cruzei a entrada, o uivo. Sentei-me na cama e enterrei minha cabeça nas mãos. Dessa vez, não morreu meu impulso de respondê-lo e pus toda a minha angústia e saudade na voz. Ao me sentir mais aliviada, lembrei-me dos acontecimentos de cinco dias atrás: comia um sanduíche de presunto, quando um vira-latas começou a me seguir. Parecia um lobo, mas tinha as pernas muito compridas e um tom dourado no pêlo. Com pena, dei-lhe um pedaço do meu sanduíche. Ele avançou com tal voracidade que por pouco não arrancou meus dedos. Tive que enfrentar uma fila de posto de saúde para ser mal atendida e levar uma vacina anti-rábica. Um dia inteiro para isso!

Engraçado como eu me lembrava desse incidentezinho naquele momento! Retirei os bandeides de meus dedos e não vi machucado nenhum. Desapareceram?

Na próxima noite, não voltei para o apartamento. Logo que o disco lunar surgiu triunfante entre as nuvens, corri feito louca. Não esperei o ônibus que me levaria ao metrô que me levaria a outro ônibus. Saí de lá pela cidade, era só saudades da minha terra. Encontrei o cachorro que uivava. Era o mesmo que me mordera. Senti-me tão igual a ele que me assustei. Desandei a correr sem perceber que começava a andar de quatro.

# ***

Acordei com uma solidão maior que nunca. Porque compreendi a verdade: a Lua se fora, mas eu não deixaria de ser um animal. Nunca. Pelo menos enquanto estivesse longe de tudo o que amava.

Strix Van Allen
Enviado por Strix Van Allen em 14/01/2007
Reeditado em 05/05/2009
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