Carta de um vampiro - Vampiros não morrem –  Capítulo final

Isabelly pegou o alicate que havia trago e cortou a corrente, que jazia deteriorada com o tempo. Abriu a cancela, o portal era de aço, estava bastante enferrujado, e ouviu o barulho enjoativo do ranger das dobradiças ao puxar uma das abas do funesto portão.

Sentiu certo medo, e um calafrio lhe atingiu algum ponto especifico de sua espinha dorsal. Ponto esse deveras muito peculiar, visto que nunca havia sentido aquilo, e ao mesmo tempo, era como se já o conhecesse sem o conhecer.

A moça segurou firme a alça da mochila e adentrou no aposento de Gregório. A cripta que alojava o caixão do vampiro era baixa, não media mais que um e oitenta de altura, portanto Isabelly tinha apenas um e sessenta e seis, o que a possibilitava de manter-se ereta lá dentro.

Contudo precisava varrer as teias de aranha que cercavam todo o local. O mau cheiro reinava ali soberbamente enquanto. Aos olhares de Sophie Isabelly começou a cavar o chão.

...

"Cinqüenta e seis anos antes"

Emanuelly Fontini havia ficado anos em um convento, os pais queriam garantir a melhor educação para filha. Entretanto mal sabiam que a haviam sentenciado a morte.

Dez anos em um convento onde algo muito mais rígido do que a própria igreja católica daquela época podia imperar. Um passado e um futuro muito mais sólido que uma rocha fundada aos pés de uma cruz.

Naquele lar onde o segredo maior reinava sob o domínio de um mau desolador, um incrível e trágico destino para uma jovem criança. Isabelly havia sido jogada na cova dos leões, junto a freiras endemoniadas, bruxas e seus rituais satânicos, praticando seus feitiços escondidas sob as saias justas da igreja. Ali ela aprendeu a arte da feitiçaria, ficara oito anos seguidos sem ver seus pais, todavia os mesmos se comunicavam apenas por cartas, cartas essas carregadas de cadencia demasiadamente explicita.

- Querida Emanuelly, espero que esteja sendo obediente... Blá blá blá... Querida, em quatro anos poderemos nos ver novamente, as coisas vão bem, seu pai e eu pensamos em você semana passada quando o filho do duque esteve em nossa casa... blá blá blá – a cada dia ela se perdia mais em sua solidão e abraçava a única e fiel companhia, sua nova fé e seus conhecimentos.

Lembro-me do dia em que nos reencontramos, lembrava-me apenas de uma garotinha de nove anos, linda e com um sorriso encantador. Jamais pensara que a filha do coronel da cidade ficaria tão linda.

Ela acabara de regressar de sua prisão, ganhara uma condicional, livre até o casamento, por assim dizer. Mas não sabíamos realmente com o que estávamos lidando.

Emanuelly havia me enganado, ela queria apenas me usar, enfeitiçou a mim e a todos. Precisava de mim para transformá-la em uma vampira, ela tivera uma visão, graças a um feitiço poderoso de uma das irmãs que a haviam avisado para se manter ainda assim, afastada de mim. Disse que eu cheirava a morte, e havia algo tão negro em mim que tampouco elas, as bruxas poderiam esclarecer.

Porém a ambição dela em concretizar seus planos, transformar-se naquele ser imortal era algo a beira do fascínio. No dia em que passou por Sophie sentiu que havia chegado a hora certa, e posteriormente se rendeu há mim muito facilmente.

Eu sei que perdi o controle quando a mordi, mas o sangue dela estava tão fresco aquele dia, parecia estar escapando de seus poros e na verdade ele estava. Ela havia dado pequenos furos abaixo de seu pescoço cerca de meia hora antes de nos encontrarmos e mal pude perceber na cilada que acabara de me meter.

Hoje sei que nunca a amei, tudo não passara de um maldito feitiço, entretanto me pergunto por que ela não me matou. Ela me amava?

Emanuelly ficou no caixão, fingiu-se de morta e na primeira brecha providenciou outro corpo para lhe substituir. Naquela época mulheres desapareciam pelo bosque, Martim as vezes se alimentava de alguma. Era um lobo feroz e faminto, Ana, sua esposa o amarrava as vezes, mas nem sempre as correntes continham sua rebeldia e ferocidade.

Tudo havia sido muito simples até ali, só me dei conta de que Martim era um lobisomem a partir do momento que me transformei em vampiro, como quando Sophie passou por Emanuelly, sentíamos uns aos outros. Éramos seres mais perceptivos, hiper-sensoriais, cheios de poder e imortalidade.

Emanuelly sumiu da cidade decidida a me encontrar, não sei por que queria me ter, mas mesmo de dentro do caixão eu podia saber que ela estava viva.

...

Sophie sabia que havia mais seres por ali, afinal era uma caçadora muito mais antiga que qualquer um de nós, entretanto seus poderes eram ilimitados, nem sempre se alimentava de humanos. Ao logo dos anos criou um estilo de vida diferente.

Agora assaltava bancos de sangue nos hospitais em que trabalhava. Conseguiu atingir um autocontrole impressionante para lidar com aquelas imagens todo dia. Sangue jorrando de pacientes, ela era só uma atendente, mas ainda assim, era algo grandioso.

Senti o cheiro de Isabelly, a essa altura já sabia de tudo. Não entendo por que Sophie nunca me libertou, afinal, ela sempre ia até meu tumulo e ficava ali, sentada falando e falando, e eu podia ouvi-la. Contava-me coisas intrigantes e reveladoras.

Eu era um monte de carne podre ouvindo uma vampira muito mais velha que eu choramingando as queixas da imortalidade. As vezes era entediante, outrora soava como uma sobrevida. Até mesmo para um vampiro como eu uma companhia não caia mal.

Subitamente senti que ela se aproximava. Algo bateu contra meu caixão e pude senti-la. Emanuelly, não era a reencarnação dela, Isabelly, uma garota perdida.

Alguém que não se encaixava em seu mundo, afinal tinha em seu sangue muito mais do que um simples DNA, carregava um veneno muito poderoso. Algo que despertaria um morto, e em contra partida esse veneno tão raro também poderia matar um imortal.

Ela era uma cópia, uma cópia exata de Emanuelly, e isso acontecia muito raramente. Uma velha vida gerada em uma nova vida, uma duplicata com poderes incontroláveis se chegasse a se tornar uma vampira. Porém seu sangue era um veneno mortal, uma unica gota quando misturada ao de um imortal seria capaz de matá-la.

O efeito era simples, como um vírus altamente destrutivo ao primeiro contato com o organismo do infectado ele ploriferava de maneira arrasadora e acabava com toda imunidade do vampiro ou lobisomem.

Para muitos esse era mais um mito, para um vampiro esperto, esse era um perigo eminente.

Restava saber o que ela queria comigo, e o que Emanuelly e a outra criatura que nos rondava queria com ela.

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Ele havia visto a vampira chegar, sentiu o cheiro dela no ar, podia senti-la a quilômetros de distância. Ela havia matado sua mulher e filho e ele queria vingança.

Uma mordida sua e ele poderia acabar com ela, afinal eis uma arma letal para um vampiro, uma mordida desse ser da noite. Metade homem, metade lobo.

O homem a frente do cemitério olhava para a sua vitima e raivosamente desejava estraçalhar o corpo daquela aparente mulher.

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Sophie sabia que alguém estava a sua espreita. Pensara em tudo que fizera em toda sua vida. Lembrava-se da noite em que mordera Greg e do que sentira após matar aquela mãe e filho. Lembrara do que sentira ao morder o único homem que amara na vida.

Abruptamente viu a garota entrar na cova rasa que acabara de cavar. Isabelly segurava o alicate em uma de suas mãos novamente, enquanto que na outra carregava uma bolsa cheia de sangue frio.

- Afinal quem está aqui? – pensou alto, Sophie quando repentinamente foi atacada.

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Não sei o que me deu, antes mesmo que a ultima corrente fosse cortada senti o cheiro de Isabelly. Ela estava tão próxima que mal podia esperar. Senti a tampa do caixão se movendo e a pouca luz que banhava aquela nebulosa noite já entrava gradativamente no caixão. Senti meus olhos arderem estranhamente, como da primeira vez que a luz do sol quase me cegou quando surgiu pela primeira vez após minha transformação.

Isabelly abriu a tampa mais um pouco e quando viu minhas mãos segurando a borda do caixão, jogou as bolsas de sangue La dentro e saiu correndo. Entretanto o animal a cercou enquanto que eu, me agarrei aquele apetitoso lanche com imenso e insano prazer. Por aquele misero espaço de tempo nada mais me interessava, nada mais.

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Sophie foi jogada há cerca de sete metros de distância. Podia sentir a força de sua oponente.

Há muito não a via e quando levantou os olhos e a sua frente reconheceu a bela vampira ela confirmara suas suspeitas. Usando um vestido longo, num tom avermelhado, forte e ao mesmo tempo ultrapassado, Emanuelly olhava para Sophie.

- Olá querida – ela disse num tom de voz quase irreconhecível. Parecia maquiavélico, e foi justamente aquela voz que me fizera parar de lamber o que já não havia mais naquelas bolsas plásticas. Minha fome era tanta que procurava sorver cada gota daquele sangue.

Larguei a bolsa e senti que estava me rejuvenescendo, e como se em um passe de mágica, parte de minha pele havia se revitalizado, contudo eu ainda estava longe de minha normalidade física. Olhos e bocas ainda deteriorados pelo tempo e escassez de sangue.

Eu era um monte de carne pútrida se recompondo aos poucos mas de certo já tinha forças para me levantar e ir até ela, e foi isso que fiz.

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- Você é minha! – ele disse ameaçando-a – sempre soube que viria procurá-lo. Posso sentir seu cheiro! – Não sei se aquilo assustou mais ela. Porém assim que disse isso o homem a sua frente começou a descascar, sua pele simplesmente estava se desmanchando como se algo surgisse de dentro para fora de seu corpo, brotando pelos poros. Pêlos enormes, e ossos estalando, e provocando dores descomunais.

O homem de aparência rústica, parecendo um camponês solitário, tinha barbas espessas e parecia mais velho do que a idade lhe aparentava portanto ainda que fosse um imortal, o lobisomem ao longo dos anos continuava a envelhecer, porém numa velocidade incrivelmente menor.

Isabelly estava em apuros.

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- Não vai me vencer tão fácil assim! – Disse Sophie.

- É mesmo? – ironizou Emanuelly, fazendo um estranho gesto com as mãos e convocando poderes desconhecidos até mesmo para Sophie.

A terra abaixo de seus pés começou a tremer e um forte vento circundou o corpo de Emanuelly. A vampira estava com a aparência horrenda. Seu rosto deformado pela transformação e suas veias extremamente altas pela quantidade de concentração que estava dedicando aquele feitiço.

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Não tive muito tempo para pensar. O que fazer? Sabia quem era aquele monstro. Martim não poderia distinguir uma da outra. Ele via a imagem de Emanuelly em Isabelly. Sentia o cheiro dela. Ele a queria, estava loucamente tomado pelo desejo de vingança.

Após ter me colocado no caixão e me enterrado, Emanuelly voltou e o ameaçou. Queria saber onde eu estava. Porém ele era um amigo, um grande e fiel amigo. Mas sua fidelidade custou a vida de sua querida Ana, e do filho que à mesma poucos dias depois de meu enterro descobrira estar esperando.

Ele jurou caçá-la até o fim de seus dias e ela sabia que mais cedo ou mais tarde aquela carta chegaria até sua cópia. Sabia pois sentiu o feitiço que Sophie havia feito.

Sophie sempre foi a única a saber de todo o plano de Emanuelly, e quando soube de minha estúpida decisão resolveu enfeitiçar a carta de forma que ela só apareceria para a duplicata, e somente quando ela estivesse pronta para encarar seu destino.

Martim não podia matá-la, não ainda.

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Entrei na frente de meu amigo e agarrei-o pela boca, poucos segundos antes de matá-la. Ele era muito rápido e forte. E mal me reconhecia, afinal lobisomens perdem quase que totalmente a racionalidade, ou eu o matava, ou ele a matava, e possivelmente a mim também. Eu não tive escolha.

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Sophie tentou com todas as suas forças lutar contra o poder que emanava de Emanuelly, mas os anos no convento lhe foram muito convenientes, ela aprendera algo mais que alguns segredos de bruxinha. Simplesmente absorveu toda força de Sophie paralisando-a a sua frente.

- Você não pode me destruir, eu sou imortal! – Emanuelly esbravejou e partiu na direção dela.

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Segurei firme o pescoço de Martim e o perdi perdão, dei uma chave de braço e quebrei-o no ar. Aquilo não seria o bastante, apenas o neutralizaria. Abri sua boca, esticando com o meu braço, mal tinha domínio sobre toda minha força. Aquele sangue realmente havia sido de grande valia. Rasguei o animal ao meio com minhas próprias mãos, nem mesmo um ser sobrenatural poderia se reanimar dessa forma.
Caminhei na direção de Isabelly e as unhas de minhas mãos cresceram feito garras. Ouvi muito Sophie durante anos, eu sabia o que precisava ser feito.

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Sophie sentiu que morreria, fechou os olhos e pensou na única coisa que importara para ela em tantos anos. Ela pensou em mim.

Emanuelly não teria piedade alguma, ela a arrancaria a cabeça. Se quer matar um monstro, enfiar-lhe uma estaca no coração não é o melhor jeito, afinal o coração é um local bem fácil de proteger quando se tem muita agilidade e força. Não mesmo, quer ferir um ser assim, vampiro ou lobisomem? Arranque um membro, quebre algo para ganhar tempo, mas se tirar um dedo, não nascerá outro, e se tirar a cabeça, esqueça, ele não te perturbará mais.

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Emanuelly pulou para cima dela, as unhas feito garras na direção do pescoço de Sophie. Eu apenas a chamei, sabia que ela me ouviria, sabia que ainda me queria. Afinal porque ela estaria ali.

Ela parou repentinamente e voltou-se para mim. Pude notar a satisfação no olhar dela. Ela ainda era bela, e agora era ainda mais bela que antes.

- Você voltou! – Ela me disse deixando Sophie parada e caminhando com certa segurança até mim.

- Você quer a mim, não a ela – eu joguei.

Emanuelly se aproximou, ela era linda. Minha boca estava cheia de sangue, a sede ainda era grandiosa. Puxei Emanuelly contra mim, pude ver o olhar magoado de Sophie quando fiz aquilo. Pude sentir a tristeza dela, mas mesmo assim a beijei. Um cheio de mordidas, cheio de sangue. Segurei-a firme e naquele momento me lembrei de quando dançávamos naquele salão, há mais de cinqüenta anos.

Lembrei-me de como tudo parecia ser diferente. Lembrei-me de minha mortalidade e de todo o caos que minha vida havia se transformado. Mas principalmente lembrei-me de como ela me fizer a passar todos aqueles anos confinado dentro daquele caixão, pagando por uma morte que nunca houve.

Cravei minhas unhas no pescoço de Emanuelly, as unhas cheias do sangue de sua duplicata. O pouco sangue que em breve se infiltrou no organismo dela, como um câncer contaminando e deteriorando todo seu ser. Ela me olhou melancolicamente, começou a se sentir fraca, e a dor tomava-a de maneira sucinta e de repente se esvaiu, a pele implodindo de dentro para fora até que as chamas a consumiram. Lembro-me claramente de suas ultimas palavras quando ainda ardia aos meus pés, com a mão içada em minha direção.

- Eu sempre te amei.

Sophie estava livre, porém ainda não sabia quem eu realmente era, ou o que eu deveras sentia. Até aquele momento ela acreditara piamente que eu havia decerto matado Isabelly. Não, não podia fazer aquilo.

Apenas roubei um pouco de sangue, sangue fresco para matar uma antiga amiga. E após isso, usei um dos dons mais relevantes do vampirismo, a hipnose. Dei a ela lembranças mais agradáveis daquela noite. Mas antes sugeri uma boa soneca, com sonhos estranhos, porém que fique claro, deixei-a amedrontada com a idéia de bruxaria. Com o que pus na cabeça dela, ah, tenho certeza que nunca se aventurara por essas ilhas.

Quanto a Sophie, bem, como estava falando, ela não sabia o que eu sentia, estava viva há uma eternidade e ainda não conseguia perceber quando um homem, ou melhor, um vampiro estava louco para beijá-la.

Mas bem, eu tinha uma eternidade para ensinar isso a ela, afinal, vampiros não morrem.

Fim!

Sidney Muniz
Enviado por Sidney Muniz em 18/01/2013
Reeditado em 18/01/2013
Código do texto: T4090982
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