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A REVOLTA DOS DEFUNTOS  -  EC  -


Reinaldo havia muitos anos não tirava férias com a família.
Certa ocasião resolveu reservar uns dias para descansar na pequena fazenda do Recanto dos Sabiás, propriedade deixada por seu falecido avô Francisco.

Um casarão dos áureos tempos do café com algumas benfeitorias (ora em estado precário).

A região fora tomada pelas águas de uma represa lá pelos idos de 1920 e só restara intacta a casa do velho Chico e de seu caseiro Zeca Araújo,fiel escudeiro que morava a uns 700 metros no alto do  morro.

O restante da vila fora tomada pelas águas e os moradores indenizados ou não pela companhia americana contratada para construir a represa, abandonaram tudo e o pequeno vilarejo simplesmente sumiu.

Da família de Reinaldo faziam parte a Marta sua mulher e as filhas Guilhermina e Anastácia.

Chegaram a tardezinha na fazendola e lá os esperava o Zeca Araújo para ajudar na descarga das tralhas e demais pertences trazidos da cidade.

- Dia Seo Reinardo, dia gentarada cumprimentou Zeca.

- Bom dia responderam uníssonos os membros da família Silva.

Bem próximo às seis da tarde, já se formava no horizonte uma tempestade e podiam-se ouvir trovões e visualizar  relâmpagos.

- Gente, vamos acelerar a descarga, vociferou Reinaldo, a trovoada está próxima e vem feia...

- Mais alguns esforços e finalmente descarregaram e fizeram a arrumação dos objetos nos devidos lugares.

- Já passavam das sete da noite e Reinaldo convidou Zeca a pernoitar na fazenda, pois a estrada estava muito precária e perigosa com a chuvarada que se abatera horas antes.

- Brigado seo Reinardo, acho que é mió, di manhã monto no Pingo e chego tranquilo em casa (inté avisei a Maria que provaver pousaria por aqui).

Reinaldo preparou um chimarrão e tratou de assar alguns pedaços de churrasco.

Um jantar caseiro e gostoso: churrasco, pepino, arroz, farofa, maionese e pão ao alho acompanhados de um bom e suave vinho tinto.

Algumas horas após, depois de muitos papos, todos se recolheram aos seus aposentos.

A tempestade havia acalmado. 

Céu sem estrelas densamente nublado.

O silêncio e a escuridão tomaram conta daquelas plagas esquecidas por Deus.

...

Dormitavam.

Reinaldo abriu os olhos ao ouvir  gemidos,  queixumes de dor  angustiante e próximos ao quarto.

Ficou atento um tanto tenso.

Várias lamentações agora eram ouvidas e um barulho esquisito pela varanda do casarão, pareciam que arrastavam correntes ao caminhar.

Quiz se levantar, estava imobilizado, o terror começara a tomar conta de seu ser.

Olhares profundamente luminosos e verdes o observavam do lado oposto da janela.

Sentiu arrepios com aquelas criaturas sinistras que começaram a atravessar as paredes do casarão sem quaisquer ruídos...sobrenatural, inacreditável....

Os Zumbis se aproximaram  andrajosos e imundos vociferando sons 
ininteligíveis.


Tentou pular da cama, sentiu-se paralisado.

Ensaiou um grito horrendo, nada...

Mãos extremamente magras, ossudas lhe apertavam a garganta com muita força e ódio.

Sentia que suas vistas escureciam, sangue gotejava de seus olhos ofuscando-lhe a visão.

Dores lancinantes por todo o corpo.

Reinaldo suava e tremia como "vara verde!"

Repentinamente pode gritar a plenos pulmões: acudam-me por favor, eles querem me matar, estão me estrangulando.

- Reinaldo, Reinaldo... era a voz de Marta que o sacudia pelos ombros: acorda querido!

- Que pesadelo mulher, está tudo bem? ...pensei que desta não escaparia. Que sufoco.

- O que houve querido?

- Nada, nada,  amanhã eu conto, vamos tomar um copo de leite e retornar a dormir.

Foi apenas um pesadêlo!

Após voltar para a cama Reinaldo beijou a esposa e permaneceu acordado até ela voltar a dormir.

O dia amanheceu sorrindo, raios de sol penetravam através das cortinas das janelas do quarto.

Os pássaros gorgeavam alegremente, era início de Primavera.

Zeca que fora dormir no rancho ao lado da moradia dos Silva acordou consultando seu velho companheiro:
9,30 h. da manhã, "deusi du céo"perdi a hora, í achu qui eles tamém"

Tá muito silencioso tudo!!!

Achegou-se na porta da cozinha, abriu, quietude total.

"Bomdiarada"gente, bradou! ...nada.

Arriscou-se e subiu a escadaria rumo ao quarto do casal.

Bateu levemente na porta,...nada.

Abriu: calafrios e sensação de desmaio, ânsias de vômito e o brado terrível de horror...

A esposa, com a cabeça esfacelada, enlaçada  a  Reinaldo que fora estrangulado na cama.

Haviam  arrancado a língua de ambos e seus olhos tremendamente esbugalhados demostravam o terror por que haviam passado.

Zeca correu ao quarto das jovens.

Guilhermina e Anastácia jaziam esvaídas em sangue no tapete branco do quarto, crânios ensanguentados, vestes rasgadas.

Nas cabeças e braços, ferimentos profundos!

Vizinho a fazendola um cemitério antigo tinha sido invadido pelas àguas da represa e os antigos moradores jamais se conformaram com tal violação da casa dos mortos.

Afirmavam que um dia haveria vingança.

Zeca ao olhar o corpo do amigo e família  pensou consigo mesmo: "esta foi A Revolta Dos Defuntos".

Encilhou o Pingo e após cavalgar alguns quilômetros relatou a trágica ocorrência ao delegado de plantão da cidade mais próxima.

Zeca Araújo, condenado a 30 anos em regime fechado, encontra-se na penitenciária estadual de segurança máxima, pelos crimes hediondos de
assassinato,estupro e por depredação de patrimônio alheio.

Em vão tentou convencer o promotor e os jurados de quê houve uma vingança do além e de que ele era apenas uma pobre vítima das circunstâncias.




Este texto faz parte do Exercício Criativo - A Revolta dos Defuntos
Saiba mais, conheça os outros textos:
http://encantodasletras.50webs.com/arevoltadosdefuntos.htm
Maurélio Machado
Enviado por Maurélio Machado em 05/08/2013
Reeditado em 05/08/2013
Código do texto: T4420361
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Maurélio Machado
São Bento do Sul - Santa Catarina - Brasil
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Maurélio Machado