O TRANSTORNO OBSESSIVO (cont.)

Nas duas primeiras semanas Odete tomou muito cuidado. Em casa ela mudou a disposição dos quartos. Isabela veio para o quarto da frente, ao lado do quarto do casal e Lucas foi instalado no quarto que recebeu cores novas, tons de azul. No cardápio foram acrescentadas as recomendações médicas: caldos, peixes e o medicamento prescrito. No fórum Odete diminuiu duas horas de trabalho por dia. Fora orientada, é direito seu. Assim estaria menos exposta e representaria o papel de mãe protetora. O marido, professor de química na universidade local, nunca fora tão bem tratado em sua casa. Estava feliz.

No entanto tudo estava fora de lugar. Lucas cada fez mais silencioso, o fórum cada vez mais barulhento. Odete nunca protocolou tantos papéis, nunca encaminhou tantos processos. Todos os dias chegavam histórias novas, antigas contendas que - nos parece agora ao narrar os fatos - as pessoas resolveram dar cabo. Nos corredores a servente comenta a morte do portuga da pizzaria: homem querido por todos na cidade, cerrou as portas da pizzaria na noite de sexta passada avisando ao último casal que teriam de sair. Além deles um último cliente, que aguardava atendimento, saca de um revolver e faz refém o portuga. O casal é trancado no banheiro. No cofre pouco dinheiro é a razão para o tiro na nuca. E o portuga é morto. Antes de fugir o bandido atira duas vezes na porta do banheiro, sarcástico desaparece montado numa Hornet vermelha.

E o burburinho “O que está acontecendo nessa cidade?”.

Odete percebe os comentários, mas está ocupada demais. Pratica o sorriso que ensaiara. O sorriso de mulher bem aventurada, mãe dedicada e esposa fiel. Quando chega à sua sala encontra na mesa um bilhete. Uma colega, sentada na terceira mesa de atendimento avisa, cabisbaixa, que deixara na mesa sexta feira, depois que Odete já tinha saído.

“Odete, vamos esperar vocês na pizzaria do portuga ás 20h, não se atrase. Renata e Marcelo.”

O bilhete era um convite. Percebendo o que poderia ter acontecido, Odete, a face sem cor, se deixa cair na cadeira. Depois de recobrar algum sentido liga para casa e fica sabendo que está tudo bem: Lucas dorme dopado, Isabela não chegou da escola, o marido ligara pedindo esfirras para o jantar. Na verdade, Odete ligou para se certificar de que não morrera. Talvez tivesse saído com o marido na sexta, encontrado Marcelo e Renata na pizzaria, bebido o vinho de sempre. Talvez estivesse morta como o portuga, imaginando estar no trabalho agora. Odete riu de si, girou na cadeira, e seguiu adiante a rotina do fórum.

Fez dois atendimentos, pequenas causas. Vizinhos em contenda reivindicando a metragem correta dos terrenos onde construíram suas casas. Lembrou-se, ao carimbar as últimas folhas do processo, de estampar o sorriso que praticava e, aliviada como se o mundo voltasse à sua órbita, decidiu tomar café.

A lanchonete que atende aos funcionários também recebe as pessoas que procuram assistência jurídica. As esquadrias de alumínio, em conjunto, formam imenso espelho para quem está na rua. Para Odete, e para nós que vemos o acidente acontecer diante dos nossos olhos, a grande vidraça é apenas continuidade da nossa retina.

Um carro é abastecido no posto em frente, do outro lado da rua. O frentista deixara a bomba de gasolina encaixada, abastecendo. Vai receber de outro motorista a conta. A bomba cai no chão e a gasolina se espalha debaixo do carro. Dentro dele Renata e Marcelo parecem discutir. Ouvimos o barulho. Um caminhão que faz entregas de eletrodomésticos, desgovernado, ultrapassa o sinal e vem nessa direção.

Odete, e todos que estamos na lanchonete, é espectadora do vai acontecer. Ao som estridente da buzina do caminhão, os gritos dirigidos para o casal dentro do carro. Marcelo parece enfurecido, mas o ar condicionado é um alívio momentâneo. Odete dá dois passos e toca no vidro, cola a boca na imagem de sua boca refletida ali. A explosão não atinge o motorista do caminhão, mas o carro está invisível no fogo. A onda de calor chega até o fórum. Por sorte a contenda dos vizinhos chegara a bom termo, eles já não estavam nas escadas da frente.

Nos próximos dias o sorriso de Odete seria menos humano. A cada ocorrência desconectada da sua realidade sentiria aquela sensação de estar envolvida. Se uma criança atravessasse a rua antes dela Odete temia que fosse atropelada. Operários numa escada poderiam cair depois que ela passasse pelos andaimes. O noticiário do horário nobre associava a atuação da máfia italiana à escolha da pasta de dente que usara de manhã. Lucas não disse uma só palavra até agora, por que diria então que Odete está paranóica?

O cheiro da tinta fresca no quarto de Lucas, que aos poucos impregnara a casa, estava acrescido agora um odor suave de mofo. Fechada desde a garagem, a casa cheira mal. No entanto, apenas Isabela se incomoda. A menina tem cinco anos e parece boneca entre bonecas e vestidinhos coloridos, vez ou outra reclama: “Esse peixe está com gosto ruim, não vou comer nada.”

A representação de boa mãe e esposa fiel teve curta temporada. Odete não percebe a manipulação do espectro, Oxydraga é presença absoluta, o silêncio de Lucas pavimenta seu transtorno obsessivo. Todos definham nessa casa. Odete agora insiste com o marido “vamos organizar as fotos”. Ele preocupado com a defesa de seu doutorado “claro, querida!”.

Sete dias se passaram. Em cada um deles uma ocorrência bizarra envolveu Odete perplexa, o marido alheio, Isabela distante e Lucas emudecido. Nos cantos, e debaixo dos móveis pesados, aranhas sem pressa teceram suas teias. No oitavo dia Odete dispensou a empregada, desligou o telefone fixo e, sem que o marido soubesse, esvaziou o tanque de gasolina dos dois carros da família. Foi na noite do oitavo dia, quando a casa descansava, que a sombra pesou sobre as fotografias. Oxydraga envelheceu, com seu ódio, as imagens colecionadas. Nenhum afeto resistiu. Na manhã seguinte o marido de Odete, químico doutorando na universidade local, notou alguma diferença no próprio semblante, no espelho, quando saía do banheiro. Foi nos três quartos. Sua mulher respirava profundamente porque dormira um minuto, a filha parecia um anjo, só os cabelos um tom mais escuro.

No quarto de Lucas as fotografias que estavam nos álbuns, organizadas por data de viagem, estavam coladas nas paredes. Alinhadas, uma após outra, numa sequência de movimento notável. O marido de Odete gira nos calcanhares e repete duas, três, quatro, cinco vezes, o movimento completando as voltas. Na cama Lucas está, como se estivesse, ausente. A sequência fecha um ciclo de imagens, sugerindo o discurso: o início se encontra com o final. E, entre uma coisa e outra, fora deixado espaço onde cabe ainda uma foto. Muitas perguntas ficaram sem respostas: como Lucas, o pequeno Bashar, franzino, de olhos arregalados, teria conseguido colar as fotos naquela altura da parede? O que é aquela gosma, massa cinzenta, que fixa as fotos? Porque ele teria selecionado apenas fotografias que, de uma forma ou de outra, remetiam ao oriente? Eram registros da ultima viagem para a Síria. Eram postais enviados de lá. Eram, nos olhos, uma saudade só sentida por quem vive longe da terra que amou um dia. Envolvido nesses pensamentos, o marido de Odete abandona-se num suspiro prolongado. E decide, para o bem de todos na casa, que farão a viagem planejada. O mais rápido possível.

Baltazar Gonçalves
Enviado por Baltazar Gonçalves em 18/12/2013
Reeditado em 19/12/2013
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