Sinfonias em dó menor

A música tocava ao fundo, o homem dançava, seus pés quase levitando. Ia pra lá e voltava, em meia volta, avançava, retrocedia... Olhava ao redor, os outros vultos, todos pardos.

A lua estava cheia e o frio cortante. Uivos eram soltos e se iam noite afora. Notas eram largadas e fogos enfeitavam o céu. O homem parou, apenas por alguns segundos, mas foi o suficiente. Encarou, do outro lado do salão, uma das outras inúmeras sombras. As velas apagadas, os passos, inaudíveis.

A música continuava a tocar, agora de modo incessante. Máscaras enfeitavam os rostos dos bailarinos, enquanto o forte sentimento, semelhante a coragem, tomava conta dele. Segurou sua dama nos braços, com carinho, concentrado. Dessa vez, não haveria escapatória. Puxou o laço e outra nota somou-se a tantas outras, incontáveis.

Pensou no passado, em seus sonhos. Pensou no nascimento do filho que sequer conhecia, pensou na mãe e na esposa, que ouviam atentamente o rádio todos os dias. Pensava em tudo o que havia deixado.

Abaixou-se, sua dama ainda em seus braços. Dava passos calculados, movimentava-se de supetão, com calma, leveza. Não poderia errar, não agora.

Levou a mão às pernas, sentiu ali uma dor forte e repentina. Sentou-se no chão, num lugar inoportuno. A sorte o havia abandonado. A música ficou mais apressada quando um som de percussão unia-se à banda.

Caído no chão, previa que sua dança chegaria ao fim. O tempo pareceu não passar por alguns segundos. Viu a sinfonia correr devagar, pausada, os clarões e agudos da orquestra regendo aquele espetáculo sanguinolento. Sentado, ali, pôde perceber que parte da melodia era gritada.

Olhou para a lua, vermelha, quase adentrando no horizonte. Sentiu outra ferroada, no peito. Deitou-se, em sua cabeça as noites que já se foram ganhavam nova vida... boas histórias para se contar, mas que não seriam contadas.

Rezou à Deus, mas não obteve resposta. Sentiu o frio abraçá-lo, fazendo-o tremer. Quando o tempo voltou a correr, já não importava mais.

Aquele espetáculo sangrento não estava perto de terminar, mas sua vida, sim. Virou-se de barriga para baixo, onde havia levado o tiro. Arrumou o capacete, mirou e puxou o gatilho. Ele não iria sobreviver, sabia disso. Na verdade, o sentimento fazia questão de atazaná-lo desde que fora convocado para a Força Expedicionária.

O soldado sabia que aquele seria seu triste fim.

Mas levaria alguns consigo.

Miguel Bernardi
Enviado por Miguel Bernardi em 14/07/2014
Reeditado em 01/06/2015
Código do texto: T4882223
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