TRILHOS DE SANGUE (PARTE 02)

Após algum tempo procurando Jhonatan, os dois meninos apavorados e cansados, decidiram ir em busca de ajuda. Afinal mesmo que o encontrassem, provavelmente estaria muito ferido, e não conseguiriam carregá-lo sozinhos.

- Marcos, Marcos! Olhe só, tem um casarão há uns 500 metros naquela direção. – Disse o gordinho apontando seu dedo rechonchudo rijo em direção a uma luz na escuridão. Marcos arregalou bem os olhos no local para confirmar.

- Você está certo, é uma casa. E as luzes estão acesas, significa que há realmente alguém morando nesse fim de mundo. – Marcos ajeitou sua mochila com novo ânimo, e começou a correr em direção à luz.

- Ei, me espere! - Gritou o gordinho cansado e com respiração ofegante, enquanto se levantava.

Algum tempo depois, estavam os dois em frente ao imóvel. João não escondeu o espanto, afinal de contas, de longe ele não parecia tão grande e assustador. Marcos ao perceber o deslumbre do amigo, decidiu tomar a frente. Subiu a escadinha velha, que rangeu enquanto se movia sobre ela, e bateu na porta.

- Tem alguém aí? Precisamos de ajuda, sofremos um acidente! – Gritou o menino, que poucos segundos depois, ouviu uma agitação do outro lado.

- Tem alguém vindo Marcos, pare de gritar. – João disse ainda no pé da escada. Não queria dizer, mas estava com muito medo. E também não era por menos, afinal, quem construiria uma casa em meio a um matagal abandonado?

A porta se abriu um pouco, deixando transpassar um feixe de luz que fez o gordinho curioso subir dois degraus dos cinco que o separava de Marcos. A cabeça de uma velha bastante enrugada surgiu entre o espaço que se abriu.

- Têm mais alguém como vocês?

- Não, apenas eu e meu amigo João. – Após o garoto valente dizer isso, a velha esticou o pescoço para ver quem estava no meio da escada. Percebendo isso, o amigo de Marcos se aproximou, deixando ser visto.

- Vamos, entrem. É perigoso ficar aí fora. – Pediu a senhora com voz mansa.

- Sim senhora! – Repetiram em uníssono.

Os dois garotos acomodaram-se no sofá, e logo em seguida a velha os trouxe chocolate quente. Enquanto bebiam, contavam toda a história de modo acelerado. A senhora, que se chamava Alda, confortou-lhes dizendo que seu marido iria sair em busca de Jhonatan, e que deviam tomar um banho e passar a noite lá. Marcos relutou um pouco, mas logo foi convencido pelo seu exausto amigo rechonchudo.

- Nicanor! Venha aqui, temos visita! – Gritou a velha fitando a decrépita porta de madeira do porão, que se localizava entre a sala em que estavam, e a cozinha. – Alguns segundos depois, a porta se abriu com tamanha rispidez que João esboçou um grito.

- Que diabo está gritando mulher! Não está vendo que... – O idoso, segurando um cutelo enferrujado, engoliu o que falava ao olhar para os dois jovens no sofá.

- Estes são Marcos e João, eles sofreram um acidente. O trem em que estavam descarrilou. – Alda parou de maneira estranha a frase, respirou profundamente enquanto se virava para os meninos. – Queridos, por que vocês não vão se deitar enquanto explico para ele o que aconteceu? Quando acordarem estará tudo resolvido. – Pediu olhando de soslaio para Nicanor – Todos os quartos no andar de cima estão vagos, com exceção do último no fim do corredor. Fiquem a vontade para escolher. Há, e quase ia me esquecendo, o banheiro é logo na primeira porta a esquerda.

- Mas não podemos comer nada antes? Estou faminto. – Perguntou João com os olhos brilhando.

- Não! – Respondeu Marcos, antes que o casal de idosos pudessem dizer algo, já sentindo um constrangimento pela indireta do amigo. – Vamos subir, e logo ao clarear partiremos. – Disse puxando um contrariado e emburrado João para as escadas que davam ao segundo andar.

No andar de cima do imóvel havia um corredor central com três portas de cada lado. Como toda a estrutura do casarão, as paredes desse andar também eram feitas de madeira velha. O chão empoeirado e o teto repleto de teias de aranha, combinavam com todo o resto. Mas ambos não estranharam, afinal, dois velhos em uma casa desse tamanho, dificilmente conseguiriam mantê-la limpa. A situação do banheiro parecia ainda pior, pois além de sujo, haviam baratas mortas no chão misturadas a tufos de cabelo acinzentado. As que estavam presas no ralo, por onde desce a água do chuveiro, pareciam até ratos. Decidiram acertadamente dormir sem tomar banho.

- Espere, nesse quarto só tem uma cama! – Indagou Marcos abrindo a porta de um dos quartos.

- Bom, mas é de casal, acho que não há proble... – João estava dizendo, quando Marcos sequer o deixou terminar a frase.

- Nem pense nisso!

- Mas...

- Há vários quartos vazios, você já é grandinho para dormir sozinho. – Após Marcos vociferar, João fez uma cara de desapontamento, mas não insistiu, isso soaria meio gay.

- Tudo bem, mas qualquer coisa me chame, ficarei no quarto da frente. Deixarei a porta entreaberta.

- Tá, como quiser. Te acordo pela manhã.

- Boa noite Marcos.

- Durma bem João.

Já era madrugada quando Marcos acordou assustado, pensou ter escutado gritos. Sentou-se na cama e ficou esperando como se em algum momento o que tivesse ouvido voltasse a soar. Esperou aproximadamente 10 minutos, e nada. Tentou voltar a dormir, mas não conseguiu. Tinha certeza de que ouvira algo. Resolveu procurar por João para verificar se estava tudo bem. Levantou-se da cama e acendeu a luz. O quarto de seu amigo, de frente do seu, estava com a porta levemente aberta, como houvera dito anteriormente. Marcos entrou de modo furtivo.

- João, seu gordo dorminhoco, acorde. – Sussurrou enquanto acendia a luz. – Ei mexa essa bunda gorda.

Como não fora correspondido, decidiu puxar o lençol do amigo com força.

- Vamos acor... – João não estava lá, haviam somente dois travesseiros dando volume debaixo do pano.

Continua...