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O psiquiatra albino

A mulher estava deitada, com um belo vestido vermelho desenhado alguns detalhes em preto. Seus longos cabelos negros escorriam-lhe pela sua pele lisa e muito branca, contrasteando os seus olhos pintados.
Com uma das mãos segurava um lenço branco e apoiava a outra mão sobre a perna esticada no divã.
Seu psiquiatra, um senhor albino já calvo e com marcantes óculos redondos, conversava ativamente, mas, por horas, parecia estar falando sozinho. O vestido da mulher balançava com a leve brisa que entrava pela janela da mansão.
- Vejo que acalmou-se um pouco desde o nosso último encontro, está menos falante. – dizia o psiquiatra fazendo algumas anotações.
A mulher olhava fixamente para o psiquiatra, sem responder, apenas o encarava secamente.
- Presumo que também descansou bastante desde o nosso último encontro, correto? Aliás, quando foi a última vez que nos encontramos?
Mas antes que a mulher pudesse ter a chance de responder, o médico levantou da poltrona com o caderno em mãos, fez mais algumas anotações balbuceando algumas palavras aleatórias e se dirigiu a uma prateleira de vidro. Retirou um copo e uma garrafa com um líquido amarelado,serviu-se e tomou um gole, sem oferecer à dama.
Seus olhos brilharam e ele deu um sorriso. A mulher continuava apenas observando os atos do homem.
Ele então novamente sentou-se na poltrona e continuou a falar:
- Seu olhar permanece ativo como nunca, mas... Vejo que você ficou um pouco abatida desde que mudou de quarto. Será que preferia continuar no quarto velho?
Ele então, ainda sentado, curvou-se para falar mais perto da dama e complementou em voz baixa:
- Talvez queira me contar um pouco sobre o ocorrido na Ala B, o que acha? Fiquei sabendo que um louco está espalhando para todos que está falando com gente morta.
A moça permanecia calada, parecia estar bastante abatida, desmotivada e sem vontade de ter aquela conversa medíocre.
- Escutei algumas pessoas falando que havia fantasmas por lá, você não acredita, não?
E o doutor prosseguia:
- Tudo bem, me desculpe. – disse calmamente, após a fraca tentativa de animar a paciente. – Mas não conte para sua irmã, está bem? Ela pode ficar um pouco... fora de sí.
Enquanto o homem continuava a escrever no caderninho e pronunciar mais algumas palavras, a noite se adentrava e a escuridão tomava conta da residência do médico.
- Acho que por hoje é o suficiente, não acha? Foi bastante produtivo.
A mulher, sem se mover apenas parecia se concentrar para dar uma respota franca ao médico, mas nenhuma palavra saía.
O psiquiatra então se levantou e com a testa franzida e os olhos ainda brilhando, além de um sorriso muito branco no rosto encarava a dama.
- Está na hora de ir para o quarto. Está na hora de falarmos com a sua irmã.
O albino suspirou pacientemente, esticou os braços para a mulher de vermelho e a carregou por um corredor quase que totalmente escuro se não fosse por fracas velas velhas e gastas, sombreando ambos em paredes com um papel de parede já em desgate.
Ele então chegou a um aposento, parou de frente à porta que estava aberta, olhou para um dos cantos e continuou a caminhar, assoviando alegremente uma canção qualquer.
O quarto, também bastante escuro tinha um cheiro horrível de podridão, além de fezes de ratos que por ali também compartilhavam abrigo. Colocou o corpo da mulher no chão e amarrou os pulsos dela a uma corda, que auxiliado por uma polia no teto fez com que o corpo fosse erguido e ficasse pendurado a alguns centímetros do chão, assim como estavam as outras dezenas de vítimas ao lado do cadaver dela.
Ainda assoviando a mesma canção, desceu da polia o corpo sem vida da mulher ao lado e, desta vez carregando no ombro saiu da sala com a irmã da primeira paciente, cujos olhos já haviam sido arrancados.
Enquanto isso, na sala do divã, uma folha do caderno de notícias de um jornal de 1940, já bem amarelado, em que o psiquiatra sobreescrevera com letras tortas algumas palavras sem sentido nenhum, mostrava uma foto de uma mansão construída há alguns séculos com aspecto de desgate e introduzia o título da reportagem escrita logo abaixo da figura:

“Hospício será interditado nesta Quarta, psiquiatra suspeito de assassinar pacientes e ocultar cadaver está foragido. Outros pacientes serão interrogados.”
Lucas Restivo
Enviado por Lucas Restivo em 14/04/2016
Reeditado em 15/04/2016
Código do texto: T5605474
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Lucas Restivo
Vargem - São Paulo - Brasil, 26 anos
7 textos (656 leituras)
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Lucas Restivo