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A Criança Na Estrada - Parte 4 (final)

Loucura! Insanidade! Cores e mais cores! Luxúria! Ah... os mil prazeres da luxúria... Ele se contorcia... prazer atrás de prazer... cores e mais cores... o mundo rodopiava, e como... tudo era etéreo.... tudo era real, tudo era ficcional... o alto estava em baixo e o baixo no alto...

Assustado ele se levantou. Suas roupas estavam completamente encharcadas de suor. Sua visão estava turva e sua testa quente. A menina o puxava violentamente para fora do carro... Espere! Não era uma menina! Quer dizer, não mais... Aquela que ali estava a sua frente era uma mulher... bela, corpo escultural, com... o que aconteceu?

Ela estava linda... radiante... ele a fitou por uma eternidade... sua mente não conseguia entender como aquilo havia acontecido, mas seu coração simplesmente ignorava. Ele a amava. Ele a desejava. Ele a possuiria!

“Rápido meu salvador. Fujamos, pois os vilões estão a chegar”, gritava a menina quando o primeiro tiro fora disparado. Isso o despertou de seu transe e o fez prestar atenção no que acontecia ao seu redor: os céus estavam rubros. Raios e trovões! Era um pesadelo!

Estaria ele sonhando? Seria aquele um pesadelo?

Uma bala passou próximo a seu rosto. Outra o atingiu na perna. Era real. Droga, aquilo era real! Cinco homens armados vinham correndo em sua direção atirando. Na verdade, eles atiravam em direção a ela! Malditos!

Atrás dos homens vinha um padre com crucifixo na mão. Bastardo, como poderia um homem de Deus se comprometer com uma corja que atacava viajantes perdidos. Pior, que ousavam atacar aquela bela, doce e pura mulher que o acompanhava!

Eles a atingiram. Foram três os tiros. Um em seu peito, outro em seu braço e por fim em sua perna. Ela caiu enquanto ele gritava. Sua perna doía, mas mesmo assim ele se levantou e correu para ajudá-la.

“Meu amado... me proteja...”. Ela estava caída no chão e ele a abraçava. “Me beije...” ela pediu. Mais um disparo foi feito. Ele a beijou. Uma bala atravessou sua carne. A febre o consumia por completo. Aquele beijo porém... não haviam palavras para descreve-lo! Ele sentia como se tivesse vivido toda sua vida como uma casca vazia, sem vida, sem emoções.

Outra balas rasgaram sua carne. O beijo fora interrompido. Ele sabia que iria morrer, mas queria morrer fitando os olhos de sua amada. Ele a encarou, e sua face começou a se dissolver, como uma pintura ao ser colocada em baixo da água. Ele encarou as arvores, e elas começaram a se dissolver. Seus agressores, suas mãos. O mundo se tornara uma pintura e como tal começara a dissolver. Nisso, tudo ficou escuro.

Ele abriu os olhos e se viu novamente no lugar do acidente. Lá estava o corpo da criança ao chão no local onde ele a encontrou. Seu carro estava parado. Os homens e o padre estavam lá, porém a outra menina, a jovem, a mulher essa... ela estava mas não era uma mulher. Era um monstro, uma criatura. Suas feições eram femininas porém duras, ríspidas, com chifres. Sua pele era coberta de limo. Suas pernas... não haviam pernas, apenas uma longa cauda vermelha, como se pertencente a uma gigantesca serpente, que o envolvia.

“O que...”, ele balbuciou.

“Senhor... o homem parece ter se livrado do transe! Parece que ainda temos uma chance!”, gritou um dos homens que atacavam a mulher... a criatura... a sua amada... Os ataques agora eram mais destemidos. O padre recitava palavras em uma estranha língua, que parecia surtir tanto efeito na criatura quanto as balas disparadas.

A cauda que o prendia se soltou. Ele caiu no chão mas mesmo atordoado tentou se levantar. Quantas perguntas envolviam sua mente. Muitas perguntas e nenhuma resposta. O que aconteceu com sua amada? De todas era a que mais o atormentava.

A criatura tombara. Enlouquecida de dor ela se contorcia. Os homens se preparam para o golpe de misericórdia. Sem pensar duas vezes ele pulou a frente da criatura como escudo. “Minha amada... ei de protege-la...”. Esse foi seu último pensamento.

...

Os homens exaustos olharam os corpos. Uma criança da vila e um viajante inocente haviam sido as vitimas da súcubos. Um numero de vitimas pequeno se comparado aos estragos que tal criatura poderia vir a causar.

Não demorou muito para que trouxessem a caminhonete e colocassem os corpos nela. Um dos homens fora dirigindo o carro do viajante em direção a cidade. Lá o homens da lei saberiam quais os procedimentos legais a serem tomados.

Duas vidas haviam se perdido inutilmente naquele dia. Ainda assim o grupo sorria, pois muitas outras haviam sido poupadas, embora soubessem que seu trabalho estava longe de estar terminado.
Tales de Azevedo
Enviado por Tales de Azevedo em 13/07/2007
Código do texto: T563950


Sobre o autor
Tales de Azevedo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
62 textos (9816 leituras)
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Tales de Azevedo