Memória

No primeiro dia, as ruas um pouco mais vazias. Só eu notei.

No segundo dia, vou ao trabalho, sinto falta de algumas pessoas.

- Onde estão José, Maria e João? – pergunto.

- Quem são esses? – ouço como resposta.

No terceiro dia não ouço os latidos do meu cão.

- Sansão! Sansão! – chamo em vão.

- Quem é Sansão? – pergunta minha esposa.

- É nosso cachorro – respondo.

- Cachorro? Está louco? Nunca tivemos um. – e me olha de um jeito estranho.

No quarto dia não encontro ela, minha esposa.

- Lúcia! – grito desesperado por seu nome, mas ninguém responde.

Resignado saio à rua, cada vez mais vazia. No trabalho vejo poucos rostos, não pergunto, ninguém, a não ser eu, parece sentir a falta de alguém.

No quinto dia as ruas estão totalmente vazias. Não há carros, não há pessoas, não há animais.

No trabalho não há ninguém. As máquinas estão desligadas. Não havia nada o que fazer ali. Volto para casa.

No sexto dia acordo e vou à rua novamente. Abro a porta de casa, mas já não há mais rua, apenas um branco vazio, infinito, a tomar conta de tudo. Amedrontado fecho a porta e volto para o quarto e para segurança da minha cama, deixando o tempo passar.

Mas não consigo dormir, meus olhos fixam o relógio na parede, firme em marcar o tempo. Os minutos se esvaem, as horas se esvaem.

Lá fora deveria ser tarde agora, mas tudo é branco.

Os ponteiros avançam, a noite deveria ter chegado, mas tudo é branco.

Então o relógio bate meia-noite, outro dia termina.

E vem o sétimo dia. E sinto as lembranças indo embora, uma a uma, deletadas da memória. A vida apagada como um quadro de giz. Então percebo que também sou apagado e já não existo mais.

Luciano Silva Vieira
Enviado por Luciano Silva Vieira em 31/05/2016
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