Não consegui, a princípio, encontrar uma razão para o fato de a Rosana ter voltado. E dado o problema de eu não acreditar em vida após a morte, vocês podem imaginar a confusão que isso causou na minha cabeça. Só comecei a encaixar esse problema na minha mente, ainda que de modo um tanto forçado, com a ideia (nessa sim, eu não tinha dificuldade de acreditar) de que todos nós temos uma missão na vida.
    A crença de que todos nós temos uma missão na vida era, para mim, uma ideia que não tinha nada a ver com espiritualidade. Estava mais ligada com as minhas concepções (que eu achava científicas) a respeito da conformação física do universo do que com especulações metafísicas que eu julgava inúteis e até despropositadas. Eu pensava, que o universo, se ele de fato começou com a explosão de um campo de energia, como dizem os cientistas, então tudo que existe no mundo era formado por partículas energéticas oriundas dessa primeira explosão.   
     O que quer dizer que os fragmentos de energia que foram dispersos no vazio cósmico, e através de múltiplas interações entre eles, deram como resultado este mundo em que vivemos, eram a única realidade que tínhamos para acreditar e não adiantava ficar perdendo tempo com bobagens. Assim, sempre foi fácil para mim acreditar que somos uma espécie de síntese de múltiplas interações processadas entre os fragmentos dessa matéria quântica que o Big Bang espalhou pelo vazio cósmico.
    Destarte, comecei a pensar que a volta da Rosana talvez atendesse á uma necessidade quântica que o universo tem de realizar combinações úteis e completas, que uma vez consumadas são usadas para novas combinações, sempre em um patamar superior de qualidade. E dessa forma, quando em nossa passagem pelo mundo faltou alguma coisa para ser realizada, ou seja, quando morremos em débito com a missão que o universo nos deu, a partícula energética que somos torna-se uma espécie de ovelha desgarrada que perdeu-se do seu rebanho, ou, numa outra visão, uma peça de quebra cabeças que não se encaixou no desenho ao qual pertencia, e por isso, aquele desenho não se completou e continuará a refletir a sua inadequação pelos tempo e pelo espaço, causando desequilíbrios e conflitos, enquanto não se completar. Explico, dessa forma, as dores do mundo, resultantes dos conflitos raciais, ideológicos, religiosos, sociais e políticos, e as nossas próprias dores individuais, reflexos dos desacertos ancestrais, que projetam ecos do passado em nossa vida presente e futura.
   Isso quer dizer, não que exista vida após a morte, mas sim que existe um passado que sobrevive em algum ponto do universo, e por alguma operação de mecânica quântica, ele, de repente, pode misturar-se ao presente e nos fazer viver duas realidades, uma que busca a realização de uma estrutura que deixou de ser completada em algum momento do passado, e a outra que está sendo realizada no momento presente. Uma se antepõe à outra, fazendo apenas eventuais intercessões na mente inconsciente de algumas pessoas, que funcionam como catalizadoras desses processos. Explico dessa forma os fenômenos mediúnicos e os eventos poltersgeit e isso me satisfaz.

     Talvez essa seja a razão de a volta da Rosana não ter me causado nenhuma das reações que normalmente um fenômeno dessa ordem causa nas pessoas. Eu estava administrando tudo isso de uma forma até natural. 

    Rosana e eu realizamos uma interação necessária ao desenho estrutural do universo. Todas as interações que realizamos na vida, mesmo às que nos provocam dor, são necessárias. Se não fossem, elas não aconteceriam. Isso não significa que não temos livre arbítrio para escolher o nosso destino, mas sim que é através dessas interações que o universo se realiza. 
    Assim, a volta de Rosana poderia ser uma interação do passado, que não se completou em sua função integrativa  e estava se imiscuindo no presente em busca de uma recomposição que lhe permitisse o cumprimento integral da sua função no desenho estrutural do universo.
    ̶ Porque você voltou?    ̶  perguntei-lhe, quando ela tirou a roupa e entrou comigo na banheira. Ela sempre fazia isso. Eu enchia a Jacuzzi, ligava a bomba e ficava lá, de olhos fechados, gozando o relaxamento que a água quentinha provocava nos meus músculos cansados do estresse diário. Fazia isso pelo menos uma vez por semana. E Rosana aproveitava a deixa para entrar na banheira também. Nunca entrava sozinha. Tinha preguiça e falta de paciência para enchê-la.
    Ás vezes fazíamos amor na banheira. Mas nesse dia isso não ocorreu. Eu ainda estava chocado com a volta dela e não sabia qual seria a sensação de fazer amor com uma mulher morta. Não que eu achasse que estaria praticando necrofilia. Rosana parecia bem viva e bastante saudável. Tanto quanto era antes de contrair aquele maldito câncer que a levou embora.
    ̶  Voltou de onde?    ̶  perguntou ela, respondendo à minha pergunta.
    ̶  Eu não fui a lugar nenhum- completou.
    ̶  Como assim? Quando a gente morre a nossa alma, ou espírito, sei lá como chamar isso, não vai para algum lugar, como as religiões ensinam?
    ̶   Depende do que você entende por morrer.
  
    Era sempre assim. Toda vez que eu tentava engatilhar uma conversa sobre esse tema ela terminava com essa frase. E eu já havia entendido que ela era uma espécie de chave com qual se fechava uma porta de comunicação, pelo menos em relação á esse assunto.
     E eu não sabia mais sobre o que falar. Ficava olhando para ela, apatetado, como alguém que foi colocado frente á um objeto sobre o qual não tem a menor noção do que seja. Algo assim como um índio que nunca teve contato com a civilização e de repente é posto dentro de um avião e é convidado a pilotá-lo.
(continua)