“Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!”
Alvarez de Azevedo
 


Quando te vi naquele café, a luz do entardecer se perdendo em seus olhos castanhos, você tinha um livro nas mãos e eu soube que seria você.

Aproximei-me e perguntei se poderia me sentar, então você me olhou e era a primeira vez que você me via, apesar de eu já te ver há muito tempo, em todas aquelas as tardes, enquanto você se sentava ali para alimentar o seu corpo e sua alma com as palavras que você absorvia daquelas páginas.

Sim, a poesia é o alimento da alma.

A princípio, você pareceu temer que eu fosse um risco, por isso olhou ao redor se certificando de que era seguro me dar permissão, mas que mal poderia haver? Estávamos em meio a tantas pessoas e você cedeu.

Ali, entre xícaras de café, conversamos sobre o que você mais amava. Poesia.

Falamos sobre a paixão de Neruda, sobre as sombras de Byron, sobre a dor de Alvarez de Azevedo, sobre a grandiosidade de Camões e sobre a maestria de Florbela Espanca e, enquanto você falava e eu te ouvia com atenção, sua timidez foi dando lugar a uma conversa fluida e leve e eu pude ter certeza de que sua alma era bela e doce.

Ficamos ali por muito tempo até que você se deu conta de que tinha que ir. E eu te disse apenas até logo. Você se foi, mas seus olhos diziam que queria ficar.   

Nos dias seguintes, via você, todas as tardes, como de costume, mas agora seus olhos sempre deixavam as páginas do livro em suas mãos para procurar algo que nunca estava lá e assim deixei que sua vontade de me ver crescesse e, quando depois de alguns dias você viu que eu me aproximava, seu sorriso denunciou sua felicidade e me convidou para sentar.

Naquele dia, quando o sol se foi completamente e o café fechou, perguntei se poderia te acompanhar até sua casa e você aceitou, já sem qualquer receio.

Caminhamos sem pressa, falando de nossos poetas e escritores preferidos, mas também de nossos sonhos e de nossos medos, como se nos conhecêssemos desde o começo dos tempos.

Quando chegamos à sua casa você me convidou para entrar, mas eu não aceitei o convite - nunca aceito -, e você ficou decepcionada. Queria mais, esperava mais daquela noite, mas ainda não estava pronta e eu sabia ser paciente, então prometi que compensaria minha falta de jeito no nosso próximo encontro.

Por toda aquela semana, nas sombras de seu quarto, observei você sorrindo enquanto pensava em mim e vi seu sono agitado

A noite de sábado tinha um calor agradável. As ruas estavam perfumadas pelas flores brancas das quaresmeiras e a lua cheia iluminava tudo com sua luz prateada.

Assim que você saiu pela porta soube que a hora havia chegado. Aquele momento pelo qual nos dois ansiávamos. Tudo em você indicava que estava pronta, a dilatação de suas pupilas, o rubor na sua face e até mesmo o odor suave que sua pele exalava e que eu podia sentir muito além do seu perfume doce. Seu sorriso resplandecia.

Você estava linda e a noite foi perfeita. 

Depois do jantar, caminhamos pelas ruas em silêncio, observando as estrelas e apreciando a companhia um do outro. Seguimos até o parque e ali, onde casais furtivos caminhavam ou se beijavam protegidos pelas sombras das árvores, toquei em suas mãos e percebi que você estremeceu. Estávamos quase lá.

Paramos na pequena ponte sobre o lago ornamental e ficamos ali por vários minutos olhamos à lua até que percebi que seus olhos me procuravam, então me virei em sua direção e te abracei. Seu corpo estava tão junto ao meu que senti seu coração batendo em um ritmo acelerado. 

O momento havia chegado e com seus olhos languidos você me pediu que eu te beijasse.

E eu te beijei. Com calma e suavemente, como todo primeiro beijo deve ser, rocei seus lábios úmidos com a ponta minha língua e você sorveu meu hálito quente desejando mais, então, minha boca colou-se a sua e você se entregou.

Enquanto através daquele beijo quente e molhado eu sorvia sua alma, senti que seu corpo desfalecia aos poucos, então abri os olhos ainda te segurando bem junto a mim, afastei meus lábios dos seus e pude ver sua face lívida .

Em contraste com sua pele branca e sem vida, seus lábios ainda sorriam.

Quando sua alma já nutria meu corpo, deitei-te na relva e fiquei ao seu lado acariciando seus cabelos por várias horas e só te deixei quando os primeiros raios do sol surgiram no horizonte.

Com um beijo suave em sua face gélida me despedi e segui em frente, certo de que, mesmo que os séculos passsem eu nunca me esqueceria de você.
Fefa Rodrigues
Enviado por Fefa Rodrigues em 25/03/2018
Reeditado em 22/05/2019
Código do texto: T6290679
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