O Vampiro

Quando a luz do luar da meia-noite invadiu o castelo, Edmundo - parente afastado do conde Drácula, célebre personagem histórico e inspiração a Bram Stoker para seu mais notório livro, homônimo -, levantou-se com uma fome dos infernos. Os ratos e insetos que acercavam a alcova à qual repousava havia trezentos anos puseram-se espantados e dispersaram-se de medo.

Edmundo, que antes da morte havia mudado-se para Portugal e alterara a forma escrita de seu nome, fora morto por um deslize estúpido: assustara-se com a figura de um morcego no interior do castelo em que vivia próximo a Braga, e caiu da longa escadaria que levava à entrada do local. Tivera o pescoço quebrado e tivera o sangue sugado pelo morcego - também vampiro, um parente mais antigo, de nome não identificado, que tinha preferência pela forma repugnante de morcego, pois a antropomorfia não o aprazia.

Aterrorizou o interior português por mais de cento e cinquenta anos, até que um clérigo metido a besta, a mostrar-se destemido, aspergiu-lhe água benta nas vistas, cegou-o por um momento e meteu-lhe um crucifixo na algibeira. Edmundo, indefeso e impotente, fora lacrado em um esquife e enterrado no porão de seu castelo. Esquecera o vigário e a população de que a estaca de madeira atravessada no coração impediria um futuro retorno de Edmundo.

Havia muitos anos Edmundo não tinha uma refeição. Precisava de sangue. O contato humano naquelas imediações era escasso. Optou por algo menos saboroso, mas de grande valia nutritiva a um vampiro: sangue animal fresco. Atacou as criações de gado e cavalo dos arredores - pois fazia tanto tempo que não via uma carótida humana, que não queria arriscar e falhar e ter como consequência mais e mais séculos de aprisionamento dentro de um esquife desconfortável.

Suas unhas estavam gigantescas. Seus dentes caninos continuavam firmes e poderosíssimos. Estava preocupado com os andrajos - que estavam desgastados e sujos. Precisava vestir-se melhor e, ademais, preparar-se para uma refeição de verdade: sangue de jovem virgem em noite de sexta-feira.

Por meses quedou-se Edmundo a alimentar-se de sangue de animais e a roubar roupas de circunvizinhos ao castelo. Até hesitou em alimentar-se de qualquer sangue humano antes do grande ataque, mas queria voltar à ativa em grande estilo. Aos poucos sentia-se revigorado, mas não em total forma e disposição.

Hipnotizou duas crianças que passavam próximas ao castelo, a correr e rir, provavelmente a brincar. Conduziu-as ao castelo - pois a luz do Sol ainda não se tinha sumido totalmente. Perguntou-lhas como era a comunidade em que viviam e sobre as pessoas que habitavam a aldeia. Estavam muito mais avançados em questão de inteligibilidade. As crianças, sem piscar, completamente reféns da abdução da criatura demoníaca metamorfoseada em ser humano, respondiam às perguntas. O medo subjetivo corria-lhes as espinhas. A impotência de voltarem a si e fugirem fazia-os agir contra a vontade subjetiva. Detalhavam tudo. Contaram sobre sua prima, de dezasseis anos, prestes a se casar com um burguês de outra cidade, filha de um pastor presbiteriano, seu tio. Deram pormenores interessantes ao vampiro sobre a garota. A cada vez que escutava e percebia a alcova mais escura, o vampiro apercebeu seus gélidos olhos a brilharem na escuridão. Falava a inocência à sua frente. Fê-los esquecerem sua presença e tudo o que se lhes ocorrera. Deixara-os ir, mas o medo corria-lhes ainda as espinhas.

***

Com seu olfato forte, acercou-se - metamorfoseado agora de morcego - à janela da moça. Tinha uma bela tez, pálida e alva como o leite. De cabelos doirados e brilhantes. Estava ela a cepilhar os cabelos frente ao espelho. Ao ouvir o bater das asas do morcego do lado de fora da janela, virou-se. Edmundo já não estava mais ali.

Como um lobo, percebeu a falta de som dentro da casa. A única batida próxima de coração era a da jovem. Estava sozinha. O cheiro de sua virgindade adentrava as narinas do vampiro e enchia-o de fome. Achou melhor introduzir-se, já que invasão de casas era atributo de monstros energúmenos.

Estava espantado com tantas tecnologias dentro da casa. Ademais, a iluminação das ruas não era mais à base de óleo de baleia! Haviam estacas de ferro com pontas luminosas. Batera à porta. Percebera que a moça ainda cepilhava os cabelos e batera mais forte. Ela se espantara; pusera o pente sobre a penteadeira e descera rapidamente.

- Quem? - perguntou.

- Edmundo - disse ele, a tentar achar algo mais que dizer. - Seu novo vizinho.

A moça abriu a porta. Era muito mais bela do que o ângulo que havia Edmundo visto a princípio. Pôs-se ele em um silêncio perscrutador. Vislumbrava-a com um estranho desejo - mais do que o caçador à caça.

Ela lhe pediu que entrasse e se sentasse; seus pais voltariam logo. Contou-lhe sobre si, que estava prestes a se casar e que tinha dezasseis anos - tudo o que as crianças, seus primos, já haviam dito ao vampiro. E ele só a contemplava. A voz dela soava-lhe como uma música aos ouvidos. Parecia o som suave de um violino a iniciar uma ária. Ela, quando em vez, olhava-o de modo estranho. A espantar a palidez e seu grotesco aspecto.

- Você não fala muito, não é? - falou ela, após um breve silêncio.

- Ouço mais do que falo - replicou o vampiro, a olhá-la profundamente.

Ela vislumbrou o relógio.

- Meus pais já devem estar chegando - comentou a garota.

- Não, querida; eles não estão - disse o vampiro, sem mencionar o poder de seu olfato e de sua capacidade em detectar presenças.

A menina espantou-se com a resposta, mas não replicou o óbvio. Aquele homem era extremamente misterioso. Estava a torcer para que alguém batesse à porta e a ajudasse. Estava a começar a sentir medo. Queria ter algum pretexto de sair dali.

- Você aceita uma bebida? - perguntou-o.

- Não, obrigado - replicou ele, de imediato.

Ele conseguia sentir o medo que causava à garota. Não queria espantá-la. Já não sentia mais o desejo de enfiar-lha os dentes à carótida e bebê-la toda o sangue.

- Como você se chama?

- Lívia - replicou ela, a beber algo numa taça, com as mãos trêmulas.

Bebeu o nome dela e pôs-se em silêncio. Sabia que o nome tinha algo em comum consigo próprio e com o aspecto da moça. Ele levantou-se e viu-a levantar-se num átimo também. Temerosa. Acercou-a e segurou-a nos braços.

- Lívia, por favor, não se case - exclamou o vampiro, totalmente humilhado. - Case-se comigo! Vamos viver a eternidade juntos, a nos amar, sei que pareço ridículo... mas estou apaixonado por você! - disse ele, a se jogar sobre o sofá, e a pender a cabeça à esquerda.

A moça parecia mais espantada do que de início. Inerte, em pé. Assistia-o com ímpeto.

- Desculpe-me - investiu Lívia -, mas estou compromissada!

E o vampiro realmente sentiu-se humilhado. Como poderia ele apaixonar-se perdidamente, de relance, por uma humana? Seria algo como um caçador apaixonar-se pela caça. Como um leão esfomeado enamorar-se de uma gazela em algum campo aberto das planícies africanas. Sentia-se ínfimo. Era aquilo um opróbrio à sua existência vampiresca. Ademais, declarar um sentimento completamente humano, fugidio à razão de criaturas notívagas como ele, era o cúmulo da ignomínia. Sentia o peso da vergonha às suas costas. E pior: era completamente rechaçado pela altiva figura da garota.

Trocaram mais meias palavras, entre súplicas e lamúrias, até o momento em que ela pediu-lhe que se retirasse. Transformou-se na besta em que era e grudou-lha os dentes à carótida. Bebeu-lha todo o sangue. Fugira do ritual: era uma quinta-feira. Contudo, há séculos não se alimentava de sangue de jovem virgem.

Fugiu, a bater asas, da casa da jovem e foi-se ao pico de um morro refletir a sua existência medíocre.

Sentado sobre a relva seca de outono, fora vitimado pela luz solar do ocaso. Num átimo, tornara-se pó. Sua eternidade durara até ali.

Guilherme Zelig
Enviado por Guilherme Zelig em 25/07/2018
Código do texto: T6399491
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.