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Assombração (primeira parte)

Bragança, nordeste do Pará, 1954

Evangelista não era homem de muita conversa, suas mãos fortes e calejadas quase sempre estavam segurando um cigarro de palha. Jamais fumava essas coisas industrializadas que pareciam tirar o prazer de uma boa tragada.

Andava por volta dos sessenta anos, alto e magro, pele eternamente queimada pelos muitos anos de trabalho ao sol. De compleição física forte, já trabalhara com lavoura, tocando gado, pescando e carregando no lombo todo tipo de carga.
 
Há cinco anos ficara viúvo, sua mulher morrera de algum mal que ele não sabia dizer o que era. Ficara com sete filhos, mas morando com ele apenas dois, os demais já tinham ganhado o seu rumo. Morava em uma casa pequena, antiga e quase sem mobílias. Foi tudo o que restara após quase quarenta anos de casamento e muita labuta.

Evangelista andava um pouco entristecido. Há uma semana falecera aquele que era o único político que já prestara atenção alguma vez na vida. Tinha gente que gostava do velho Getúlio e outros odiavam. Sobre isso preferia ficar calado. Nunca fora homem de prestar atenção nessas coisas de política, para ele o que interessava de fato era saber se iria conseguir botar comida na mesa ou se sobraria algum dinheiro para uma cachacinha ou farra.

Há algum tempo que uma certa apatia havia grudado nele. Sua existência parecia ter-se resumido a pitar um cigarro, tomar umas cachaças e ir afogar sua solidão vez ou outra em um puteiro.

Certa noite ao chegar em sua casa, inebriado pelos efeitos do álcool, acendeu a fraca luz do quarto com a intenção de procurar por sua velha rede. Para sua surpresa ela encontrava-se armada e com alguém dormindo nela. Sentiu uma leve raiva por saber que um dos seus filhos havia se apossado da rede. De maneira apressada e atabalhoada dirigiu-se ao quarto deles para saber quem tinha pego ela.

Ao adentrar o humilde recinto verificou, para sua surpresa, que eles encontravam-se dormindo.

Uma súbita suspensão em sua respiração coincidiu com uma muda interrogação: quem estaria dormindo em sua rede?

Rapidamente voltou para seu quarto e ao aproximar-se da rede constatou que ela encontrava-se vazia. Por um breve segundo sentiu um arrepio percorrer sua nuca. Mesmo sobe o efeito do álcool tinha certeza que havia uma pessoa ali pois tinha percebido o volume que  um corpo faz quando se molda a uma rede.

Evangelista não era homem de sentir medo facilmente, já passara por poucas e boas em sua vida. Lutara de faca com um oponente, tocara gado de madrugada sozinho, pescara em alto-mar com ondas tão grandes que assustariam qualquer ser vivente, passara fome e sobrevivera a uma febre que só poderia ter sido malária.

Talvez fosse o efeito da cachaça, talvez fosse medo, mas uma coisa era certa: algo lhe causara uma sensação estranha que parecia querer percorrer suas entranhas.

Terminou dormindo em um banco de madeira na sala.

                                               ******

A viagem era longa, suja e cansativa. Nunca gostara de viajar de trem. Só fora até Belém porque precisava pegar um dinheiro com um compadre seu. Pior ainda foi ter que viajar no vagão misto porque não tinha mais lugar no vagão presidente. Quase sete horas de viagem levando fumaça e chuviscos de carvão pela cara. Uma lástima ver que sua camisa, uma das poucas que possuía, estava agora com uma marca de queimadura de brasa de carvão.

Mesmo sendo uma viagem barulhenta e cansativa conseguiu dormir. Um sono leve assomou-lhe, desses que a gente escuta parte do que está acontecendo ao redor. Ainda não tinha sonhado com nada quando subitamente acordou com a nítida impressão de que alguém o observava.

Olhou ao redor e nada de estranho lhe chamou atenção, apenas uma inquietude parecida com aquela sensação que se tem quando dormimos o dia inteiro e acordamos sem saber se está amanhecendo ou anoitecendo.

Tentou afastar essas impressões da mente pensando em outras coisas. Estava preocupado. Precisava chegar logo em casa pois seus filhos haviam ficado sem nada para comer.

                                               ******

Não havia rosto! Era uma mulher com cabelos pretos e longos, mas sem rosto ...

Acordou no meio da noite suando e com uma horrível sensação de pavor. Havia sonhado. Algo muito vívido invadira seu sono.

Ainda sentindo o corpo vibrando de medo olhou ao redor como se a qualquer momento fosse ver o que estivera em seu pesadelo. Esfregou os olhos e tateou o chão embaixo da rede em busca do seu saquinho de tabaco e dos fósforos.

O quarto estava iluminado pela fraca luz da lâmpada e ele quase que percebia a presença da mulher sem rosto que usava um vestido branco e meio sujo.  Durante o sonho ele vira o contorno dos seios, a linha de cintura, mas não conseguira ver um rosto. Deus do céu, não havia um rosto ...

O cheiro forte da fumaça de tabaco impregnava o pequeno quarto. Deitado em sua rede Evangelista tentava desanuviar os pensamentos. Algo lhe dizia que mais coisas estranhas estavam por vir ...
Jota Alves
Enviado por Jota Alves em 13/01/2019
Reeditado em 14/01/2019
Código do texto: T6549654
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jota Alves
Belém - Pará - Brasil
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Jota Alves