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"Em si, por si tão somente, um para todo o sempre, e só."
Platão

 
Casamos. Não por amor ou paixão, mas pela conveniente união entre o título ancestral que minha família carrega e a fortuna que a família dela havia acumulado.

Jamais a toquei. Nem mesmo em nossa noite de núpcias.

Soube mais tarde que todas as noites desde nosso casamento, ela esperou por mim no leito conjugal usando a camisola de renda branca que havia recebido como um presente especial de sua avó para a ocasião em que se tornaria minha mulher.

No entanto, fosse por recato ou pela humilhação de um casamento não consumado, nunca se queixou.

Olivia deixou a sociedade para se dedicar exclusivamente a mim e para viver no antigo casarão que havia pertencido aos meus antepassados. Situado na área rural, há alguns quilómetros da cidade, aquela era uma das últimas propriedades que restara à minha família de lordes e barões e há muito tempo revelava os indícios de nossa decadência financeira e moral.

Aquela construção de paredes carcomidas pelo tempo e cheirando a mofo havia sido o presente de casamento que meu pai nos dera, claramente crendo que a vida no campo me afastaria dos vícios e prazeres da cidade.

Porém, para o desgosto de meu pai, enquanto Olivia dedicava-se a recuperar um pouco da elegância há muito perdida por aquele lugar que agora era nosso lar, eu passava a maior parte do tempo fora de casa, mantendo minha vida de boêmio.

Ela nunca se opôs e, mesmo quando eu retornava somente após dias de ausência, cheirando à álcool e à sexo barato, lá estava ela para me receber com seu sorriso fácil e gentil.

Sua bondade e mansidão longe de aplacarem o desprezo que eu sentia por ela e por ter sido obrigado a me ligar àquela mulher que nada tinha em comum comigo, inflamavam minha ira e me faziam desejar feri-la, então, para me vingar, decidi privá-la de todo o luxo a que ela estava acostumada.

Assim, ordenei que os finos móveis lindamente estofados e talhados em madeira de lei que nos haviam sido dados por seus pais para mobiliar a casa fossem devolvidos assim como todo seu rico enxoval de cetim alvo, seus vestidos elegantes e casacos de pele.

Nada disso a abalou.

Somente quando determinei que sua biblioteca fosse levada de volta para a casa de seus pais pude notar um leve tremor se formar ao redor de seus olhos gigantes e profundamente castanhos.

Aquela pequena vitória, contudo, não me proporcionou qualquer prazer, já que em tudo ela me obedeceu sem oposição, choro ou suplica.

Eu a odiei ainda mais por sua obediência servil e firmeza de caráter e, enquanto eu diluía seu ouro em jogos, bebida e mulheres, ela vivia de maneira frugal sem nunca perder a dignidade e o contentamento que lhe eram peculiares.

Em todo seu breve tempo como minha esposa, Olívia manteve-se fiel a mim como um cão dócil, sem jamais deixar de cumprir seu papel de boa esposa e de me honrar como seu mestre e senhor até que, no ano seguinte a nossas bodas, fomos castigados com um dos piores invernos da história.

Durante uma tarde especialmente fria, o dedo da morte tocou o peito de Olivia que, sendo mulher e frágil, definhou rapidamente e, sentindo que lhe restava pouco tempo, implorou para que eu fosse levado até seu leito antes que partisse.

Meu pai em pessoa encontrou-me sentado à mesa de carteado, numa espelunca de nenhuma classe, em meio a ébrios e prostitutas e embriagado em minha própria perversão.

Sendo ele o único homem a quem eu temia, após estapear meu rosto na frente de todos aqueles que eu considerava como meus amigos, arrastou-me com suas próprias mãos até a alcova de minha desventurada esposa.

Ali no quarto mal iluminado as sombras alongavam-se nas paredes movendo-se no mesmo ritmo lento das chamas dos candelabros e conferindo ao lugar um aspecto fantasmagórico.

Há dias eu não via minha esposa e quase não reconheci aquele corpo mirrado e encolhido na cama como sendo a bela mulher com quem me obrigaram a casar.

Sua respiração era apenas um chiado, mas mesmo sem forças ela pediu a todos que se retirassem por um momento e nos deixassem a sós. Enquanto todos deixavam o quarto atendendo ao último desejo daquela pobre criatura, meu pai postou-se diante de mim e segurando meu antebraço direito em suas mãos com força suficiente para me lembrar do que ele era capaz, sussurrou em meu ouvido com sua voz firme e baixa que sempre me assustara ordenando que eu agisse como um homem pelo menos naquele momento derradeiro.

Aquilo me fez corar e senti as lágrimas ardendo em meus olhos como em todas às vezes que ele deixara claro que me considerava um fraco.

Quando ficamos a sós, Olivia olhou-me com aqueles seus olhos imensos que pareciam abarcar o mundo e fez sinal para que eu me aproximasse.

Relutante, postei-me ao lado de seu leito e notei que, apesar do frio intenso, ela vestia uma camisola fina de tecido ordinário, mantendo-se obediente às minhas ordens até em seus últimos momentos.

Com grande esforço, ela esticou o braço até alcançar minha mão me fazendo estremecer ao seu toque suave e gelado. Sorriu com doçura e em meio a fortes acessos de tosse e com imensa dificuldade para respirar, murmurou com uma voz que era menos do que o ronronar de um gato moribundo, jurando que me amara como cabe a uma mulher amar a seu marido, que continuaria a me amar mesmo após a morte e ofegante ofereceu-me um perdão que eu nunca pedira nem sequer desejara.

Aquele ato de bondade feriu-me de tal modo, fazendo o fel amargo espalhar-se por toda a minha alma. Senti o ódio assassino tomar conta de mim e, antes mesmo que pudesse pensar em meus atos, puxei um de seus travesseiros e pressionei-o sobre seu rosto pálido.

Ela ainda tentou lutar por sua vida. Pobre ingênua, mesmo que estivesse saudável não teria qualquer chance contra mim, maior e muito mais forte do que ela. Sentindo a excitação tomar conta de meu corpo, pressionei com mais força e não demorou a que ela começasse a estremecer em violentos espasmos até seus braços caírem inertes ao lado do corpo.

Quando retirei o travesseiro de sobre seu rosto, seus olhos estavam abertos e vítreos, e pareciam me olhar com assombro. Toquei seu pulso e constatei que ela estava morta. Decidi aguardar alguns minutos para me acalmar antes de começar a desempenhar o papel de esposo enlutado.

Respirei fundo aguardando que meu coração voltasse ao compasso normal e quando me senti senhor de mim novamente, baixei-me para fechar seus olhos, mas antes que eu pudesse tocá-la, seu corpo agitou-se com força, as narinas dilataram-se sugando o ar, seu dorso levantou-se e se colocou em uma posição inacreditavelmente ereta.

Eu não tive qualquer reação e ela, sentada, olhou-me com olhos que agora eram apenas duas grandes bolas brancas e leitosas e antes de tombar uma última vez gritou com uma voz aguda e irreconhecível a temida palavra: Assassino!

Familiares e criados entraram no quarto aos supetões e me surpreenderam atônito, os olhos vidrados, pálido e imóvel e tomaram aquele meu estado catatônico como resultado do trauma de ter presenciado a morte de minha jovem e bela esposa.

Em meio ao choro e lamentação que dominou toda a mórbida plateia à minha volta, fui retirado do quarto e, enquanto me levavam para fora, tentei perceber se alguém havia ouvido a acusação que sobre mim agora pesava, mas apenas depois foi que eu soube que o que alertara a todos e os fizera entrar no quarto, tinha sido um suposto grito saído de meus lábios, o que não neguei.

Enfim, eu estava livre daquela mulher que tinha sido minha vergonha e meu grilhão. Havia herdado seu dote e era tanto dinheiro que eu poderia passar a vida sem me preocupar.

Achei de bom tom me recolher nos primeiros dias após a morte de Olívia, e estipulei que meu falso luto perduraria até o dia em que rezaríamos a missa de sétimo dia em favor de sua alma, após isso, teria de volta minha vida devassa.

E assim o fiz.

Sepultamos Olivia numa manhã fria e chuvosa sob o choro de sua família, amigos e até de seus criados, no cemitério reservado à minha família, na propriedade onde nós havíamos vividos como um casal aos olhos da sociedade, durante aqueles poucos meses. Lugar que em breve eu deixaria para sempre, mas antes, cumpri todos os rituais representando a contento o papel de viúvo sofredor e ao que me parece, me saí muito bem, pois o único olhar de suspeita que identifiquei vinha de meu pai.

Permaneci no casaão até que os primeiros raios de sol tomaram o campo no sétimo dia após a morte de Olívia trazendo consigo a promessa de minha liberdade.

Ainda dormia quando senti o perfume inundar o ar. O aroma do sândalo era tão forte que me fez despertar e com o coração aos pulos me dei conta de que aquele era o cheiro dela.


 
(CONTINUA)


 
 
Nota: humildemente, escrevo esse conto totalmente inspirada nas obras do Poe e Dickens (sim, Dickens tem vários contos de terror!!) e nos estudos que li sobre os personagens e o universo desses dois escritores maravilhosos.


 

 
Fefa Rodrigues
Enviado por Fefa Rodrigues em 16/01/2019
Reeditado em 28/02/2019
Código do texto: T6552776
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Fefa Rodrigues
Tatuí - São Paulo - Brasil
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