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A LOIRA DO BANHEIRO.

Leonardo estava cabisbaixo. Simone encerrara  um namoro de seis meses. A moça se mudaria para o Rio. -"Vida que segue, Simone. Sem grilo! Curta muito o Rio!!!" Disse ele, ao se despedir da moça na rodoviária de Limeira, São Paulo. Leonardo, 20 anos. Os pais separados. Leonardo quis viver com o pai, um radialista. Raul era um pai moderno. Um hippie nos anos 70. Falava a mesma língua dos filhos, Leonardo e Viviane, de seis anos. Veruska dizia que Raul era mais criança que os filhos. Leonardo via a mãe, Veruska, como sargentona. Ela ditava as regras da família. Era secretária de um famoso pneumologista.  Queria ser cantor de rock mas logo mudou de ideia. Queria ser astronauta, agora. Passava horas conversando com Simone. Sentiria falta disso. Ela era mais confidente e psicológa que namorada. Leonardo precisava de um emprego. Espalhou dezenas de currículos em vão. Sem experiência, diziam. Como ter experiência profissional se não me contratam??? Pensava o jovem com cabelos ruivos, espinhas e camiseta do Legião Urbana. Último ano de escola. Havia repetido quatro vezes no ensino médio. Sorte dele que era outubro. Quase fim de ano. Simone repassava as matérias da escola com ele. Faziam trabalhos escolares juntos. Ela era o seu chão. Leonardo tirava boas notas graças a Simone. Leonardo não tinha amigos. Odiava ser chamado de retardado pois já deveria ter terminado os estudos. Vez ou outra arrancava sangue do nariz de algum engraçadinho que tirava sarro dele. Era comum vê-lo sendo levado a sala do diretor da escola.  Nos intervalos ficava grudado no celular. Calado. -"O Rio. Vou atrás de Simone!" Pensou, antes de entrar no banheiro da escola. O sinal soou, chamando os alunos pra aula. Leonardo deu descarga. Nada do submarino amarelo descer vaso sanitário abaixo. -" Maldito!!" Gritou. Deu outra descarga. Nada. Três descargas e o vaso sanitário ficou limpo. Leonardo abriu a torneira da pia pra lavar as mãos. Suava. Olhou-se no espelho pra ajeitar o cabelo. -"Oi, lindo! Você me chamou?" Leonardo se assustou. Olhou e viu o reflexo de uma moça loira no espelho. -"Sei que estou atrasado pra aula, dona. Você deve ser a zeladora!!!" A moça deu uma gargalhada. -"Zeladora, eu??!!???" Leonardo se virou. A moça tinha marcas roxas no pescoço e nas mãos. -"Você estuda aqui??" A moça pôs as mãos na cintura. -"Sou a loira do banheiro!! Nunca ouviu falar de mim???" Ele secou as mãos. -"Olha, o banheiro é todo seu. Vou pra sala de aula. O professor Leandro é gente boa mas não posso abusar! Com licença." Ele deu três passos até a porta. A moça, por encanto, surgiu a frente dele. Ela virou os olhos. O vestido branco ficou resplandecente, iluminado... ela levitou. -"Não está com medo??" Leonardo deu de ombros. -"Não!!! Tchau!!" A moça colocou a mão no braço dele. -" Puxa! Todos morrem de medo de me encontrar, sabia? Você é diferente. Venha mais vezes conversar comigo, moço!!! Dê três descargas e eu apareço!!" Leonardo sorriu. -"Vale para o banheiro de casa também???" Ela deu uma gargalhada. -"Não. Só para o banheiro da escola. Eu me escondia aqui para matar aulas até o dia que dormi no banheiro. Fecharam a escola no final de semana. Um incêndio na escola e morri aqui dentro." Leonardo verteu uma lágrima. -"Que triste. Eu virei vê-la noutro dia!!!" Leonardo pulou o muro da escola no domingo. O banheiro era no pátio e foi fácil entrar. Deu três descargas. Ela estava no espelho. -"Que bom rever um amigo!!" Disse a loira do banheiro. Leonardo conversava com ela, sentado no chão do banheiro. Ali conversaram por três horas. Nos dois domingos seguintes o mesmo aconteceu. Escrevera pra Simone e estava a fim de se mudar pro Rio. Simone até arrumaria
 um emprego pra ele. Reatariam o namoro. Ela tinha saudades. Leonardo estava feliz. O pai concordava com a decisão dele. Leonardo pulou o muro da escola. Gostava de conversar com a loira do banheiro.  Olhou para os lados e não viu ninguém. Uma viatura policial passou. -"Cabo Amorim!! Aquele jovem invadiu a escola!!" O outro guarda franziu o cenho. -" Bóra atrás do meliante!!!" A viatura foi estacionada. A dupla de policiais pulou o muro e saltou pra dentro da escola. Armas em punho. Olhos atentos. Pareciam pisar em ovos. Silêncio. Deram a volta no ginásio. Nenhuma porta arrombada. Nenhuma janela quebrada. Fernando deu de ombros. O garoto sumira. Amorim ouviu vozes. -"Ali. Ali..." Sussurrou. Vozes no banheiro. Amorim ficou de quatro. Fernando subiu em suas costas e alcançou a janelinha do banheiro. Viu Leonardo, sozinho, falando sem parar. Gesticulava muito. Fernando assistiu a cena. Desceu e fez sinal para o colega subir e ver com seus próprios olhos. Fernando fez sinal com o dedo na cabeça. -"Maluco." Sussurrou ele. Amorim subiu nas costas do colega. Filmou Leonardo por dez minutos. O moço conversava com alguém. Ele não percebeu que era observado. Última semana de aulas. Leonardo passara e concluía o ensino médio. Ele foi até a escola se despedir da amiga do banheiro. Pulou o muro. Os policiais estavam de prontidão na esquina. Amorim e Fernando ligaram para o diretor da escola. Em quinze minutos o diretor Resende chegou ao local. Ele cumprimentou os policiais antes de abrir o portão da escola. Foram ao banheiro. Amorim trouxera uma escada. Ouviram vozes de dentro do banheiro. O diretor filmou Leonardo com seu celular. Os guardas estavam tristes com a situação daquele jovem. O diretor e os policiais se foram. Uma hora depois, Leonardo foi pra casa. Se mudaria para o Rio em três dias. Simone o aguardava. Uma van parou em frente a casa de Leonardo, manhã seguinte. Médicos e enfermeiros do sanatório São Paulo acompanhavam o diretor Resende. Raul os atendeu, sem nada entender. O diretor mostrou a ele o vídeo de Leonardo. Raul sentou-se no sofá. Mãos no rosto. Chorava. -" O Leonardo está no quarto!!!" Os enfermeiros forçaram o trinco da porta. -"Abra, senhor Leonardo! Queremos conversar!!!" Disse o diretor Resende. Leonardo abriu o quarto. O diretor o abraçou. O pai, idem. Leonardo entrou na van, sem resistência. Sem nada entender. Foram semanas recebendo remédios e interrogatórios. Entorpecentes. Drogas. Leonardo dissera tudo sobre a loira do banheiro. Era considerado louco. Fora ao banheiro do sanatório e dera  três descargas mas ela não apareceu. A loira estava presa ao banheiro da escola e ele preso ao sanatório. Os pais foram vê-lo, quatro semanas depois. Simone o visitou uma única vez. Leonardo não a reconheceu. As visitas se tornaram Leonardo viveu por dois meses numa cela fria da unidade do hospital psiquiátrico São Paulo. Transferido para o famoso Juqueri, onde viveu por dois anos. Gostava de pintar quadros. Ele e outros quatro internos se aproveitaram da desatenção do segurança e subiram no telhado da unidade. As sirenes soaram. Os seguranças e enfermeiros se desesperaram ao verem os internos no telhado. -" Vamos pra liberdade!!!" Gritou Leonardo, a beira do telhado do prédio de seis andares. O louco Malaquias o segurou, a beira do telhado. Os enfermeiros chegaram ao topo do telhado e acalmaram os internos. -" Vamos descer, turma. Tem goiabada pro lanche da tarde!!! Goiabada!!" Mentiu o enfermeiro Jonas. Sabia que os internos amavam goiabada. Leonardo e os outros foram sedados. Raul foi ter com um advogado, amigo de longa data. O doutor Silvano Paranhos visitou Leonardo com uma junta médica. Após exames, constataram que Leonardo era uma pessoa normal, lúcido quando estava sem os efeitos de medicamentos pesados. Leonardo estava livre para voltar pra casa. Os familiares o acolheram com alegria. Aos poucos o jovem retomou suas atividades. O pai o acompanhava aos cinemas e teatros. Estavam sempre juntos. Raul e Leonardo decidiram ir visitar Simone, no Rio. Eles chegaram em Copacabana sem avisar. Leonardo estava feliz. Simone saiu pra ver quem tocava a campainha da casa. -" Leonardo!!" Ela correu e o abraçou. Decidiram ficar no Rio. Raul e Leonardo estavam maravilhados com a cidade. Nove anos depois, Leonardo levava o filho Diego ao seu primeiro dia de aula no colégio estadual. As ruas estavam tomadas por alunos com seus uniformes novinhos. -" Pronto, filho. Bons estudos. Vai fazer amigos e hoje começa sua caminhada pra ser um engenheiro!!" O garoto sorriu, mostrando os aparelhos dos dentes. -" Certamente, papai. Vou ser bom aluno!!!" Leonardo quase esmagou o filho ao abraçá-lo. -" Eu te amo, filho! Fique com Deus!!" O menino parou na entrada da escola e acenou. Leonardo sorriu. -" Aaahhh, filho! Lembre-se de economizar água. Se for ao banheiro puxe a descarga apenas uma vez!!!" O menino fez sinal de positivo com o polegar e piscou um olho antes de correr e sumir entre os alunos. F I M
marcos dias macedo
Enviado por marcos dias macedo em 12/02/2019
Reeditado em 12/02/2019
Código do texto: T6573319
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Sobre o autor
marcos dias macedo
Santa Barbara D'Oeste - São Paulo - Brasil, 49 anos
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