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no silêncio da sala 
 
 
          Amo defuntos. Vê-los mortalmente duros, as vestes estranhas, as atitudes contundidas dos parentes e curiosos... Chego para bem perto das velas de cera lacrimejantes, sebentas lágrimas escorregando e me aproximo dos soluços mais exaltados; farejo desmaios, pragas, gritos e desconsolações. Com medo de tudo. Um medo atraente, mórbido, escuro. Não me canso dos pés hirtos, dos olhos fechados, das narinas cheias de algodão. Fixo-me num semblante, num detalhe da sala, num quadro, numa coroa de flores.

Ouvira dizer que puxando o dedo grande do pé, o defunto abriria os olhos; experimentei um dia: os presentes abriram a boca de espanto, uma vela caíra, o sagrado fora tocado e o defunto momentaneamente arrancado à sua imobilidade de gelo. Os adultos desculparam-me, mas não perdi a curiosidade: puxei o nariz de outro, levei tapas. Admirei-me ao ver de enormes sapatos e meias negras um vizinho que, vivo, sempre usou chinelas. Que desperdício! Se tivesse coragem iria ao cemitério tirar coisas dos mortos, mas me refugiaria todo no quente de mim mesmo ao ver as carnes decompostas, o vento batendo nas placas dos túmulos de terra nua.

         E as flores sobre os mortos? Tantas flores brancas... O enterro, o compungido dos acompanhantes, o mistério no ar, o medo surdo por dentro. Medo que foi mudando de forma, sofisticando-se, tomando nomes pomposos, mas sempre medo, essa presença fria e cortante que aqui está, segura e inarredável.



          — Quem morreu? — pergunta um bêbado já perto do caixão.

         — Irmã Teresa — ouço assombrada e, com mais espanto, vejo que quem respondia era a MINHA irmã. Então, noto que estou a poucos metros do chão, um voo pesado e baixo, de ave gorda e trôpega. Parece que a amplidão está interditada. Eu sou um cadáver escuro e inchado. O fôlego me morrera na garganta aflita. Seria banquete para bichos e bactérias até ficar só o osso. O que aconteceu?

        Sentada numa cadeira próxima ao caixão, maninha contempla-me, na maior tranquilidade e até sorrindo, com fina ironia. Então, revivo sensações: dor terrível que me toma conta do peito, o travesseiro no rosto. Falta-me ar e meus membros formigam. Despenco, sinto o coração apertar, sendo esmagado, desistindo de bater. E, morta, imóvel, rígida. Por quê? Por que fugiram as flores da terra? Por que tão depressa o crepúsculo se fez? Sou feia? Entreguei minha vida a Deus e às preces? Meu dinheiro? Sem herdeiros, acabei facilitando a ambição. Eu morta, toda a herança para Leda! Só pode ser... Não posso deixar assim!
 

       O marimbondo marrom avermelhado veio pousar sobre a cortina amarelo-escura, confundindo-se com o tecido. Eu o vi mansamente ali; desejei a vida dele, bicho-flor alado providencial.
 
         Coceira, um pequeno tremor seguido de vômito. A inútil corrida para o hospital. Leda asfixiada como eu... Pena que ela nunca saberá que eu me vinguei. A morte tem uma violência particular em se mostrar. Sem embate de asas, nem desespero, nem voos sem rumo, apenas a morte sem mistificações, no silêncio da sala.
 

 
Tema: fantasmas


 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 23/03/2019
Código do texto: T6605542
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Fheluany Nogueira
Santo Antônio da Alegria - São Paulo - Brasil, 68 anos
304 textos (15715 leituras)
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Fheluany Nogueira

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