O MISTÉRIO DO PADRE ARMANDO*

Quando o padre Armando chegou naquela cidade para ocupar a paróquia que havia vagado com a morte do seu antecessor, o velho padre Marcilio, a primeira coisa que o aborreceu foi o elevado nível de crendices do povo daquela região. “Oh! povinho ignorante e supersticioso”, escreveu ele ao seu bispo uma semana depois de ter assumido a paróquia.
Essa era a pura verdade. Ele ouviu muitas estórias de assombração que se contavam na cidade, mas nenhuma lhe pareceu tão estapafúrdia como aquela da procissão do Dia de Finados. Coisa de malucos. Diziam que no Dia de Finados, assim que batia a meia-noite, uma procissão de defuntos costumava sair do cemitério e dar uma volta pelo centro da cidade. Muita gente já tinha visto. Mas quem tinha visto não sobrevivia para contar como era. Acabava morrendo de susto. E no ano seguinte aparecia no sinistro cortejo, como mais um participante da horripilante procissão. Por isso ninguém ousava sair de casa depois da meia-noite no dia consagrado aos mortos.
Para o padre Armando essa era uma grande bobagem, uma superstição tola e pueril. Toda cidade do interior tinha a sua. O bispo respondeu que ele não se preocupasse com isso. Não era coisa para se levar a sério. O seu antecessor, Padre Marcilio, já havia lhe contado a respeito. E não dava importância ao caso, pois a pior coisa que um padre pode fazer é cair na antipatia dos seus paroquianos. "Por isso” respondeu o Bispo, filosoficamente, “finja que acredita e reze junto com eles pelos defuntos. Quando não se pode vencer uma turba, a gente junta-se a ela”.
O conselho era prático e lógico, mas o Padre Armando não gostou muito dele. Afinal, era um ordenado de safra recente, que havia sido educado na mais moderna teologia, onde a superstição e as crendices populares não passavam de folclore.Para ele a teologia da libertação não devia lutar apenas contra as amarras políticas e sociais que impedem o espirito humano de libertar-se da ignorancia, mas também contras os impropérios das crendices populares, que sob a capa do folclore, veiculam mensagens subliminares e nocivas à saude psíquica do povo.
Aliás, gostaria muito de poder tratar tudo isso como mero folclore, mas tinha um problema com aquela estória da Procissão dos Mortos, do qual ele não podia se esquivar: pois segundo o que todos diziam, o pároco local tinha que deixar a porta da Igreja aberta nessa noite, por que a estranha procissão costumava entrar na igreja, rezar uma novena e depois sair, de volta para o cemitério.  
Que absurdo, pensava o padre Armando. Mas o povo parecia acreditar nisso. Pelo menos uma dúzia de paroquianos com os quais falou foi taxativa em dizer que a coisa toda era verdadeira. Tanto que o padre Marcílio, diziam todos, sempre deixou a porta da igreja aberta na passagem da noite de 1º para 2 de novembro. E pela manhã ele encontrava um montão de tocos de velas acesas aos pés das imagens dos santos.
Padre Marcilio também não era muito de acreditar naquilo, disse um dos coroinhas com quem o padre Armando conversou a respeito. Ele até achava que as tais velas eram postas lá por algum individuo brincalhão, ou então por algum devoto que realmente queria homenagear os mortos e o fazia daquela forma, acendendo velas na igreja, de madrugada. Mas por via das dúvidas, o padre Marcilio nunca quis conferir a verdade. Preferia deixar a porta da igreja aberta. Afinal, de uma coisa ele tinha certeza. O povo daquela cidade era honesto e respeitoso. Nunca sumira um único objeto da igreja, nem jamais se praticara algum tipo de vandalismo dentro dela naquelas ocasiões.Assim, computando perdas e danos, era melhor dormir tranquilo e deixar o povo com suas crendices. Ficava de bem com sua consciência e com o povo da cidade, e isso era o que mais importava.
Mas ao padre Armando aquele negócio não caia bem. Deixar a porta da igreja aberta de noite lhe parecia uma rematada loucura. Ele estava vindo de uma grande cidade. E lá, de onde ele vinha, se deixasse a porta da igreja aberta uma só noite, fosse qual fosse, no dia seguinte não haveria uma única imagem, ou um simples candelabro, turíbulo ou qualquer outro objeto. Os ladrões levariam tudo. E cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça, dizia ele, para si mesmo, ao simples pensamento de deixar a porta da igreja aberta de noite.   
E depois, se havia uma coisa que ele odiava era superstição. A única coisa em que ele acreditava, em tudo isso, era nas fitinhas da Nossa Senhora de Lourdes e nos santinhos, que ele benzia e distribuía aos paroquianos. Eram amuletos, ou âncoras, como ele dizia. E isso tinha o condão de fortalecer a crença das pessoas, fazendo-as ficar mais fortes e seguras de si mesmas. A psicologia da associação inconsciente já havia provado isso. As pessoas ancoram seus estados internos com amuletos, frases de efeito, cores, mandalas, preces, mantras e coisas desse tipo. Por isso, a grande maioria das pessoas tinham suas âncoras, na forma de um santinho, uma fotografia, uma medalhinha, um pé de coelho, uma nota de dólar, etc. Ele mesmo, que era jesuíta, não se separava daquele retrato de Santo Inácio de Looyla, que ele levava para todos os cantos aonde ia...
Agora, quanto às superstições e crendices sem sentido, ele precisava acabar com aquela bobagem. Por isso, pela primeira vez, em uma noite de Finados naquela cidade, a porta da igreja da Matriz permaneceu fechada.
 
Padre Armando resolveu ficar acordado naquela noite. Colocou uma cadeira no altar, pegou uma Biblia e ficou à espera. Queria ver o que acontecia. Se era verdade que algum engraçadinho, ou por outra, algum devoto supersticioso costumava entrar na igreja naquela noite em especial para acender velas, desta vez ele ia se ferrar. Afinal, estava mais que na hora de acabar com aquela brincadeira, ou prática supersticiosa sem graça. De qualquer modo, queria ver o que o sujeito ia fazer quando encontrasse a porta fechada.  
Então o relógio da torre da Matriz deu doze badaladas. E no momento seguinte o Padre Armando ouviu as batidas na porta da igreja. “Não é tem gente mesmo que vem de noite acender velas na Igreja?” disse ele, para si mesmo. “ Tem louco para tudo neste mundo.Mas desta vez eu acabo com essa idiotice” 
Ao olhar pelo postigo da porta, o primeiro susto. Ele viu que não era uma pessoa, mas uma verdadeira multidão, todos com velas acesas, batendo na porta e pedindo para que ele abrisse.
“ Meu Deus” pensou ele. “ Mas isso é uma loucura. "Por que não me falaram dessa procissão noturna, no Dia de Finados?" "Se é uma tradição da cidade, não seria melhor que a própria igreja a organizasse?”
E quando ele abriu a porta veio o segundo susto. Rostos e mãos esqueléticas o tomaram de assalto. Uma multidão de homens, mulheres e crianças, com roupas puídas, ossos à mostra, alguns com restos de pele esverdeada pendendo dos esqueletos rangentes, exalando um cheiro pestilento, invadiu a igreja, passando por cima dele como se sequer se dessem conta da sua presença ali. Centenas de velas desfilaram perante seu rosto, como se de repente um céu cheio de estrelas tivesse sido desvelado ante os seus olhos.
E depois ele viu, uma a uma, cada vela se apagando. E quando a última se apagou sentiu-se arrebatado para um vácuo sem fim, onde ele mergulhava em uma escuridão total, na qual nenhuma presença podia mais ser sentida.
Na manhã seguinte a igreja amanheceu com a porta aberta, como era de praxe acontecer no Dia dos Finados. Os tocos de vela estavam por toda a parte. Ninguém estranhava esse fato.Todo ano era a mesma coisa. Afinal, pensaram todos, o Padre Armando, apesar do seu ceticismo, não quis contradizer a velha tradição local. E deixou a porta da igreja aberta para a procissão dos mortos entrar.
Mas havia um fato estranho ali, que ninguém foi capaz de desvendar:  ninguém viu mais o Padre Armando naquela cidade. E em lugar nenhum do mundo ele foi encontrado, apesar de toda a Cúria e o próprio Bispo ter se empenhado em procurá-lo, inclusive solicitando a intervenção da polícia. Nada. O Padre Armando simplesmente sumiu do mapa como se Deus o tivesse levado com corpo e alma para o céu, como costumava fazer com seus eleitos. Ou para outro lugar, que ninguém ousava sequer pronunciar o nome.  
Todavia, há quem diga que quem comanda agora a Procissão dos Mortos é o Padre Armando. Por que todo ano, junto dos tocos de velas aparecem centenas de fitinhas e santinhos de Nossa Senhora de Lourdes, semelhantes aos que ele costumava benzer e distribuir aos paroquianos.
Claro que ninguém afirma nada a esse respeito, pois até hoje ninguém, naquela cidade, teve coragem de sair de casa depois da meia-noite, na madrugada do Dia dos Finados.
 
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  • *Adaptação livre de uma lenda urbana