A Tortura

Descrição:

Um casal de idosos. Ela, aproximadamente sessenta e cinco. Ele, sessenta e nove ou setenta. Ambos eram obesos mórbidos. Estavam com suas mãos atadas, às costas, completamente inertes e gélidos no momento em que foram encontrados. Estavam sentados sobre as pesadas cadeiras de madeira maciça da sala de jantar. Seus olhos estavam cerrados - ela havia pressionado as pupilas anteriormente, talvez por reação à dor que sentira. As bocas estavam sujas de pão, hambúrguer e molho.

Diagnóstico:

Morte por enfarte. Nos estômagos, espaço nenhum para a entrada de ar. Tampouco conseguiam produzir enzimas, vide a quantidade de comida e resíduos que ali estavam. Os médicos-legistas puseram-se nauseabundos ao fitar as condições que aquele casal falecera - sob requintes de crueldade.

A filha:

Magérrima, calma, em vestes negras, ela dirigiu-se à delegacia quando solicitada. Estava bastante firme, de olhos duros, a fitar os investigadores.

- Por que você fez o que fez?

- Por que eu quis - disse ela, iracunda, a soerguer os olhos ao responder.

- Como você o fez?

- Primeiro, os dopei...

- E? - inquiriu o outro, a interrompê-la. Ao vê-la irada, recuou.

- Então, conduzi-os e fi-los sentar sobre a mesa. Esperei o efeito do remédio passar e então comecei a torturá-los.

- Com comida?

- Pois sim! Eles que sempre quiseram fazer-me comer, tiveram seu dia de caça. As guloseimas mais gordurosas que existem estavam sobre a mesa: bolo de chocolate, hambúrgueres, sanduíches, presunto, queijo, etc. Tudo da melhor qualidade.

- E você os obrigou a comer?

- Eu os alimentei! Se engolissem uma só partícula de ar, eu os fazia arrotar para caber mais comida. Não sabia que resultaria em óbito, mas... - contou ela, a não tirar sorriso do rosto.

- Bem, por enquanto é isso - interrompeu o primeiro investigador.

Mais tarde, ela fora liberada. Por falta de provas, não podiam prendê-la nem preventivamente. Era uma assassina nata. Uma assassina que a si lhe apetecia matar as pessoas com comida. Os pais foram os primeiros. Três ou quatro outros obesos - entre namorado, primos e demais familiares - foram suas vítimas. Porém, sempre respondia à perguntas e era liberada.

Um dia, porém, Amanda engordou. Chegou a mais de cento e oitenta quilos. A moça magérrima tornara-se o triplo do que um dia fora. Não conseguia matar mais ninguém. Nem sequer levantar-se de uma cama. Já não tomava banho.

Morreu fétida, com o rosto cheio de gordura de guloseimas, na edícula da casa de seus pais.

Guilherme Zelig
Enviado por Guilherme Zelig em 03/06/2019
Código do texto: T6663566
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