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O Bilhete

          "Ei mãe, da próxima vez que ligar a velha Sonnata para ouvir o roto, embolorado e indestrutível rock, inicie por "Rock do diabo"; composição do satánico Raul Seixas. Quanto a mim, sem problemas, não perca noite de sono, mas quanto ao rock, não deixe-o morrer à míngua por falta de tímpanos. Lembra coroa, inicia assim: "diaaabo, o diabo Ze Capote, é rock... Ouça por mim, que assim que regressar de viagem às profundezas do inusitado, ouviremos juntos. Obrigado Mami; kisses, te amo!"

       Ao lado de meu futuro esquife, um bilhete escrito de próprio punho: "por favor, peço encarecidamente que ligue para 190 - Polícia Militar, ou 194 - SAMU.
        Estou esparramado sobre uma poça com mais de 30 l de sangue, originados por 4 tiros secos, surdos e mudos à queima ouvido. Nado, nado, nado e não saio do lugar. Agarrei ao pé do armário, mas não tive forças para içar-me para o alto.
         Referenciando como encontro-me nesse exato instante, meus olhos estão esbugalhados no globo ocular. Meu crânio aberto como casulo em metamorfose. E a boca arreganhada, mostrando os dentes implantados de porcelana estilhaçados, que eram alvos como a neve; e estão acinzentados pela pólvora. A garganta em retalhos. Ao lado da minha cabeça, que mais parece um polvo se abrindo, uma peruca loira contempla-a, desolada. Tocando-a com as mãos, sinto-a verdejante feito campina. Em contrapartida, neu corpo consegue ver-se sem ela pela primeira e última vez. Foi muita, mas muita sorte minha cabeça não ter sido decapitada, defenestrada do pescoco. Ufa, pelo menos isso"!
    "Meus pés, braços e pênis ainda se mexem, dando sinal de impulsos nervosos. O coração bate descompassado, o que não deve ser nada, pois tenho arritimia cardíaca. Conferindo o pulso, ainda pulsa.
    Conto com sua presteza e aguardo socorro, urgente.

Muito obrigado; Mutagambi.

       Agradeço imensamente, mas demorastes muito para ligar e pedir socorro. Agonizei o último suspiro. Infelizmente o sangue esfriou. Talhou. Condensou. Morri afogado. Chame a Polícia Técnica. Obrigado!
                     Mas por favor, na próxima, se eu retornar à essa maldita Terra e o meu espírito tiver oportunidade de morrer outra vez, e se por acaso você ler o pedido de socorro, seja mais eficiente! Não queira para seu semelhante, o que não desejas para si. É isso o tenho para dizer, porque morto estava há tempo.
         E se não fez até agora, com meu cadáver respirando e o coração pulsando, enterre-os parados. Inertes. Estáticos. Mortos.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 29/08/2019
Reeditado em 30/08/2019
Código do texto: T6731867
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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