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Surpresa!

Morar sozinho é sinistro! Eu digo isso porque quando o sujeito vai dormir, qualquer barulhinho o acorda: Uma moto passando na rua, um cachorro do vizinho latindo, uma briga de gato na rua, um adolescente escutando música alta no celular, enfim, qualquer coisinha interrompe um sonho no meio da madruga.

Ontem era pra ter mais uma noite de sono, quando exatamente às 3:15h da manhã um fino miado de filhote de gato surge na rua. Levantei da cama, botei uma roupa qualquer e fui até a porta. Algum covarde abandonou um filhotinho todo pretinho na porta da minha casa. O bichinho miava desesperado acordando a vizinhança toda. Abri o portão, peguei-o e ele foi logo se aconchegando em mim, pois estava morrendo de frio. Levei pra dentro, tranquei as portas e analisei o que poderia dar pra ele, haja vista ele estar miando de fome (Já tive muitos gatos na vida e quem tem sabe direitinho pelo miado o que o bichinho quer). Peguei uma lata de atum, que eu ia usar pra fazer pastinha de maionese. Foi o que eu pude fazer no meio da madruga, pois naquele horário todo o comércio estava fechado. Naquela noite ele dormiu na minha cama e me acordou às 6:00h querendo brincar. Brinquei um pouquinho com ele, mas tive que ir trabalhar.

No final do dia, ao chegar em casa com um saco de 1Kg de ração para filhotes, um potinho para a ração e outro para água, um fedor fortíssimo me pega de surpresa: Eu esqueci que o meu mais novo mascote também defeca. Ele defecou no cantinho do corredor perto do banheiro e quem tem ou já teve gato sabe o quão forte é o fedor de fezes de gato, principalmente de filhote. Corri até a pet-shop perto da minha casa, comprei uma bandeja de plástico e um saco de areia higiênica para gatos. Chegando em casa, preparei tudo, retirei as fezes com jornal e joguei no vaso, dei descarga, limpei o lugar com desinfetante e papel higiênico pra tirar o fedor. Deixei a caixinha de areia no exato local onde ele havia defecado. Nos dias subseqüentes foi tranqüilo quanto a isso.

Com o passar dos meses, Mike (o nome que dei pra ele) foi crescendo rápido e antes que eu percebesse, ele estava adulto.  O meu bichinho me acordava todos os dias exatamente às 6:00h. Nos fins de semana, eu brincava com ele o dia todo e no final do dia, ele assistia TV no meu colo comigo. Meu filho de quatro patas era a minha maior alegria.


Capítulo 2 – Sombras do passado

Um dia eu voltei do trabalho e encontrei Mike morto, pendurado no portão da minha casa com um bilhete escrito em uma folha de bloco de notas com o sangue dele:

[ Te achei! ]

Fiquei arrasado com a morte do meu bichinho e aterrorizado com aquela mensagem sinistra deixada por algum inimigo anônimo. Será que quem matou o meu gato não estaria me confundindo com outra pessoa? Entrei em depressão profunda. Nada mais fazia sentido. Em todos os lugares da casa, eu o via brincando, correndo, comendo a ração, dormindo no sofá ou em cima das minhas pernas me acariciando enquanto eu estava no PC. Enfim, perder um gato pra quem mora sozinho é como perder um filho. É torturante e arrasador. Mas quem seria o meu misterioso inimigo, quem sem dó nem piedade matou o meu filho de quatro patas? Durante vários meses, me precavi contra o pior: Tirei a cama do quarto e coloquei na sala, onde eu podia dormir bem longe da janela, troquei os segredos de todas as fechaduras, mandei colocar grades em todas as janelas e passei a dormir com as luzes da casa todas acesas. Não sei o que me consumia mais: A dor da perda do meu pequeno Mike, ou o pânico de poder ser assassinado a qualquer momento. Minha cabeça estava rodando enquanto eu tentava nas minhas recentes e remotas memórias descobrir de quem eu estaria me escondendo. Eu estava começando a pirar.

Seis meses depois do assassinato de Mike, eu estava quase livre da depressão, pois boa parte dela se transformou em revolta e determinação a encontrar o assassino antes que ele me encontrasse.
Lembrei-me de quando mudei de bairro há cinco anos e deixei pra trás um débito no mercadinho que ficava na rua da casa onde morei. Aquele velho era mesmo um ladrãozinho que merecia mesmo um “beiço”, pois sempre em que eu ia pagar a conta do crédito que eu tinha com ele, ele me cobrava muito mais do que eu realmente devia. Como o meu salário era muito pequeno e, portanto eu ficava sempre duro depois de pagá-lo, eu acabava caindo forçosamente nas mãos dele outra vez.  Fiquei pensando naquele valor que ele me cobrou: R$460,00 por mercadorias que forçando muito custariam todas juntas uns R$150,00. Aquele velho ladrão certamente matou o meu gato! E o pior, por conta de um dinheiro que já estava mais do que bem pago, mesmo se fosse os R$460,00, se for contar quantas vezes ele me roubou nas contas dele. E além do mais, o meu bichinho valia muito mais do que esses míseros R$460,00!
Um dia, depois que saí do trabalho peguei meu carro e fui até a casa dele. Fiquei observando, pois eu sabia que naquele dia ele estava na igreja e que, portanto voltaria tarde pra casa.  Eu estava com uma touca ninja, por isso não teria como ser identificado. Meu carro estava com placas falsas, para caso alguém fotografasse o veículo. Usei luvas cirúrgicas pra não deixar impressões digitais e nem vestígios de DNA na cena do crime. Nunca tive armas de fogo, pois sempre fui da ideologia de que armas de fogo fazem muito barulho e eu sempre fui muito discreto. Naquele momento, eu estava com uma faca de 30cm afiada dos dois lados da lâmina no porta-luvas. Esperei o momento certo. Vi o canalha voltar pra casa, acompanhado da esposa e do casalzinho de filhos de 10 e 12 anos de idade. A situação era mais do que perfeita! A esposa e os filhos entraram primeiro. Ele entrou por último pra poder trancar o portão. Quando ele ia entrar pelo portão, de costas para a rua, saí rapidamente do carro enfiei de modo certeiro a faca no coração dele! Escutei o grito alto e seco dele enquanto os filhos e a esposa do desgraçado me olhavam com terror nos olhos. Rápido feito um raio, voltei para o carro, liguei e saí da cena. Cheguei em casa com aquele gostinho de missão cumprida. Ao dirigir pra casa, eu pensei: “A tua morte está vingada, Mike! Agora o teu espírito pode descansar em paz no céu dos gatos.” Mas quando cheguei em casa, um bilhete me esperava no portão. Outra folha de bloco de notas estava pendurada perto da fechadura, desta vez escrito com o sangue do dono do mercadinho:

[ Errou o alvo, malandro. Mas foi bom você ter matado aquele ladrãozinho. Eu também não gostava dele. Só que agora você está nas minhas mãos, pois com uma denúncia eu te boto no xadrez. Mas vamos deixar isso para um momento mais oportuno. Primeiro eu vou executar a minha vingança e quando descobrir quem sou eu, você estará atrás das grades. ]

Aliviado em saber que o assassino do meu gato não queria me matar, fiquei simultaneamente desesperado pelo fato de que seja quem for o sujeito, eu tinha que encontrar o mais rápido possível. Pois como ele dizia no segundo bilhete, por uma atitude precipitada eu fiquei ‘nas mãos dele’, a menos que eu o encontre antes de ele executar a tal vingança, seja lá qual for.


Capítulo 3 – O sonho e o pesadelo

Desesperado em tentar saber quem era o assassino misterioso, fiquei a noite quase inteira tentando me lembrar a quem eu poderia ter feito mal a ponto dele querer vingança. Eu digo ‘quase’ inteira porque por volta das 3 da madruga, eu estava com tanto sono que dormi no sofá, sentado.

Naquela noite, eu sonhei com a época em que eu era casado. Lembrei-me da casa onde morei com uma mulher que me traiu com dois caras diferentes. Relevei os chifres até onde deu. Até o momento em que ao chegar mais cedo em casa eu a flagrei fazendo sexo com dois vizinhos ao mesmo tempo no sofá da sala. A separação foi iminente, pois eu jamais perdoaria tal coisa. Peguei minhas coisas e fui embora. Foi quando eu acabei indo morar sozinho onde moro agora. Minha ex ainda teve a cara-de-pau de me dizer que eu não podia abandoná-la, pois ela não tinha emprego e que ela iria me botar na justiça pra me extorquir pensão alimentícia. Como não tínhamos filhos, nem liguei para as ameaças dela. Mas lembrei naquele sonho das palavras dela: “Eu vou te achar! Você vai pagar caro por ter me abandonado, seu canalha!” E então a verdade brilhou diante dos meus olhos feito o sol do amanhecer brilhando na minha cara quando eu acordei e pensei: “É isso! Ela matou o Mike!  É por isso que ela sabia o que eu fiz! Lógico, certamente ela ainda mora ali naquela mesma casa onde morávamos e coincidiu de ela me ver matando o velho! Ela pode não conhecer o carro que comprei depois da separação, mas sabia perfeitamente que eu desconfiaria dele! E mesmo com aquela touca ninja, ela conhece muito bem os meus jeitos e trejeitos, pois ela era a minha esposa!”

Esperei então alguns meses para a poeira do homicídio do velho comerciante baixar. Neste meio tempo, troquei de carro por um que fosse muito diferente. Coloquei insulfilm e com as minhas placas falsas, minha touca ninja, luvas cirúrgicas e aquela mesma faca de dois gumes limpa e afiada, fui até a rua onde morei. Eram 16:00h e algumas pessoas ainda estavam na rua. Pensei: “Vou esperar entardecer um pouco.” Depois pensei: “Melhor não, embora ela nunca tivesse visto este outro carro, ela vai desconfiar. Ainda mais depois de ter me visto matando o dono do mercadinho.” Voltei pra casa e esperei anoitecer. Às 21:00, voltei à rua da minha ex-casa. Desta vez, eu vi ao longe ela beijando de língua um cara diferente dos vizinhos que certamente ainda pegavam ela ‘por fora’.

Louco de raiva e de ciúmes da minha ex, acelerei e joguei o carro em cima deles, jogando os dois pra cima. Ao ver os dois caírem com cara de espanto atrás do carro, parei, engatei a ré e acelerei novamente. Ele levantou com muito custo e saiu do meu caminho antes de eu o atingir. Ela não conseguiu levantar a tempo, matei-a passando as rodas direitas sobre o seu tórax. Matei-o derrubando-o novamente e logo em seguida passando as rodas esquerdas do veículo por cima do tórax dele. Ao ver aquele monte de sangue misturado a órgãos humanos espalhados por aquela estreita rua feita de paralelepípedos, corri ao máximo que pude até chegar em casa. Ao sair do carro, vi que as laterais do mesmo estavam muito sujas de sangue. Desesperado, lavei-o rapidamente tirando todo o sangue do veículo. Depois que o meu carro estava completamente limpo, tentei dormir um pouco, mas a imagem daquela rua cheia de sangue misturado a órgãos humanos não saía da minha cabeça. Tentei ir trabalhar no outro dia, atordoado com a loucura que eu havia acabado de fazer. Mas quando eu cheguei ao portão, outro bilhete estava pendurado. Este estava feito com uma folha de bloco de notas e letras escritas com o sangue da minha ex:

[ Errou de novo! Mas está chegando perto. Como você mudou desde quando era aquele garotinho de 7 anos de idade que não conseguiria matar nem uma galinha. Você me impressionou com toda a tua frieza desta vez.  Fiquei até na dúvida se executo a minha vingança de uma vez ou se espero o momento certo. Sinceramente eu não queria estar no lugar da tua ex ou do marido dela. O jeito em que você usou o carro pra espalhar os órgãos deles pela rua foi fantástico! Eu mesmo não teria feito melhor! Agora eu tenho dois crimes nas mãos pra te colocar onde eu quero. Mas tem muita coisa pra acontecer primeiro. Você vai levar uma fumada que você nunca mais vai esquecer. ]

Ao ler aquilo entrei em pânico! Pensei em fazer uma denuncia sobre o assassinato do meu gato. Mas aí eu me lembrei do fato de que depois de eu ter matado três pessoas era meio tarde pra eu pedir uma investigação policial sobre o caso.


Capítulo 4 – Traumas de infância

Depois de uma semana sem conseguir dormir nem raciocinar direito, tomei um calmante bem forte e dormi quase um dia todo e a noite logo em seguida. Depois disso, pensei: ”Tenho que analisar com calma e com atenção quem é esse sujeitinho. É alguém que me conhece desde os sete anos de idade, talvez desde antes. Então ou é um ex-vizinho ou é um ex-colega de escola. Mas quem?” Na escola eu quase não tinha inimigos. Na vizinhança também não. Forcei a memória até me lembrar de um fato que até então eu havia esquecido. Quando eu tinha sete anos de idade, minha falecida mãe me levou em uma loja de frangos onde eles abatiam na hora. A loja tinha uma residência nos fundos do terreno, onde moravam os donos do comércio. Quando eu vi o funcionário, um rapaz adolescente, cortar o pescoço da galinha, aquilo me assustou e eu comecei a chorar. Dois anos depois, quando eu estava a caminho da escola, passei por uma casa onde antes foi esta loja, então um cachorro rottweiler saiu daquela casa e mordeu a minha perna. Fui parar no hospital e fiquei alguns dias sem estudar por conta disso. Minha mãe não ligou muito para o ocorrido e quando eu estava apto a voltar a estudar, ao passar perto daquela casa, fui logo pegando uma pedra bem grande. Como eu já imaginava, o mesmo cachorro estava solto outra vez e eu em minha legítima defesa, pra evitar oura mordida, assim que ele chegou na calçada, joguei a pedra na cabeça do bicho e este desmaiou sob o olhar raivoso daquele mesmo adolescente que há dois anos trabalhava na loja de frangos. Ignorei o olhar do rapaz e fui para a escola. Antes de entrar no educandário, ouvi ao longe o jovem gritando:

- Vai ter volta, hein moleque safado!

Só por precaução, passei daquele dia em diante a usar um caminho alternativo pra ir à escola, evitando passar perto da casa do cachorro.
Ao lembrar este fato da minha infância eu pensei: “É isso! O dono do cachorro! Possivelmente o cachorro morreu com a pedrada e ele descontou em cima do meu gato! Um bicho de estimação por um bicho de estimação! Agora eu entendi o porquê de ele ir em cima do Mike!”

Naquela noite, peguei o carro com minha faca especial, minhas luvas de látex e minha touca ninja. Desta vez com as placas verdadeiras, afinal, ele sabia quem eu era, portanto placas falsas não adiantariam de nada. Dirigi discretamente até a ex-loja de frangos. Para a minha surpresa, apesar de ainda haver aquela casinha ao fundo do terreno, no lugar da loja na frente da rua havia uma enorme igreja protestante com um suntuoso estacionamento na frente. Fiquei pasmo, não só com o tamanho do templo religioso, mas ao ver entre os fiéis o assassino do meu gato. Ele estava bem diferente daquele jovem que disse que “vai ter volta” e me chamou de “moleque safado”. O rosto era o mesmo, mas aparentava ter aproximadamente 50 anos de idade. O que antes foi um adolescente magrelo agora era um homem gordo, muito gordo. O terno, a gravata, os impecáveis sapatos de couro marrom e a bíblia debaixo do braço sugeriam que ele era o pastor daquela seita, haja vista ele ser também o proprietário daquele imóvel. Havia muita gente ali. Não tinha como eu fazer nada naquele momento. Fiquei pensando em esperar o culto acabar, mas automaticamente eu raciocinei: “Se eu ficar aqui, ele faz as denuncias do que ele sabe contra mim!” Então enfurecido eu voltei pra casa. Chegando em casa, outro bilhete estava no portão, feito com outra folha de bloco de notas, onde estava escrito com caneta azul desta vez:

[ Parabéns! Evitou outro homicídio equivocado! Você está ficando esperto! O Pastor Josiel tem centenas de amigos, o que significa que você iria se encrencar feio se matasse ele no meu lugar. Você está aprendendo a analisar as coisas antes de agir e isso está começando a me dar medo. Afinal, vamos ver se na tua próxima dedução você vai pensar duas vezes ou vamos ter mais um crime pra você pagar quando for preso. ]

Ao entrar em casa, eu pensei: “Isso é uma confirmação nas entrelinhas de que ele é o pastor ou ele escreveu isso pra me confundir e eu realmente matar outro inocente?” Fui dormir pensando: “Seja quem for é muito inteligente, estratégico e está de algum jeito seguindo cada um dos meus passos. Mas como ele está me monitorando desse jeito?” Nesse momento, a palavra “monitorando” me fez raciocinar e ter uma idéia genial! Pensei: ”Vou comprar uma micro-câmera e colocar perto do portão pra ver quem está deixando os bilhetes!”


Capítulo 5 - Descobertas

Na manhã seguinte, um sábado, quando eu estava tomando o café da manhã para então sair e comprar o meu equipamento de monitoração, ouvi pela janela fechada da cozinha uma vizinha que por um acaso era prima da minha ex falando ao celular na maior altura:

- Que!? Gato preto dá azar, minha filha! Você acha que eu vou dar mole?

Nesse momento, coloquei o meu celular pra gravar e peguei-a falando com a amiga:

- Ah, matei mesmo! O vizinho tinha um gatinho preto, enforquei e deixei pendurado no portão dele pra ele aprender a não ficar trazendo essas coisas azarentas pra vizinhança! Agora eu só tenho é sorte, minha querida. E outra! Esse cara que mora do lado da minha casa, fica olhando com cara de tarado pra minha filha. Minha filha é um bebê de 19 anos! Esse desgraçado tem idade pra ser pai dela. Será que esse cara não se enxerga não? Vou dar uma fumada nesse cara, que ele vai ver só. Ele vai aprender a respeitar a filha dos outros.  [Pausa de 4 segundos] O que? Você acha que ele vai me processar por causa do gato azarento dele? Eu é que vou processar ele por assédio sexual contra a minha filha. Esse bicho nojento tinha mais é que morrer mesmo. [Pausa de 2 segundos] Então ta, me deixa ir que eu já estou atrasada!

Ao ouvir aquilo, fiquei tão louco de raiva que instantaneamente perdi o raciocínio todinho. Eu ia matá-la, mas quando cheguei na garagem pra pegar a minha faca, ouvi o motor do carro dela ligando e o carro indo embora. Eu pensei: “Desgraçada! Vou esperar ela voltar!” Eu estava tão fora de mim que nem me lembrei de ir comprar a micro-câmera e o monitor que a princípio eu pensei em comprar. Fiquei o dia todo, até o escurecer esperando por ela. Meia noite e nem sinal dela. Ela só voltou no dia seguinte e com isso acabei dormindo no sofá da sala outra vez. No dia seguinte, mais calmo eu raciocinei: “Peraí! Eu tenho a voz dela gravada confessando ter matado o meu gato e dizendo que quer me dar uma fumada por conta do jeito que eu olho para a filha dela. E ainda tenho os bilhetes com a letra dela, três deles com letras de sangue! É isso! O jogo virou! Com esse telefonema gravado, eu é quem vou dar uma fumada nela.”

Joguei o áudio do celular no PC do meu quarto, na intenção de filtrar ruídos e deixar a voz dela o mais audível possível. Mas quando eu tentei ouvir o áudio no PC, simplesmente eu ouvi uns miados de gato. Eram miados do Mike, que simplesmente preencheram a faixa de áudio do inicio até o final. Nada da voz da arrogante e prepotente vizinha. Só os miados do meu falecido bichinho. Aterrorizado, eu desliguei o PC e desmaiei logo em seguida.

Acordei do desmaio no outro dia, com o áudio do celular na cabeça. Peguei com muito medo o aparelho da mesa do meu PC e tentei ouvir direto do celular o áudio da vizinha: O áudio estava perfeito com todos os dizeres dela. Levei então o celular na delegacia e ouvi do atendente uma resposta que me deixou chocado:

- Meu amigo, vamos recapitular. Você resolve criar um gato preto, trazendo azar pra tua vizinhança toda e quer que todos os vizinhos aceitem de boas? Você tem muita sorte. Se fosse comigo, eu teria não só dado um sumiço no gato preto, como também teria te dados uns catiripapos pra você aprender a não trazer azar pra vizinhança. E outra: Se essa tua vizinha conseguir provar que você ta olhando de forma desrespeitosa pra filha dela, pode dar ruim pra tu, meu camarada. Então, esquece o teu amuleto de azar, que essa vizinha aí fez o que qualquer um faria no lugar dela e muda as tuas atitudes, senão ela pode te denunciar por assédio sexual contra a filha dela. Estamos conversados?

Louco de raiva, porém ciente de que poderia ser preso por desacato à autoridade se eu respondesse conforme eu gostaria, eu respondi de forma seca e entre os dentes:

- Estamos.

Voltei pra casa tão puto, que ao ver a vizinha atravessando a rua de mãos dadas com a filha perto da minha garagem, não pensei duas vezes: Joguei o carro em cima delas! O impacto foi tão forte, que elas voaram longe. A vizinha bateu a cabeça em um poste e morreu de traumatismo craniano. A filha, caiu a 7 metros do meu carro, gravemente ferida e morreu a caminho do hospital. Até então, eu havia esquecido dois detalhes:

> A rua da minha atual residência é sem saída, o que me impediu de fugir do flagrante. Tentei manobrar e voltar, mas quando voltei, fui impedido pelo detalhe n.º 2

> O vizinho da casa da frente era policial e estava me apontando uma pistola ao gritar:

- Pare, senão eu atiro!

Entre o medo de levar um tiro e a vontade de atropelar aquele cara com pistola e tudo, o medo de morrer falou mais alto. Então eu parei o carro e fui algemado por ele e levado no carro dele até a delegacia. De dentro da cela, o vizinho policial me olhou e com um sorriso sarcástico, ele me disse:

- Finalmente, depois de você matar cinco pessoas inocentes, eu consegui a minha vingança.

- Então era você!?

O sujeito fez um sim com a cabeça enquanto me olhava com cara de tarado. Então eu perguntei:

- Mas por quê!? E além do mais, nós moramos de frente um pro outro há anos! De onde você me conhece!? Qual é a base da tua vingança!?

- Você não lembra de mim, não é. Somos conhecidos de infância e temos mais ou menos a mesma idade. Eu morava naquela mesma rua em que você morou. E você tinha a mania que jogar Atari melhor do que todo mundo, batendo todos os recordes.

- Até aí eu me lembro. Eu tinha um genérico do Atari, chamado Supergame da CCE, que por não ter as chaves de dificuldade, eu era obrigado a jogar todos os jogos no modo difícil e com isso quando eu jogava na casa de alguém, podendo jogar no modo fácil, eu acabava jogando muito melhor do que todo mundo. Mas o que isso tem a ver?

- Tem a ver que eu apostei que você era incapaz de fazer um milhão de pontos no jogo HERO. Ninguém era capaz! E o pior, apostei o meu Atari e perdi, porque você na casa de Diego fez um milhão de pontos e por culpa da tua arrogância, perdi o meu Atari, perdi a moral que eu tinha com os meus amigos, perdi a confiança dos meus pais, perdi a namorada, enfim, através daquela partida em que você fez um milhão, eu perdi tudo.

- Mas eu nem te conhecia direito. Agora é que eu estou te reconhecendo mais ou menos. Você é o primo mais velho de Diego, certo? Se você me chamasse na conversa e explicasse a situação, eu nunca teria feito aquela pontuação.

- Meio tarde pra você se fazer de santinho agora, cara. Minha vingança está concluída.

- Mas... Por que a nossa vizinha então confessou ter matado o meu gato? E como você me monitorava?

- Eu não deveria te dar satisfação, mas como você vai apodrecer aí mesmo, vou contar: Assim que eu descobri onde você estava morando, fiz de tudo pra alugar uma casa perto da tua. Entrei no ano passado no concurso da Polícia Militar e lá dentro eu descobri que pra te prender eu teria que descobrir algum podre teu. Fiquei um ano te investigando, mas você não se envolve com drogas, não bebe, não tem vida social e nunca roubou nada de ninguém, o que dificultou muito pro meu lado. Eu precisava de um crime teu! Qualquer um! Aí, um dia eu vi a nossa vizinha matando o teu gato e pendurando no portão da tua casa. Pensei: “Bingo! Agora ele vai matar a vizinha, eu o prendo e acabou!”. Mas como você é muito lerdo, fui lá e deixei aquele bilhete escrito com o sangue do teu gato: [Te achei!] e quando eu vi que você não desconfiou da nossa vizinha, fui-te ‘cozinhando aos poucos’ com outros bilhetes te induzindo a cometer vários homicídios, te tornando diante da sociedade um ‘serial killer’ pra ter como te prender sem você ter legalmente como se defender. Agora apodrece aí desgraçado. Acabou pra você.

Friamente, ele foi embora. E sem saber o que fazer, eu fui dormir na minha primeira noite na prisão.


Capítulo 6 – Nem tudo são espinhos

No dia seguinte, o carcereiro chegou à porta da cela e disse:

- Novato! Vem comigo!

E abriu a cela. Acompanhei com certo medo o carcereiro até uma saleta privada, que parecia a sala de uma residência bem pequena. Ele sentou-se em uma cadeira que estava ao lado de uma mesinha e me convidou a sentar-me na cadeira que estava do outro lado da mesinha. Assim que eu me sentei, ele me olhou nos olhos e disse:

- Seguinte parceiro. Pelo que eu entendi você foi preso por vingança de um PM por conta de uma briga da época em que vocês eram crianças, certo?

Por medo de explicar detalhadamente a situação e me complicar, eu simplesmente concordei:

 - Sim, é isso aí.

Ele coçou o queixo e disse:

- Tô com uma proposta boa pra você, rapaz. Você tem algum dinheiro guardado em banco?

- Sim, tenho dez mil reais.

- Então, por sete mil eu dou um jeito de te tirar daqui. Mas você vai ter que sumir da cidade até acabarem os vinte anos da qual você foi condenado. Pra todos os efeitos, você foi transferido pra um presídio de segurança máxima na Capital. Por ordem do Ministério Público, a transferência será amanhã. E eu já tenho todo mundo conchavado pra dizer que você está lá na cela. No transporte para o outro presídio é que você sai, no meio do caminho. O motorista da viatura vai te deixar na verdade em outro município, daí você se vira.

- Sete mil!? Não tem como ser por menos?

- Por mim até poderia, mas o motorista que vai te levar pra outra cidade ao invés do outro presídio, tem que ganhar a parte dele. O Delegado que vai te liberar pra ir transferir o dinheiro pra minha conta vai ganhar o dele. O diretor do Presídio de segurança máxima tem que ganhar uma parte pra se arriscar assinando os documentos como se você tivesse chegado e estivesse na cela. O carcereiro do outro presídio também vai levar uma parte. Entendeu como é complicado?

- Entendi...

- E aí? Se vai negociar, vamos agora ao banco.

- Tá legal, vamos nessa.

Conforme o combinado, no dia seguinte o motorista me deixou em outro município, bem longe de qualquer pessoa que pudesse denunciar o fato de que eu estava bem longe de onde eu legalmente deveria estar. Nesse momento eu pensei: “Peraí! Como eu vou viver longe da minha casa, sem meu carro, sem um emprego e em um lugar onde ninguém me conhece? Tenho que voltar à minha cidade, nem que seja pra pegar o meu carro e tentar ganhar um dinheirinho com ele como Uber. Mas o babaquinha que me armou essa estória toda mora na frente da minha casa. Significa que eu vou ter que fazer isso no meio da madrugada.”
Esperei anoitecer, fui a um caixa eletrônico e saquei R$500,00. Bebi umas cervejas em um bar perto de um ponto de taxi, e exatamente às 3:00h peguei um táxi de volta para a minha cidade. Como imaginei, ao chegar de táxi na minha casa, vi que toda a vizinhança estava dormindo. Peguei meu carro, algumas roupas, coisas pessoais e pensei: “Não vou voltar naquela mesma cidade, ou corre-se o risco de aquele carcereiro me encontrar e ficar me extorquindo por saber demais sobre mim. Vou sumir de verdade, para outro Estado de uma vez.” E assim o fiz. Atravessei duas fronteiras estaduais e quando estava do outro lado do país. Morrendo de sono depois de dirigir durante um dia inteiro, procurei um hotel. Fui dormir às 21:00h bem longe de todos os meus problemas. Antes de dormir, um pressentimento muito forte me fez pegar a minha faca de dentro do carro e levar comigo pra dentro do quarto.  Dormi perturbado, com uma péssima sensação de estar sendo seguido ou algo assim.


Capítulo 7 – Ultimas surpresas

Exatamente às 6:00 da manhã, eu acordei com alguém batendo à porta do quarto do hotel. Olhei pelo ‘olho mágico’ e vi o sujeito que me prendeu junto com o carcereiro. Pensei: “Desgraçados! Tomaram meu dinheiro por nada!” A campainha não parava de tocar e eu não vi alternativa senão tentar fugir pela janela. Como o quarto ficava no segundo piso, tive só uma leve dificuldade em descer da marquise por um poste que por sorte estava bem perto. Entrei no carro e sumi dali, deixando os dois trambiqueiros tocando a campainha do quarto. Fui para o outro lado da cidade, onde havia um porto cheio de navios e containeres. Entrei no estacionamento do porto. Vi incrédulo ao longe o carro do meu inimigo chegando, certamente seguiu o meu carro ao longe sem eu perceber. E certamente fizeram o mesmo quando saí da minha cidade. Escondi-me em um depósito, onde subi em um container e fiquei olhando pra baixo, vendo o policial e o carcereiro entrando. O carcereiro estava com a minha faca na mão direita. Pensei: “Saí tão rápido que esqueci a faca no hotel e agora esses babacas estão de posse da arma dos meus dois primeiros crimes!” Andei discretamente sobre o container e ao ver um arpão, agarrei-o e desci, ficando entre um container e outro. Quando os dois passaram por mim, enfiei o arpão no peito do policial! O carcereiro deixou a faca cair pra pegar a pistola na cintura, mas eu rolei, peguei a faca do chão e antes que ele pudesse atirar, enfiei a faca no órgão urinário dele! Ele paralisou fazendo uma expressão facial que misturava ódio e dor. Retirei a faca e logo em seguida ele caiu desmaiado com a dor. Peguei as pistolas deles e escondi na roupa. Peguei minha faca levando-a na mão direita e saí do depósito.

Antes que eu pudesse chegar no meu carro, um guarda ao me ver com a faca na mão, pensou que eu fosse um ladrão e foi logo puxando a pistola. Sem querer saber de conversa, o guarda atirou na minha cabeça.

Morri...

Cheguei ao inferno e vi o diabo sentando em seu trono infernal, com o meu gatinho Mike no colo. O Demônio sorriu e disse:

- Olha quem estava com saudades de você.

O bichinho pulou do colo do Senhor das Trevas e veio me acariciando nas pernas. Peguei o meu bichinho no colo e disse:

- Eu até entendo o fato de eu vir parar aqui, mas o Mike é só um bichinho inocente.

O Demônio fechou os olhos, fez um não com a cabeça, abriu os olhos e disse:

- Se você analisar friamente, o Mike foi indiretamente o motivo de você ter matado sete pessoas. Tenho orgulho de você, meu Serial Killer!

- Mas... eu não sou exatamente um Serial Killer.

Se segurando pra não rir, ele disse:

- E como você se classifica depois de ter matado sete humanos?

- Eu... é... ta certo.

Ser oficialmente um Serial Killer me incomodava um pouco, mas aceitando o título em questão eu recebi o direito de ser um punidor de almas, trabalhando para Lúcifer em pessoa. Melhor do que sofrer as torturas do inferno.

FIM
Eduard de Bruyn
Enviado por Eduard de Bruyn em 08/10/2019
Código do texto: T6764299
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Sobre o autor
Eduard de Bruyn
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
42 textos (3582 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/10/19 04:26)
Eduard de Bruyn