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A ESCADARIA

A ESCADARIA
Por Francisco Alhandra
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PARTE I - BRINCADEIRAS NA ESCURIDÃO

Quando criança eu não entendia porque meus pais deixavam coisas tão valiosas lá naquela escadaria, dinheiro, as jóias de ouro da minha mãe. Sempre que eu perguntava à minha mãe ela fingia não ouvir ou desconversava e mudava de assunto. Apesar da curiosidade eu nunca tive coragem de subir até lá para descobrir, principalmente depois que minha avó me contou que era proibido subir ali, e que aqueles que se atreviam nunca mais voltavam, ela disse que aconteceu com meu tio Marcus, o irmão da minha mãe, quando ele tinha 10 anos a desobedeceu e subiu os degraus, nunca mais voltou para casa, acho que é por causa disso que minha avó é tão melancólica, ela nunca deve ter se recuperado da perda do filho.

Por mais que eu perguntasse ninguém na família me dizia nada sobre aquele lugar, eu só sabia o que minha avó deixava escapar quando estava embriagada pelo vinho, ela disse que meu bisavô construiu a escadaria com as próprias mãos, assim que chegaram aqui no Brasil refugiados da guerra, sempre que eu perguntava porque meu bisavô construiu uma escadaria gigante de pedra em uma colina no meio do mato ela encerrava assunto, mesmo durante suas horas de bebedeira.
 
Sem querer acabei contando na escola a história da escadaria ao meu amigo Inácio, curioso do jeito que ele era me azucrinou até eu concordar em levá-lo para ver o lugar, parecia que quanto mais eu falava a palavra proibido mais os olhos dele brilhavam. Até hoje eu ainda tenho pesadelos com o que aconteceu naquele dia. Astutamente combinamos de explorar a escadaria no mesmo dia do trabalho de astronomia, dias antes trabalhamos secretamente na maquete do sistema solar, no dia do trabalho ela já estava quase pronta e teríamos o dia todo para explorar a escadaria, era uma questão de tempo, depois que meus pais foram para o trabalho só tivemos que esperar minha avô tomar uns três copos de vinho e cair no sono. Nosso plano se desenrolou muito bem e então eu, o Inácio e sua prima Regina saímos para nossa expedição.

Caminhamos um pouco pela mata até chegar na colina onde o meu bisavô construiu a escadaria, a subida foi difícil, a prima do Inácio tinha asma e aquilo era muito difícil para ela, chegando ao topo eu não acreditei quando vi aquilo. Até então o mais perto que eu tinha chegado do lugar foi ao pé da colina, e de lá a visão não era assim tão bela. O lugar era magnífico, os degraus de pedra eram gigantes, no topo tinha uma imensa coluna com uma bacia de metal em cima, eu finalmente descobri que a luz que víamos lá de casa todas as noites era o fogo que queimava alí em cima daquela coluna.

Eu disse a eles que era proibido subir os degraus, contei que meu tio subiu lá e nunca mais voltou. Mas como é que o Inácio me ouviria? Ele só fazia o que queria. Eu não tive coragem de subir primeiro, fiquei lá esperando eles chegarem no topo, aí sim eu subiria, logo eles acenaram para mim que eu poderia finalmente subir. Quando dei o primeiro passo congelei de medo, um homem muito estranho saiu de trás da coluna e ficou ali plantado sem que meus amigos o vissem. Eu perdi a voz quando o vi, aquele homem era assustador, ele era muito magro, sua pele era enrugada, vestia um terno preto muito esquisito. Meus amigos não perceberam que aquele velho pavoroso estava espreitando por detrás de suas costas e continuaram acenando em minha direção, eu também não pude alertá-los porque fiquei paralisada de medo, o que aconteceu a seguir foi algo terrível, daquele dia em diante eu nunca mais consegui dormir. Enquanto eu estava lá congelada ele puxou uma faca de dentro do terno e esfaqueou meus amigos no coração. Eu tentei gritar, mas minha voz sumiu completamente. Meus pais chegaram de repente, eu em pratos apontei para cima e mostrei a eles meus amigos lá caídos no chão, e aquele velho estava lá parado nos encarando, o medo nos olhos da minha mãe parecia ainda maior que o meu próprio medo. Eles me arrastaram dali de volta à fazenda, e deixaram o Inácio e a Regina lá com aquele homem.

Dois dias depois eles me contaram que meus amigos haviam desaparecido, policiais vinham constantemente à nossa casa, eles me fizeram perguntas e mais perguntas. Meus pais disseram que tudo ficaria bem e que a políciais os encontrariam, mas eu sabia que era mentira, eu sabia que meus amigos estavam mortos.


PARTE II - SACRIFÍCIOS PELA FAMÍLIA

Anos se passaram e eles seguiram com suas vidas como se nada tivesse acontecido e nunca mais tocaram no assunto. Mas como eu poderia esquecer aquilo? Eu vi meus amigos morrerem na minha frente, enquanto eu estava lá paralisada pelo medo sem poder ajudar eles.

Tudo parecia dar errado, eu pensava constantemente em pôr fim à minha própria vida. Mas algo mudou no dia que o Mateus veio trabalhar na fazenda, viramos amigos e logo nos apaixonamos perdidamente, a única coisa que me impedia de cortar meus pulsos e sangrar até a morte era a presença do Mateus ali. Aqueles meses foram muito difíceis, minha mãe estava com câncer em estado terminal, meu pai mal falava comigo, o Mateus era quem me mantinha firme, me ajudava a lidar com toda aquela dor.

Os gritos me despertaram logo cedo, quando desci a escada vi que o Mateus estava caído no chão da sala e meu pai segurava uma barra de ferro nas mãos, ele me trancou no quarto, pela janela eu vi quando ele levou o Mateus e o colocou na caminhonete. Eu precisava ajudá-lo, eu sabia onde meu pai guardava o revólver, e também sabia para onde ele estava levando o Mateus.

-Para pai por favor.
-Volte pra casa, agora. Você não entende eu preciso fazer isso.
-Porque pai, o Mateus é uma boa pessoa, eu amo ele.
-Se eu não fizer isso sua mãe vai morrer. É a vida dela pela dele, esse é o trato.

Não era pra você ver isso minha filha, mas já que você está aqui a escolha será sua, você pode apertar esse gatilho me matar e salvar seu namorado, mas saiba que mata sua mãe junto. Você pode abaixar essa arma e voltar para casa, e sua mãe vai se recuperar daquela doença maldita, podemos viver nossas vidas em paz, todos juntos como uma família deve estar. Eu sei que é um fardo muito pesado que eu joguei sob os seus ombros, mas uma escolha precisa ser feita aqui e agora. Família sempre vem em primeiro lugar querida.

Uma dor me corroía o coração. Como é que eu poderia escolher entre salvar a vida do homem que eu amava ou salvar a vida da minha mãe. Um rio de lágrimas jorrava dos meus olhos enquanto eu dava as costas à uma pessoa que eu amava do fundo do meu coração, eu sabia o que o meu pai estava fazendo, quando criança eu já vi acontecer com os meus amigos, eu sabia o destino que aguardava o Mateus, e eu escolhi fechar os olhos, eu nunca vou me perdoar pelo que eu fiz.


PARTE III - LUGARES SOMBRÍOS

Minha mãe se recuperou do câncer, ela e o meu pai novamente voltaram a viver sua vida feliz como se nada tivesse acontecido, mas para mim era o fim, depois do que eu fiz ao Mateus, sem ele vinha vida não fazia sentido. Eu sabia que não merecia mais viver, peguei uma faca e me dirigi ao lugar onde por minha causa a pessoa que mais me amou na vida deu seu último suspiro. Ao chegar no topo da colina subi a escadaria e cortei meus pulsos regando novamente aquelas pedras com sangue. A morte iminente era reconfortante, seria o fim de uma vida inteira de dor e sofrimento, e finalmente poderíamos voltar a estar juntos, desta vez pela eternidade. A brisa da tarde nublada soprar suavemente acariciando meus cabelos, quando o último facho de luz se apagou eu estava finalmente em paz, só ouvia meus próprios pensamentos, lembranças felizes dos meus tempos de crianças corriam solta na minha mente livre agora de culpa, o primeiro dia na escola, meu primeiro beijo...

Eu voltei a sentir meu corpo aos poucos enquanto as lembranças de outrora desapareciam na escuridão dos meu pensamentos. Quando abri os olhos acordei em outro lugar, um lugar horrível, a paz deu lugar a um aperto no peito e uma agonia mortal, eu estava em uma floresta escura iluminada apenas pela luz fraca e azulada da lua e por algumas árvores que estavam com suas folhas em chamas. O chão estava repleto de crânios e ossos humanos, haviam corpos em decomposição por todos os lados, alguns queimados, outros em esquartejados em pedaços, o cheiro de morte era pútrefo e nojento. Comecei a chorar, eu só queria sair daquele lugar horrendo. Criaturas nefastas começaram a observar, eu podia vê-las se esgueirando por entre as sombras. Gritos tenebrosos ecoavam por entre as árvores, seguidos de risadas demoníacas medonhas. Eu precisa fugir dali, corri o mais rápido que pude, meu coração parecia querer rasgar minhas costelas e saltar para fora do meu peito. De nada adiantava correr, para qualquer lugar que eu ia era a mesma coisa, só encontrava morte, por fim avistei uma antiga igreja, o lugar parecia abandonado, mas vê uma igreja naquele lugar era como ver o próprio Deus na minha frente. Ao entrar me deparei com uma cena terrível, uma mulher estava lá acorrentada, seus olhos haviam sido arrancados, seus membros foram mutilados e a carne arrancada deixando os ossos expostos. Ela ainda estava viva e agonizava de dor, dizia repetidamente "me mate, me mate". Eu não aguentei ver aquela agonia, saí dali correndo. Quando cheguei atrás da igreja ele estava estava lá, ao seu lado havia um menino sentado à beira de um poço, o menino também era muito estranho sua pele era muito pálida e ele era ainda mais magro que o velho. Ele sussurrou algo com uma voz que arrepiou todos os pêlos do corpo: "Aqui será sua casa" e deu uma gargalhada nefasta, enquanto o velho me encarava silenciosamente.

Acordei caída sob o piso da escadaria, os cortes já não estavam lá nos meus pulsos. Comecei a chorar de alegria por estar ali, viva e ter saído daquele lugar amedrontador. Um rosto familiar me estendeu a mão e me ajudou a levantar do chão, era o Mateus, confusa eu não sabia como era possível ele estar ali vivo. Só pude imaginar que era um milagre. Ele sorriu lindamente enquanto me ajudava a levantar, mas algo estava diferente nele.

-Não sofras mais criança, toda a dor cessará. Não terás nunca de retornar àquele lugar de agonia. De agora em diante terás tudo que desejares da vida. Este teu frágil corpo será uma fortaleza, e não mais ficará a mercê da ação injusta do tempo. Por enquanto os homens caminharem sob a face da terra viverás para testemunhar seus triunfos e infortúnios. Regozijar-te nas bênçãos que te concederei, entretanto há um preço a ser pago, sacrifícios de sangue serão demandados em meu nome, todo ano vindouro uma alma pura deverá ser alçada à minha morada pelas tuas próprias mãos, por enquanto o fizeres nunca terás de cruzar novamente a fronteira, e tu e teus entes amados nunca cairão em desgraça. Se um dia falhares comigo sofrerás na carne a pior das dores e tua própria alma virá a mim em lugar daquelas que deixares de me prover. A partir deste dia me aceitarás como teu senhor, seremos um só corpo e alma, te banharás com a minha luz enquanto derramas sangue inocente em meu nome, mas não temas, pois te alegrarás de fazê-lo, e gritarás aos quatro cantos do mundo que Lúcifer é o teu deus.
Chico Alhandra
Enviado por Chico Alhandra em 08/10/2019
Reeditado em 09/10/2019
Código do texto: T6764732
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Sobre o autor
Chico Alhandra
Carpina - Pernambuco - Brasil
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