Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Ressurreição

Numa velha casa incrustada em rochas , no topo de um monte cercado de pinheiros das mais variadas formas, onde figuras são esculpidas pelo vento. Um velho de estatura média  mais olhar imponente dos que lideram,deita suas mãos geladas de frio sobre um lençol gasto examinando o que ele escondia. Seus olhos pretos lembram duas esferas se contrapondo ao rosto rosado de sol e descendência .Seu corpo cansado parece rejuvenescer a ponto de dar pequenos pulos de alegria enquanto seus olhos passeiam demoradamente pelo que jaz em sua frente. Um grande gato pardo observa  a cena de um canto enquanto tortura demoradamente um pequeno roedor, deixando que ele quase consiga escapar, logo depois frustrando sua saída com a pata e retomando tudo outra vez. O lugar todo fede a mofo e éter. A mesa no centro da sala lembra um púlpito de igreja. Nas paredes brancas de cal destacam-se frases e desenhos (de uma coruja pintada num canto escuro a frases sobre cordeiros imolados e defuntos que retornam da morte.)No teto ,exatamente em cima da mesa de ferro, vê-se uma suástica preta e vermelha junto com uma frase que expressa bem o sentimento guardado naquele local: “Aos impuros a morte, segundo seus pecados...”
Ao lado da frase repousa uma grande mesa ovalada de madeira forte  e com detalhes em relevo de anjos e demônios. Ao lado uma gaveta aberta deixa esposto seu interior de bisturis, tesouras, pequenos serrotes e várias ampolas e agulhas das mais variadas formas e tamanhos.Duas enormes velas amareladas iluminam um pequeno oratório de madeira de lei, onde se destacam imagens de santos e o que parece ser uma bíblia aberta ao sabor do vento , fazendo com que constantemente suas páginas finas se movam como que uma mão as guiasse... E sempre que isso acontece o velho deixa seus afazeres e coxeando se dirige até ela , recitando a página com uma voz estridente e aterradora...Um fio de baba escorre pelo canto da boca do homem molhando sua camisa preta de linho. Enquanto fala,  seus olhos vidrados buscam as mais variadas direções , num balé de movimentos desencontrados. Terminada a oração ele se encaminha em direção a um aporta de aço enferrujada. Suas mãos deslizando uma sobre as outras com se rezasse num rosário inexistente... Mais um minuto e suas mãos trêmulas repousam sobre o corpo de um rapaz de exatos 33 anos, pele clara com pequenas sardas salpicadas como chocolate peneirado por sobre um manjar branco.O rapaz em questão atendia pelo nome de João,mesmo nome do discípulo mais amado e o último da lista do homem que agora se aproxima de onde seu corpo foi delicadamente depositado. Um grito agudo é ouvido enquanto ele se aproxima com as duas mãos ocupadas com ferramentas cirúrgicas.
___ O ciclo se fecha no instante em que junto o último dos seis apóstolos ...
Corvos encham de dor  o silêncio da noite que se aproxima , no mesmo momento em que ele se ajoelha com as mãos levantadas num êxtase de profundos significados. Seus dedos tocam a pele fria e rasgam a carne morta como se ele fosse apoderado de um espírito de algum médico passado. Suas mãos agora são como máquinas a serviço de seus propósitos escusos. A cirurgia se concretiza numa rapidez incomum para um corpo doente e uma mente insana. É acometido por uma prazer inenarrável quando com uma de suas mãos levanta a cabeça que até a noite anterior ainda pensava... Depois de depositar a cabeça numa urna prateada , ele se encaminha devagar a uma porta escura , laqueada de letras indecifráveis e códigos estranhos. Com a mão suja de sangue toca em seu corpo sentindo um amontoado de emoções contraditórias.
___  Ressurreição requer santidade, sou o anjo que vai retomar a paz trazendo de volta quem a levou...
A porta é aberta e o que se vê foge a dicionários e a costumes dos mais estranhos . Uma áurea de terror toma conta do local. Velas espalhadas pelo chão tornam o ar quase irrespirável. Uma mistura de incenso e morte formam o perfume do altar. Três degraus agora o separam de um estranho boneco macabro montado com partes de outros sobre uma grande cruz de madeira. (Seis. O sexto é o último da lista...) O sangue que pinga coagula em gotas grandes através daquele ventríloquo infernal.A cabeça  é costurada como se emenda uma velha roupa... Um relâmpago fere a noite lá fora enquanto ele calmamente se retira sem olhar para trás.
___  Agora é me preparar nestes quarenta dias que faltam para o início do ciclo...
Um enorme rato passeia pelo que restou do grande gato de outrora.
___  O fim já é traçado. A criança que me dará o sangue irá banhar o corpo até então inerte lhe dando vida em abundância. Prazer e pecado. Dogma e fé...
Sem parecer se importar com a chuva que agora traz rajadas de ventos impressionantes, o velho se dirige ao seu quarto para um descanço que durará quarenta dias e quarenta noites. Para só então concretizar o fim e o início de tudo...
carlos henrique
Enviado por carlos henrique em 04/10/2007
Reeditado em 16/08/2008
Código do texto: T680403

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
carlos henrique
Ribeirão das Neves - Minas Gerais - Brasil, 40 anos
23 textos (1959 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 03:10)
carlos henrique