Um Cântico de Natal - Charles Dickens

Poucos sabem... Mas o natal foi por muito tempo um feriado menor. A morte e ressurreição de Cristo sempre foram mais celebradas do que o nascimento. Para a igreja romana, Nascer-se não é tão surpreendente quanto morrer e ressuscitar... (embora nascer de novo não é mais milagroso do que nascer por si só).

Em termos de tempo humano, não se sabe quando Cristo nasceu, mas não foi em dezembro. O dia 25 daquele mês comemorava-se um deus pagão dos celtas, e um deus dos egípcios, comemorações que incomodavam a igreja e precisavam ser ofuscadas. Então, decretou-se o dia 25 de dezembro como a natalidade de Jesus Cristo.

O livro que agora irão ler, foi publicado em 1843,e antes dele o Natal não era como se vê hoje. Nada de árvores, ceias, presentes, canções e coros. Não havia o clima mágico de caridade e devoção que o acompanha a partir de então, com os seus devidos arrefecimentos.

E assim, como a Coca-Cola pegou um santo Russo e o vestiu de vermelho para cravá-lo para sempre na mitologia do feriado, Charles Dickens inventou o Natal e o colocou para sempre nos corações dos homens.

Como ele próprio disse, e também os seus críticos, ele fora abençoado com uma inspiração divina ao escrever este livro.

Ei-lo:

UM CÂNTICO DE NATAL

Em Prosa

CHARLES DICKENS

ESTROFE 1

O ESPECTRO DE MARLEY

Para começar, digamos que Marley tinha morrido. Neste particular, não pode haver absolutamente a menor dúvida; a ata dos seus funerais havia sido assinada pelo vigário, pelo sacristão, pelo homem da empresa funerária e pelas pessoas que haviam conduzido o féretro. Scrooge também a tinha assinado. Ora, Scrooge era um nome bastante conhecido na Bolsa, e sua assinatura era um documento valioso, onde quer que ele a colocasse. O velho Marley estava tão morto como um prego de porta. Perdão! Não quero dizer com isto que saiba por experiência pessoal o que possa haver de particularmente morto num prego de porta. Por mim, eu estaria mais inclinado a considerar um prego de ataúde como a coisa mais morta que possa haver no comércio. Mas, como devemos esta comparação à sabedoria dos nossos antepassados, tenhamos todo o cuidado em não profaná-la, ou, do contrário, o país estará perdido. Assim pois, vocês hão de permitir-me repetir, com insistência, que Marley estava tão morto como um prego de porta. Acaso Scrooge sabia que Marley estava morto? Evidentemente, sim. Como poderia ser de outro modo? Marley fora seu sócio durante não sei quantos anos; Scrooge era seu único executor testamentário, o único administrador dos seus bens, seu único herdeiro, seu único amigo. De resto, este triste acontecimento, mais que suficiente para perturbar qualquer outro, não o abatera a ponto de fazê-lo perder suas notáveis qualidades de homem de negócios, pois havia assinalado o dia dos seus funerais precisamente por uma especulação das mais felizes. A menção dos funerais de Marley levame novamente ao ponto de partida. É absolutamente certo que Marley estava morto. Este ponto tem de ficar rigorosamente assentado, sem o que, a história que vou contar não apresenta- ria nada de extraordinário. Se nós não estivéssemos perfeitamente convencidos de que o pai de Hamlet se achava morto antes de levantar o pano do palco, o fato de vê-lo passear sobre suas próprias muralhas, por uma noite de tempestade, nos teria surpreendido tanto quanto se tal fato se tivesse dado com um fidalgo qualquer, que altas horas da noite se levantasse e temerariamente fosse errar em pleno descampado. Scrooge não havia apagado jamais o nome de seu antigo sócio. Depois de tantos anos, ainda se lia sobre a porta de sua casa comercial o nome de Scrooge & Marley, pois Scrooge & Marley continuava como a razão social da firma. As pessoas que não estavam bem a par das coisas chamavam Scrooge ora por Scrooge, ora por Marley, mas Scrooge atendia pelos dois nomes indiferentemente. Ah! Scrooge! Com que firmeza ele empunhava as rédeas dos negócios! Como este negociante sabia pegar e es- premer, agarrar e tosquiar o cliente e, sobretudo, não irritar ninguém. Duro e cortante como uma pedra-de-fogo, da qual jamais aço algum conseguiu arrancar uma única centelha generosa, Scrooge mostravase taciturno, arredio e isolado como uma ostra. Uma frieza interior enregelava-lhe os traços decrépitos, ressumbrava em seu nariz adunco, sulcava-lhe as faces, endurecia-lhe o andar, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os lábios finos e fazia sentir-se até mesmo em sua voz estridente. Uma espécie de neblina cobria-lhe a cabeça, os supercílios e o queixo pontiagudo. Esta frieza inóspita Scrooge a levava consigo aonde quer que fosse, de modo que seu escritório continuava gélido durante o mais intenso calor e não melhorava um grau nem mesmo pelo Natal. Quanto à temperatura exterior, pouca influência exercia sobre ele. Nenhum calor poderia aquecê-lo, assim como o mais rigoroso inverno não conseguiria transpassá-lo. Não havia rajada mais áspera que ele, tempestade de neve mais implacável, chuva fina mais torturante. O mau tempo não sabia por onde pegá-lo. Chuva e granizo, neve e frio levavam sobre ele apenas uma vantagem: todos se mostravam, uma vez ou outra, pródigos de seus benefícios; Scrooge, nunca! Ninguém, jamais, conseguiu pará-lo na rua para lhe dizer em tom amável: Como vai, meu caro Scrooge? Quando terei o prazer de sua visita?. Mendigo algum animava-se a implorar-lhe a caridade, nem nenhuma criança se atreveria a perguntar-lhe as horas. Nem uma única vez, em toda a sua existência, homem ou mulher havia-lhe perguntado sobre um caminho. Os próprios cães de cegos pareciam conhecê-lo, pois desde que o avistavam procuravam desviar seu pobre amo para junto de uma porta ou a um quintal qualquer, e ali, agitando a cauda, pareciam dizer: É preferível não ter olhos a ter tão má catadura, meu pobre amo!. Mas, que importava a Scrooge? Pois era justamente o que ele queria. Sua maior felicidade era abrir caminho a- través das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana. **** Um dia, um dos melhores do ano, e véspera de Natal, o velho Scrooge achava-se em seu escritório, a trabalhar. O frio era acre e penetrante, acompanhado de nevoeiro. Scrooge ouvia as pessoas que iam e vinham na pequena viela, esfregando as mãos e caminhando rapidamente para se aquecerem. Os relógios da cidade acabavam de soar três horas, mas já começava a escurecer, e as luzes principiavam a brilhar no interior dos escritórios vizinhos, pontilhando de manchas avermelhadas a atmosfera cinzenta e quase palpável do crepúsculo. O nevoeiro infiltrava-se por todas as fendas, invadindo o interior das casas pelo buraco das fechaduras; fora, era tão denso, que, não obstante a estreiteza da viela, as casas fronteiriças se tinham tornado imprecisos fantasmas. Diante desta onda cinzenta que descia progressivamente, ameaçando envolver tudo em sua obscuridade, poder-se-ia crer que a natureza inteira se havia posto ali a fabricar a chuva e a neve. A porta de Scrooge estava aberta de modo a permitir-lhe observar seu empregado, que se achava copiando cartas no compartimento contíguo, lúgubre cubículo que mais parecia uma cisterna. O fogo de Scrooge era bem insignificante, mas o de seu empregado era tão miserável que parecia não passar de uma única brasa. E tornava-se impossível alimentá-lo, pois que Scrooge conservava junto de si a lata de carvão, e quando o pobre rapaz entrava, com a pá na mão, Scrooge declarava que era obrigado a dispensar os serviços de um homem tão gastador. Diante disso, o pobre homem, enrolando-se em seu cachecol branco, procurava aquecerse na chama da lamparina, o que não conseguia, por não ser dotado de uma imaginação suficientemente viva. – Bom Natal, meu tio, e que Deus o ajude! – exclamou uma voz jovial. Era a voz do sobrinho de Scrooge, cuja entrada no escritório fora tão imprevista, que este cordial cumprimento foi o único aviso com que o rapaz se fizera anunciar. – Tolice! Tudo isso são bobagens! O sobrinho de Scrooge, que havia caminhado apressadamente no meio da bruma gélida, tinha o rosto incendia- do pela corrida. Seu rosto simpático estava vermelho, os olhos brilhavam, e, quando falava, seu hálito quente transformava-se numa nuvem de vapor. – Natal, uma bobagem, meu tio? Parece que o senhor não refletiu bem! – Ora! – disse Scrooge. Feliz Natal! Que direito tem você, diga lá, de estar alegre? Que razão tem você de estar alegre, pobre como é? – E o senhor – respondeu alegre e zombeteiramente o sobrinho –, que direito tem de estar triste? Que razão tem o senhor de estar acabrunhado, rico como é? Não encontrando no momento melhor resposta, Scrooge repetiu novamente: – Tolice! Tudo isso são bobagens! – Vamos, meu tio! Não se amofine! – disse o jovem. – Como não me amofinar, – replicou o tio, – quando vivemos num mundo cheio de gente ordinária? Feliz Natal!… Que vá para o diabo o seu feliz Natal! Que representa para você o Natal, a não ser uma época em que você é obrigado a abrir o cordão da bolsa já magra? Uma época em que você se faz mais velho um ano e nem uma hora mais rico? Em que você, fazendo um balanço, verifica que ativo e passivo equilibram, sem deixar nenhum resulta- do? – Se fosse eu quem mandasse, – continuou Scrooge indignado, – cada idiota que percorre as ruas com um “feliz Natal” na ponta da língua seria condenado a ferver em sua marmita, em companhia de seu bolo de Natal, e a ser enterrado com um galho de azevinho espetado no coração. Pronto! – Meu tio! – exclamou o jovem. – Meu sobrinho, – tornou o tio num tom severo – , pode festejar o Natal a seu modo, mas deixa-me festejá-lo como me aprouver. – Como lhe aprouver? Mas o senhor não o festeja absolutamente! – Perfeitamente! – disse Scrooge; – então, dê-me a liberdade de não o festejar. Quanto a você, que lhe faça bom proveito! O proveito que você tem tido até hoje… – Há muita coisa de que eu não soube tirar o proveito que poderia ter tirado, é certo, e o Natal é uma delas, – replicou o sobrinho. – Mas, pelo menos, estou certo de ter sempre considerado o Natal – fora a veneração que inspiram sua origem e seu caráter sagrados – como uma das mais felizes épocas do ano, como um tempo de bondade e perdão, de caridade e alegria; o único tempo, que eu saiba, no decorrer de todo um ano, em que todos, homens e mulheres, parecem irmanados no mesmo comum acordo para abrir seus corações fechados e reconhecer, naqueles que estão abaixo deles, verdadeiros companheiros no caminho da vida e não criaturas diferentes, votadas a outros destinos. Assim, pois, meu tio, embora o Natal não me tenha posto nos bolsos uma única moeda de ouro ou de prata, estou convencido de que ele me fez e me fará muito bem, e é por isso que eu repito: Deus abençoe o Natal! O empregado não pôde deixar de aplaudir, de seu cubículo, o sobrinho de Scrooge, mas, logo a seguir, caindo em si e notando sua inoportuna intromissão, pôs-se a remexer as brasas vigorosamente, acabando por apagá-las. – Eu que o ouça mais uma vez, – disse Scrooge, – e você irá festejar o Natal no olho da rua. Quanto a você, meu amigo, continuou ele voltando-se para o sobrinho, você é de fato eloquente; estou mesmo admirado de que ainda não tenha conseguido um lugar no Parlamento. – Não se aborreça, tio, e venha almoçar conosco amanhã. Scrooge respondeu mandando-o para o diabo, e o fez de cara a cara. – Mas, por quê? – exclamou o sobrinho. – Por quê? – Por que foi que você casou? – perguntou Scrooge. – Porque eu amava. – Porque amava! – resmungou Scrooge. – Como se isso não fosse outra tolice maior ainda que festejar o Natal! Passe bem! – Mas, meu tio! O senhor nunca vinha à minha casa antes do meu casamento. Por que arranja esse pretexto para não vir hoje? – Boa noite! – disse Scrooge. – Eu não espero nada do senhor; eu nada lhe peço. Por que não sermos bons amigos? – Boa noite! – disse Scrooge. – Lamento de todo o coração vê-lo assim tão obstinado. Não temos, que eu saiba, nenhum motivo de ressenti- mento. Foi em homenagem ao Natal que vim até aqui, e no espírito de Natal quero ficar até o fim. – Boa noite! – disse Scrooge. – E feliz Ano Novo! – Boa noite! – replicou Scrooge. O sobrinho, entretanto, saiu do escritório sem uma palavra de desagrado. Na porta, deteve-se para apresentar as boasfestas ao empregado, que, mesmo tiritando como estava, se mostrou mais amistoso que seu patrão, pois que respondeu ao jovem com felicitações cheias de cordialidade. – Outro predestinado! – resmungou Scrooge ao ouvilo. Imaginem meu empregado a falar de Feliz Natal com apenas quinze xelins por semana, tendo mulher e filhos! O tal predestinado, tendo acompanhado o sobrinho de Scrooge até à porta, fez entrar dois cavalheiros de fisionomia simpática e aparência distinta, os quais penetraram no escritório, tendo à mão, além do chapéu, vários papéis e documentos. Na presença de Scrooge, inclinaram-se. – Scrooge & Marley, parece-nos? – disse um deles, consultando os apontamentos. É ao senhor Scrooge ou ao senhor Marley que temos a honra de falar? – O senhor Marley faleceu há cerca de sete anos. Morreu nesta mesma noite, fará seguramente sete anos. – Não temos a menor dúvida de que a generosidade do sócio sobrevivente seja igual à dele, – disse um dos cavalheiros, apresentando os papéis que o autorizavam a pedir. E não se enganava, pois que os dois sócios eram bem dignos um do outro. Diante da inquietante palavra generosidade, Scrooge franziu o sobrolho, sacudiu a cabeça e devolveu os papéis. – Nesta festiva época do ano, senhor Scrooge, – prosseguiu o cavalheiro, tomando uma pena –, parece ainda mais oportuno do que em nenhuma outra ocasião, arrecadar algum dinheiro para aliviar os pobres e os deserdados da sorte, que sofrem cruelmente os rigores do inverno. A muitos milhares de infelizes falta mesmo o estritamente necessário, e muitas outras centenas de milhares não conhecem o mais insignificante conforto. – Não há prisões? – perguntou Scrooge. – Prisões não faltam, – disse o cavalheiro, largando a pena. – E os asilos? Não fazem nada? – perguntou Scrooge. – Sim, de fato, embora eu preferisse dizer o contrário. – Então, as casas de correção estão em plena atividade? – Sim, estão em plena atividade, senhor. – Oh! Eu já estava receando, pelo que o senhor me disse há pouco, que alguma coisa tivesse interrompido uma atividade tão salutar, – disse Scrooge. Estou satisfeitíssimo por saber que tal não aconteceu. – Persuadidos de que estas organizações não podem proporcionar ao povo o consolo cristão da alma e do corpo, de que ele tem tanta necessidade, tornou o cavalheiro, alguns dentre nós resolveram empreender uma coleta, cujo produto seria distribuído aos pobres, em forma de alimento, combustível e roupa. Escolhemos esta época do ano porque, mais que nenhuma outra, é aquela em que mais cruelmente se faz sentir a penúria e em que o conforto se torna mais doce. Quanto posso pôr em seu nome? – Nada. – Desejaria guardar o anonimato? – Desejo que me deixem em paz; já que os senhores querem saber, é isso que eu desejo. Eu não faço banquetes para mim próprio pelo Natal, vou agora dar banquete aos vagabundos! Já faço muito em dar minha contribuição às organizações de que falamos ainda há pouco, e elas não ficam barato! Aqueles que tiverem necessidade que recorram a elas. – Muitos não o podem fazer, outros preferem a morte. – Se preferem a morte, – disse Scrooge –, está ótimo! Que morram! Isso virá diminuir o excesso de população. De resto, queiram desculpar-me, porém não estou bem a par dessa questão. – Mas o senhor poderá tomar parte nela. – Isso não me interessa, – replicou Scrooge. Um homem já faz muito, quando se ocupa dos seus próprios negócios, sem interferir nos negócios alheios. Os meus já me tomam todo o tempo. Boa noite, senhores. Vendo claramente que era inútil insistir, os cavalheiros retiraram-se. Scrooge, satisfeito consigo mesmo, pôs-se novamente a trabalhar, com radiante bom-humor. **** Durante este tempo, o nevoeiro e a escuridão fizeram-se tão espessos, que muitas pessoas percorriam as ruas com tochas acesas na mão, oferecendo-se aos cocheiros para irem adiante dos cavalos iluminando o caminho. A antiga torre de uma igreja, cujo velho sino bimbalhante parecia espiar Scrooge continuamente através de sua janelinha gótica, tornara-se invisível e pôs-se a tocar as horas e os quartos de hora entre nuvens, com vibrações prolongadas e trêmulas, como se estivesse a bater os dentes lá no alto, no ar gelado. O frio tornava-se intenso. Na rua principal, sobre a qual desembocava a viela, alguns operários, que reparavam o encanamento do gás, haviam acendido uma fogueira, em torno da qual se haviam aglomerado homens e mulheres, todos andrajosos, que aqueciam as mãos e olhavam o fogo com ar maravilhado. O bebedouro público, vendo-se abandonado, resolveu congelar-se. Os luminosos dos magazines, onde as bagas e as folhas de azevinho estavam sob o calor das lâmpadas nas vitrinas, imprimiam rubros reflexos nos rostos pálidos dos transeuntes. As vitrinas dos restaurantes e dos bares ofereciam aos olhos uma apresentação esplêndida, um espetáculo deslumbrante, com o qual parecia impossível que os vulgares princípios da compra e da venda pudessem ter a menor relação. O prefeito, repimpado no majestoso edifício da Câmara, dava ordens a seus cinquenta cozinheiros e despenseiros para que o Natal fosse comemorado como se deve comemorar na casa de um prefeito. E mesmo o pobre alfaiate, que fora condenado na segundafeira anterior a cinco xelins de multa por embriaguez e arruaça noturna, fazia seus preparativos dentro de sua miserável mansarda, batendo a massa do bolo do dia seguinte, enquanto sua esposa saía apressadamente, com o bebê ao colo, para comprar um pedaço de carne de vaca. O nevoeiro adensava-se cada vez mais, e o frio se tornava cada vez mais áspero e penetrante. Um rapazinho de nariz arrebitado, roído pelo vento, glacial e voraz, como um osso por um cão, aproximou-se da porta para saudar Scrooge com uma cantiga de Natal. Mas, desde as primeiras palavras de Deus vos salve, bom amigo, vos dê coração alegre, Scrooge apanhou uma régua com um gesto tão enérgico, que o cantor fugiu espavorido, perdendo-se no nevoeiro e no frio. Finalmente, chegou a hora de fechar o escritório. Scrooge admitiu o fato, mas deixou seu tamborete bastante penalizado. O empregado, que e m seu cubículo só aguardava este sinal, apressou-se em apagar o candeeiro e pôr o chapéu. – Você há de certamente querer ficar livre todo o dia de amanhã? – disse-lhe Scrooge. – Se isso não o aborrecer, senhor. – Naturalmente que isso me atrapalha, – replicou Scrooge; e o que é mais, isso não é justo. Se eu descontasse meia coroa de seu ordenado, aposto que se sentiria prejudicado. O empregado teve um sorriso pálido. – E entretanto, – tornou Scrooge, você acha que não me prejudica, a mim, quando estou lhe pagando um dia para não fazer nada. O empregado observou humildemente que isso acontecia apenas uma vez por ano. – Bela desculpa para meter as unhas no bolso do seu patrão a cada 25 de dezembro! – disse Scrooge, abotoando o sobretudo até ao queixo. – Espero que seja mais pontual no dia seguinte pela manhã. O empregado prometeu-o, e Scrooge saiu resmungando. O escritório foi fechado num abrir e fechar de olhos, e o empregado também saiu, todo enrolado em seu cachecol branco, cujas extremidades pendiam para além da jaqueta, pois que ele desconhecia o luxo de um sobretudo. Em honra do Natal, desceu Cornhill fazendo escorregadelas, em companhia de um bando de rapazes; depois, rumou a toda velocidade para Camden, a fim de entrar em casa e começar a brincar de cabracega. **** Scrooge fez uma magra refeição na sombria espelunca em que costumava comer. Quando ac abou de percorrer os jornais e de tornar a observar sua caderneta do banco, entrou em casa para deitar-se. O apartamento em que residia era o mesmo em que vivera seu falecido sócio. Composto de vários compartimentos lúgubres e mal iluminados, fazia parte de um prédio estranho, situado no fundo de um pátio, onde estava tão mal colocado, que se poderia pensar que ele viera parar ali em sua juventude, brincando de esconde-esconde com outras casas, e depois não encontrou mais seu caminho. Além de tudo isso, era velho e infundia o medo que inspiram as casas abandonadas, pois que ninguém, a não ser Scrooge, ali residia, estando ocupados os outros comparti- mentos com escritórios comerciais. O pátio era de tal modo escuro, que Scrooge, não obstante conhecer de cor todos os seus pormenores, foi obrigado a atravessálo às apalpadelas. O nevoeiro e o granizo envolviam de tal modo o arcaico e sombrio alpen dre, que parecia estivesse o gênio do inverno sentado no seu portal, engolfado em lúgubres meditações. Agora, se existe um fato comprovado, é que a aldrava de ferro da porta não apresentava absolutamente nada de particular, a não ser que era bastante grossa. Outro fato indiscutível é que Scrooge estava acostumado a vê-la de manhã e de tarde, desde que morava naquela casa. Cumpre notar igualmente que Scrooge era tão destituído de imaginação como qualquer habitante de Londres, inclusive os membros da municipalidade e os aldermen. É necessário notar, também, que Scrooge não havia pensado um só instante em Marley desde a alusão que havia feito, naquela mesma tarde, à morte de seu antigo sócio, verificada sete anos antes. Isto posto, expliquem-me, se puderem, como pôde acontecer que Scrooge, ao meter a chave na fechadura, viu subitamente diante dele, e sem prévia transformação, não uma argola de aldrava, mas o rosto de Marley! Sim, o rosto de Marley. Aquele rosto não estava, como o resto do pátio, mergulhado nas trevas impenetráveis, mas aureolado de um estranho clarão fosforescente. Sua expressão não era nem ameaçadora nem bravia, e olhava para Scrooge como Marley costumava olhá-lo, com os óculos sobre a testa de espectro. Os cabelos se lhe agitavam de modo estranho, levantados, parecia, por um sopro ou uma corrente de ar quente; e seus olhos, embora bem abertos, estavam perfeitamente imóveis. A aparição, com aquela tez lívida e aquele olhar fixo, era horrível de se ver; entretanto, o horror que ela inspirava não procedia propriamente da expressão dos seus traços, mas de uma influência exterior, que se exercia de fora e como que a despeito dela mesma. Mas quando, vencida a primeira perturbação, Scrooge examinou fixamente o estranho fenômeno, já não viu, de repente, nada mais que o simples anel da aldrava. Dizer que ele não se amedrontou e não sentiu interiormente uma impressão extraordinária jamais experimentada até então, seria falso. Não obstante, deitou a mão sobre a chave, que havia deixado cair, fê-la voltar-se com decisão na fechadura, penetrou no vestíbulo e acendeu a vela. Para dizer verdade, Scrooge teve um momento de hesitação antes de fechar a porta, e começou por examiná-la prudentemente pela parte de trás, como se receasse ver surgir no vestíbulo a ponta da cabeleira de Marley. Mas não havia nada naquele lado, exceto os parafusos e as porcas que fixavam a aldrava. Depois de tal vistoria, Scrooge murmurou: “Ora! Tolices!” e tornou a fechar a porta bruscamente. Aquele ruído propagou-se por toda a casa como o rolar de um trovão. Todos os cômodos do pavimento superior, todas as pipas do negociante de vinho, na adega, embaixo, repetiram aqueles ruídos com sonoridades várias. Mas Scrooge não era homem que se deixasse amedrontar com ecos. Trancou a porta, atravessou o vestíbulo e subiu a escada calmamente, protegendo a vela. Costuma-se falar algumas vezes das escadas antigas, pelas quais poderia passar facilmente um carro puxado por seis cavalos. Pois bem: eu posso afirmar que na escada de Scrooge se teria podido fazer passar um carro grande, e até mesmo pô-lo atravessado, com os varais para a parede e a traseira para o lado da balaustrada: haveria todo o es- paço necessário, e mais ainda. Foi talvez por esta razão que Scrooge pareceu ver um carro fúnebre subir diante dele, na escuridão. Meia dúzia de lampiões teriam sido insuficientes para aclarar os enormes baixos da escada: imaginem agora o que poderia fazer aquela simples velinha de Scrooge. Completamente despreocupado, Scrooge continuava a subir. A escuridão não custa dinheiro, e era por isso que Scrooge gostava da escuridão. Do mesmo modo, antes de fechar a pesada porta do seu apartamento, percorreu to- das as dependências, para certificar-se de que nada havia de anormal. Ele havia guardado da aparição uma impressão forte o suficiente para justificar esta medida. A sala, o quarto de dormir, o quarto de despejo, tudo conservava seu aspecto habitual. Não havia ninguém de- baixo da mesa, ninguém debaixo do sofá. Um resquício de lume no fogão, uma xícara e uma colher preparadas sobre a grade da lareira, uma canequinha de remédio (Scrooge sofria de enxaqueca). Ninguém debaixo da cama, ninguém no armário embutido, ninguém no robe de chambre, que pendia encostado à parede, numa atitude suspeita. No quarto de despejo, não havia senão, como habitualmente, um velho guarda-fogo, sapatos usados, duas cestas, um penteador cambaio e uma pá de carvão. Completamente tranquilizado, Scrooge fechou a porta, dando a primeira volta à chave, depois a segunda volta, o que não costumava fazer. Posto assim ao abrigo de surpresas, tirou a gravata, enfiou o roupão, calçou as chinelas, pôs o boné de noite e sentou-se diante do fogo para beber sua xícara de remédio. O fogo era bastante fraco e de todo insuficiente para uma noite tão fria. Scrooge foi obriga do a sentar-se bem encostado e a inclinar-se sobre ele para conseguir obter deste insignificante punhado de combustível uma leve sensação de calor. A lareira era antiga. Construída, outrora, por algum antigo comerciante holandês, era inteiramente revestida de azulejos de faiança, representando cenas da Bíblia. Havia Cains e Abéis, filhas de Faraós e rainhas de Sabá, angélicos mensageiros que desciam do céu sobre nuvens de arminho; Abraãos e Baltasares, apóstolos que se aventuravam no tenebroso oceano em pequeninos batéis… Assim, lá estavam centenas de personagens para ocupar e distrair o pensamento de Scrooge. Entretanto, como a antiga vara do profeta, o rosto de Marley, morto havia sete anos, vinha sobreporse a tudo isto. Se a superfície destes azulejos fosse totalmente branca e dotada da propriedade de representar um fragmento que fosse o pensamento de Scrooge, sobre todos eles estaria estampada uma cópia da cabeça de Marley. – Idiotices!… – disse Scrooge, levantando-se e pondo-se a passear de um lado para outro. Depois de ter percorrido o aposento muitas vezes seguidas, voltou a sentarse. Como inclinasse a cabeça para trás, seus olhos pousaram, casualmente, sobre uma campainha já fora de uso, que pendia da parede e que se comunicava, não se sabe por quê, com uma das mansardas da casa. Scrooge ficou tomado do mais vivo espanto, e ao mesmo tempo de um indescritível e inexplicável pavor, quando viu mover-se o cordão da campainha, que começou a balançar-se primeiro vagarosamente, quase imperceptível, e, em seguida, violentamente, ao mesmo tempo em que todas as campainhas da casa entraram a soar ruidosamente. Este tumulto durou aproximadamente meio minuto, quando muito um minuto, mas que pareceu interminável a Scrooge. E as campainhas, do mesmo modo como começaram, também silenciaram ao mesmo tempo. A este alarido infernal, sucedeu um barulho metálico, oriundo das profundezas da casa, como se alguém, no interior da adega, arrastasse pesadas correntes. Então, Scrooge lembrou-se de ter ouvido dizer que, nas casas mal-assombradas, os duendes arrastam sempre grossas cadeias atrás de si. A porta da adega abriu-se violentamente, e o estrépito fez-se ouvir mais vivo no rés-do-chão, depois na escada, e, aproximando-se cada vez mais, dirigiu-se em linha reta para a porta do apartamento. – Idiotices!… – disse Scrooge. Não acredito nisso, não! Mas imediatamente mudou de cor, quando, sem deter-se um só instante, o misterioso visitante atravessou a porta maciça e apresentou-se diante dele. A sua entrada, o fogo bruxuleante lançou uma derradeira labareda, que pareceu gritar: “Eu o reconheço: é o espectro de Marley! E apagou-se. Era a mesma fisionomia, absolutamente a mesma. Marley, tendo na cabeça a mesma peruca, vestindo o mesmo colete, as calças justas e as botinas que usava habitualmente. O couro das botas, o topete e o rabicho da peruca arrepiavam-se, e as abas de sua casaca balançavam. Cingia-lhe o corpo a longa corrente que trazia, e que serpenteava atrás dele como uma cauda. Scrooge, que a examinava atentamente, viu que era formada de cofres-fortes, de chaves, de cadeados, de registros e de pesadas bolsas de aço. Como o corpo do espectro era transparente, Scrooge pôde observar, através do seu colete, os dois botões prega- dos no corpo do casaco pela parte de trás. Scrooge ouvira dizer, por mais de uma vez, que Marley não tinha entranhas, mas até então ele jamais pudera a- creditar. Não! Mesmo agora Scrooge não podia acreditar em semelhante coisa. Não lhe importava ver diante de si aquele fantasma, que seu olhar atravessava como se fora de vidro; não lhe importava sentir o olhar glacial dos seus olhos mortos, nem reparar no próprio tecido de que era feito o lenço que lhe envolvia a cabeça e o queixo – minúcia que não lhe havia chamado a atenção nos primeiros momentos. Não, Scrooge continuava incrédulo e lutava contra os próprios sentidos. –Pois bem! – disse Scrooge, frio e mordaz como de costume. –Que quer de mim? – Muita coisa. Já não podia haver a menor dúvida: era exatamente a voz de Marley. – Quem é você? – perguntou Scrooge. – Pergunte, antes, quem eu era … – Então, quem era você? – tornou a perguntar Scrooge elevando a voz. – Para ser um espectro achoo muito real. – Em vida, fui Jacob Marley, teu sócio. – Pode… sim… pode sentar-se? – perguntou Scrooge, olhando-o com ar de dúvida. – Posso. – Então, sente-se. Scrooge havia feito esta pergunta porque duvidava que um ser assim tão transparente pudesse acaso tomar um assento, o que obrigaria seu visitante, no caso de impossibilidade, a uma explicação bastante embaraçosa. O fantasma, porém, sentou-se do outro lado da lareira, com a maior naturalidade deste mundo. – Não acreditas em mim? – perguntou ele. – É claro que não, – respondeu Scrooge. – Que provas desejas da realidade da minha presença, fora do testemunho dos teus sentidos? – Nem sei. – Por que duvidas dos teus sentidos? – Pela simples razão, – respondeu Scrooge –, de que não precisa muita coisa para perturbá-los. Não precisa mais que uma ligeira indisposição de estômago. Quem pode provar que, afinal de contas, tudo isto não passe de uma bisteca mal digerida, uma colher de mostarda, um naco de queijo ou uma batata mal cozida. Quem quer que seja, você cheira mais a cerveja que a defunto. Scrooge não costumava de modo algum fazer gracejos, e especialmente neste momento não lhe apeteciam pilhérias. Para dizer a verdade, se se mostrava espirituoso, era mais para enganar a si próprio e dissipar o seu pavor, pois a voz do espectro o apavorava até o mais íntimo recesso do seu ser. Contemplar em silêncio estes olhos fixos vítreos era para Scrooge uma provação acima de suas forças. O que lhe parecia igualmente horrível era a atmosfera infernal que envolvia o fantasma. Scrooge não podia senti-la por si próprio, mas reconhecia claramente a sua presença porque, muito embora o espectro se conservasse imóvel, sua cabeleira, as borlas de suas botas e as abas do seu casaco não paravam de agitar-se, como se fossem movidas pelo cálido sopro de uma fornalha. – Está vendo este palito? – disse Scrooge, voltando vivamente à carga, pela mesma razão exposta e para desviar de sobre si, ainda que fosse por apenas um segundo, o olhar vítreo da aparição. – Vejo, – respondeu o fantasma. – Mas você não está olhando para ele, – observou Scrooge. – Mas estou vendo, – disse o fantasma. – Pois bem! – continuou Scrooge –, basta que eu o engula para ser perseguido, até o fim dos meus dias, por uma legião de espíritos imaginários, todos nascidos do meu estômago. Tolices! Posso afirmar-lhe. Tudo tolices! A estas palavras, o fantasma soltou um tremendo urro e agitou com tal violência as suas cadeias, fazendo um barulho tão sinistro e pavoroso, que Scrooge foi obrigado a agarrar-se à poltrona para não desmaiar. Mas seu espanto recrudesceu ainda mais quando o fantasma, retirando o lenço que lhe envolvia a cabeça, como se o sufocasse o calor, deixou cair sobre o peito o maxilar inferior. Scrooge lançou-se de joelhos, escondendo o rosto entre as mãos. – Misericórdia! – exclamou ele. Ó pavorosa aparição, por que me vem atormentar? – Miserável criatura, tão apegada aos bens da terra! Acreditas em mim, agora? – Sim, – balbuciou Scrooge –, creio! Sou obrigado a crer! Mas por que vagam os espíritos sobre a terra, e por que me vêm eles perturbar? – Deus exige de cada homem, – respondeu o espectro –, que o espírito que o anima se consubstancie com as almas de seus semelhantes no decurso de sua longa viagem pela vida. Assim, pois, aquele que viver só para si durante a existência, é condenado a viver errante pelo espaço após a morte – ó miserável destino! – para assistir, já agora impotente, a todas as coisas em que, durante a vida, poderia ter tomado parte para sua felicidade e a de seu próximo. Novamente o espectro deu um grito, ao mesmo tempo que agitava as cadeias e retorcia as mãos transparentes. – Você está acorrentado! – disse Scrooge com voz trêmula. – Diga-me por quê. – Estou acorrentado com as cadeias que forjei para mim mesmo durante a vida. Forjei-a elo por elo, palmo a palmo. Trago-a agora por minha livre vontade, e é de livre vontade que a tenho usado. Estás estranhando o modelo? Scrooge tremia cada vez mais. – Desejas saber, prosseguiu o fantasma, o peso e o comprimento da cadeia que trazes em torno da tua cintura? Há sete anos, precisamente numa noite de Natal, ela era tão comprida e tão pesada quanto esta. Desde então tens trabalhado muito nela. Neste momento, é uma corrente de considerável dimensão. Scrooge deitou um olhar febril para o soalho, como se já se visse enlaçado por cinqüenta ou sessenta metros de corrente de ferro. Mas nada viu. – Jacob, – disse ele com voz suplicante, meu velho Jacob Marley! Diga-me ainda alguma coisa! Dême um pouco de conforto, um pouco de esperança! – Já não posso confortar ninguém, – respondeu o fantasma. O consolo e a esperança vêm de outra fonte, Ebenezer Scrooge. São trazidos por outros mensageiros e para outros homens, não para ti. Além do mais, não posso conversar tanto quanto eu desejara. O que me é permitido dizer-te ainda é pouca coisa, pois não tenho permissão para descansar, nem para deter-me, nem para demorar-me onde quer que seja. Noutros tempos, meu espírito não saía jamais do nosso escritório, estás me compreendendo? Nunca, durante minha vida, meu espírito se resolveu a afastar-se dos estreitos limites do nosso covil de negociatas. Eis por que tenho diante de mim tantas e tão penosas viagens. Scrooge tinha o hábito de meter as mãos nos bolsos, quando refletia; e foi assim que, enquanto meditava sobre as últimas palavras do fantasma, dirigiu-lhe a palavra, mas sem erguer os olhos e sempre ajoelhado. – É preciso que você tenha sido bem lento, Jacob! – observou ele com voz onde transparecia o homem de negócios ao mesmo tempo humilde e obsequioso. – Bem lento! – repetiu o espectro. – Você morreu há sete anos, – disse Scrooge pensativo, e todo esse tempo perambulando? – Todo o tempo, – disse o espectro; sem repouso e sem trégua, com a eterna tortura do remorso. – Viaja com rapidez? – perguntou Scrooge. – Nas asas do vento. – Você deve ter percorrido muitos países durante estes sete anos, – disse Scrooge. A estas palavras, o espectro deu ainda um grito e sacudiu as suas correntes com um tal fragor, que cortou ruidosamente o profundo e gélido silêncio da noite. – Oh, um desgraçado prisioneiro, acorrentado e carregado de ferros! – exclamou o fantasma –, por ter olvidado que todo homem deve associar-se à grande obra da humanidade, prescrita pelo Onipotente, e perpetuar o progresso. Por não saber que uma alma verdadeiramente cristã, que trabalha generosamente dentro de sua esfera, por muito pequena que seja, sempre achará que sua vida mortal é demasiado breve para realizar todo o bem que ela vê por fazer-se em redor de si. Por não saber que uma eternidade de lágrimas não pode reparar uma vida mal vivida!… Pois bem, era assim que eu vivia, era assim que eu vivia! – Entretanto, Jacob, – balbuciou Scrooge, que começava a tomar para si mesmo as palavras do espectro –, você foi sempre um excelente homem de negócios. – Os negócios! – gemeu o fantasma retorcendo as mãos. – A humanidade, o bem comum, a indulgência, a caridade, a misericórdia, a benevolência, esses deviam ter sido os meus negócios! O espectro ergueu suas cadeias com a extremidade do braço, como se visse nelas a causa do seu inútil desespero, deixando-a em seguida cair pesadamente ao chão. – Quando chega esta época do ano, – prosseguiu ele –, meus sofrimentos redobram. Por que fui eu tão insensato para ter passado no meio da multidão dos meus semelhantes, sempre com os olhos voltados para o chão, sem jamais erguê-los para aquela bendita estrela, que um dia conduziu os magos para uma pobre choupana? Não haveria outras pobres choupanas, aonde a luz me pudesse ter guiado a mim também? Scrooge tremia como vara verde, ouvindo o espectro falar daquele modo. – Ouve-me, – gritou o fantasma. Meus minutos são contados. – Estou ouvindo! – disse Scrooge –, mas tenha pena de mim. Eu lhe peço Jacob, não faça muitos rodeios! – Seria difícil dizer por que é que estou aparecendo diante de ti sob forma visível. Aliás, por mais de uma vez já me sentei a teu lado, invisivelmente. Esta revelação foi assustadora. Scrooge, estremecendo, enxugou a testa banhada de suor. – Mas não é esse o meu maior suplício, – continuou o espectro. – Vim esta noite para avisar-te de que ainda te resta uma esperança, uma oportunidade de escapar a um destino semelhante ao meu. É uma esperança, uma oportunidade que eu venho trazer-te, Ebenezer. – Oh, mil vezes obrigado! – exclamou Scrooge. – Você foi sempre um bom amigo para mim. – Vais ser visitado por mais três espíritos, – continuou o fantasma. O semblante de Scrooge tornou-se tão lívido como o do próprio espectro. – É essa, então, a esperança ou a oportunidade de que você me falou, Jacob? – perguntou ele com a voz débil. – Exatamente. – Eu… Eu preferia que isso não acontecesse. – Se não receberes a visita deles, podes perder a esperança de escapar a um destino igual ao meu. Aguarda a visita do primeiro espírito amanhã ao bater da uma hora. – Não seria melhor que viessem todos juntos, para acabar mais depressa com isso? – sugeriu Scrooge. – O segundo aparecerá na noite seguinte, à mesma hora, e o terceiro na outra noite, ao bater a última badalada da meia-noite. Não esperes tornar a ver-me, e não te esqueças, no teu próprio interesse, de conservar a lembrança de tudo que se passou entre nós. Dito isto, o espectro apanhou seu lenço sobre a mesa e o amarrou, como antes, em torno da cabeça. Scrooge só o notou, quando ouviu o seco estalido que produziram os dois maxilares ao se encontrarem. Arriscando um olho, viu seu visitante sobrenatural em pé diante dele, ereto, as cadeias enroladas no braço. A aparição afastou-se, de costas, e, à medida que se distanciava, a janela abria-se progressivamente até que, quando o espectro a alcançou, ela estava completamente aberta. O espectro fez sinal a Scrooge que se aproximasse. Quando estiveram apenas a dois passos um do outro, o espectro ergueu o braço. Scrooge deteve-se. Deteve-se, menos para obedecer ao fantasma do que por um sentimento de surpresa e de medo, pois que, simultaneamente ao gesto do fantasma, começava a ouvir estranhos e confusos ruídos por toda a casa, vozes plangentes que se misturavam umas às outras, onde se confundiam remorsos e desesperos. Após ter escutado um instante, o espectro passou pela janela, juntou-se ao fúnebre cortejo e desapareceu na gélida escuridão. Scrooge, tomado de incoercível curiosidade, chegou à janela e, então, presenciou um estranho espetáculo. **** O ar estava povoado de almas perdidas, que perambulavam e rodopiavam interminavelmente, soltando gemidos, e cada uma delas trazia uma corrente, como o espectro de Marley. Alguns destes fantasmas, talvez os membros de algum mau governo, estavam amarrados juntos. Nenhum estava livre. Scrooge notou entre eles alguns de seus antigos conhecidos, entre os quais um velho fantasma de colete branco, com quem tivera frequentes relações. Em seu tornozelo, estava amarrado um cofre-forte descomunal, e Scrooge notou que a visão de uma mendiga acocorada ao pé de uma sacada, com seu bebê ao colo, lhe arrancava tristes lamentações de pena por não poder socorrê-la. Percebia-se, claramente, que o maior tormento destes infelizes era o ardente desejo de praticar o bem sobre a terra, justamente agora que essa possibilidade lhes havia escapado para sempre. Scrooge não poderia dizer se todos aqueles fantasmas se dissiparam no intenso nevoeiro, ou se foi o nevoeiro que os envolveu. O certo é que todos desapareceram ao mesmo tempo dentro da noite, e o espaço ficou silencioso e ermo, como no momento em que ele voltara para casa. Fechada novamente a janela, Scrooge examinou cuidadosamente a porta por onde o fantasma havia entrado. Estava fechada com dupla volta, e os ferrolhos estavam intactos. Scrooge ia dizer: Tolices, mas não foi além da primeira sílaba. Apoderara-se dele uma incoercível necessidade de repouso, fosse, talvez, devido às fadigas e às emoções do dia, fosse pela sua fuga ao mundo dos espíritos e pela sinistra conversa que tivera com o espectro, ou talvez mesmo pelo adiantado da hora. SEGUNDA ESTROFE O primeiro dos três espíritos Quando Scrooge despertou, a escuridão era tão profunda que, de seu leito, mal podia distinguir a janela transparente e as escuras paredes do quarto. No momento em que se esforçava para romper a intensa treva que envolvia seus olhos, ouviu bater numa igreja das vizinhanças os quatro quartos. Scrooge aguçou os ouvidos para escutar as horas que iam bater. Com grande surpresa, o pesado carrilhão deu as seis… as sete… as oito… e assim, ritmadamente, até as doze. Meia-noite! Eram mais de duas horas quando Scrooge se atirara sobre o leito. Não era possível! O relógio devia estar louco. Alguma coisa devia ter-lhe embaraçado o maquinismo! Meia-noite! Scrooge premiu a mola do seu relógio de repetição para verificar a exatidão daquele relógio idiota. A minúscula engrenagem bateu rapidamente as doze vibrações e parou. – Vejamos, – disse Scrooge. – É impossível que eu tenha dormido o dia inteiro e uma parte da noite. Acaso terá acontecido alguma coisa ao sol e seja agora meio-dia em vez de meia-noite? Bastante alarmado com esta ideia, ergueu-se do leito e dirigiu-se para a janela, a tatear, como um cego. A primeira coisa que fez foi passar a manga do roupão pela vidraça, que a neblina embaçava, e mesmo assim quase nada conseguiu distinguir fora. A coisa única que pôde verificar é que o nevoeiro continuava espesso, como dantes, e que o frio era demasiado intenso; notou, ainda, que já não se ouviam as idas e vindas das pessoas atarefadas, o que certamente se ouviria, se já estivesse clareando o dia. Este fato foi para ele um grande alívio, pois o que seria dele com as suas letras a pagar a três dias da data ao sr. Ebenezer Scrooge ou à sua ordem, se ele não dispusesse de dias para contar o tempo? Scrooge tornou a deitar-se, o pensamento vagando sobre o que poderia ter acontecido, mas por mais que quebrasse a cabeça para a decifração de tão complicado enigma, nada conseguiu desvendar. Quanto mais ruminava o caso, mais perplexo ficava, e quanto mais se esforçava por não pensar no caso, mais o caso assoberbava o seu pensamento. A lembrança do espectro de Marley causava-lhe um profundo tormento. Cada vez que chegava a convencer-se de que, afinal de contas, todo o ocorrido não fora mais que um sonho mau, crac! lá estava seu espírito novamente às voltas com o problema, no próprio ponto de partida, formulando novamente a mesma pergunta: “Era ou não era um sonho?” Scrooge permaneceu nesta agonia até o momento em que o carrilhão bateu os três quartos. Foi então que se lembrou, subitamente, de que o espectro lhe havia prenunciado a visita de um espírito quando batesse uma hora da manhã. Nestas condições, resolveu ficar acordado até chegar a uma hora da manhã. Diga-se de passagem que esse foi o melhor caminho a seguir, especialmente levando-se em conta que mais fácil lhe fora chegar até o mundo da lua do que tornar a adormecer. Este quarto de hora foi tão interminável, que lhe pareceu, mais de uma vez, ter dormido e deixado passar a hora. Finalmente, o carrilhão fez-se ouvir aos seus inquietos ouvidos: – Ding, dong! – Um quarto… – contou Scrooge, escutando atentamente. – Ding, dong! – Meia hora. – Ding, dong! – Três quartos. – Ding, dong! – A hora! – exclamou Scrooge triunfante. – A hora, e nada! Mas é que Scrooge falava antes de ouvir o bater da uma hora da manhã no pesado badalar do carrilhão. E o badalar da uma hora da manhã fez-se ouvir, lúgubre, fúnebre, surdo e melancólico. Imediatamente, uma vivíssima claridade invadiu o aposento de Scrooge, ao mesmo tempo que as cortinas do seu leito foram puxadas por uma mão invisível. Porém, não eram as cortinas dos pés nem as da cabeceira do leito de Scrooge, mas as que estavam diante de seus olhos, aquelas para as quais seus olhares estavam voltados. Então Scrooge, sentandose bruscamente, achou-se frente a frente com o sobrenatural visitante que havia afastado as cortinas do leito. Era uma estranha aparição. A primeira vista, ter-se-ia a impressão de ver-se uma criança, mas, a um exame mais minucioso, verificava-se que seria antes um velho, um ancião visto através de uma atmosfera sobrenatural, que lhe dava uma aparência longínqua e o reduzia às proporções de uma criança. Seus cabelos, brancos como os de um homem de idade, caíam-lhe pelos ombros; seu rosto, entretanto, não apresentava a menor ruga, e sua tez era de uma deliciosa frescura. Os braços, longos e musculosos, bem como suas mãos robustas, denunciavam extrema força. As pernas e os pés, finamente modelados, estavam nus como os membros superiores. O ancião vestia uma túnica de puríssima alvura, apertada à cintura por uma faixa luminosa, que brilhava com refulgente esplendor; à mão, trazia um ramo de azevinho e, em fundo contraste com este símbolo do inverno, sua túnica era toda bordada de flores primaveris. Mas o que apresentava de mais curioso era o facho de luz que se desprendia do ápice de sua cabeça, e graças ao qual todos estes pormenores podiam ser not ados. Este fenômeno explicava a presença do grande apagador em forma de chapéu que trazia embaixo do braço, e com o qual devia cobrir-se em seus momentos de tristeza. Entretanto, observando-a com mais atenção, Scrooge notou que a aparição apresentava uma particularidade ainda mais extraordinária. Do mesmo modo que sua cintura resplandecia ora num ponto, ora noutro, e que um ponto ainda há pouco luminoso agora estava escuro, todo o seu corpo mudava constantemente de aspecto, mostrando-se ora com um só braço, ora com uma só perna, ou então com vinte pernas, mas sem cabeça, ou então uma cabeça sem corpo. Das várias partes que desapareciam, nem um único contorno ficava visível naquela extrema escuridão em que se envolviam. E no meio de todas estas estranhas metamorfoses, a aparição retomava, de súbito, sua primeira forma, nítida e perfeita como antes. – Sois vós o espírito, cuja visita me foi anunciada? – perguntou Scrooge. – Sim. Aquela voz era doce e agradável, mas singularmente fraca, como se, em vez de estar tão próxima, viesse de muito longe. – Então, quem sois vós? – perguntou Scrooge. – Sou o fantasma dos Natais passados. – Passados desde quando? – interrogou Scrooge, observando o seu talhe delgado. – Somente os do teu passado. Scrooge sentia um ardente desejo de vê-lo coberto com o chapéu que trazia à mão; se alguém lhe perguntasse qual a razão disto, jamais teria sabido responder. – Como? – exclamou o fantasma. – Queres tão depressa extinguir, com as tuas mãos profanas, a fulgurante luz que resplandece em mim? Não te basta seres daqueles cujas paixões me teceram este chapéu e que me forçam tantas e tantas vezes a enterrá-lo até aos olhos? Scrooge declarou respeitosamente não ter tido a menor intenção de ofender o espírito e afirmou não lembrar-se jamais de o ter forçado, em toda a sua vida, a “usar” aquele chapéu. Em seguida, atreveuse a perguntar-lhe o que o trazia ali. – Tua felicidade, – respondeu a aparição. Scrooge declarou-se profundamente agradecido, mas não deixou de pensar que uma noite de repouso teria concorrido mais eficazmente para este resultado. O espírito pareceu ler seu pensamento, pois no mesmo instante falou: – Tua salvação, se preferes. Ouve-me! Assim falando, estendeu a mão para Scrooge e tomou-o levemente pelo braço. – Levanta-te, e vem comigo. **** Teria sido inútil a Scrooge responder que nem o tempo, nem aquele momento eram propícios para um passeio a pé; que sua cama estava tão quentinha e que o termômetro estava muitos graus abaixo de zero; que, além disso, estava vestido apenas com o roupão, com o boné de noite e de chinelos, e que, para rematar, estava muito gripado. A pressão exercida pela mão do espírito, porém, tão doce como se fora a de uma mulher, era de todo irresistível. Assim, pois, Scrooge levantou-se, mas vendo que o espírito se dirigia para a janela, tocou-lhe a túnica e falou com voz súplice: – Oh, senhor! Sou apenas um mortal e posso cair! – Deixa-me apenas segurar-te por aqui, – disse o espírito pondo a mão sobre o coração de Scrooge, e serás capaz de enfrentar muitos outros perigos. Ditas estas palavras, ambos passaram através da parede e acharam-se logo numa estrada orlada de campos. A cidade havia-se evanescido, não restando dela um único traço; do mesmo modo, haviam desaparecido a noite e o nevoeiro, fazendo agora um tempo hibernal claro e frio, com a terra coberta pela neve. – Bondade divina! – exclamou Scrooge juntando as mãos. Foi aqui que fui criado! Aqui foi que passei a minha infância! O espírito envolveu-o num olhar benévolo. Embora tivesse posto a mão apenas um instante sobre o coração do velho, este julgou sentir ainda o calor daquele contato. Flutuavam no ambiente mil perfumes amigos, cada um dos quais evocava uma multidão de pensamentos, de esperanças, de alegrias e pesares passados, de muitos anos atrás . – Tens os lábios trêmulos, – observou o fantasma –, e o que estou vendo em tuas faces? Scrooge, com voz rouquenha, o que estava fora dos seus hábitos, respondeu que era uma verruga, e declarou que estava disposto a seguir o espírito para onde quer que fosse. – Reconheces o caminho? – perguntou o espírito. – Oh, se o reconheço! – respondeu Scrooge com emoção; – poderia andar por ele de olhos fechados! – É estranho que o tenhas esquecido durante tantos anos, – observou o espírito. – Vamos adiante. Ambos prosseguiram, e Scrooge ia reconhecendo à cada casa, cada árvore, cada poste. Logo a seguir, apareceu um pequeno povoado, com sua igrejinha, sua ponte e o rio sinuoso. Avistaram, então, na entrada, vários rapazes montados em hirsutos pôneis, e que se comunicavam alegremente com outros jovens montados em carriolas camponesas. Toda esta juventude transbordava de vida e de entusiasmo, e suas vozes enchiam o campo de uma música tão alegre que o ar cristalino parecia todo entrar em vibração. – São apenas sombras do passado, – disse o espírito; – elas não podem perceber a nossa presença. À medida que os alegres cavaleiros se aproximavam, Scrooge reconhecia-os e chamava-os pelo nome. Por que lhe causava tanta satisfação a presença daqueles amigos? Por que lhe batia tão descompassadamente o coração e se lhe iluminavam os olhos ao vê-los passar? Por que se sentia tão cheio de alegria ao ouvir estes rapazes trocarem mútuas felicitações e votos de feliz Natal, quando se despediam nas encruzilhadas para regressarem a suas casas? Que significava para Scrooge um “Feliz Natal”? Que vá para o diabo o .Feliz Natal.! Que proveito havia ele tirado do Natal? – A escola não está de todo deserta, – disse o espírito; – um menino solitário, abandonado pelos seus, ainda ali está. Scrooge declarou que bem o sabia, e reprimiu um soluço. Deixando a estrada principal, entraram por uma vereda, que Scrooge bem conhecia. Ao cabo de poucos instantes, chegaram a uma grande construção de tijolos vermelhos, encimada por um pequeno campanário. A casa devia ter sido importante, mas teria passado por diversos reveses, pois suas vastas dependências pareciam abandonadas, com suas paredes úmidas e emboloradas, os pisos fendidos e as portas abaladas. As aves domésticas cacarejavam à solta no pasto, e o mato havia invadido as cocheiras. Dentro, nem o mais ligeiro vestígio do seu antigo esplendor. Penetrando no silencioso vestíbulo, Scrooge e o espírito entreviram, pelas portas abertas, frias e escuras dependências parcamente mobiliadas. Casavam-se o cheiro de mofo, que flutuava no ar, e a nudez geral do ambiente, à ideia de que ali deviam levantar-se ainda com o escuro e talvez não pudessem alimentar-se quanto desejariam. **** O espírito e Scrooge dirigiram-se para uma porta ao fundo do vestíbulo. A porta abriu-se diante deles, mostrando uma vasta sala, triste e deserta, a que uma longa fila de bancos e carteiras dava ainda um aspecto mais austero. Sentado num destes bancos, um estudante solitário lia junto de um lume quase apagado. Reconhecendo o pobre menino abandonado, que era ele próprio, Scrooge sentou-se e pôs-se a chorar. Os mais insignificantes ecos desta mansão, a algazarra dos ratos atrás do madeiramento, os gemidos do vento através da galhada seca de um choupo melancólico, o ranger preguiçoso de uma porta emperrada, tudo isso eram outros tantos ecos que penetravam no coração de Scrooge e lhe enchiam a alma de uma doce emoção. Tocando-lhe o braço, o espírito mostrou-lhe o menino engolfado em sua leitura. Subitamente, um homem, vestido com um costume exótico, apareceu atrás da janela, com um machado preso à cintura e puxando pela brida um burro carregado de madeiras. – Meu Deus! Mas é Ali-Babá! – exclamou Scrooge no auge da alegria. – É o meu querido e honrado Ali-Babá! Sim, sim! Bem me lembro. Foi mesmo num dia de Natal que ele apareceu pela primeira vez, vestido exatamente desta forma, a este pequeno estudante que ficara ali sozinho. Pobre criança… E Valentino, e Orson, seu irmão mais velho… Também estou a vê-los. E como se chama, mesmo, este rapagote, que foi raptado durante o sono e deixado semi-vestido às portas de Damasco? Não o vedes? E o palafreneiro do sultão, que os deuses derrubaram por ter desposado a princesa? Lá está ele de cabeça para baixo! Pois foi muito bem feito! Quem lhe mandou querer casar com a princesa?… Que espanto para seus colegas de negócios se pudessem ouvir Scrooge a discorrer com tanto entusiasmo sobre tais coisas, com voz estranha, onde se misturavam o riso e as lágrimas, e se pudessem ver seu rosto incendiado e seu ar excitado! – Olha! – exclamou ele –, lá está o papagaio, com o corpo verde, a cauda amarela e a espécie de alface que tem na cabeça, como uma poupa. “Pobre Robinson Crusoé!”, repetia ele quando seu amo voltou, depois de inutilmente ter dado volta à ilha. “Pobre Robinson Crusoé! Onde estiveste, Robinson Crusoé?” O homem não acreditava no que via, e, entretanto, era mesmo o papagaio que falava. Agora é o Sexta-Feira, que corre desabaladamente para abrigar-se na pequena enseada. .Coragem, Sexta-Feira! Vamos! Aí, valente!. – Eu bem quisera… – murmurou ele pondo as mãos nos bolsos e olhando em redor de si, depois de enxugar os olhos com a manga do casaco. – Eu bem quisera, mas já não é mais tempo… – Que há? – perguntou o fantasma. – Nada, – disse Scrooge –, nada. Eu estava pensando num garoto, que ontem à noite cantava uma ária de Natal diante de minha porta. Eu desejaria ter-lhe dado alguma coisa. O espírito sorriu pensativamente e ergueu a mão, dizendo: – Passemos a outro Natal. A estas palavras, a sombra do Scrooge de outros tempos cresceu e a sala tomou um aspecto ainda mais sombrio e descuidado. As finas tábuas que forravam as paredes da sala racharam-se, os vidros quebraram-se, e os fragmentos, que caíram do teto, deixaram ver as vigas nuas. Como se operou esta transformação, nem Scrooge nem ninguém poderia explicar. O certo é que tudo o que via era a representação da realidade, que tudo se tinha passado exatamente assim, e que só ele lá ficara ainda uma vez, quando todos os seus colegas haviam partido festivamente para as férias em seus lares. Desta feita, não estava engolfado na leitura, mas passeava pela sala de um lado para outro, com ar sombrio. Scrooge olhou para o espírito, e depois, abanando tristemente a cabeça, lançou um ansioso olhar para a porta. Esta abriu-se, e uma garotinha, muito mais nova que o estudante, apareceu na sala, enlaçou-lhe o pescoço com os braços e estreitou-o repetidas vezes, chamando-lhe “meu querido”, „querido irmãozinho‟. – Venho chamar-te para levar-te para casa, meu adorado! – disse ela, batendo palmas e rindo-se alegremente. Sim, levar-te para casa, para casa, para casa! – Para casa? Será possível, querida Fani? – Mas é claro! – disse a criança, radiosa. – Para casa, sim senhor! Papai ficou tão bom, que agora nossa casa é um verdadeiro paraíso. Uma destas noites, quando eu ia deitar-me, ele falou-me com tamanha ternura, que me atrevi a perguntar-lhe se irias regressar breve. Ele respondeu que sim, e mandou-me que viesse buscar-te com o nosso carro. Agora estás quase um homem, prosseguiu a criança, e nunca mais virás para cá. Mas, para começar, vamos festejar juntos o Natal, o mais alegremente que pudermos. – E tu? Estás já uma verdadeira mulherzinha, Fani! – exclamou o rapazinho. A garota bateu palmas novamente, rindo-se, e ia acariciar-lhe a cabeça, mas, pequenina como era, teve de pôr-se na ponta dos pés, o que a fez rir. Depois, com pueril impaciência, puxou-o para a porta, e ele não se fez de rogado para acompanhá-la. No vestíbulo, ouviu-se uma voz terrível: – Tragam a mala do menino Scrooge! E na mesma hora, no vestíbulo, apareceu o próprio dono da pensão, que envolveu Scrooge com um olhar de feroz condescendência, e lhe causou uma confusão extrema ao lhe dar um aperto de mão. Depois, levando-os para um horrível cubículo gelado, que servia de salão, onde as cartas geográficas suspensas às paredes, e os mapasmúndi das vitrinas estavam recobertos de uma barrela viscosa, apresentou-lhes um frasco de um vidro singularmente pesado, ao mesmo tempo que mandava perguntar ao cocheiro, por uma criada extremamente magra, se era servido de tomar um cálice de “qualquer coisa”, ao que este respondeu que agradecia a gentileza, e que só aceitaria se não fosse a zurrapa ordinária da última vez. Colocada a mala do aluno Scrooge, os dois irmãos despediram-se do dono da pensão e tomaram assento alegremente no carro, que logo se pôs a rodar pela pequena avenida do jardim, fazendo voar, à sua passagem, estilhaços de neve, que cobriam os arbustos de azevinho como branca espuma. – Era uma delicada criatura, sensível à mais leve carícia, e dona de um grande coração, – disse o espírito. – Sim, um grande coração, – exclamou Scrooge. – Tendes razão, Espírito. Não serei eu quem vos dirá o contrário. – Morreu casadinha de novo, – disse o espírito, e deixou filhos, parece-me. – Um filho, – retificou Scrooge. – Ou isso, – disse o espírito. Teu sobrinho. Scrooge aquiesceu, com ar desajeitado. **** Mal deixaram o pensionato, logo se encontraram nas ruas movimentadas de uma grande cidade, por onde os transeuntes iam e vinham sobre os passeios, enquanto os carros disputavam a passagem e o tumulto e a agitação dos grandes centros faziam lembrar um campo de batalha. O aspecto das lojas indicava claramente que se estava de novo na época do Natal. Era noite, e as ruas estavam iluminadas. O espírito deteve-se diante da porta de uma loja e perguntou a Scrooge se a reconhecia. –Oh, se a reconheço! Não foi aqui que comecei o meu aprendizado? Ambos entraram. Um ancião, com uma peruca na cabeça, estava sentado em uma carteira tão alta, que mais umas polegadas e sua cabeça teria tocado o teto. À vista dele, Scrooge exclamou emocionado: – Meu Deus! Mas é o velho Fezziwig! Louvado seja Deus! É o velho Fezziwig ressuscitado! O velho Fezziwig pousou a caneta e olhou para o relógio, que marcava sete horas. Depois, esfregando as mãos, reajustou o largo colete, deu uma gargalhada que o sacudiu da cabeça aos pés, e berrou com voz sonora, plena, rica, grossa e jovial: – Olá, Ebenezer! Dick! O velho Scrooge, tornado agora um jovem, correu apressadamente, como o seu colega de aprendizado: – Ora esta! É Dick Williams! – disse Scrooge ao espírito. – É fato! É realmente ele, que foi sempre muito agarrado comigo, o bom rapaz! Pobre Dick! Meu Deus! Meu Deus! – Olá, rapazes! – exclamou Fezziwig –, o dia terminou. – Amanhã é Natal, Dick! É Natal, Ebenezer! – Fechem a loja, – gritou Fezziwig batendo palmas, e que os ferrolhos sejam ajustados imediatamente, antes que eu tenha tempo de dizer: Jack Robinson! Ninguém poderia imaginar a rapidez com que estes bravos rapazes cumpriram a ordem. Ambos se precipitaram para a rua com os ferrolhos… um… dois… três… ajustaram; quatro… cinco… seis… puseram as barras e as cunhas; sete… oito… nove… tornaram a entrar, resfolegando como cavalos de corrida, antes que tivessem tempo de contar até doze. – Vamos, adiante! – berrou o velho Fezziwig, pulando de sua escrivaninha com surpreendente agilidade. – Vamos, criançada! Desocupem tudo, arranjem o maior espaço possível! Arranjar espaço? Mas eles seriam capazes de desmontar tudo sob as ordens animadoras do velho Fezziwig! Em menos de um minuto, tudo estava pronto. Tudo que podia ser transportado foi tirado e levado para outras partes como se para desaparecer de uma vez da face da terra. O soalho foi varrido e encerado, os candelabros espanados, a lareira reabastecida. Dentro em breve, o armazém estava transformado em um belo salão de baile, tão confortável e bem iluminado quanto se poderia desejar numa noite de inverno. Neste instante, chegou o rabequista com um caderno de música. Empoleirando-se no alto de um estrado, e sob pretexto de afinar o instrumento, acabou por tirar dele apenas insuportáveis chiados. A seguir, entrou a senhora Fezziwig, cuja pessoa era inteirinha um vasto sorriso. Entraram, depois, as três meninas Fezziwig, radiantes e adoráveis, seguidas de seis rapagotes, cujos corações elas pisavam. Vieram, a seguir, todas as moças e moços que trabalhavam na loja, e mais a criada com seu primo e mais o padeiro. Vieram, depois, a cozinheira com o amigo íntimo de seu irmão, o leiteiro, o pequeno aprendiz da loja fronteira, que parecia passar fome em casa de seu patrão, e que procurava esconder-se por detrás da criadinha. Uns após outros, todos entraram, uns timidamente, outros afoitamente, estes com graça, aqueles desajeitados; uns empurrando os companheiros, outros puxando-os. Finalmente, de um modo ou de outro, todos entraram. Começada a festa, todos se puseram a dançar – vinte pares a um tempo – executando passos vários, avançando, recuando, rodopiando, voltando e recomeçando. O par da dianteira não sabia mais onde se meter, uma vez terminado o seu número, e o par seguinte saía sem esperar sua vez, de tal maneira que em breve só havia pares de dianteira e nenhum na traseira para substituí-los. Obtido este resultado, o velho Fezziwig exclamou: “Está ótimo!” e bateu palmas para fazer parar a dança. O músico mergulhou a cara congestionada num copázio de cerveja, enchido especialmente para ele. Logo, porém, que voltou, tratou de recomeçar a música com mais vivo entusiasmo, antes mesmo que os presentes estivessem prontos para dançar. Queria, talvez, que todos imaginassem que o primeiro músico, indo tomar cerveja, tinha ficado por lá e em lugar dele surgiu outro rabequista, novo em folha, disposto a ultrapassar o rival ou então morrer. Seguiram-se outras danças, depois alegres diversões, e depois ainda outras danças. Houve, em seguida, uma mesa de bolos, vinho quente, enormes pedaços de carne assada e cerveja à vontade. Mas o mais belo momento da noitada foi depois da ceia, quando o músico – aliás um guapo rapagão, podem acreditar –, como bom conhecedor de seu papel, atacou a ária de Sir Roger de Coverly. Foi então que o velho Fezziwig e esposa começaram pessoalmente a conduzir o baile: e posso afirmar que não era fácil dirigir vinte e três ou vinte e quatro pares de bailadores, e que bailadores! Era gente que sabia dançar de fato e não simplesmente arrastar os pés. Mas, mesmo que fossem duas, três ou mesmo quatro vezes mais, o velho Fezziwig seria capaz de agüentar a parada, do mesmo modo que a senhora Fezziwig, sua digna companheira em toda a extensão da palavra. Os pés de Fezziwig pareciam irradiar um brilho todo particular, fulgurando como meteoros em todos os pontos da dança ao mesmo tempo. Seria impossível prever onde iriam eles aparecer no momento seguinte. Quando o senhor e a senhora Fezziwig executaram todos os passos da contradança, Fezziwig terminou com um magnífico entrechat, depois do qual se pôs novamente em pé, firme e ereto como um l. Esta noitada familiar terminou exatamente quando o relógio bateu as onze horas. Então, o senhor e a senhora Fezziwig colocaram-se de cada lado da porta, apertando a mão a cada um dos convidados e desejando a cada um deles um feliz Natal. Quando todos se retiraram, com exceção dos dois aprendizes, os Fezziwig trocaram com estes os mesmos votos; em seguida, as alegres vozes calaramse e os dois rapazes voltaram para seus leitos, arrumados num cômodo atrás da loja. Enquanto o baile durou, Scrooge comportou-se como um homem que tivesse sido transportado para a sua mocidade. Tomava parte de alma e coração na cena, com o Scrooge de outros tempos. Ele tudo reconhecia, lembrava-se de tudo, divertia-se com tudo e manifestava a mais estranha emoção. Foi somente quando os rostos alegres de Dick e do outro Scrooge se desviaram deles, que ele se lembrou da presença do espírito. Notou, então, que este o observava com atenção e que a claridade do ápice de sua cabeça brilhava com viva intensidade. – Não vejo nada de extraordinário para inspirar a estes idiotas tanto reconhecimento, – disse o espírito. – De fato, – disse Scrooge. O espírito fez-lhe sinal com o dedo para escutar os dois aprendizes que cantavam os louvores de Feziwig. Depois, continuou – Como? Aí está uma coisa engraçada! Este homem não despendeu senão algumas libras do seu dinheiro terrestre. Isso é razão para tanto elogio? – Não se trata disso, – protestou Scrooge já esquentado por esta observação e falando, sem que o percebesse, como teria falado o Scrooge de outrora. Não se trata disso, Espírito. Fezziwig tem o poder de nos fazer felizes ou infelizes; pode fazer que o nosso trabalho seja um prazer ou uma insuportável tarefa. Que este poder se manifeste por palavras, por gestos ou olhares, pouco importa; a felicidade que espalha em torno dele é tão grande como se custasse uma fortuna. Scrooge sentiu pesar sobre ele o olhar do espírito, e calou-se. – Que é que há? – perguntou este. – Nada de mais, – respondeu Scrooge. – Alguma coisa te preocupa, – insistiu o espírito. – Nada, mesmo, – disse Scrooge. – Eu gostaria de dizer duas ou três palavras a meu empregado, que aí está. Expresso este desejo, o antigo Scrooge apagou as velas, e Scrooge e o fantasma acharam-se novamente na rua, lado a lado. – Apressemo-nos, observou o espírito. Meu tempo esgota-se. **** Esta injunção não se dirigia a Scrooge, nem a ninguém que ele pudesse ver, mas seu efeito foi imediato. O antigo Scrooge reapareceu, com alguns anos a mais, sob a forma de um homem em plena juventude. Seu rosto não tinha ainda os traços duros e rígidos da idade madura, mas já se podiam descobrir ali os sinais de uma natureza avarenta e inquieta. Havia em seu olhar qualquer coisa de impaciência, de inquietude, de avidez, de sofreguidão, que deixava entrever qual a paixão que se havia enraizado nele e de que lado, ao crescer, esta árvore projetaria a sombra. Scrooge não estava só. A seu lado, sentava-se uma jovem vestida de luto, cujos olhos cheios de lágrimas brilhavam à luz que espalhava o fantasma dos Natais passados. – A ti pouco importa, – dizia-lhe ela com doçura; outro ídolo tomou meu lugar. Mas, se ele puder dar-te, no futuro, a alegria e os carinhos que eu mesma teria tentado dar-te, não tenho justa razão para afligir-me. – Que ídolo tomou teu lugar? – perguntou ele. – O bezerro de ouro. – Aí está como é o mundo e sua justiça! – exclamou ele. – Não trata nada com tanta severidade como a pobreza, nem condena com mais dureza a loucura pelo dinheiro. – Dás muita importância à opinião do mundo, – respondeu a jovem calmamente. – Todos os teus outros desejos desapareceram diante do desejo de não incorrer no seu mesquinho vitupério. Vi caírem, uma por uma, as tuas mais nobres aspirações, até que te absorvesses completamente na tua paixão dominante – o amor pelo dinheiro. Não é verdade? – E depois? Quando mesmo eu me tornasse mais prudente com o decorrer dos anos, que poderia isso significar? Não teria eu ficado o mesmo aos teus olhos? Ela meneou a cabeça. – Tu me achas mudado? – Nosso noivado data de longos anos, de um tempo em que ambos éramos pobres mas vivíamos satisfeitos com o nosso destino, esperando melhorá-lo com o nosso trabalho perseverante. Desde então, mudaste muito e já não és o mesmo homem. – Eu era uma criança, – replicou ele com impaciência. – Tu mesmo te achas agora diferente do que eras. Quanto a mim, sou sempre a mesma; mas o que me prometia a felicidade, quando éramos dois corações em um só, não seria mais que uma fonte de perenes sofrimentos, agora que estão separados. Quantas vezes já fiz a mim mesma estas amargas reflexões, nem eu própria saberia dizê-lo. O que interessa, porém, é que eu as tenha feito e que te devolva a liberdade. – Acaso já procurei readquiri-la? – Com palavras, não, nunca. – Então, como? – Mudando de natureza, de humor e de caráter. Já não vês do mesmo modo tudo aquilo que, noutros tempos, tornava o meu amor precioso aos teus olhos. Se não existisse nenhum compromisso entre nós, – disse a jovem fazendo pesar sobre ele um olhar terno mas firme –, terias vindo procurar-me hoje? Certamente, não. Ele pareceu concordar, a contragosto, com a justeza desta hipótese. Entretanto, respondeu com esforço: – Não pensas o que dizes. – Eu gostaria de pensar de outro modo, se fosse possível. Chamo o céu por testemunha. Para ajustarme a semelhante verdade, é mister que ela seja realmente de uma força irresistível. É essa a razão pela qual, com o coração despedaçado, devolvo a liberdade ao homem que foste outrora. Pode ser – e a lembrança do passado justifica em mim essa leve esperança – que experimentes alguma saudade; mas sei que logo, muito logo, repelirás essa lembrança como um sonho mau, do qual se acorda com alívio. Possas tu ser feliz na vida que escolheste! Aqui se separaram. – Espírito, – disse Scrooge, não me mostreis mais nada! Levai-me de novo para minha casa. Por que haveis de gozar com a minha tortura? – Uma sombra ainda! – exclamou o fantasma. – Não, não, nada mais! – gritou Scrooge. Não quero ver mais nada. Não me mostreis mais nada! O espírito, porém, inflexível, sujeitou-o e obrigou-o a olhar para o que ia acontecer. **** A cena e a paisagem eram outras. Achavam-se numa sala nem demasiado vasta, nem muito luxuosa, mas confortável. Ao pé de um bom fogo, estava sentada uma jovem de excelsa beleza, tão semelhante à precedente, que Scrooge se teria enganado se não tivesse visto, do outro lado do fogo, esta última transformada em mãe de família, sentada em frente de sua filha. Fazia-se um grande barulho naquela sala, pois havia nela mais crianças do que Scrooge poderia enumerar, na agitação em que se encontrava, e era tal a algazarra, que cada criança valia por dez. Daquilo tudo, resultava um descomunal pandemônio, mas ninguém reclamava; ao contrário, mãe e filha riam e divertiam-se de coração. Mas logo esta última, resolvendo tomar parte no brinquedo, foi assaltada imediatamente pelas crianças. Que teria eu dado para ser um deles, muito embora, diga-se de passagem, jamais me atrevesse a portar-me com tamanha audácia. Não! Por nada deste mundo me abalançaria a desmanchar o seu penteado ou tocar nas suas tranças. Como poderia eu esconder seu delicado sapatinho, nem que fosse para salvar a minha vida? Mas, oh! quanto me fora doce – devo confessá-lo – poder aflorar-lhe os lábios; fazer-lhe perguntas só para vê-la entreabrir a mimosa boca; admirar, sem que ela corasse, os cílios de seus olhos baixos; acariciar as ondas dos seus cabelos, dos quais uma única madeixa teria sido para mim de valor inestimável! Confesso que me sentiria feliz, se pudesse gozar junto dela do mais pequeno privilégio de uma criança, mas sem deixar de ser um homem, para poder apreciar-lhe o valor. Mas eis que começam a bater. Verifica-se uma tal corrida para a porta, que a jovem, rindo-se e com a roupa em desordem, é arrastada pela onda ruidosa, no momento preciso de receber o papai, que chega em companhia de outro homem carregado de brinquedos e presentes de Natal. Imaginem, agora, os gritos, as lutas, os assaltos travados contra o pobre homem indefeso. Cada um procura alcançá-lo com auxílio de cadeiras, para remexer-lhe os bolsos e tomar-lhe os pacotes embrulhados em papel colorido. Este se lhe pendura ao pescoço, aquele o pega pela gravata, enquanto outros lhe aplicam afetuosas palmadas nas costas e nas pernas. Que exclamação de júbilo e de surpresa a cada pacote que se abria! Que emoção ao gritarem apavorados que o caçulinha foi encontrado a enfiar na boca uma frigideira de brinquedo, e que estão com medo de que tenha engolido um peruzinho em miniatura, colado no pratinho de madeira. E que alivio quando verificaram que tudo isso não passava de um boato! E como descrever a alegria, o êxtase e o reconhecimento de toda esta garotada? Finalmente, tendo chegado a hora de se recolherem, todas as crianças se retiraram, com os corações cheios de emoções barulhentas e subiram ao andar superior onde encontrariam o repouso nos seus leitos. O interesse com que Scrooge contemplava esta cena aumentou quando o dono da casa, tendo a filha ternamente apoiada contra si, veio sentar-se entre ela e a esposa, diante da lareira. Então, Scrooge sentiu os olhos marejados de lágrimas, quando começou a pensar que uma jovem semelhante àquela, igualmente dotada de tais encantos e promessas, teria podido chamar-lhe pai e ter-lhe enchido de toda uma primavera o inverno bravio de sua existência. –Isabel, – disse o marido, voltando-se para sua mulher com um sorriso –, encontrei hoje à tarde um velho amigo teu. – Sim? E quem era? – Adivinha. – Como queres que eu adivinhe?… Ah, sim! – acrescentou em seguida, rindo-se com ele. É o senhor Scrooge. – Exatamente. Passei diante do seu escritório, e como estava iluminado e as janelas estavam abertas, resolvi fazer-lhe uma visita. Disseram-me que seu sócio está quase à morte. Assim pois, estava só, mesmo porque me parece que ele não tem mais ninguém no mundo. – Espírito! – disse Scrooge com voz trêmula, levai-me para longe daqui! – Eu te preveni de que eram as sombras das coisas passadas. Se elas são como estás vendo, não me cabe a culpa. – Levai-me! – exclamou Scrooge. Não posso mais suportar! Scrooge voltou-se para o espírito e, vendo que este o olhava com uma expressão – coisa estranha! – onde se encontravam todas as fisionomias das sombras evocadas, atirou-se sobre ele. Nesta luta, se se pode chamar luta a um assalto onde o espírito, sem resistência aparente, permanecia insensível aos esforços do seu adversário, Scrooge percebeu que a luz que fulgurava na cabeça do fantasma tornava-se cada vez mais clara e mais alta. Associando confusamente a ideia desta luz com a influência que o espírito exercia sobre ele, tomou o chapéu extintor com um imprevisto e rápido gesto e lhe enterrou na cabeça. O espírito desvaneceu-se imediatamente, ficando inteiramente coberto pelo extintor. Scrooge atirou-se com todo o seu peso sobre o extintor, mas todo o seu esforço foi inútil para aprisionar a luz que dele se escapava e que se derramava pelo chão. Scrooge sentiu que as forças o abandonavam, ao mesmo tempo que o tomava uma incoercível vontade de dormir. Entretanto, tinha consciência de que se achava novamente em seu quarto. Sua mão fez um último esforço para enterrar mais o chapéu, mas o pulso afrouxou, e mal teve tempo para ganhar o leito, cambaleando, antes de mergulhar num sono profundo. TERCEIRA ESTROFE O segundo dos três espíritos Despertado em meio de um barulhento ressonar, Scrooge sentou-se na cama para coordenar as ideias, sem precisar ser avisado de que o relógio ia bater uma hora. Tinha consciência de que a lucidez de espírito lhe voltava justamente no instante em que devia travar conhecimento com o segundo mensageiro anunciado por Jacob Marley. Mas quando começava a perguntar a si mesmo qual seria a cortina do leito que ia ser movida desta vez pelo novo espírito, sentiu um arrepio tão desagradável, que resolveu puxar todas as cortinas com as próprias mãos. Feito isto, deitou-se de novo, mas sem cessar a rigorosa vigilância em redor do leito, pois queria fazer frente ao espírito desde o momento de sua aparição, e não ser tomado de surpresa, o que lhe inutilizaria todos os seus recursos. Aqueles que pretendem estar sempre à altura das circunstâncias e não se perturbar com coisa alguma costumam afirmar, para darem uma ideia de seu sangue-frio, que podem permanecer tão calmos diante de um sangrento duelo como diante de uma partida de cartas. Entre estes dois extremos, há evidentemente lugar para os mais diversos acontecimentos. Sem me atrever a pôr a mão no fogo por Scrooge, posso declarar-vos, entretanto, que ele estava disposto a afrontar todas as aparições, as mais variadas ou mais estranhas, e que nada, absolutamente nada lhe causaria surpresa, desde uma simples criança até um descomunal rinoceronte. Mas, se Scrooge estava preparado para ver o que quer que fosse, não estava absolutamente preparado para não ver coisa alguma. Assim pois, quando o relógio bateu uma hora e nenhum fantasma apareceu, um violento tremor apossou-se de todo o seu ser. Cinco… Dez… Quinze minutos transcorreram, e nada aparecia. Durante todo esse tempo, Scrooge permaneceu estendido no leito, onde se concentravam os raios de uma luz avermelhada, que começara a brilhar no momento em que o relógio soava uma hora. Esta simples claridade parecia a Scrooge mais inquietante que uma dúzia de fantasmas, pois não podia compreender o que aquilo podia significar. Por vezes, era levado a imaginar que o fenômeno não passasse de um caso de combustão espontânea, embora não tivesse a consolação de o saber ao certo. Finalmente, Scrooge explicou-se a si mesmo – como qualquer pessoa o faria – que o segredo desta misteriosa luz estava sem dúvida na sala vizinha, de onde, bem observado, ela parecia vir. Estribado nesta ideia, levantou-se da cama vagarosamente, calçou as chinelas e dirigiu-se para a porta. No momento em que punha a mão na maçaneta, uma voz desconhecida o chamou de dentro, convidando-o a entrar. Scrooge obedeceu. O quarto era exatamente o seu, isso lá era, sem a menor dúvida, mas havia passado por uma incrível transformação. As paredes e o teto estavam tão bem enfeitados de vegetação, que se haviam tornado um verdadeiro bosque, onde brilhavam esparsos lagos espelhantes. As folhas verticais de azevinho, do agárico e da hera refletiam as luzes como outros tantos minúsculos espelhos. No fogão, crepitava um esplêndido fogo, como jamais crepitara neste desajeitado fogão em nenhum outro inverno, nem no tempo de Marley. Empilhados no chão, de modo a formar uma espécie de trono, encantavam a vista inumeráveis vitualhas, como perus, patos, caça, aves, presuntos, pernas de porco, leitoas, verdadeiras guirlandas de salsichas, ostras, castanhas ainda quentes, rubras maçãs, laranjas apetitosas, suculentas peras, imensos bolos reais, taças de vinho espumante, cujo delicioso aroma enchia todo o ambiente. Sobre este incrível estrado estava confortavelmente instalado um belo e jovial gigante, em cuja mão sustentava um facho aceso em forma de cornucópia. Quando Scrooge entreabriu a porta para passar, o gigante ergueu o facho bem alto para projetar a luz sobre o rosto do recém-chegado. – Entra! – gritou o espírito. Entra, meu amigo, e façamos as nossas apresentações. Scrooge entrou timidamente e baixou a cabeça diante deste novo espírito. Já não era o Scrooge rabugento da véspera, mas, embora os olhos claros da aparição tivessem uma expressão de bondade, Scrooge não podia enfrentar a sua irradiação. – Eu sou o fantasma do Natal presente, – disse o espírito. Olha-me. Scrooge obedeceu respeitosamente. O espírito vestia um simples manto verde-escuro guarnecido de branco. Este manto era tão simples e tão folgado, que deixava descoberto o peito largo. Também estavam descalços seus pés, que apareciam sob as pregas da estranha indumentária. Como coroa, tinha um ramo de azevinho ornado com uns enfeites cintilantes imitando pedaços de gelo. Longas e escuras madeixas brincavam-lhe livremente sobre o rosto generoso e franco, franqueza esta que também se refletia em seu olhar cintilante, em sua voz sonora, em sua mão aberta, em sua expressão alegre e em suas maneiras cativantes. Pendia-lhe da cintura uma velha bainha, já bastante enferrujada e sem a respectiva espada. – Já viste, em toda a tua vida, alguma pessoa parecida comigo? – perguntou o espírito. – Não, nunca, – respondeu Scrooge. – Nunca viajaste com os mais jovens membros de minha família, ou melhor, com os meus irmãos mais velhos vindos ao mundo no decorrer destes últimos anos? – Não creio, – disse Scrooge. Parece-me que não. Tendes muitos irmãos, Espírito? – Mais de mil e oitocentos. – Que família para manter! – murmurou Scrooge. O fantasma do Natal presente levantou-se. – Espírito, – disse Scrooge com voz humilde, levai-me aonde vos aprouver. Ontem à noite saí contra a vontade e recebi uma lição que começa a produzir seus frutos. Esta noite, se tiverdes alguma coisa a ensinar-me, estou pronto para tirar dela todo o proveito. – Toca em meu manto, – disse o fantasma. Scrooge obedeceu e segurou a roupa do gigante. No mesmo instante, desapareceram azevinhos, agáricos, heras, lagos brilhantes, perus, patos, caças, frangos, assados, presuntos, ostras e salsichas. Do mesmo modo, desapareceram repentinamente o quarto, o fogo, a luz avermelhada, a própria hora noturna, e Scrooge achou-se em uma das ruas de Londres perto de seu companheiro, por uma manhã de Natal. Fazia um tempo chuvoso, e as pessoas produziam uma espécie de música, que não era desagradável, ao raspar a neve que se acumulava nos seus portais e nos rebordos dos telhados. As crianças regalavam-se ao ver a neve, que rolava em grandes porções, despedaçando-se na calçada em pequenas avalanchas. As fachadas das casas pareciam ainda mais negras em contraste com a alva e lisa camada de neve, que cobria os telhados e até mesmo com a neve da rua; esta não tinha a mesma alvura, pois as pesadas rodas das viaturas haviam cavado ali profundos sulcos, que se cruzavam e se entrecortavam nas encruzilhadas, formando um intricado de pequenos canais que se perdiam numa espessa mistura de lama amarelada e de água gelada. O céu era triste, as ruas tomadas por uma opaca neblina, que era meio chuvisco, meio gelo, cujas partículas mais densas recaíam em gotículas fuliginosas, como se todas as chaminés da GrãBretanha tivessem sido acesas ao mesmo tempo e estivessem passando por uma limpeza em regra. Nada havia de muito agradável neste aspecto hibernal de Londres. Entretanto sentia-se por toda parte uma atmosfera de alegria, que nem mesmo o mais belo sol de verão, nem o mais límpido ar seriam capazes de criar. Assim, os varredores de neve demonstravam o mais jovial bom-humor, interpelando-se de cima dos telhados, atirandose de quando em quando mútuas bolas de neve – projéteis menos perigosos que certos gracejos –, rindo alegremente, quando atingiam o alvo e rindo do mesmo modo, quando falhavam. As churrascarias ainda não estavam de todo abertas, mas as casas de frutas ostentavam todo o seu esplendor. Ali, grandes cestas de castanhas, repletas até aos bordos, ostentavam-se nas portas, ameaçando rolar para a rua, vítimas de seu próprio volume. Havia maçãs e pêras amontoadas em vistosas pirâmides, cachos de uvas que o negociante tivera o cuidado de pendurar bem à vista, para que, aos transeuntes, lhes viesse água à boca, sem que isso lhes custasse nada. Havia pêssegos dourados e veludosos, cujo aroma lembrava passeios de inverno nos bosques, maçãs de Norfolk, cuja tonalidade morena fazia ressaltar o amarelo-claro dos limões e laranjas. Até os peixes, prateados e dourados, expostos em aquários no meio destas frutas selecionadas, pareciam adivinhar que se passava qualquer coisa de anormal, e, de boca aberta, faziam evoluções no seu pequenino mundo, tomados de grande agitação. E as mercearias! Oh! as mercearias! Estavam quase fechadas, mas, pelos pequenos espaços entreabertos, que espetáculo esplêndido! O que tornava encantadora a atmosfera não era apenas o alegre ruído das balanças, o barulho das caixas, que ora se abriam, ora se fechavam, o esquisito aroma que se evolva a um tempo do chá e do café, a grossura e a abundância das passas, a extrema alvura das amêndoas, a beleza dos paus de canela, tão compridos e retos, ou o perfume penetrante das outras especiarias; não era somente a presença apetitosa dos figos moles e carnosos, das ameixas agridoces, dos confeitos açucarados, capazes de fazer morrer de vontade os menos gulosos, ou ainda os enfeites de Natal, constituídos por todas estas lindas coisas; era também a alegria dos fregueses, tão possuídos da grandeza daquele esperançoso dia, que se apertavam a ponto de achatarem os seus cestos, se esqueciam de suas compras sobre o balcão e voltavam correndo para buscá-las, tudo isto com a maior alegria possível; era a presteza dos caixeiros risonhos e agradáveis, que corriam solícitos atendendo a todos e patenteando, na paciência com que serviam a sua jovial freguesia, a satisfação que lhes ia na alma. Com o badalar dos sinos chamando o povo para as igrejas e as capelas, as ruas encheram-se de uma multidão de pessoas, ostentando os seus mais belos trajes, bem como as suas mais joviais fisionomias. Ao mesmo tempo, de uma quantidade de estreitas ruas, de vielas e passagens ignoradas, surgiu uma multidão de homens e mulheres trazendo seus respectivos manjares ao padeiro, para mandá-los esquentar. A vista desta humilde gente e de suas ingênuas festas pareceu interessar ao Espírito no mais alto grau. Postando-se, em companhia de Scrooge, à porta de uma padaria, descobria e incensava com o seu facho todos os pratos, à medida que iam passando. Era de fato um facho extraordinário. Uma ou duas vezes, quando alguns portadores de viandas trocavam mútuos insultos por se terem chocado na fila, bastou que o espírito erguesse sobre eles o seu facho para que imediatamente lhes voltasse o bom-humor. “Efetivamente, é bastante vergonhoso, diziam eles próprios, levantar questões num dia de Natal”. E era a pura realidade. Depois, os sinos silenciaram e as padarias fecharam-se. Nos subsolos, porém, as carnes assavam, e, sobre o fornos, na rua, as próprias calçadas fumegavam, como se as pedras do passeio estivessem igualmente a cozer. – Será que têm algum sabor particular estas gotículas que caem do vosso facho? – perguntou Scrooge. – Sim, naturalmente. Têm o sabor do Natal. – E este sabor pode transmitir-se no dia de hoje a qualquer prato? – A qualquer prato dado de bom coração, especialmente aos mais pobres. – Por que aos mais pobres? – Porque são os que têm mais necessidade deles. **** Ambos se calaram, e, sempre invisíveis, prosseguiram seu caminho pelas ruas da cidade. O espírito era dotado de uma extraordinária faculdade, que Scrooge já havia notado na confeitaria: apesar de seu talhe gigantesco, estava sempre perfeitamente à vontade, onde quer que fosse; mesmo sob o mais baixo teto, andava com a mesma graça e naturalidade como se estivesse no mais luxuoso palácio. Ou fosse para fazer alarde deste poder, ou fosse levado pelo seu coração generoso, compassivo pelos humildes, o certo é que foi para a casa do seu empregado que o espírito arrastou Scrooge, sempre agarrado ao seu manto. Na soleira da porta o espírito sorriu e deteve-se para abençoar a casa de Bob Cratchit, levantando o seu facho. Então, apareceu a senhora Cratchit, esposa de Bob, vestida muito modestamente com um vestido já surrado mas que ela havia enfeitado garridamente com umas fitas baratas, que custam apenas alguns centavos e fazem tanta vista. A senhora Cratchit estendia a mesa ajudada por Belinda, sua segunda filha, também toda garrida, enquanto Pedro Cratchit, enterrado em seu vasto cachecol, herdado de seu pai, espetava um garfo na panela de batatas, contente por se ver tão elegante e suspirando por se mostrar na rua. No mesmo instante, os dois últimos Cratchits, um menino e uma menina, precipitaram-se na sala, gritando que acabavam de sentir o cheiro do pato, do “seu” pato, quando passaram diante da padaria. Depois, embriagados com o pensamento do gostoso molho de cebola que estavam preparando, puseram-se a dançar em homenagem à habilidade do cozinheiro Pedro Cratchit. Modesto, apesar de seu vistoso colarinho que quase o enforcava, este pôs-se a soprar o fogo com tanta graça que logo as batatas começaram a dançar na água fervente e vieram tamborilar contra a tampa da panela para anunciar que já estavam cozidas e prontas para serem descascadas. – Que será que está prendendo seu querido papai e seu irmão pequeno Tim? – disse a senhora Cratchit. E Marta? No Natal passado, ela chegou meia hora mais cedo. – Cá está Marta, mamãe! – disse uma garota que vinha entrando naquele instante. – Cá está Marta! – exclamaram os dois pequeninos Cratchits. Urra! Veja, Marta! Temos pato hoje! – Louvado seja Deus, minha querida! Como estás atrasada hoje! – observou a senhora Cratchit, abraçando-a repetidas vezes e tomando-lhe solicitamente o chapéu e o xale. – Tivemos que terminar uma porção de coisas ontem à noite, respondeu a moça, e hoje de manhã tivemos de pôr tudo em ordem. – Está bem; o essencial é que já estás aqui. Senta-te perto do fogo, querida, e aquece-te um pouco. – Não, não, aí está papai! – gritaram os pequeninos Cratchits, que estavam sempre em toda parte ao mesmo tempo. – Vai esconder-te, Marta! Vai esconder-te! Marta escondeu-se, e Bob, com o cachenê arrastando no chão, com a roupa usada mas bem escovada e em ordem para dar ideia de dia de festa, irrompeu na sala, trazendo o pequeno Tim às costas. Pobre pequeno Tim! Trazia umas muletinhas, e suas pernas eram sustentadas por um aparelho de metal. – Muito bem! Onde está nossa Marta? – exclamou Bob Cratchit, lançando os olhos em torno. – Ela não pode vir, – disse a senhora Cratchit. – Não pode vir! – repetiu Bob perdendo subitamente seu primeiro entusiasmo, pois acabava de servir de cavalo ao pequeno Tim, e estava fatigado por ter corrido desde a igreja até à casa dele. – Ela não pode vir! Num dia de Natal! Marta ficou penalizada por vê-lo decepcionado, mesmo em se tratando de uma brincadeira, e sem mais perder tempo abriu a porta que a escondia e atirou-se aos braços do pai, enquanto os dois pequeninos Cratchits levavam o pequeno Tim para a cozinha, onde estavam cozinhando o pudim. – E como se tem portado o o pequeno Tim? – perguntou a senhora Cratchif, depois de ter gracejado com Bob por motivo de sua credulidade e depois que este abraçou a filha cheio de satisfação. – Como um anjo, – disse Bob –, e mais ainda. Quando está calmo, torna-se reflexivo, e todos nós ficamos admirados com as ideias que lhe ocorrem. Ainda há pouco me dizia que esperava que todos o tivessem notado na igreja por ser doente, e, acrescentou, especialmente no , dia de Natal os cristãos devem sentir-se felizes ao pensarem naquele que fazia andar os coxos e restituía a vista aos cegos. Repetindo estas palavras, a voz de Bob tremia, e tremeu mais ainda quando observou que o pequeno Tim se tornava cada dia mais forte e mais vigoroso. As batidas da muletinha fizeram-se ouvir sobre o soalho, e antes que tivessem dito qualquer outra palavra, o pequeno Tim apareceu em companhia dos irmãos e da irmã, que o ajudaram a subir ao seu banquinho, no canto do fogo. Então, arregaçando as mangas, como se receasse que elas se estragassem mais, as pobres mangas, Bob preparou numa vasilha uma mistura revigorante com gim e limão, agitou-a fortemente e a pôs para esquentar perto do fogo. Pedro e os dois pequenos Cratchits, que se viam em toda parte ao mesmo tempo, correram buscar o pato, que trouxeram logo a seguir, em triunfal procissão. A celeuma que se seguiu, poder-se-ia acreditar que o pato era, naquele instante, a mais rara das aves, um fenômeno emplumado, e que perto dele um cisne negro não passava de uma insignificante curiosidade. Realmente, era este o caso naquela modesta residência. A senhora Cratchit fervia o molho depositado numa caçarola, enquanto Pedro Cratchit esmagava as batatas com incrível vigor, Belinda preparava a calda de maçãs, Marta enxugava os pratos, Bob colocava o pequeno Tim à mesa, ao lado dele, e os pequeninos Cratchits punham as cadeiras para todos, inclusive para si mesmos; uma vez bem instalados, puseram uma colher na boca, para que não fossem tentados a pedir seu pedaço de pato antes de chegar-lhes a vez de serem servidos. Finalmente, colocados todos em seus respectivos lugares, recitou-se a oração de antes das refeições. Seguiu-se, então, um silêncio impressionante, enquanto a senhora Cratchit, tomando lentamente a faca de trinchar, se preparava para cortar a ave. Mal, porém, a senhora Cratchit enterrou a faca nas laterais do pato, após tão mal contida ansiedade, um “hurra” de contentamento estrugiu por toda a sala. O próprio pequeno Tim, excitado pelos dois pequeninos Cratchits, bateu na mesa com o cabo da faca e repetiu um “hurra”. Nunca, em tempo algum, se tinha visto um pato semelhante. Bob declarou que jamais se fizera um pato assado igual àquele; foram objeto de comentários o seu preço, a qualidade, o tamanho e o delicioso gosto. Ainda mais, com o molho de maçãs e o pirão de batatas, este pato representava um lauto almoço para toda a família, “e até mesmo sobrou”, observou a senhora Cratchit com satisfação, olhando alguns ossos relegados no prato. Entretanto, todos comeram à vontade, inclusive os pequenos Cratchits, que tinham a cara lambuzada de pato e de molho até aos olhos. E agora, enquanto Belinda muda os pratos, a senhora Cratchit sai sozinha da sala, para esconder sua grande emoção, e vai buscar o pudim. Oh, e se o pudim não estiver bem cozido! E se ele se desmoronar quando for desenformado! E imaginem se alguém se introduziu na despensa e o roubou, enquanto todo mundo se regalava com o pato! A estes dolorosos pensamentos, os dois Cratchits fizeram-se lívidos. Os mais horríveis receios assaltavam-nos. Ah, uma nuvem de vapor! É o pudim que sai do forno… Agora, um cheiro de lixívia… É do pano que está envolvendo o pudim. Um aroma que parece vir de uma pastelaria, situada entre um restaurante e uma lavanderia! Pois é o próprio pudim!… Meio minuto mais tarde, a senhora Cratchit, com o rosto afogueado mas com um sorriso de triunfo nos lábios, reaparece com o pudim: um pudim semelhante a uma bala de canhão, todo, mosqueado, duro e compacto, tendo em cima um galho de azevinho, mergulhado na base em um quarto de pinta de brandy inflamado. Oh, que maravilhoso pudim! Bob Cratchit declarou, solenemente, que era a mais perfeita obra-prima que a senhora Cratchit executou desde que casaram. A senhora Cratchit, agora com o espírito liberto do receio de errar, confessava ter tido alguma dúvida sobre a quantidade de farinha empregada. Cada um teve alguma coisa a dizer sobre o pudim; mas o que ninguém disse, e talvez nem mesmo se atrevesse a pensar, é que o referido pudim era demasiado pequeno para tão grande família. Em verdade, isso teria sido uma espécie de blasfêmia, e quaisquer dos Cratchits teria corado de vergonha à simples ideia de fazer tal alusão. Finalmente, o almoço terminou. A mesa foi levantada, o chão varrido e a lareira reabastecida. Em seguida, após o elogio feito à bebida que fora distribuída entre todos os presentes, foram servidas, à mesa, maçãs e laranjas, ao mesmo tempo que se atiravam à cinza punhados de castanhas. Depois, toda a família Cratchit se reuniu diante do fogo – ao que Bob Cratchit chamava “fazer roda” em torno do fogo. Ao lado de Bob tinha-se juntado tudo o que havia na casa de finos cristais, isto é, dois copos de pé e uma xícara sem asa. Mas, pouco importava: não continham tais vasos o licor saboroso, do mesmo modo como se estivesse em finos vasos de ouro? Bob distribuiu licor a todos, com ar radioso, enquanto as castanhas pulavam na cinza e rachavam com estalos intermitentes. Em seguida, Bob Cratchit levantou este brinde: – A todos vocês, meus amigos, um felicíssimo Natal! Que Deus nos abençoe a todos! Toda a família respondeu alegremente. – Que Deus abençoe a cada um de nós! – disse o pequeno Tim, o último de todos. O pequeno Tim estava sentado ao lado do pai, em seu banquinho, e Bob tinha entre as suas as magras mãozinhas do filho querido, estreitando-o contra si, amorosamente, como se receasse que alguém lhe viesse arrebatá-lo. – Espírito, – falou Scrooge com um interesse que jamais sentira, – dizei-me se o pequeno Tim viverá muito tempo. – Vejo uma cadeira vazia neste pobre lar, e umas muletinhas sem dono, conservadas como uma dolorosa lembrança. Se estas sombras não forem modificadas no futuro, esta criança morrerá. – Não, não, meu bom espírito! – exclamou Scrooge, – dizei-me que o pequeno será poupado. – Se os destinos permanecerem estáveis nestas imagens, – respondeu o espírito, nenhum membro de minha raça o tornará a encontrar aqui. E por que deplorá-lo? Se é seu destino morrer, que morra já! Isso virá diminuir o excesso de população… Ouvindo o espírito repetir suas próprias palavras, Scrooge baixou a cabeça, tomado de sentimento e de remorso. – Homem, – disse o espírito –, se possuis um coração humano e não um coração de pedra, deixa de dizer tolices até que tenhas descoberto o que é excesso de população e onde existe. A ti é que cabe decidir quais são, entre os homens, aqueles que devem viver e aqueles que devem morrer? Pode muito bem ser que aos olhos de Deus sejas tu muito menos digno de viver do que milhares de seres semelhantes ao filho deste pobre homem. Justos céus! Ouvir o inseto pousado sobre a folha dizer que acha muito numerosos os seus irmãos famintos que se debatem na poeira! Scrooge ouvia, de cabeça baixa, a invectiva do fantasma e olhava para o chão a tremer. Subitamente, ergueu os olhos ao ouvir pronunciar seu nome. – À saúde do senhor Scrooge! – dizia Bob. À saúde de meu patrão, graças ao qual estamos hoje em festa. – Bonito patrão, realmente, – exclamou a senhora Cratchit corando. Eu gostaria que estivesse aqui! Eu lhe faria uma bela saudação a meu modo… – Minha querida amiga… – disse Bob. As crianças… o dia de Natal… – É preciso, de fato, que seja dia de Natal, – replicou a mulher, para que se beba à saúde de um homem tão detestável, ladrão, cruel e sem coração como o senhor Scrooge. Você bem sabe quem ele é, Bob! Você o sabe melhor que ninguém, meu pobre amigo! – Querida… protestou Bob com doçura. É dia de Natal! . . . – Se eu beber à saúde dele; será só por você e por ser dia de Natal, mas não por ele mesmo. Assim pois, longa vida ao senhor Scrooge! Bom Natal e feliz Ano Novo! É isso, segundo penso, que o fará feliz e alegre!… As crianças brindaram, depois dela, à saúde de Scrooge; era a primeira coisa, naquela noite, que faziam de má vontade. O último que bebeu foi o pequeno Tim, mas sem entusiasmo. Scrooge era o pavor da família Cratchit. A simples menção de seu nome lançou sobre a reunião familiar uma sombra que durou vários minutos. Quando o terror se dissipou, todos, aliviados por terem liquidado o assunto antipático de Scrooge, ficaram dez vezes mais alegres que antes. Bob Cratchit falou de um emprego que tinha em vista para Pedro, onde poderia ganhar meia libra por semana. Os pequenos Cratchits deram gostosas gargalhadas à ideia de verem Pedro “trabalhar”. Quanto a Pedro, olhava para o fogo com ar pensativo, entre as duas pontas do seu colarinho, como se perguntasse a si mesmo onde iria colocar seu dinheiro, quando estivesse de posse de tal fortuna. Marta, simples aprendiz na oficina de uma modista, contava o que fazia no atelier, quantas horas tinha de trabalho e falou da satisfação do dia seguinte, tirando uma manhã por sua conta e indo passear em casa da família. Falou, também, de um lorde e de uma condessa que tinham vindo à loja alguns dias antes. Este lorde era mais ou menos da estatura de Pedro. A estas palavras, Pedro ergueu tão alto o colarinho, que este quase lhe escondeu completamente o rosto. Durante este tempo, as castanhas e o bule passavam e repassavam entre todos os que formavam a roda. Para terminar, o pequeno Tim cantou, com voz sumida, a canção de um menininho perdido na neve, e saiu-se perfeitamente bem. Em tudo isso, não havia nada de notável. Os Cratchits não eram nem belos nem elegantes, seus sapatos não eram à prova d`água, suas roupas não estavam na moda, e Pedro, posso afirmar, teria se valido, por vezes, da loja de algum adelo. Todos, porém, eram felizes, reconhecidos para com Deus, cheios de afeição uns pelos outros e sabiam gozar da hora presente. Quando suas imagens empalideceram, ainda mais alegres sob as gotículas brilhantes do facho com que o espírito os espargia, à guisa de despedida, Scrooge continuava com os olhos pousados sobre elas, especialmente sobre o pequeno Tim, até que se evanescessem de todo. **** Agora, a noite descera e a neve caía em flocos. Era maravilhoso o espetáculo que se gozava, da rua, vendo-se as labaredas que saíam das cozinhas e das salas de jantar. Aqui, as claras luzes iluminavam os aprestos para um confortável lanche, os pratos aquecidos diante do fogão, as grandes cortinas grená, que bastaria fechá-las para impedir a entrada ao frio e à escuridão. Além, todas as crianças da casa precipitavam-se para fora, na neve, ao encontro de seus irmãos casados, de seus tios e tias, para serem os primeiros a recebê-los. Através das cortinas fechadas, viam-se as silhuetas dos convidados reunidos. Mais adiante, um grupo de belas jovens, toucadas e calçadas com botinas forradas de pele, dirigiam-se festivamente, palrando todas a um tempo, à casa de algum vizinho. Ai do celibatário que as visse entrar (elas bem o sabiam, as finórias) com os olhos risonhos e as faces coradas pelo frio! A julgar pelo número de pessoas que se dirigiam para reuniões amistosas, poder-se-ia perguntar quem ficaria em casa para recebê-los. Ora, ao contrário, em toda parte se esperavam hóspedes, por toda parte se enchiam de carvão as lareiras até em cima. Oh! Como o Espírito exultava! Como abria a sua grande mão e espalhava generosamente sua alegria sã e transbordante sobre todos que passavam ao seu alcance! O acendedor de lampiões, que corria adiante, pontilhando a escura rua com pequenos focos luminosos, e que se tinha arrumado para ir gozar em companhia dos demais, desatou a rir gostosamente, quando o fantasma passou perto dele, embora estivesse o pobre acendedor longe de imaginar que era o próprio espírito do Natal em pessoa que acabava de tocá-lo. Subitamente, sem que tivesse recebido de seu companheiro o menor aviso, ambos se acharam numa região deserta, que mais parecia um cemitério de gigantes, pela enorme quantidade de blocos de pedra ali existentes. A água aparecia à flor do solo, por toda a parte onde lhe aprouvesse, ou, melhor, ela teria aparecido, se o gelo não continuasse a tê-la retida. Cresciam ali apenas a grama e o junco, uma grama espessa e agressiva. A oeste, o sol poente havia deixado um rastro vermelho, que brilhou por instantes, como um olho zangado, e que depois se foi apagando, até extinguir-se de todo, nas trevas de uma noite opaca. – Onde estamos? – perguntou Scrooge. – Na região dos mineiros, daqueles que trabalham nas entranhas da terra, – respondeu o espírito. Eles também me conhecem. Olha! Uma luz brilhava na janela de uma cabana. Ambos se dirigiram para aquela direção, e passando através da taipa, deparou-se-lhes um numeroso agrupamento reunido em torno de um belo e vivo fogo. Havia ali um velho curvado pelos anos e sua esposa com seus filhos e os filhos de seus filhos, e ainda outra geração, todos vestidos com seus trajos de festa. O velho, com uma voz que mal dominava o assobio do vento que zunia no deserto, cantava um cântico de natal – um cântico já bem antigo, de quando o bom velhinho ainda era criança, e, de quando em quando, toda a família repetia o refrão. Cada vez que os filhos cantavam com ele, o velho parecia sorrir, e sua voz fazia-se mais sonora; mas, desde que se calavam, seu entusiasmo arrefecia e sua voz fazia-se novamente mais surda. O espírito não se demorou neste local. Convidando Scrooge a segurar-se em seu manto, elevou-se nos ares, deixou aquela charneca e atirou-se – mas para onde?… não sobre o mar?… Sim, por certo, por sobre o mar. Voltando a cabeça, Scrooge viu com indizível terror, que deixavam atrás de si a costa e suas selvagens penedias; ao mesmo tempo, era aturdido pelo fragor das vagas que rolavam e rugiam, abismando-se raivosamente nas sombrias cavernas que tinham cavado como se porfiassem em minar a praia. Sobre um isolado recife, batido pelas vagas durante todo o ano, a uma légua aproximadamente da terra firme, erguia-se um farol solitário. Uma espessa camada de algas alcatifava-lhe a base, e as gaivotas, que parecem nascer do vento como as algas do mar, voavam em torno dele, elevando-se e mergulhando ao ritmo das vagas que elas apenas afloravam. Também lá, os dois guardas do farol haviam ateado uma fogueira, e através de uma abertura praticada na espessa muralha, a claridade da chama projetava no oceano raivoso um reflexo de alegria. Apertando-se as mãos calejadas por sobre a tosca mesa diante da qual se achavam sentados, os dois homens trocaram mútuos votos de Feliz Natal antes de beber o seu grog. Depois, um deles, o mais idoso, cujo rosto era sulcado pelas intempéries, como figuras esculpidas na proa dos antigos navios, entrou a cantar uma canção de marinheiro, impetuosa como um vendaval. Novamente, o espírito retomou seu voo por cima do mar sombrio e revolto, prosseguindo até ao momento em que, já longe de toda costa, foi pousar com seu companheiro sobre um navio. Ali, visitaram um por um, o timoneiro em seu leme, o vigia de proa e os oficiais de guarda; poucos minutos depois, tinham sido visitados todos os marinheiros que se achavam em serviço, cada um em seu respectivo posto. Ora, não havia um só destes homens que não estivesse a cantar alguma cantiga de Natal ou não pensasse no Natal, ou mesmo não estivesse a conversar com alguns dos seus companheiros sobre algum Natal passado, lembrando-se dos recantos que gostariam de tornar a ver. Nenhum destes homens, a bordo, bom ou mau, tinha deixado de ter para com seus companheiros alguma palavra mais cordialmente afetuosa. Uns e outros haviam, até certo ponto, participado da alegria desta festa, e, pensando em suas famílias distantes, sentiam um doce prazer ao se lembrarem de que, naquele mesmo instante, parentes e amigos lhe enviavam algum pensamento de saudade através do oceano. Scrooge, ao mesmo tempo em que ouvia o gemer do vento, pensava quanto era fantástico deslizar assim dentro da noite deserta e acima dos abismos insondáveis das águas. De súbito, sentiu-se extremamente surpreendido ao ouvir perto de si uma sonora gargalhada, mas ainda mais surpreendido ficou quando viu que tal gargalhada era de seu sobrinho, e que ele próprio se encontrava na sala clara, tépida e alegre, sempre em companhia do espírito. Este contemplava o sobrinho de Scrooge com uma expressão cheia de simpatia e benevolência. – Ah! ah! ah! – ria o sobrinho de Scrooge. Ah! ah! ali! Se por um acaso absurdo, algum de vocês encontrar um dia uma pessoa que ria com mais entusiasmo que o sobrinho de Scrooge, diga-me logo, que eu terei todo o prazer em procurar conhecê-la. Observemos, de passagem, que, se a doença e a tristeza são facilmente contagiosas, também, por uma justa compensação das coisas deste mundo, nada há de mais irresistivelmente contagioso que a risada e o bom-humor. Enquanto o sobrinho de Scrooge ria a bom rir, a cabeça dobrada para trás e o rosto convulsionado, a sobrinha de Scrooge – sobrinha por afinidade – ria também às gargalhadas, e todos que estavam na companhia deles riam do mesmo modo, para não ficarem atrás. – Ah! ah! ah! Ah! ah! ah! -–Tão verdade como eu estar aqui presente, – dizia o sobrinho de Scrooge, ter-me dito ele que o Natal é uma tolice, e parecia dizê-lo com convicção. – Isso não deixa de ser ainda mais vergonhoso para ele, Fred! – declarou a sobrinha de Scrooge com ar revoltado. Não há como as mulheres para exprimir seus pensamentos com mais energia: elas não dizem nada pela metade! A sobrinha de Scrooge era encantadora, notavelmente encantadora: uma carinha adorável, faces rechonchudas, uma expressão de ingenuidade, uma boca rubra, feita para os beijos; no queixo, umas covinhas que se fundiam uma na outra quando ria; para completar, os olhos mais luminosos que jamais se tenham visto em rostos de menina. Seu encanto tinha qualquer coisa de aliciante, digamos mesmo de provocante, o que a tornava ainda mais sedutora. – É um velho manhoso, certamente, – tornou o sobrinho, e bem pouco amável; mas seus defeitos terão seu respectivo castigo, e não serei eu quem lhe venha atirar a primeira pedra. – Ele é riquíssimo, não é verdade? – insinuou a sobrinha. Pelo menos, foi o que você sempre me disse. – Que importa a sua fortuna, querida, – respondeu o marido, uma vez que ela não lhe serve para nada? Não se utiliza dela para praticar o bem, não tira dela nenhum proveito para si mesmo, nem mesmo tem a satisfação de pensar – ah! ah! ah! – que um dia nos fez o menor benefício com o seu dinheiro. – Pois bem: eu não quero aturá-lo! – declarou a sobrinha de Scrooge. E suas irmãs, e todas as damas presentes foram da mesma opinião. – Eu já sou menos severo que vocês, – disse o sobrinho; eu lamento que ele possua um caráter assim, mas sou incapaz de querer-lhe mal por isso. Quem sofre as consequências do seu humor atrabiliário não é ele? Já que se lhe meteu na cabeça querer detestarmos e recusar nosso convite, qual é o resultado? Talvez não perca um famoso jantar… – Ora esta! Eu acho que ele perdeu um ótimo jantar! – interrompeu sua esposa, e todos fizeram coro. É necessário convir em que eles eram bons juízes, pois que estavam terminando o jantar. A sobremesa foi servida, e todos os convidados se haviam agrupado em torno do fogo, à claridade do lume. – Tanto melhor! – disse o sobrinho, estou encantado de o saber, pois não tenho muita confiança na habilidade destas jovens donas de casa. Que diz a isto, Topper? Topper – era visível – já tinha lançado as vistas sobre uma das irmãs da sobrinha de Scrooge. Assim, respondeu que um celibatário não passava de um miserável pária, e que não tinha o direito de se manifestar neste assunto. A isto, a irmã da sobrinha de Scrooge ( a mocinha rechonchuda, com uma gola de renda) fez-se vermelha como uma rosa. – Acabe, Fred! – exclamou a sobrinha de Scrooge, batendo palmas. Ele nunca termina de contar as coisas! Isso é ridículo! O sobrinho de Scrooge entrou a gargalhar novamente, e como não havia meio de fugir ao contágio, a irmãzinha rechonchuda procurou evitá-lo respirando vinagre aromático, sendo seu exemplo seguido por todos. – Eu , ia dizer simplesmente, – tornou o sobrinho de Scrooge, que, ao nos mostrar antipatia e recusando-se a reunir-se a nós, ele próprio se priva de alguns momentos agradáveis, que só lhe poderiam fazer bem. Teria encontrado aqui uma companhia mais agradável do que aquela que lhe oferecem seus próprios pensamentos em seu velho e mofado escritório ou em seu empoeirado apartamento. É meu propósito renovar-lhe todos os anos o mesmo convite, seja-lhe agradável ou não, pois tenho pena dele. Ele que zombe do Natal até ao seu último dia, mas posso apostar que refletirá melhor quando me vir todos os anos voltar com o mesmo humor para lhe dizer: “Bom dia, tio Scrooge, como vai?” Se com isso conseguir inspirarlhe a ideia de deixar ao seu pobre empregado pelo menos cinquenta libras, já me dou por muito bem pago. Assim mesmo, parece-me que consegui comovê-lo um pouco, ontem à noite. A ideia de que tivesse podido comover a Scrooge despertou uma geral hilaridade. Como Fred possuía temperamento jovial e se empenhava em fazer rir seus convidados, ainda mais lhes estimulou a alegria, enchendo-lhes novamente os copos. Depois do chá, organizaram uma sessão de música, pois todos na família eram músicos e formavam esplêndido conjunto para cantar canções e rondéis. Topper, especialmente, sabia fazer vibrar sua voz sem precisar inchar as veias da testa ou ficar com o rosto congestionado. A sobrinha de Scrooge dedilhava a harpa com doçura, executando, entre outras, uma melodia simplicíssima, que qualquer pessoa, em dois minutos, aprenderia a assobiar. Ora, era esta exatamente a ária favorita da menina que outrora tinha ido ao colégio buscar Scrooge, como lhe mostrara o fantasma dos Natais passados. Enquanto a moça tocava a harpa, tudo que este fantasma havia mostrado a Scrooge lhe reaparecia diante dos olhos. Cada vez mais emocionado, acudiu-lhe ao pensamento que, se tivesse podido noutros tempos ouvir com mais frequência esta melodia, teria aprendido, sem dúvida, a cultivar as doces alegrias familiares, para sua própria felicidade e não iria, como Jacob Marley, para a pá do coveiro no meio da indiferença de todos. Mas a tarde não foi toda passada somente em números musicais. Ao cabo de certo tempo, puseramse a brincar de outras coisas, pois é bom, de quando em quando, voltar-se aos tempos de criança, especialmente no Natal, festa cujo próprio divino Fundador é uma criança. Bem, ei-los que começam pelo brinquedo da cabra-cega. Era inevitável! Mas não me venham dizer que Topper estava honestamente com os olhos fechados. Na minha opinião, ele estava mancomunado com o sobrinho de Scrooge. O espírito do Natal presente sabia disso muito bem… O modo como Topper está perseguindo a mocinha rechonchuda é um desafio à credulidade humana. Ele derruba o guarda-fogo, arrasta as cadeiras, bate contra o piano, enrola-se nas cortinas, mas a toda parte aonde ela vai, ele vai. Ele sabe sempre onde está a mocinha rechonchuda; não quer pegar nenhuma outra pessoa. Você pode ficar de propósito diante dele, como se usa fazer: ele finge por momento querer pegá-lo, mas com um desajeitamento que envergonha a inteligência humana. Em seguida, prossegue na direção onde se encontra a irmãzinha rechonchuda. “Assim não vale!” – reclama, ela muitas vezes, e ela tem toda razão. Quando, finalmente, ele consegue pegá-la, quando, apesar de sua fuga rápida e acompanhada do frufru das sedas, consegue conduzi-la a um canto, de onde ela não pode mais sair, então sua conduta se torna simplesmente abominável: sob o pretexto de não saber quem é, permite-se tocar em seus cabelos, mexer num anel que ela tem no dedo, pegar numa correntinha que ela trás ao pescoço – em suma, toma todas as liberdades escandalosas! Não há dúvida, a irmãzinha rechonchuda não deixa de lhe dizer o que pensa disso tudo, agora que ambos têm uma conversa confidencial no peitoril da janela, depois que o lenço passou para as mãos de outro jogador. A sobrinha de Scrooge não brincava de cabra-cega. Ficara confortavelmente sentada numa poltrona, a um canto da sala exatamente onde estavam o espírito e Scrooge. Ela tomou parte em outros brinquedos, e respondeu admiravelmente à pergunta “como gosta dele?”, conseguindo amá-lo com todas as letras do alfabeto; do mesmo modo, fez maravilhas nas adivinhações “Onde?‟, “Como?” e “Quando?” Com secreta alegria a sobrinha de Scrooge venceu galhardamente as suas próprias irmãs, e entretanto, estas não eram tolas. Topper que o diga. Havia ali umas vinte pessoas, entre moços e velhos, e todas tomavam parte nos divertimentos, que o próprio Scrooge ficou entusiasmado. Esquecendo-se – tanto lhe interessavam aqueles jogos – que sua voz não podia ser ouvida, respondia em voz alta às adivinhações lançadas. Sucedia acertar sempre, pois a melhor agulha de Whitechapel não era mais fina que ele, apesar da expressão idiota que gostava de mostrar, para despistar as pessoas. O espírito estava encantado de vê-lo de tão bom humor, e observava-o com tanta benevolência, que Scrooge, como se fosse uma criança, perguntou se podia ficar até que os convidados se retirassem. Mas o fantasma respondeu que era impossível. – Estão começando um novo jogo, – insistiu Scrooge. Só meia hora, espírito, apenas meia horinha. Era um jogo chamado “Sim e Não”. O sobrinho de Scrooge devia pensar em uma coisa e fazê-la adivinhar aos presentes, mas, respondendo às suas perguntas apenas com um “sim” ou um “não”. De pergunta em pergunta, chegaram à conclusão de que ele pensava num animal. Que era um animal vivo, um animal desagradável, um animal bravio, um animal que grunhia e urrava, que também falava, que vivia em Londres, que andava pelas ruas, que não era exposto com entrada paga, que não era levado pelo cabresto, que não vivia em alguma jaula, que não se levava para o matadouro, que este animal não era nem um cavalo, nem um burro, nem uma vaca, nem um touro, nem um tigre, nem um cão, nem um porco, nem um gato e nem um urso. A cada pergunta, o patife do sobrinho de Scrooge estourava em nova gargalhada. Sua hilaridade tornou-se mesmo tão violenta, que se viu obrigado a levantar-se do sofá onde estava sentado para sapatear no soalho. Por fim, a irmãzinha rechonchuda, desatando numa formidável gargalhada, exclamou vitoriosa: – Eureca! Fred! Eureca! Achei! – Então, o que é? – É o teu tio Scroo-oo-oo-oo-ge! Era de fato isso, e todo mundo aplaudiu ruidosamente. Entretanto, algumas pessoas notaram que à pergunta “é um urso?”, ele esteve a ponto de responder “sim”, visto que neste caso, uma resposta negativa teria podido desviar o pensamento deles para longe do tio Scrooge. – Ele contribuiu galhardamente para nos divertir, – observou Fred, e seria a mais negra ingratidão não bebermos à sua saúde. Eis que neste instante chega mesmo a propósito o gostoso vinho quente. Assim, pois, à saúde do tio Scrooge! – Ótimo! A saúde do tio Scrooge! – exclamaram todos. – Um feliz Natal e um feliz ano novo a este querido cavalheiro! – exclamou o sobrinho de Scrooge. Que este voto, que ele não aceitará de mim, possa ser para ele o portador de mil felicidades! Portanto, à saúde do tio Scrooge! Tio Scrooge tinha tomado, pouco a pouco, tanto apego àquela festa e sentido tanta satisfação por ela, que teria justificado de bom grado o brinde, e feito a todos os presentes, que não podiam ouvi-lo, um discurso de agradecimento, se o fantasma lhe tivesse deixado tempo para tanto. Mas, às últimas palavras do sobrinho, toda a cena se desvaneceu, e Scrooge partiu com o espírito para novas peregrinações. **** Foram muito longe, viram muitas coisas, visitaram muitos lares, semeando sempre o bem por onde passavam. O espírito parava à cabeceira dos enfermos, e os enfermos sorriam; parava em terra estranha, e os exilados acreditavam estar em sua própria pátria; parava perto daqueles que sofriam e lutavam, e logo a esperança renascia em seus corações; detinha-se perto dos pobres, e os pobres julgavam-se ricos. Nos hospitais, como nos asilos e nas prisões, nestes refúgios da miséria, onde o homem orgulhoso não havia usado de sua efêmera autoridade senão para lhe defender a entrada, o espírito espalhava suas bênçãos, ensinando a Scrooge os preceitos da caridade. Foi uma longa noite, o que o fez suspeitar de que todos os dias de festa do Natal se tinham condensado no espaço de tempo em que eles peregrinaram juntos. Coisa curiosa! Enquanto Scrooge permanecia o mesmo, o espírito envelhecia a olhos vistos. Scrooge observou esta mudança sem dizer nada, até ao momento em que, deixando uma reunião de crianças, que estavam festejando o dia de Reis, viu que os cabelos do espírito estavam ficando grisalhos. – A vida dos espíritos é assim tão breve? – perguntou ele. – De fato, minha vida aqui na terra é bastante curta, respondeu o fantasma. Ela termina esta noite. – Esta noite mesmo? – exclamou Scrooge. – À meia-noite. Ouve! A hora aproxima-se. No mesmo instante, o carrilhão bateu onze e três quartos. – Perdoai minha pergunta, se ela é indiscreta, – disse Scrooge com os olhos fixos nas roupas do espírito. Esta coisa esquisita que está saindo por baixo da vossa roupa e que não vos pertence, é um pé ou uma garra? – Tão leve camada de carne o recobre, – disse o espírito com tristeza, que mais poderia ser uma garra. Olha bem. Das dobras de seu manto, fez sair duas crianças, duas miseráveis criaturas, hediondas, abjetas e repugnantes, que se ajoelharam diante dele e se agarraram ao seu manto. – Homem insensível, olha! Olha a teus pés! – exclamou o fantasma. Eram um menino e uma menina. Pálidos, magros e esfarrapados, tinham uma expressão bravia e odiosa, mas ao mesmo tempo rastejante e humilde. Seus rostos, onde deveria ter desabrochado o frescor da juventude, eram macilentos, encarquilhados, desfeitos, como se a mão do tempo os tivesse tocado. Jamais a criação, em seus insondáveis mistérios, produzira mais feios monstros. Scrooge recuou espantado. Mas, como era o espírito que os estava apresentando, ia dizer que eram belas crianças; as palavras, porém, lhe morreram na garganta, recusando-se a dizer tão monstruosa mentira. – Espírito, estas crianças são vossas?… Scrooge não pôde prosseguir. – São filhos do Homem, – disse o espírito, baixando o olhar sobre ele. Estão agarrados a mim para pedir justiça contra seus pais. Este é a Ignorância, e aquela, a Miséria. Toma cuidado contra um e outro, mas especialmente contra a Ignorância; pois vejo escrito em sua fronte a palavra “condenação” e se esta palavra não for apagada, a predição se cumprirá. – Negai-o, todos vós! – clamou o espírito com voz forte, estendendo a mão sobre a cidade. Caluniai aqueles que vos avisam! Tolerai e encorajai um flagelo que serve para os vossos negros desígnios!… Mas temei o fim! – E eles não têm nenhum recurso? Não há para eles nenhum refúgio? – exclamou Scrooge. – Sim? E não há as prisões? – disse o espírito repetindo-lhe ainda uma vez suas próprias palavras. Não há as casas de correção? O relógio bateu as doze badaladas. Scrooge procurou o espírito com os olhos e já não o viu mais. Quando acabou de bater a última badalada, Scrooge lembrou-se da predição de Jacob Marley, e, erguendo os olhos, avistou uma sombra escura inteiramente velada, que avançava para ele, deslizando como a bruma pela superfície do solo. OUARTA ESTROFE O último dos três espíritos Lentamente, no meio de um profundo silêncio, o fantasma aproximou-se. Quando chegou perto de Scrooge, este sentiu que as pernas se lhe dobravam, pois o espírito parecia espalhar em torno de si uma atmosfera de mistério e tristeza. Estava envolto num espesso manto negro, que lhe ocultava a cabeça, o rosto e todas as formas do corpo, não deixando visível senão uma das mãos.Sem esta mão, teria sido difícil distinguir, dentro da noite, esta forma sombria, quase identificada com a funda escuridão do ambiente. De perto, Scrooge notou que o fantasma tinha uma estatura imponente, e que sua misteriosa presença lhe inspirava um sagrado terror. Nada mais pôde saber, porque o espírito conservava-se imóvel e silencioso. – Estarei em presença do espírito dos Natais futuros? – perguntou Scrooge. O espírito não respondeu, mas apontou o caminho com a mão. – Ireis mostrar-me coisas que ainda não aconteceram, mas que estão para acontecer, não é verdade, Espírito? A parte superior do manto moveu-se por um instante, como se o espírito inclinasse a cabeça em sinal de assentimento. Foi essa a sua única resposta. Embora já habituado à convivência com os espíritos, Scrooge sentiu-se desta vez tão perturbado com esta muda aparição, que suas pernas tremiam e quase não podia conservar-se em pé. Como se tivesse compreendido a situação e quisesse dar-lhe tempo para refazer-se, o espírito esperou um instante. Scrooge, porém, sentiu-se ainda mais perturbado; causava-lhe um vago e impreciso terror o pensamento de que, atrás daquele escuro manto, havia dois olhos a fixá-lo; mas ele mesmo, por mais que se esforçasse por distingui-los, não via mais que uma lívida mão como parte da massa informe. – Espírito do futuro, – exclamou ele, eu vos temo ainda mais que a todos os outros espíritos que vi até hoje, mas como sei que tendes por objetivo a minha reabilitação, e como desejo ser um homem melhor do que tenho sido, estou pronto a seguir-vos com toda a gratidão. Nada tendes a dizer-me? O fantasma conservou-se calado. A mão continuava estendida na mesma direção. – Guiai-me, guiai-me! – disse Scrooge. – A noite avança, e as horas que passam têm grande valor para mim. Guiai-me, espírito, guiai-me! O fantasma começou a afastar-se, do mesmo modo como se tinha aproximado. Scrooge seguiu-o, acompanhando a sombra do seu manto, que, parecia-lhe, o arrebatava e o arrastava. Não se poderia dizer que se dirigiam para a cidade, pois foi a cidade que pareceu surgir diante deles. Ambos se acharam, subitamente, no coração da cidade, na Bolsa, no meio de uma multidão de homens de negócios, que iam e vinham, com ar agitado, que conversavam em grupos, que consultavam os relógios, que faziam tilintar suas moedas no bolso ou brincavam, preocupados, com seus sinetes dependurados na corrente do relógio em forma de berloques, tais, em uma palavra, como Scrooge costumava vê-los. O espírito deteve-se em frente a um pequeno grupo de corretores da Bolsa. Scrooge, notando que a mão apontava para eles, aproximou-se para ouvir o que diziam. – Não, – dizia um senhor alto e gordo, possuidor de um enorme queixo– , não sei mais nada. Só sei que ele morreu. – Quando isso? – perguntou outro. – À noite passada, creio. – E de que morreu? – perguntou um terceiro, tomando uma ampla pitada numa larga tabaqueira. Eu pensei que ele fosse eterno. – Não sei de que morreu, – tornou o primeiro abrindo a boca. – A quem teria deixado todo o seu dinheiro? – perguntou um cavalheiro de rosto congestionado, cujo nariz apresentava uma excrescência que se balançava como o papo de um peru. – Nem sei, – respondeu o homem do queixo enorme, abrindo a boca novamente. – Talvez o tenha deixado à sua sociedade. Em todo caso, o que posso afirmar é que não foi a mim que ele o deixou. Uma risada geral acolheu a pilhéria. – Será talvez um enterro bem pobre, – continuou ele –, pois não vejo, palavra de honra, quem se dê o trabalhode o acompanhar. Em todo caso, vamos lá para fazer número. – Eu só irei se depois me oferecerem um almoço, respondeu o cavalheiro do nariz de pelote. Novas risadas acolheram o gracejo. – Pois eu sou mais desinteressado que todos vocês, – respondeu o primeiro interlocutor, porque não tenho luvas pretas e não me incomodo com o almoço. Mas se alguém quiser acompanhar-me estou pronto a ir. No fundo, parece-me que eu era um dos seus mais íntimos amigos, pois toda vez que nos encontrávamos, gostávamos de parar e conversar um instante. Passem bem, senhores. Todos se afastaram e foram juntar-se a outros grupos. Scrooge, que conhecia aquelas pessoas, voltou-se para o espírito para pedir uma explicação, mas o fantasma o levou para uma rua e lhe apontou com o dedo dois senhores que acabavam de se encontrar. Julgando que sua palestra o esclareceria, pôs-se a escutar de novo. Scrooge conhecia-os também perfeitamente. Eram dois homens de negócios, riquíssimos e muito considerados. Scrooge sempre fizera muita questão da estima deles, mas, expliquemos, exclusivamente do ponto de vista comercial. – Como vai? – disse um. – Muito bem. E você? – respondeu o outro. – Olhe, – tornou o primeiro –, o senhor Harpagão liquidou sua última conta. – Já soube? – respondeu o segundo. Que frio. Não acha? – É da época. Você quer patinar? – Não, obrigado. Tenho outra coisa a fazer. Até logo. Nada mais. Tais foram seu encontro e sua palestra. **** Para começar, Scrooge achou esquisito que o espírito desse tanta importância a umas conversações aparentemente banais. Naturalmente, deviam elas ter uma significação oculta, mas qual seria? Elas não podiam referir-se à morte de Jacob, seu antigo sócio, porque a morte dele pertencia ao passado, e o domínio deste fantasma era o futuro. Entre as pessoas que ele conhecia, Scrooge não via nenhuma a quem pudesse aplicar o assunto daquelas palavras, mas, persuadido de que de um modo ou de outro elas encerravam uma lição destinada ao seu aperfeiçoamento, resolveu guardar com cuidado tudo que visse e ouvisse, e observar particularmente sua própria imagem quando ela lhe aparecesse, pois a atitude de seu próprio futuro lhe daria provavelmente o fio condutor que lhe faltava e lhe tornaria fácil a solução de todos estes enigmas. Assim, pois, procurou-se a si mesmo entre os corretores da Bolsa, e, ainda que o relógio estivesse marcando a hora que ele habitualmente lá se encontrava, não viu ninguém que se parecesse com ele no meio da multidão que se precipitava sob o peristilo. Isso, entretanto, não lhe causou maior surpresa. Não havia ele decidido mudar de vida? Sem dúvida alguma, sua ausência da Bolsa devia ser uma consequência das suas novas resoluções. Mudo e sombrio, o fantasma conservava-se calado ao pé dele, sempre com a mão estendida. De acordo com a atitude do espectro, Scrooge imaginou que os olhos invisíveis do fantasma estavam fixados nele, e esta ideia deu-lhe calafrios. Deixaram a Bolsa, com a sua agitação, e dirigiram-se para um bairro de Londres, onde Scrooge nunca tinha estado, mas cuja reputação ele bem conhecia. As ruas eram estreitas e sujas, as casas residenciais e comerciais de aspecto sórdido; viam-se pessoas embriagadas, em andrajos, mal calçadas e repulsivas. As vielas e os becos, como outros tantos canos de esgoto, desembocavam em ruas tortuosas, com seus odores pestilentos e mal cheirosos, sua sujeira e sua população formigante. Todo este bairro respirava a imundície, miséria e crime. Ao fundo deste covil asqueroso, numa cabana colocada sob ampla coberta, fazia-se o comércio de ferragens, de garrafas, de retalhos, de ossos e de gorduras. No chão, montões de chaves enferrujadas, de pregos, de correntes, de gonzos, de ferramentas, de velhas balanças e de ferragens de toda espécie. Escondiam-se nestes montes de trastes velhos, nestes sepulcros de ossos e gorduras rançosas, muitos segredos que poucas pessoas gostariam de aprofundar. **** Sentado no meio dos objetos, que constituíam o seu comércio, junto de um fogão feito de velhos tijolos, um septuagenário abrigava-se do frio que vinha de fora, por meio de uma cortina feita de disparatados retalhos presa a um fio, e fumava o seu cachimbo, gozando o conforto do seu tranqüilo recanto. No momento preciso em que Scrooge e o espírito se achavam na presença deste homem, uma mulher carregada com um pesado volume entrou furtivamente na loja. Apenas ela entrou, outra mulher apareceu, igualmente carregada, seguida de perto por um homem vestido de preto, o qual, ao vê-las, ficou tão surpreendido quanto elas próprias ao reconhecê-lo. Após alguns segundos de surpresa, partilhada pelo homem do cachimbo, todos três desataram a rir. – Que a dona da casa passe primeiro, para começar, – declarou a mulher que fora a primeira a entrar; a lavadeira passará depois, e em seguida o “gato-pingado” … Olá! diga-me então, meu velho Joe, aqui não está um belo acaso? Até parece que todos três combinamos uma senha para nos encontrarmos aqui! – Não podia haver melhor lugar para um encontro, – disse o velho Joe, tirando da boca o cachimbo. Há muito que esta casa é sua, e os outros dois também não são desconhecidos. Esperem apenas que eu vá fechar a porta. Olha como range! Não creio que haja aqui coisa mais enferrujada que os seus gonzos, como também não creio que haja ossos mais velhos que os meus. Ah! ah! Estamos mesmo bem talhados para este serviço… mas bem talhados mesmo. Vamos ao salão, vamos. O salão era o espaço oculto pela cortina de farrapos. O velho espertou o fogo com uma acha de escada, depois, arranjou a lamparina fumarenta com o cabo do cachimbo – porque a noite já tinha caído – e tornou a pô-lo na boca. Durante este tempo, a mulher que já havia falado depositou seu volume no chão, e ato contínuo sentou-se calmamente num tamborete; então, com os cotovelos nos joelhos, encarou os dois outros com ar desconfiado. – E então, como é, madame Dilber? – disse ela. Será que não temos o direito de cuidar dos nossos interesses? Está muito bem o que “ele” sempre tem feito. – Lá isso é verdade, – disse a lavadeira, e melhor que qualquer outra pessoa. – Então, bela, porque fazer semelhante papel, como se estivesse com medo? Quem o saberá? Pareceme que não nos vamos vender mutuamente? – Naturalmente que não! – disseram ao mesmo tempo o homem e a senhora Dilber. – Isso está fora de dúvida. – Sendo assim, tudo vai bem! – exclamou a mulher. A quem poderá prejudicar a perda destas poucas bugigangas? Naturalmente, não será ao defunto, penso? – Evidentemente que não, – respondeu a senhora Dilber, rindo. – Se aquele velho avarento queria guardá-las depois de morto, o que devia ter feito é viver como toda gente, – prosseguiu a mulher. – Só assim teria tido alguém para assisti-lo em seus últimos instantes, em vez de dar o último ai completamente só. – É a pura verdade, – declarou a senhora Dilber. Foi o seu castigo. – O castigo teria sido maior, se eu pudesse ter deitado a unha a outras coisas. Abra este pacote, velho Joe, e diga-me o que isso pode valer. Seja franco. Pouco me estou incomodando de passar adiante dos outros. Suponho que já sabíamos, antes de nos encontrarmos aqui, que iríamos tratar dos nossos negócios. Acho que não há nenhum mal nisso. Vamos, abra o pacote, Joe! Seus amigos, porém, por delicadeza, opuseram-se a isso, e o homem de negro foi o primeiro a expor a sua muamba. Esta não era grande coisa: um sinete ou dois, um porta-níqueis, um par de abotoaduras de punho e um alfinete de gravata, de pouco valor. Era tudo. O velho Joe examinou-os detidamente, avaliou-os escrevendo a giz na parede a quantia que estava disposto a dar para cada um dos artigos e fez a soma, quando viu que não havia mais nada. – Aí está sua conta, – disse Joe –, e não darei a mais nem um centavo, nem que me joguem água fervente. Quem é o seguinte? Apresentou-se a senhora Dilber. Ela trazia lençóis e guardanapos, algumas roupas, duas colheres de prata, de modelo antigo, um pegador de açúcar e vários pares de calçados. A conta foi feita na parede, como anteriormente. – Para as senhoras costumo pagar sempre mais. É esse um dos meus vícios, que acabará por levarme à falência, – disse o velho Joe. Aqui está sua conta, mas não insista, pois não levará nem um centavo a mais, do contrário, ainda posso arrepender-me e deduzir do total pelo menos meia coroa. – Agora é o meu embrulho, Joe! – disse a primeira que havia chegado. Joe pôs-se de joelhos para abrir o embrulho mais comodamente. Depois de ter desamarrado inumeráveis nós, arrancou um grosso e pesado rolo de tecido escuro. – Que coisa vem a ser isto aqui? Mosquiteiros? – Naturalmente, – respondeu a mulher com uma gargalhada e inclinando-se para a frente com os braços cruzados. – São mosquiteiros! – Não vai dizer-me que os tirou com argolas e tudo quando ainda estava estendido na cama? – Posso afirmar que sim, naturalmente. E por que não? – replicou a mulher. – Você nasceu para ser rica! – exclamou Joe –, há de fazer fortuna, não há dúvida! – Desde que, estendendo a mão, eu possa apanhar alguma coisa, é natural que eu não ia guardá-la em meu bolso por consideração a semelhante indivíduo, – respondeu a mulher friamente. Atenção! Faça o favor de não derramar óleo nos cobertores. – Cobertores dele? – perguntou Joe. – De quem mais podiam ser? – respondeu a mulher. Tenho a impressão de que a esta hora já não tem medo de passar frio. – Espero que não tenha morrido de moléstia contagiosa? – perguntou Joe interrompendo o seu inventário e erguendo os olhos para ela. – Sei lá! Eu não tenho medo, – replicou a mulher. A sua companhia não era assim tão agradável para que eu andasse vendo o que ele tinha. Oh, pode morrer de olhar para essa camisa, que não achará um rasgão, um rustido. Era a que ele tinha de mais resistente e mais bonita. Sem mim, ela estaria perdida. – Perdida? Como assim? – Sim, teria sido enterrado com ela, – disse a mulher. Não sei quem teve a estúpida ideia de a vestir nele, mas eu tornei a tirá-la. Se a chita não serve para mortalha, então não serve para nada. Olhe que não podia ser mais feio do que era com esta camisa. Scrooge ouvia este diálogo horrorizado. Aqueles indivíduos agrupados em redor de sua presa, à miserável claridade da lamparina do velho, inspiravam-lhe um ódio e uma repugnância indescritíveis, apenas menos violentos, talvez, do que se tivessem sido imundos demônios em disputa do seu próprio cadáver. – Ah! ah! ah! – gargalhou ruidosamente a mulher, quando o velho Joe, apresentando um saco de flanela cheio de dinheiro, pôs no chão a quantia que tocava a cada um. – Ah! ah! ah! Ele, em vida, – continuou a mulher –, mandou toda a gente passear, com o único fim de nos proporcionar alguns pequeninos lucros depois de sua morte. Ah! ah! ah! – Espírito, – disse Scrooge tremendo da cabeça aos pés, agora compreendo, agora compreendo. A sorte deste infeliz poderia ter sido a minha, e é exatamente a isso que conduz uma vida como a que levo. Deus do céu! Que é aquilo? Scrooge recuou, apavorado. A cena era completamente outra. Estava agora à cabeceira de uma cama, uma cama sem cortinas, sobre a qual jazia, envolto num pano rasgado, uma forma cuja muda imobilidade era um lúgubre libelo contra a natureza. O quarto estava escuro, bastante escuro para que se lhe pudessem distinguir os detalhes, embora Scrooge olhasse para todos os lados, ansioso por descobrir aquilo que tal escuridão envolvia. Uma pálida claridade vinda do exterior incidiu sobre o leito onde, pilhado, roubado, sem ninguém que o velasse, sem um amigo para chorá-lo, no meio do mais absoluto abandono, jazia o corpo deste homem. Scrooge olhou para o fantasma, e viu que a mão apontava para a cabeça do morto. O lençol que a envolvia estava colocado de tal maneira que bastava levantar-lhe uma das pontas para descobrir o rosto do defunto. Scrooge pensou em fazê-lo, mas, ao tentá-lo, verificou que para realizar este facílimo gesto se achava tão impotente quanto para despedir o espectro que continuava de pé a seu lado. Ó Morte, ó pavorosa Morte! Morte gélida e rígida! Ergue aqui teu altar e dispõe ao teu redor o teu cortejo de horrores, pois é mesmo aqui o teu domínio! Mas, se vais ferir uma cabeça querida, honrada e respeitada, não podes fazer que nenhum dos seus cabelos se apreste para os teus negros desígnios, nem podes imprimir os teus horrores sobre um só dos seus traços. A mão pode ser pesada e recair inerte quando abandonada, e o coração pode ser silencioso, mas esta mão foi generosa, aberta e leal, e neste coração corajoso e terno corria um sangue nobre e viril. Fere, Morte! Fere! Tu verás surgir dos teus golpes somente nobres ações, que recairão sobre o mundo como sementes de imortalidade! Nenhuma voz pronunciou estas palavras aos seus ouvidos, e entretanto Scrooge as ouviu claramente quando se havia inclinado sobre o leito. “Se este homem ressuscitasse agora”, pensava ele, “quais seriam as suas primeiras preocupações? Inquietações de avarento? Amor do dinheiro? Desejo de acumular? Realmente, elas o levaram a um belo fim…”. E o morto jazia abandonado na enormidade daquela casa vazia, sem um homem, uma mulher ou uma criança que recordasse com mágoa alguma ação generosa sua. A porta miava um gato e debaixo do fogão ouvia-se um rumor de ratos. O que “eles‟ procuravam naquela casa de morte, Scrooge não ousou pensar. – Espírito, – disse ele –, este lugar é pavoroso. Os ensinamentos que acabo de aprender aqui, jamais os esquecerei, eu vos juro. Por piedade, afastemo-nos daqui! Mas o espírito continuava a apontar a cabeça do morto com o seu inexorável indicador. – Eu vos compreendo, – disse Scrooge –, e desejaria obedecer-vos, se pudesse, mas não tenho forças para tanto, Espírito! Espírito não tenho forças… O espírito pareceu encará-lo novamente. Movido pela angústia, Scrooge continuou: – Se houver em toda a cidade de Londres uma só pessoa a quem a morte deste homem tenha causado qualquer emoção, mostrai-ma, Espírito, eu vos suplico. O fantasma desdobrou diante dos olhos de Scrooge o seu sombrio manto como se fosse uma asa, e em seguida, afastando-o, fez aparecer diante dele uma sala fartamente iluminada pela luz de um claro dia, e, nela, uma mãe de família com os seus filhos. A mulher parecia esperar alguém, tomada da mais viva ansiedade, estremecendo ao menor ruído, indo de um lado para outro, olhando pela janela, consultando o relógio, tentando em vão recomeçar seu trabalho e enervando-se com o barulho que faziam as crianças ao brincar. Finalmente soou o toque da campainha tão ansiosamente esperado. Ela precipitou-se para a porta, a fim de receber o marido, rapaz ainda moço, mas cuja fisionomia apresentava os sinais da inquietude e das preocupações. O jovem tinha, neste momento, uma singular expressão, onde se lia uma espécie de alegria entremeada de embaraço, uma alegria da qual se envergonhava e que procurava reprimir. Quando se sentou à mesa, para o almoço requentado, que a esposa lhe guardara, e esta lhe perguntou, timidamente, quais eram as notícias – o que só fez depois de longo silêncio –, o rapaz pareceu embaraçado para responder. – São boas ou más? – perguntou ela para ajudá-lo. – Más, – respondeu ele. – Então, estamos arruinados? – Não, Carolina, ainda há esperança. – Será que “ele” vai apiedar-se? – disse ela hesitante. Se esse milagre se realizar, já não haverá razão para a gente desesperar na vida. – Ele não pode mais apiedar-se, porque já morreu. Era uma senhora meiga e paciente, a julgar pela expressão de seu rosto, entretanto, seu primeiro impulso foi juntar as mãos e dar graças a Deus. Imediatamente, porém, arrependeu-se e manifestouse penalizada por ter assim procedido, mas era a primeira manifestação que lhe havia brotado da alma espontaneamente. – O que me havia dito aquela mulher meio embriagada, de quem te falei ontem à noite, quando pedi licença para vê-lo, a fim de obter dele a espera de pelo menos mais uma semana, não era pretexto para não me deixar entrar, mas a pura realidade: não somente ele estava enfermo, mas mesmo agonizante. – A quem teria passado a nossa dívida? – Não sei. Mas até que a situação esteja regularizada, terei conseguido o dinheiro necessário. E mesmo que não nos fosse possível pagar de uma só vez, seria muita falta de sorte se encontrássemos em seu herdeiro um credor tão impiedoso como ele. Esta noite, Carolina, podemos dormir tranquilamente. Sim, isso era natural, pois os seus corações estavam mais aliviados. As crianças, agrupadas em silêncio em torno de seus pais, para ouvirem uma conversa de que nada entendiam, tinham as fisionomias mais risonhas, e a felicidade entrava novamente nesta casa com a morte deste homem. A única emoção causada pelo seu desaparecimento, e que o espectro pôde mostrar, foi uma emoção de alegria. – Espírito, – disse Scrooge, – fazei-me ver uma cena em que se misture um pouco de doçura ao drama da morte, do contrário, este quarto escuro que acabamos de ver ficará eternamente gravado na minha lembrança. **** O espectro conduziu-o através de ruas que lhe eram familiares, e enquanto caminhavam, Scrooge olhava em torno de si, na esperança de se descobrir a si mesmo, mas ninguém o via em parte alguma. Entrando, novamente, na pobre casa dos Cratchits, esta casa que Scrooge já tinha visitado, encontraram a mulher e as crianças em redor do fogo. Como estavam calmos! Os barulhentos caçulas dos Cratchits permaneciam a um canto, quietos como imagens, e olhavam para Pedro, que tinha um livro aberto diante de si. A mãe e as filhas ocupavam-se num trabalho de costura. Sim, todos eram estranhamente silenciosos. “Ele pegou a criancinha e sentou-a no meio deles”. Onde tinha Scrooge ouvido estas palavras? Não as tinha sonhado! Talvez o jovem Cratchit as tivesse lido em voz alta no momento em que transpunha a porta com o espírito. Mas, por que não continuava ele a sua leitura? A senhora Cratchit pousou o trabalho na mesa e passou a mão pelos olhos. – A cor deste pano me faz mal aos olhos, – disse ela. A cor e a luz da lamparina me cansam a vista, e eu não queria ter os olhos vermelhos, quando seu pai chegasse. Deve estar quase na hora de seu regresso. – Acho que já passou, – respondeu Pedro, fechando o livro. – Mas, tenho a impressão, mamãe, de que, há já alguns dias, ele está andando mais vagarosamente que antes. Novamente se fez silêncio. Ao cabo de um instante, a mãe prosseguiu com voz mais firme, que fraquejou apenas uma vez: – Eu o vi andar bem ligeiro, bem ligeiro mesmo com… com o pequeno Tim às costas. – Eu também, e muitas vezes, – exclamou Pedro. – Eu também! – exclamaram os pequenos, ao mesmo tempo. – Mas o pequeno Tim é muito leve, – continuou ela, – e o pai lhe queria tanto bem que nem sentia cansaço. Ah, eis seu pai que volta! Ela precipitou-se para ir abrir-lhe a porta, e Bob, sufocado em seu cachenê – de que aliás tinha bem necessidade, o pobre – entrou na sala. Seu chá esperava-o no canto do fogão, e cada um queria ser o primeiro a servi-lo. Depois, os pequeninos Cratchits subiram aos seus joelhos e chegaram seus rostinhos ao dele, como para dizer: “Não pense nisso, pai. Não se aborreça tanto” Bob falou-lhes sorrindo, e teve uma palavra amável para cada um. Observando os trabalhos de costura espalhados na mesa, elogiou a habilidade e a diligência da senhora Cratchit e suas filhas. Tudo estaria perfeitamente terminado para domingo. – Domingo? Então você foi lá, Bob? – perguntou sua mulher. – Sim, querida, e gostaria muito que estivesse comigo. Teria gostado de ver como o lugar é belo e verdejante. Mas poderá ir lá muitas vezes. Prometi-lhe que iria passear lá no domingo. – Oh, meu menino! Meu pobre pequenino! – gemeu Bob. Subitamente, Bob desatou a chorar. Não chorar estava acima de suas forças, pois elos de grande afeto prendiam-no a esta criança. Deixando a sala, subiu para o quarto do andar superior, que se achava fartamente iluminado e enfeitado com guirlandas de flores, como para Natal. Junto à criança, estava colocada uma cadeira, e notava-se que poucos minutos antes alguém estivera sentado ali. Bob sentou-se, concentrando-se por um momento, e depois de readquirir a calma, abaixou-se e beijou o rostinho do menino. E como aceitava resignadamente o seu sacrifício, foi com ânimo sereno e forte que tornou a descer para junto dos demais. Todos se aproximaram do fogo e começaram a conversar, enquanto a senhora Cratchit e suas filhas continuavam a costurar. Bob falou-lhes, então, da extraordinária benevolência que lhe havia testemunhado o sobrinho de Scrooge. Este cavalheiro, que não o tinha visto mais que uma ou duas vezes, fizera-o parar na rua,, naquela tarde, e, tendo notado sua fisionomia um tanto abatida, interessou-se em saber o que lhe havia acontecido. – Nestas circunstâncias, – prosseguiu Bob, – expliquei-lhe tudo, pois o sobrinho de Scrooge é de fato um perfeito cavalheiro, o homem mais afável que se possa imaginar. “Estou sinceramente preocupado, senhor Cratchit, não somente pelo senhor, mas ainda por, sua excelente esposa”. A propósito, como podia ele saber disso? – Saber o quê, meu amigo? – Que você é uma excelente esposa. – Mas toda gente o sabe, disse Pedro. – Muito bem respondido, meu rapaz, – exclamou Bob. – Espero que todos o saibam. Em seguida, referindo-se ao encontro, continuou: “Sinto muito e se eu lhe puder ser útil em qualquer coisa, terei nisso muito gosto”, disse-me ele, apresentando-me seu cartão. “Se precisar, venha procurar-me sem acanhamento”. – Ora, não será tanto pelos serviços que nos poderá prestar, mas pela maneira cordial como se ofereceu. – Dir-se-ia que já conhecia nosso pequeno Tim e compartilhava das nossas mágoas. – Estou certa de que é um homem de bom coração, declarou a senhora Cratchit. – E ainda mais se certificaria disso, minha cara, se o visse e pudesse falar com ele. E não ficaria surpreendido, pode crê-lo, se ele arranjasse um lugar melhor para Pedro. – Ouça lá, Pedro, – disse a mãe. – E então, – disse uma das moças, Pedro se casa e nos deixa. – Calma, meninas! – respondeu Pedro com uma careta. – É uma coisa que poderá acontecer qualquer dia, meu rapaz, – disse Bob, embora ainda tenhamos tempo para pensar nisso. Em todo caso, quando chegar o momento de nos separarmos uns dos outros, nenhum de nós poderá esquecer o pequeno Tim, não é verdade? Ninguém se esquecerá desta primeira separação. – Não, papai, jamais, – exclamaram todos. – Depois, meus filhos, só a lembrança de quanto ele era meigo e paciente, embora não passasse de uma criancinha, já seria o bastante para nos entendermos sempre bem, pois o contrário seria esquecer o nosso pequeno Tim. – Sim, papai, sempre! – exclamaram todos novamente. – Sinto-me imensamente feliz, meus filhos, – disse Bob, muito contente. A senhora Cratchit abraçou-o e todas as meninas o abraçaram, e Pedro veio apertar-lhe a mão. Pequeno Tim! Tua pequenina alma de criança tem a pura essência divina! – Espírito, – disse Scrooge, – alguma coisa me diz, sem que eu saiba como, que a nossa separação se aproxima. Podereis dizer-me o nome do homem que vimos deitado em seu leito mortuário? O espírito dos Natais futuros transportou-o de novo para o bairro comercial. Parecia que o tempo havia passado. As novas visões já não tinham para ele nenhum nexo entre si, a não ser o de que representavam sempre o futuro, mas a imagem de Scrooge não se via em parte alguma. Aliás, o espírito não parava, continuando sempre em seu caminho, como se se dirigisse para um fim determinado. Scrooge, em dado momento, suplicou-lhe que parasse um pouco. – É neste beco, que agora estamos atravessando tão depressa, que se encontra meu escritório, e isso não é de hoje. Daqui estou a ver a casa. Deixai-me ver o que serei no futuro. O fantasma parou, com a mão estendida para outra direção. – A casa está lá, – exclamou Scrooge, por que me apontais para outro local? O dedo do fantasma continuou inexoravelmente estendido. Scrooge correu até à janela do seu escritório comercial, mas já não era o seu. A mobília tinha sido mudada, e sentado na poltrona achava-se um desconhecido. O fantasma indicava sempre a mesma direção. Scrooge foi ter com ele, e, perguntando a si mesmo onde poderia estar o seu próprio futuro, acompanhou o fantasma até o momento em que chegaram a uma grade de ferro, diante da qual se detiveram antes de entrar. Era um cemitério. Ali, sem nenhuma dúvida, embaixo da terra, estaria aquele infeliz cujo nome lhe restava saber. Que lugar pavoroso! Apertado entre capelas; cheio de sepulturas, invadido pelas ervas daninhas… Oh, sim… Triste lugar! Em pé no meio dos túmulos, o espírito designava-lhe um túmulo. Scrooge caminhou para ali a tremer. Embora o aspecto do fantasma não tivesse mudado, Scrooge receava ver, em sua forma espectral, uma nova e terrível significação. – Antes de aproximar-me desta pedra que me apontais, – disse ele, – respondei, Espírito, à minha pergunta: Estas imagens representam o que deve ou o que poderia acontecer? O fantasma continuava a indicar o túmulo perto do qual se achava. –A conduta de um homem pode fazer prever o seu fim, – disse Scrooge, – mas se ele muda de vida, também o seu fim não será modificado? Dizei-me se assim é que devo entender tudo o que me tendes mostrado. O espírito continuou imóvel. Então, continuando a tremer, Scrooge inclinou-se para diante. Guiado pelo dedo sempre estendido do fantasma, leu sobre a lápide desta sepultura abandonada o seu próprio nome: Ebenezer Scrooge. – Então, era eu o homem estendido sobre o leito? O dedo que apontava a inscrição dirigiu-se para Scrooge, depois voltou ao túmulo. – Não, não, Espírito! Por piedade! Isso não!… O dedo continuou imóvel. – Espírito, exclamou Scrooge, agarrando-se ao seu manto, ouvi-me! Não sou mais o homem que fui. Já não serei o homem que teria sido sem a vossa intervenção. Por que mostrar-me todas estas coisas, se toda esperança está perdida para mim? Pela primeira vez a mão pareceu estremecer. – Bom Espírito, – prosseguiu, prostrando-se por terra diante dele, eu sei que no fundo de vós mesmo tendes compaixão de mim. Dizei-me que, reformando minha vida, poderei transformar estas imagens que me mostrastes. A mão pareceu ter um gesto de benevolência. – Honrarei o Natal com todas as veras de minha alma e prometo guardar o vosso espírito durante todo o ano. Viverei no presente, no passado e no futuro. A lembrança dos três Espíritos do Natal me ajudará a transformar-me, e eu jamais serei surdo às lições que me ensinaram. Oh! dizei-me que posso apagar o nome escrito sobre esta lápide! Em sua angústia, Scrooge tomou a mão do espectro. Este tentou desvencilhar-se, mas Scrooge a reteve com uma pressão de súplica. Mais forte que ele, porém, o fantasma o repeliu. Então, como Scrooge erguesse as mãos numa suprema prece, viu que uma alteração se estava produzindo na forma do fantasma, que se retraiu, diminuiu, e finalmente se transformou numa das colunas da cama. Epílogo Era de fato uma das colunas da cama. E esta cama era a sua, e o quarto era o seu quarto! E melhor ainda: Scrooge dispunha de tempo para reparar seus erros e mudar de vida. – Quero viver no passado, no presente e no futuro, – repetiu Scrooge, saltando do leito. – A lembrança dos três espíritos virá em meu auxílio para tanto. Oh! Jacob Marley! Benditos sejam o céu e a festa de Natal! E eu o digo de joelhos, velho Jacob, de joelhos! Scrooge estava agitado e tão entusiasmado com as suas boas resoluções, que sua voz tremia. Durante a sua luta com o espírito, havia soluçado violentamente e seu rosto estava inundado de lágrimas. – Não foram arrancadas, – exclamou Scrooge, abraçando uma das cortinas de seu leito, não foram arrancadas nem as cortinas nem os laços. Está tudo aqui. E eu também estou aqui. O futuro, cujas sombras me foram mostradas, ainda pode ser conjurado. E o será, estou absolutamente certo disso! Durante este tempo, suas mãos não cessavam de virar e revirar suas roupas, que vestia pelo avesso, que esticava e fazia quase romper as costuras ou deixava cair no chão, praticando assim toda espécie de desajeitamentos. – Já não sei onde estou nem o que faço, – exclamava ele chorando e rindo ao mesmo tempo. Sintome leve como uma pluma, feliz como um rei, alegre como um canário, estouvado como um homem que bebeu demais. Boas festas a todos! Um feliz ano a todos! Scrooge havia saltado para a sala, e aí parou já quase sem alento. – Aqui está a caçarola, ainda com o chá, – exclamou ele, dirigindo-se no mesmo passo para a lareira. Aqui está a porta por onde entrou o espectro de Jacob Marley. Aqui, o lugar onde esteve sentado o espírito do Natal presente. Aqui está ainda a janela por onde avistei as almas errantes. Tudo está em seus lugares, tudo aconteceu, tudo é verdade. Ah! ah! ah! Efetivamente, para um homem que estava desabituado a rir, havia tantos anos, Scrooge tinha um gargalhar sonoro, um gargalhar soberbo, uma risada que prometia uma longa, uma extensa linhagem de sonoras risadas futuras. – Já não sei em que mês estamos, – disse Scrooge, – nem sei quanto tempo passei com os espíritos. Já não sei mais nada. Estou como uma criancinha. Tanto pior, pouco importa! Eu gostaria mesmo de ser uma criancinha. Quero ver gente! Venham todos, venham! Interromperam-no em seus transportes de alegria os carrilhões das igrejas, que lançavam a todos os ventos as suas vozes mais alegres: Ding, ding, dong, boum! ding, ding, dong, boum! – Senhor, que belos, que maravilhosos carrilhões! Correndo para a janela, abriu-a e pôs o rosto para fora. Nem bruma, nem granizo. Era um belo dia claro, com um frio vivo e revigorante, um frio que fazia correr o sangue nas veias. Era um sol dourado e flamante, um céu de pureza divina, um ar de esplêndida limpidez, onde revoavam vozes alegres de sinos festivos. – Senhor, que bela, que maravilhosa manhã! – Em que dia estamos hoje? – perguntou Scrooge a um rapazinho bem vestido, que passava sob suas janelas. – Como? – disse o menino interrogado. – Em que dia estamos hoje? – repetiu Scrooge. – Hoje? – repetiu o menino. Mas é dia de Natal! – É dia de Natal? – disse Scrooge consigo mesmo. Assim pois, ainda o alcanço! Os espíritos fizeram tudo em uma só noite. Naturalmente, podem fazer tudo que querem. Não há nada de extraordinário nisso. Muito bem, meu homenzinho! – Como diz? – fez o menino. – Sabe onde é a loja do vendedor de aves, na esquina da segunda rua depois desta? – perguntou Scrooge. – Parece-me que a conheço! – Você é um rapaz inteligente! – disse Scrooge, um rapaz absolutamente notável! Será que você poderia informar-me se a perua que estava para vender ontem ainda não foi vendida? Não a pequena, mas a maior. – Uma que era tão grande como eu? – Que maravilhoso menino! – exclamou Scrooge extasiado. – A gente sente um verdadeiro prazer em conversar com ele. É isso mesmo, meu rapaz! É isso mesmo! – Ainda não foi vendida, – disse o menino. – Sim?! Muito bem: então vá correndo buscá-la para mim. – Brincalhão! – exclamou o garoto. – Não, não é brincadeira! – disse Scrooge. Vá encomendá-la e diga que me tragam aqui, para eu determinar o lugar onde deve ser entregue. Venha com o empregado, e eu lhe darei um xelim, se voltar dentro de cinco minutos, ganhará uma coroa. O garoto saiu como uma flecha. Efetivamente, um atirador que já não estivesse com o dedo no gatilho de seu fuzil, não teria dado o tiro com maior rapidez. – Vou mandá-la a Bob Cratchit, – pensou Scrooge esfregando as mãos e desatando a rir. – Ele não saberá de onde veio esta perua, duas vezes mais gorda que o pequeno Tim. Será uma esplêndida brincadeira! Sua mão tremia imperceptivelmente enquanto traçava o endereço, mas conseguiu fazê-lo, após o que desceu para abrir a porta e receber o empregado da casa de aves. Enquanto o esperava, seu olhar incidiu sobre a aldrava da porta. – Esta aldrava será de minha estimação até o meu último dia, – exclamou Scrooge, acariciando-a ternamente. – Que boa aparência! Que bela expressão! É de fato uma aldrava admirável! Mas eis que chega a perua. Bravo! Hurra! Bom dia, amigo, Feliz Natal! Para uma perua, era de fato um fenômeno! Nunca esta enorme perua poderia ter-se mantido sobre suas patas, do contrário, tê-las-ia fraturado em poucos segundos, como se fossem de pão. – Parece-me que não poderá levar isto a Camden Town, – disse Scrooge, – será necessário tomar um carro. As risadas com que acompanhou estas palavras, as risadas com que pagou a perua, as risadas com que pagou o carro e as risadas com que recompensou o garoto só podiam ter sido superadas pelas risadas com que se estatelou em sua poltrona e que continuaram a apoderar-se dele até às lágrimas. Para barbear-se, achou alguma dificuldade, uma vez que esta operação requer certos cuidados, pois que não se pode dançar enquanto se barbeia; mas Scrooge teria com a maior naturalidade cortado um pedaço do nariz e curado a ferida com um pedaço de esparadrapo, e sua alegria não teria sofrido o menor abalo. Foi nestas condições que calçou os sapatos de pelica e saiu finalmente de casa. **** A esta hora, as ruas regurgitavam de gente, tais como as tinha visto em companhia do fantasma do Natal presente. Com as mãos atrás das costas, Scrooge via cada um dos transeuntes com os lábios desabrochados em sorriso. Seu ar era tão alegre, tão irresistivelmente amável, que dois ou três rapazes lhe atiraram, ao passar, um “Bom dia, senhor! Feliz Natal!”. E pelo correr do tempo adiante, Scrooge declarou e repetia com frequência, que de todas as palavras agradáveis que ouvira, nenhuma fora tão agradável de ouvir como aquelas. Ainda não tinha andado muito, quando viu, caminhando em sentido contrário, o cavalheiro imponente, que no dia anterior tinha vindo ao seu escritório dizendo: “Scrooge & Marley, se não me engano?”. A ideia do olhar que aquele cavalheiro faria pairar sobre ele, quando o visse, comprimiu- lhe o coração. Ele, porém, conhecia qual a rua que o cavalheiro ia tomar e adiantou-se para ela rapidamente. – Meu caro senhor – disse ele, abordando alegremente o cavalheiro e apertando-lhe cordialmente as duas mãos –, como vai? Espero que a sua coleta de ontem tenha sido boa. Bela obra a sua! Desejolhe um feliz Natal, cavalheiro! – É o senhor Scrooge? – Perfeitamente, senhor. Receio que meu nome não lhe seja bastante simpático. Permita-me que lhe apresente minhas escusas, e queira ter a bondade… Aqui, Scrooge segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. – Jesus! – exclamou o velho cavalheiro, quase sufocado. – Meu caro senhor Scrooge, está falando sério? – Peço-lhe que aceite, – disse Scrooge –, nem um centavo a menos. Não faço mais que pagar velhas dívidas atrasadas. Quer fazer-me este favor? – Meu caro senhor, – disse-lhe o outro apertando-lhe a mão, estou petrificado diante de tal generosi… – Não falemos mais nisso, por obséquio, interrompeu Scrooge, e venha procurar-me em minha casa. Virá? – Oh, não faltarei! – exclamou o velho senhor, com uma expressão que denotava a firme resolução de o fazer. – Agradeço, senhor, fico-lhe muito obrigado, mil vezes grato! Que Deus o abençoe! Saindo dali, Scrooge dirigiu-se para a igreja, saindo, após o ofício, para passear pelas ruas, contemplando os transeuntes que iam e vinham atarefadamente, dando tapinhas amáveis nas faces das crianças , interrogando os mendigos, interessando-se pelo que se passava nas cozinhas, no subsolo, olhando pelas janelas das casas e notando que tudo isso lhe agradava e divertia. Jamais teria imaginado que um simples passeio pudesse proporcionar-lhe tão grande satisfação. A tarde, Scrooge dirigiu-se para casa de seu sobrinho. Antes de subir os degraus da escada, passou por diante da casa uma dezena de vezes. Finalmente, cheio de coragem, avançou para a porta e bateu resolutamente. – O patrão está em casa, minha filha? – perguntou à criada. (Gentil esta menina, sim senhor!) – Está, cavalheiro. – E onde está ele, minha bela menina? – Na sala de jantar, com a senhora. Se o cavalheiro quiser subir ao salão… – Obrigado, eu sou da família, – disse Scrooge, já com a mão na maçaneta da porta da sala de jantar. Vou entrar, minha menina. Scrooge virou brandamente a maçaneta e passou a cabeça pela porta entreaberta. Em pé diante da mesa, o sobrinho e a sobrinha passavam em revista os talheres arrumados elegantemente para uma recepção, porque os jovens recém-casados davam grande importância a estes pormenores e queriam certificar-se de que nada faltava. – Fred! – chamou Scrooge. Céus! Como sua sobrinha ficou sobressaltada! Scrooge já se esquecera das palavras que lhe ouvira quando ela estava sentada ao canto da sala com outras senhoras. Se lembrava, perdoara-as. – Meu Deus! – exclamou Fred, quem é que vejo?! – Sou eu, teu tio Scrooge, que vem almoçar. Posso entrar, Fred? Se podia entrar? Pois pouco faltou para que o sobrinho não lhe arrancasse o braço com um aperto de mão! Não se poderia imaginar mais cordial acolhimento. Em cinco minutos, Scrooge estava como em sua própria casa. A sobrinha imitou o sobrinho, e Topper fez o mesmo, e assim fizeram a irmãzinha rechonchuda e todos os demais convidados, quando chegaram. Oh, noite deliciosa, deliciosos jogos e divertimentos, amabilíssima companhia! Oh, maravilhoso sentimento de felicidade! No dia seguinte, Scrooge dirigiu-se logo pela manhã para o escritório, pois se lhe meteu na cabeça ser o primeiro a chegar e pegar Bob Cratchit em flagrante delito de atraso. E foi o que aconteceu. O relógio bateu as nove, e nada de Bob. Bateu as nove e um quarto, e nada de Bob, que, finalmente, chegou dezoito minutos e meio depois da hora. A porta fora deixada aberta por Scrooge, que queria vê-lo entrar no cubículo. Antes de entrar, Bob tirou o chapéu e o cachecol, e em menos de dois segundos estava sentado em seu mocho, fazendo deslizar a pena com extrema rapidez, como se quisesse recuperar o tempo perdido. – Diga-me lá, – grunhiu Scrooge no seu tom de voz de antes, tão bem quanto lhe foi possível imitar –, como se atreve a chegar com semelhante atraso? – Estou muito penalizado, senhor, – disse Bob –, cheguei um tanto atrasado. – Um tanto atrasado? – repetiu Scrooge, acredito! –Venha aqui, faça o favor! – Isso não acontece mais que uma vez por ano, senhor, – alegou Bob pondo a cabeça fora do seu cubículo. – Garanto que isso não acontecerá mais. Ontem me diverti um pouco… – Muito bem, meu amigo! Vou dizer-lhe o seguinte: – Semelhante estado de coisas não pode continuar por mais tempo! Assim, – prosseguiu Scrooge–, saltando da cadeira abaixo e assentando nas costas de Bob uma tal palmada, que este recuou cambaleando até a entrada do cubículo, assim… a partir de hoje os seus vencimentos serão aumentados. Bob, a tremer, lançou um olhar para a régua metálica, e por um instante teve a ideia de dar em Scrooge uma tremenda pancada, de imobilizá-lo, e em seguida chamar em seu auxilio as pessoas do prédio para vestir-lhe a camisa-de-força. – Um feliz Natal, Bob, – continuou Scrooge com tal seriedade, que não era mais possível haver engano. – Um melhor Natal e mais belo, meu rapaz, que todos aqueles que há tantos anos você tem passado sob meu jugo. Vou aumentar seus vencimentos e farei todo o esforço para ajudar a sua laboriosa família. Vamos conversar sobre os seus negócios esta tarde mesmo, diante de um copo de ponche fumegante, que beberemos em honra do Natal, Bob! E agora, antes mesmo de começar a trabalhar, acenda o fogo e vá buscar-me outra lata de carvão, Bob Cratchit! Scrooge cumpriu a palavra, e foi ainda muito além. Fez tudo quanto havia resolvido fazer e ainda muito mais. Com referência ao pequeno Tim – que não morreu –, Scrooge foi para ele verdadeiramente um segundo pai. Em breve, tinha-se tornado o melhor amigo, o melhor patrão, o melhor homem que jamais se encontrou em nossa velha cidade ou em qualquer outra velha cidade, aldeia ou povoação do nosso velho mundo. Alguns riram da mudança operada nele, mas ele os deixou rir e não se incomodou. Scrooge era bastante inteligente para compreender que nada de bom se passa em nosso planeta que não comece por provocar a hilaridade de certas pessoas. E como estas pessoas são destinadas a continuarem cegas, a Scrooge tanto fazia que elas manifestassem seus sentimentos por uma gargalhada ou por uma careta. Seu próprio coração estava alegre e feliz, e isso lhe bastava. Ele não teve mais relações com os espíritos, mas manteve a melhor das relações com os seus semelhantes, e diziam mesmo que não havia nenhuma pessoa que festejasse com mais entusiasmo as festas de Natal. Que todos possam dizer de nós a mesma coisa, com a mesma sinceridade. E para terminar, vamos repetir com o pequeno Tim: – Que Deus abençoe a cada um de nós.

Charles Dickens
Enviado por London em 11/12/2019
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