O Castelo de Vidro - Parte IX-

Contei o pouco que sabia sobre Alvim, e não levou muito tempo para que o espírito assimilasse a personalidade do menino morto. Meu empenho foi de grande importância para que os pais comemorassem ao acreditarem que o filho estava recobrando a memória.

Novos medicamentos atenuaram a deterioração do corpo, mas o mau hálito era insuportável sendo indispensável o uso constante de máscaras.

O espírito usava a experiência de séculos reencarnando na terra para impressionar, e não havia nada que não entendesse pelo menos um pouco. Nas aulas de história tomava o lugar do professor e tinha argumentos para distorcer fatos como se ele próprio fosse o personagem principal.

O encontro de Alvim com o pai da menina, cujo órgão foi "gentilmente cedido" foi emocionante. O homem chorou seco e ainda teve a cara de pau de pedir para encostar o ouvido no peito dele a fim de ouvir as batidas da única coisa que sobrou da filha.

Alvim, naquele mesmo dia pediu para que o pai da doadora voltasse, queria ficar a sós com ele para agradecer de um jeito todo especial. Mas eu estava dentro do guarda-roupa e vi tudo pela porta entreaberta: O menino retirou a máscara purulenta e disse enquanto puxava um maço de dinheiro do bolso:

_Posso lhe chamar de papai?

O crápula deu um sorrisinho tímido e depois falou desviando o rosto para a janela aberta:

_Há um pedacinho meu dentro de você, por isso, vou considerá-lo para sempre como meu filho.

_Mas o senhor vai continuar fazendo aquelas coisas feias comigo?

O homem voltou-se para ele e arregalou os olhos quando Alvim lhe abraçou, soprou podre em suas narinas e cheio de ódio, gritou:

_DESGRAÇADO! VOCÊ VENDEU MEU CORPO DEPOIS DE ABUSAR POR DIVERSAS VEZES DA MINHA INOCÊNCIA. MAS SAIBA QUE A MINHA ALMA CONHECEDORA DO CÉU E DO INFERNO ESTÁ AGORA ENCLAUSURADA NESSE CADÁVER E CLAMA POR VINGANÇA.

Foi nesse momento que sai sorrateiro do guarda-roupa (já estava tudo combinado) e com uma faca que passei horas afiando cortei a goela do infeliz. Enquanto o verme se debatia com os olhos projetados, o sangue jorrava. Foi difícil resistir àquele cheiro adocicado, e por puro instinto bebemos na fonte. Ah! Também lambemos o chão para não deixarmos vestígios.

O Delegado Kitamura não queria acreditar no que acabara de ouvir, porém, estava diante de um psicopata e, como tudo era possível, perguntou cheio de excitação:

_Mas como conseguiram? E o corpo? O quê fizeram depois?

Vincent antes de responder, sorriu. A única coisa bonita que tinha era os dentes implantados por um renomado especialista.

_ Delegado, após beber sangue o corpo de Alvim ganhou força descomunal. O espírito se lembrou de um tempo em que em um planeta distante também foi um vampiro.

O cadáver foi levado com facilidade para o sótão, desossei, salguei e coloquei para secar no telhado. A carne era magra e me fez um bem danado. Quanto aos ossos, fiz um quebra-cabeça. Não é fácil montar um esqueleto passando uma linha de nylon por toda cavidade, mas me ajudou muito a matar o tempo. Ainda está lá, dependurado como um Furin ao sabor do vento. Tolice dizer que esse objeto ajuda a afugentar os maus espíritos...

_Santo Deus! Exclamou o delegado levando a mão à boca.

_ Sabe, delegado... Eu acabei por me tornar amigo daquele espírito sofredor e sentia pena dele. Às vezes, quando acordava, ele achava que estava em outra vida. A enfermeira entrava em pânico e quando corria para pedir ajuda, eu descia pelo buraco do ar condicionado e fazia com que se lembrasse que aquela pessoa a qual julgava ser naquele momento, já havia morrido há décadas, séculos, ou quem sabe? Há milhares de anos. Algumas vezes, ele falava dormindo, era como um rádio fora de sintonia, onde as vozes das emissoras se misturavam à procura da mesma frequência.

Aquela pobre alma tinha todas as vidas marcadas como tatuagens, e pode ter certeza, as cicatrizes doíam muito.

Para eu ficar com toda a herança dos Rodrigues de Avelar, o espírito que habita o corpo do menino Alvim, sabotou os freios do carro do Doutor Adalberto. Tinha de ver a cena digna de um Oscar que ele fez ao receber a notícia de que o "pai" havia falecido em um trágico acidente. Tudo ficou fácil, bastou ganhar a maior idade para abater a mãe e fazer um belo testamento.

Continua...

Luiz Cláudio Santos
Enviado por Luiz Cláudio Santos em 30/08/2020
Reeditado em 05/09/2020
Código do texto: T7050468
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