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A carta nodosa dançava entre seus dedos, deslizando de uma mão para a outra enquanto ele observava com atenção cada pequena mancha que cobria o velho pedaço de papel algumas vezes se detendo por mais tempo no desenho já muito desbotado, quase indecifrável, como se as muitas mãos que haviam manuseado aquela carta tivessem levado consigo um pouco de sua tinta nas pontas dos dedos. Não era a primeira vez que André tinha uma carta de baralho nas mãos, mas, como não estava familiarizado com os jogos de cartas, tudo que ele sabia é que aquele era um Ás de Espadas.  
  
Por vários dias André esperou a oportunidade para voltar ao quarto do avô sem ser notado. Curiosidade e orgulho o corroíam, ele precisava descobrir o que o velho guardava na pequena caixa de madeira com tampo esmaltado e com as iniciais de seu nome gravadas em letras escuras. Matias, que tinha se mudado para a casa do menino há pouco mais de um ano, era um homem sério, calado, de pouca conversa, mas muito gentil e sempre educado com todos, apesar disso, André nutria um forte rancor contra ele por ter sido obrigado a ceder seu quarto para o avô e se mudar para o quarto do irmão mais velho. O ressentimento diante daquela situação levava André a se aventurar pelo quarto do avô sempre que podia, mesmo sem ser convidado. Aproveitava aqueles momentos para realizar pequenos atos de vingança, mudava as cosias de lugar, escondia os óculos, colocava os chinelos do lado contrário da cama, tudo para confundir e atormentar Matias que, se é que percebia o que estava acontecendo, nunca havia se queixado, mantendo sempre seu jeito reservado. 

Cansado das pequenas travessuras que pareciam não incomodar ou sequer serem notadas pelo avô, André decidiu que era hora de ser mais ousado, foi então que durante uma de suas visitas clandestinas, resolveu procurar por algo de valor. Remexeu no guarda-roupas, nas gavetas da cômoda, nos livros e em todo canto apenas para descobrir que não havia nada ali além de algumas roupas, dois ou três pares de sapatos e outras quinquilharias de gente velha. Frustrado, se jogou na confortável cama box que já não era mais sua e ficou olhando para o teto, ruminando a injustiça de não ter mais um quarto só seu. Depois de algum tempo, se levantou para sair, mas, antes de deixar o lugar, um móvel que antes não estava lá chamou sua atenção: uma pequena mesa de canto que não combinava em nada com a mobília moderna de seu antigo quarto. Curioso, André foi até lá, abriu a única gaveta existente e se deparou com uma pequena caixa de madeira, um objeto luxuoso que contrastava com os demais pertences de Matias, o que levou o menino a deduzir que fosse o que quer fosse, aquilo devia ser importância para o avô.

André estava prestes a abrir a pequena caixa quando sentiu uma pressão forte como um alicate se fechando em torno do seu ombro direito enquanto a voz rouca e cheia de autoridade ordenou que ele colocasse a caixa de volta no lugar. Paralisado pelo susto, André não conseguiu se voltar em direção à voz, então a mão forte pressionou ainda mais seu ombro fazendo com que ele se virasse e o encarasse de frente. Com o coração aos pulos, André se deparou com os olhos negros e anuviados do avô.  

- Nunca mais toque nisso! - o homem falou ao mesmo tempo em que tirava a caixa das mãos do menino com um gesto firme, quase bruto.  

André sentiu o rosto corar e seus olhos se encheram de lágrimas. Sentindo-se humilhado pela forma como o avô havia chamado sua atenção, deixou o quarto sem se desculpar, se perguntando quem aquele velho pensava que era para falar com ele daquele jeito, como se já não bastasse ter roubado seu quarto, agora queria lhe dar ordens e tratá-lo de um jeito que nem mesmo seus pais o tratavam. Sem olhar para trás, jurou que aquilo não ficaria assim. 

Desde aquela manhã tinha se tornado cada vez mais difícil driblar a constante vigilância de Matias que pouco deixava o seu quarto, até que certa noite, enquanto o avô recebia a visita de um velho amigo que parecia não ter qualquer pressa de ir embora, André aproveitou a oportunidade, correu para o seu antigo quarto e foi diretamente até a mesa de canto, abriu a gaveta, mas a excitação que sentia se desfez assim que notou que não havia nada ali dentro. O velho havia se prevenido, mas o menino não ia deixar barato, então se pôs a procurar em todos os cantos, olhou embaixo da cama, revirou as roupas nas gavetas da cômoda e no guarda-roupas, meteu as mãos dentro dos travesseiros de penas, levantou a colcha, os lençóis e até o colchão sem nada encontrar. Olhou ao redor tentando imaginar onde Matias poderia ter escondido a caixa, não havia muitas opções ali dentro, então resolveu revistar novamente o guarda-roupas com mais atenção. Verificou entre as calças dobradas e nos bolsos das camisas penduradas nos cabides até que acabou por encontrar o a pequena caixa guardada no bolso interno do único casaco que o avô possuía. Antecipando a vitória, rapidamente abriu a tampa esmaltada, retirou o único objeto que havia ali dentro sem prestar qualquer atenção no que era, colocou a caixa de volta no lugar onde havia encotnrado e correu para o seu quarto, torcendo para que o avô não desse falta de nada, pelo menos por um tempo. 




Madalena lutava com a vida desde muito cedo. Ainda pequena, tinha deixado o interior com sua tia  Doralice rumo à capital, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Na cidade grande, as duas se ajeitaram como puderam em um pequeno barraco feito com tudo aquilo que as outras pessoas não queriam mais, numa das favelas que começava a se formar na periferia daquela cidade gigantesca. Madá, como era chamada pelos conhecidos, nunca teve medo do trabalho e encarou a cidade grande de cabeça erguida. Aos poucos, tia e sobrinha conseguiram melhorar a situação em que viviam e depois de vários anos de muito trabalho, privações e economias, cada uma tinha sua pequena casa de alvenaria ainda na periferia, mas fora dos limites da favela.

Doralice tinha também marido, filhos e até netos. Madá tinha apenas a si mesma e ao único filho que criava sozinha. O menino que era a razão de sua vida tinha nascido com o pulmão fraco e a chegada dos dias frios era sempre um grande tormento para a pobre mulher, que temia mais que tudo, perder aquela criança que era sua única família.  

A sexta-feira da Paixão de Cristo amanheceu fria, um vento gelado cortava o ar deixando claro que o outono tinha se firmado, porém, o dia ensolarado deixava o clima ameno, então Madá cedeu à insistência do filho e os dois foram juntos para a festa de Páscoa que os crentes tinham organizado para as crianças da comunidade. O garoto se divertiu aproveitando aquela rara chance de correr, brincar, pular e, na hora de ir embora, ganhou um grande ovo de chocolate que fez seus olhinhos brilharem de felicidado enchendo a mãe de contentamento. Quando os dois voltavam para casa de mãos dadas, rindo e relembrando os acontecimentos do dia, um manto de nuvens grossas e escuras se formou encobrindo todo o céu rapidamente e, em poucos minutos, a tempestade desabou sobre eles. 

Madá envolveu o menino em seu próprio agasalho, pegou-o no colo e correu para casa o mais rápido que conseguiu, mas o estrago já estava feito. Assim que chegaram ela percebeu que a criança ardia em febre, aquilo durou a noite toda e nos dias que se seguiram a respiração do menino ficou cada vez mais pesada e difícil. Desesperada, a mulher tentou todos os recursos que conhecia: remédios de farmácia, remédios caseiros, receitas populares, chás, beberagens e garrafadas, pediu oração aos crentes, aos católicos pediu que rezassem e aos filhos de santos que acendessem velas para seus orixás, deu dízimos e ofertas, fez oferendas e promessas à virgem, mas quando se deu conta de que nada daquilo surtiria efeito, pegou suas poucas economias e levou o filho ao médico apenas para ouvir o homem de branco e com a voz mais fria que os ventos de agosto sentenciar que não havia nada que pudesse ser feito, o pulmão já estava totalmente comprometido.  

Madá voltou para casa desolada e sentindo todo o peso da culpa por ter levado o filho à festa. Sem forças até para chorar, deitou-se com o menino na cama que dividiam e os dois se enrolaram sob o mesmo cobertor. A mulher não conseguiu fechar os olhos, sua cabeça era um turbilhão de pensamentos em busca de uma saída e quanto mais ela procurava por uma forma de salvar o filho, mais tinha a certeza de que havia uma única solução.

Quando a madrugada chegou, Madá se levantou bem devagar para não acordar a criança, vestiu um agasalho fino deixando o mais grosso sobre o menino para mantê-lo bem aquecido e saiu para a rua deserta. O ar frio da madrugada encheu seus pulmões e, apesar do peso que sentia em seu coração, soube que tinha a coragem necessária para fazer o que tinha que ser feito, então seguiu seu caminho.  
 



André não tinha se separado do Ás de Espadas desde que o havia encontrado dentro da caixa de madeira com as iniciais do avô, envolta em um pedaço de pano vermelho e muito desgastado. A carta de baralho parecia tê-lo hipnotizado assim que ele a olhou, deixando-o obcecado por aquele estranho coração-espada cinzento. O menino passava longas horas observando o velho pedaço de papel, ora olhando-o virado para cima, ora olhando-o virado para baixo, em busca de algo que ele tinha certeza de que estava ali, algo que apesar de invisível era palpável, como se o desenho já quase totalmente apagado escondesse mais do que ele podia ver.  

Apesar de ter consciência de que tinha agido errado ao roubar algo que não lhe pertencia, o menino não se arrependeu. Estava certo de que aquela velha carta de baralho escondia uma trama que ele ainda não tinha conseguido desvendar, mas que caberia só a ele descobrir. Já era madrugada quando parou de deslizar a carta entre e os dedos, a escondeu sob o travesseiro e fechou os olhos buscando dormir, estava tranquilo, tinha certeza de que o roubo nunca seria descoberto já que na mesma noite em que ele havia entrado escondido no quarto do avô, enquanto se despedia do velho amigo que o visitava, Matias havia passado muito mal e teve que ser levado para o hospital de onde, André tinha certeza, não voltaria.  

A família e os amigos mais chegados não podiam acreditar que Matias, um homem forte e saudável, tivesse definhado em tão pouco tempo. Muito alto e robusto, seu rosto corado e sua pele quase sem rugas transpareciam saúde, seus olhos brilhavam de inteligência e astúcia e, não fosse a barba e os cabelos completamente brancos, ele poderia se passar por irmão de seus filhos. Desde que havia se aposentado e se mudado para a casa do filho mais velho, aproveitava as manhãs para fazer longas caminhadas, nunca reclamava de cansaço, dores ou de qualquer problema de saúde, não havia nenhum indicio de que estivesse doente, sofrido um ataque cardíaco, um AVC ou qualquer coisa do tipo, apesar disso, em menos de vinte e quatro horas na UTI ele simplesmente se foi, segundo os médicos, em consequencia de uma falência multipla dos órgãos decorrentes de causas naturais.

André não sentiu remorso ao voltar para o seu antigo quarto restituído após a morte do avô. Enfim, tinha sua vida e seu espaço de volta e tinha também aquela carta que podia aparentar não ter valor algum, mas que ele sentia que escondia algo especial, algo grande, algo que tinha sido de seu avô, que agora era seu e que ninguém poderia lhe tirar.   

 
 

Madá caminhou sentindo o sereno pegajoso grudar em seu corpo até chegar àquele lugar onde as casas eram iguais à sua antiga casa e para onde, desde que saira dali, ela tinha jurado nunca mais voltar. O ar frio queimava sua garganta e mordiscava sua pele, o esforço pela longa caminhada enchia seu corpo de uma dor cansada, uma dor que só podia ser conhecida pelas mulheres que enfrentam a vida sozinhas. Apesar do peso que curvava suas costas e que aumentava e enfraquecia suas pernas a cada passo, ela não se deixou abater, continuou andando por ruelas tortas e becos estreitos e escuros, aspirando o odor desagradável e onipresente nos lugares abarrotados de gente e sem saneamento básico. A certa altura, o cheiro forte fez seu estomago dar voltas e depois de algum tempo a obrigou a parar para regurgitar e cuspir um líquido viscoso e amarelo que deixou sua boca amarga pelo resto de sua vida. 

O chão de terra molhada abafava o som de seus passos, e quando Madá estava a poucos metros de seu destino, sentiu o vento mudar de direção, uma força invisível empurrou seu corpo em sentido contrário ao que ela caminhava, como se tentasse impedi-la de continuar. Um assobio agudo e comprido cortou o silêncio da noite e se repetiu por mais três vezes silenciando o mundo todo à sua volta, então todas as luzes se apagaram ao mesmo tempo deixando a mulher em meio à completa escuridão. Ela sabia que aquilo era um sinal de que era sua última chance de voltar atrás, mas o que seria dela se desistisse? O que faria se voltasse para casa sem nada que pudesse salvar seu menino? De que lhe adiantaria continuar vivendo? Ela era uma mulher sozinha no mundo, o filho era tudo que tinha, a criança que havia sido sua única benção em meio ao vale de lágrimas e cansaço que era sua vida. Ela era a mãe, ela tinha que lutar por ele, não importava com quais armas, aquele era seu dever, era seu destino e contra o destino não se luta. Decidida a continuar, mais uma vez puxou o ar buscando se encher de coragem para seguir em frente, ao dar o primeiro passo, o vento e a força desconhecida que a impeliam a voltar para trás cessaram e todas as luzes ao redor se acenderam.   

Ao chegar ao seu destino, bastou encostar a mão na velha porta de madeira para que ela se abrisse com facilidade, indicando que Madá já era esperada ali. O interior do lugar estava completamente escuro e por um momento ela acreditou que tudo aquilo não passava de uma crendice passada de boca em boca pelo povo. Estava a ponto de sair dali e voltar para casa quando uma chama se acendeu bem no meio do cômodo, revelando o rosto de pele tão branca quanto a cera daquela única vela que pouco iluminava o ambiente. Aquele era Caim. Seus cabelos longos e lisos, muito pretos e oleosos, caiam escorridos até muito abaixo dos ombros, seus olhos eram azuis e vazios, suas roupas impecáveis pareciam vindas de outra época, de tempos antigos, e em nada combinavam com a miséria que rodeava o lugar impregnado pelo cheiro de madeira úmida e apodrecida. O homem possuía uma beleza perfeita e assustadora, era impossível desviar os olhos de sua direção e ainda mais difícil resistir à tentação de se lançar aos seus pés e adorá-lo.

Sem dizer qualquer palavra, ele caminhou até Madá que não conseguia se mexer, chegando tão perto a ponto dela poder sentir o ar exalado por suas narinas finas roçando a pele de seu rosto. Em silêncio e tremendo de frio e de medo, a mulher ouviu o homem dizer com uma voz enjoativa entrecortada por curtos silvos, como de uma cobra: 

- Você sabe como funciona... shhhh... Primeiro o pedido shhhhh... depois o preço a ser pago. 

Madá confirmou com um gesto de cabeça quase imperceptível, naquele momento, seu corpo todo tremia tomado por calafrios e sua voz sumiu completamente. Ela se esforçou para falar, mas as palavras ficaram engasgadas em sua garganta, então, sem desviar seus olhos sem fundo dos olhos da mulher que empalidecia à sua frente, Caim lhe disse que ali as palavras não eram necessárias, bastava o pensamento.

Madá tinha a cabeça tão desorganizada pelo medo que sentiu dificuldade em formular seu pedido, como se sua mente estivesse em branco, então, fechou os olhos e um único pensamento a invadiu sua mente: queria que o filho tivesse saúde para viver por cem anos.

Mal esse pensamento se formou em sua mente e Madá, que ainda tinha os olhos fechados, foi surpreendia pelos lábios gelados de Caim que se colaram aos seus e, com sua boca, ele sugou todo o ar que ela tinha em seus pulmões para dentro de si desta forma incorporando o desejo da mulher. Naquele momento, Madá sentiu que algo havia sido arrancado de suas entranhas e ao abrir os olhos viu surgir um maço de cartas de baralho bem à sua frente, exatamente como haviam lhe contado que seria quando ela ainda morava na favela e duvidava daquelas histórias. Com movimentos rápidos, Caim fez as cartas dançarem no ar antes de voltarem para suas mãos translucidas com a destreza de um croupier experiente, então, estendeu o baralho empilhado sobre a palma de sua mão esquerda oferecendo-o para Madá que, ao tocar às cartas que tinham o poder de determinar o preço a ser pago, sentiu o olhar gelado de Caim percorrer todo o seu corpo. Ao levantar os olhos, percebeu com assombro que os olhos de Caim haviam mudado de cor, já não eram azuis como o mar, mas sim escuros como a noite mais escura, sem fundo, completamente mudos, porém havia neles a certeza de que o preço determinado pelas cartas seria pago.  

Madá pensou no rosto sorridente do filho e só assim conseguiu juntar o que restava de sua força de vontade e coragem para finalizar a transação, puxou uma das cartas retirando-a bem do meio do baralho e quando a virou para descobrir o que o destino havia lhe reservado a pouca claridade que penetrava naquele antro revelou um Ás de Espadas. Um tremor frio percorreu todo seu corpo e ela sentiu uma intensa vontade de chorar, sabia o que aquilo significava, era um preço alto e ela não podia mais voltar atrás. 

Ao erguer os olhos suplicantes, se deu conta de que a chama da vela havia se apagado e de que ela estava completamente sozinha no pequeno barraco.  
 
 


André começou a perceber algumas mudanças em seu corpo, a cada dia se sentia mais forte, com mais energia, seus músculos pareciam se desenvolver rápido demais e ele se tornava muito robusto para sua idade. Aquela transformação não passou despercebida por seus pais que viviam dizendo como estavam impressionados com seu desenvolvimento.

Além do desenvolvimento físico incomum, o menino parecia imune a todos os outros males que afligiam as crianças da vizinhança. Não contraía mais as gripes tão comuns no inverno, nem o rotavírus que se alastrava no verão e, quando a escola teve um surto de piolhos, André foi o único aluno a não ser atingido por aquela praga. Tanto nas brincadeiras de rua, como nos jogos com os colegas de escola, o menino se destacava, superando em tudo até mesmo os garotos mais velhos e mais experientes, inclusive seu próprio irmão que não demorou a invejar o orgulho dos pais pelos constantes sucessos do caçula que até pouco tempo não era mais que uma criança mirrada e sem graça.

Percebendo a força de seu corpo e a agilidade de sua mente crescerem, André se tornava cada vez mais seguro de si e fazia sucesso aceitando todo tipo de desafio que lhe era proposto. Certo dia, quando voltava para casa com um grupo de amigos depois da aula, ao passarem por um antigo jatobá, um deles afirmou que aquela era a árvore mais alta da cidade, não demorou para que as crianças começassem a instigar André a subir até o alto de sua copa. As apostas começaram imediatamente, enquanto uns afirmavam que André conseguiria dar conta daquela façanha até mesmo com um braço amarrado às costas, outros duvidavam afirmando que André não tinha força nem coragem para chegar tão alto. O menino não teve dúvidas, largou a mochila no chão, se agarrou ao tronco da velha árvore e começou a escalada impulsionado pelos gritos dos amigos. Em poucos minutos chegou até o ponto mais alto e, quando acenava para as crianças lá de cima, o tronco em que se apoiava partiu. André despencou enroscando-se em galhos e folhas até se espatifar no chão. As crianças assustadas correram em sua direção e se depararam com o garoto já se levantando com alguns pequenos arranhões e um joelho ralado, nada mais. Diante daquela cena inesperada, todos o olharam impressionados, como se ele tivesse superpoderes. Naquele momento, André sentiu um leve formigamento no peito, exatamente onde o Ás de Espadas, guardado no bolso da camiseta, encontrava sua pele.  

À noite, em sua cama, pensando sobre tudo o que vinha acontecendo, André chegou à conclusão de que, de alguma forma, aquela carta de baralho surrupiada do avô lhe protegia e decidiu que a partir de então ela seria seu amuleto e ele jamais iria se separar dela. 
 

 

Ao chegar em casa, Madá percebeu que o filho respirava melhor e que a febre tinha baixado. Nos dias seguintes, o menino voltou a comer, mas ainda não estava totalmente fora de perigo, aquilo fez com que ela acreditasse que o médico que havia desenganado o filho estava errado e que o menino estava se recuperando. Diante daquela melhora, a mulher se questionou sobre a noite sombria em que tinha saído em busca de uma cura milagrosa e começou e se convencer de que tudo aquilo que ela havia visto não passava de uma enganação, que Caim era só mais um charlatão tentando enganar o povo para ganhar dinheiro com seus truques e ilusionismo bobos. Sentindo o coração aliviado do peso que vinha carregando, a mulher retirou a velha carta de baralho que estava guardada sob o travesseiro do filho, rasgou-a ao meio e depois em quatro pedaços que foram jogados no sanitário antes da descarga.  

A tarde logo se desfez e a noite caiu mais depressa do que de costume. A noite já ia avançada quando com um sobressalto Madá ouviu pancadas na porta, estranhou que alguma visita aparecesse àquela hora, mas resolveu atender, afinal, podia ser sua tia ou algum conhecido necessitando de ajuda. Ao abrir a porta, Madá deparou-se com Marieta, uma mulher que ela conhecia apenas de vista e imediatamente percebeu que havia algo de errado com ela. A mulher parada a sua frente estava em transe, seus olhos estavam revirados, as pupilas estavam escondidas sob a pálpebra semiaberta deixando à mostra apenas o branco do globo ocular até que um segundo depois ela abriu os olhos que se tornaram dois poços de escuridão como Madá tinha visto se tornarem os olhos de Caim. Marieta abriu a boca e começou falar, imediatamente Madá reconheceu a voz pegajosa que tinha ouvido naquela noite. Quando a mulher se calou e foi embora, Madá correu para o banheiro com o coração mortificado pela dor, vasculhou o sanitário onde tinha jogado os pedaços do Ás de Espadas sem nada encontrar, então, correu até o quarto e colocou as mãos sob o travesseiro do filho, ali encontrou a carta de baralho em perfeito estado. 

Com aquele pedaço e papel na mão, Madá aguardou que o relógio anunciasse a chegada das três horas da manhã e saiu para a rua entorpecida pela ausência de qualquer esperança. No dia seguinte, ainda muito cedo, Madá recebeu a visita de uma assistente social. A mulher veio lhe informar que uma vaga havia surgido na clínica especializada em doenças do pulmão, que seu filho tinha sido aceito e que uma ambulância viria busca-lo naquele mesmo dia. Madá que sequer sabia da existência da tal clínica e que não se lembrava de ter pleiteado qualquer vaga para o menino, ao ver sua própria assinatura no documento de solicitação, compreendeu imediatamente o que aquilo significava.

Caim estava cumprindo sua parte no acordo de vida e morte que eles haviam firmado. 
 
 


Com o passar dos anos, a natural rebeldia de André cresceu alimentada pela certeza de que o Ás de Espadas sempre o protegeria de tudo e de todos. O garoto mimado se tornou um jovem arrogante, pretencioso e cada vez mais inconsequente, que não temia nada, não respeitava a ninguém e arriscava tudo em apostas sempre altas. Quando chegou à maioridade, abandonou a escola e a família e passou a se dedicar à prática de esportes radicais. Após deixar a casa dos pais para trás, retornou para vê-los não mais do que uma ou duas vezes, deixando sua mãe com o coração partido e seu pai com uma insônia crônica, os dois doentes de preocupação.

André passou os anos que se seguiram esquiando, saltando, escalando, surfando, quebrando recordes, ganhando muito dinheiro e gastando ainda mais enquanto rodava o mundo em busca de algo capaz de saciar sua sede por adrenalina e, aonde quer que fosse, o Ás de Espadas estava sempre ao alcance de suas mãos. A sorte tinha sido sua companheira nos últimos quinze anos e ele não tinha qualquer motivo para deixar de acreditar que seria assim pra sempre. Ele confiava inteiramente naquele velho pedaço de papel. 

A madrugada de verão estava perfumada por uma brisa que vagava pelo ar, faltavam poucas horas para o amanhecer quando André deixou a famosa casa noturna acompanhado por alguns amigos, a ideia era irem todos até uma praia próxima para terminar a noite com um mergulho no mar vendo o sol nascer. André, que estava interessado em uma das garotas que acompanhava o grupo, sugeriu que se dividissem entre os carros, chamando a bela morena para acompanhá-lo, o que ela aceitou sem rodeios. Como o seu carro estava um pouco mais afastado dos demais, o casal seguiu sozinho, parando por alguns momentos no trajeto para trocar beijos e caricias. Há poucos passos do belo esportivo vermelho, três homens se aproximaram e se colocaram entre o carro e o casal que só se deu conta daquela presença quando o assalto foi anunciado.

André, que já havia passado por situações como aquela e, em todas as vezes, havia se livrado do perigo de forma inexplicável, não aceitaria a humilhação de ter seu carro levado por três vagabundos e ainda por cima perder a noite que tinha planejado com a beldade que o acompanhava. Com as mãos levantadas, deu alguns passos na direção dos ladrões dizendo de uma forma calma, como se todos ali fossem velhos amigos, mas sem esconder um certo tom de ameaça, que aquilo não era uma boa ideia e que seria melhor para todo mundo que eles fossem embora, assim ninguém se machucaria.

O homem que parecia ser o líder do grupo sacou uma arma e apontou para André, ordenando que o jovem parasse imediatamente, que ele e sua acompanhante se ajoelhassem com as mãos na cabeça e entregarem as chaves do carro e as carteiras. O jovem que, desde aquela remota manhã de sua infância, nunca tinha aceitado acatar ordens de quem quer que fosse, percebeu um leve tremor nas mãos que empunhavam a arma denunciando a falta de experiência do assaltante. Aquele detalhe deu a André a certeza de que mais uma vez sairia ileso e, enquanto sentia o coração palpitando de encontro ao Ás de Espadas que estava no bolso de sua camisa, como sempre acontecia quando ele estava em perigo, sorriu com cinismo e avançou na direção dos ladrões para enfrentá-los, apesar de sua acompanhante que, apavorada e em meio às lagrimas, pedia que ele deixasse que os homens levassem o carro.   
 



Madá voltou para casa com seu filho totalmente restabelecido como se tivesse nascido de novo, mas desta vez sem qualquer problema de saúde - assim o médico havia dito no momento da alta hospitalar. Pela primeira vez em anos ela se sentia leve, não precisava mais temer os dias frios, não teria que enfrentar os olhos cheios de lágrimas do garoto toda vez que fosse obrigada a privá-lo de participar das festas e brincadeiras na vizinhança, seu menino teria uma vida normal a partir de então, como todas as crianças do bairro.  

Enquanto varria a calçada em frente a sua casa imaginando as dezenas de coisas que o menino poderia fazer, teve seus pensamentos interrompidos por uma vizinha que, surpresa por vê-la de volta, parou para perguntar sobre a saúde do menino e sobre como tinham sido os dias no hospital, mas, sobretudo, pela oportunidade de contar com detalhes a história da tragédia que tinha matado o Zé Maria e que ainda era um dos assuntos mais comentados do bairro.

Os olhos de Madá brilhavam de felicidade enquanto ela contava para a mulher que não parecia muito atenta à sua história sobre como ela e o filho tinham sido tratados como se fossem gente rica, sobre o que os médicos haviam dito e sobre o milagre de seu filho ter se curado, mas avizinha, assim que percebeu uma brecha, interrompeu a narrativa de Madá e começou a contar com uma estranha riqueza de detalhes que o barraco em que Zé Maria vivia com Marieta e seus cinco filhos havia sido incendiado há alguns meses, mais ou menos na  época em que Madá tinha deixado sua casa para passar quase três meses com o filho na clínica. Tudo tinha acontecido durante a madrugada e, por sorte, Marieta tinha deixado o lugar acompanhada das crianças na noite anterior ao incidente, depois de levar uma surra do marido que havia chegado bêbado em casa como de costume. A história toda era muito estranha, a polícia não tinha encontrado nada no que restou do barraco de Zé Maria que pudesse ter causado um incêndio acidentalmente, exceto uma vela branca que permaneceu intacta ao lado do corpo carbonizado. Além disso, nem Marieta nem as crianças souberam dizer para a polícia para onde tinha ido e onde tinham passado toda aquela noite, o que fez com que a mulher fosse presa por suspeita de ter assassinado o marido, colocando fogo no barraco para se vingar da rotina de violência que vinha sofrendo há anos. 

Os filhos de Marieta foram levados para um abrigo, mas poucos dias depois ela acabou sendo liberada por falta de provas e agora estava construindo um novo barraco no mesmo lugar onde ficava o antigo, para poder receber os filhos de volta.

Quando chegou a esse ponto, a mulher baixou a voz a um sussurro, como se fosse revelar um importante segredo à Madá, e lhe contou que à boca miúda corria o boato de que a morte de Zé Maria tinha a marca de Caim, que Marieta tinha se livrado do marido violento, mas agora estava em dívida com o feiticeiro e, aonde quer que fosse, carregava uma velha carta de baralho pendurada ao pescoço.

Ao ouvir aquilo, Madá sentiu o rosto corar, sua boca se encheu de bile, uma grossa gota de suor escorreu por suas costas e, tomada por uma irritação que não lhe era comum, respondeu à vizinha, aos gritos, que apenas os idiotas acreditavam em besteiras como aquela, que Caim era só um malandro que vivia de enganar as pessoas, e que todas aquelas histórias eram inventadas pelo povo para por medo em suas crianças e em seus inimigos, um povo ignorante que acreditava em qualquer bobagem só para se sentir melhor e, sem se despedir da vizinha, virou as costas e entrou em sua casa batendo a porta com força.

Diante daquela atitude inesperada, a mulher apenas deu de ombros, pensando consigo mesma que Madá devia estar muito cansada depois de tanto tempo longe de casa e atravessou para o outro lado da rua, sem guardar nenhum rancor, já esquecida do assunto, para buscar conversa com uma outra vizinha que lá estava e que ela sabia ser mais interessada nos assuntos do bairro.  

Quando se viu sozinha dentro de sua casa, Madá se trancou no banheiro e chorou por muito tempo até que, esgotadas as lágrimas, com os olhos inchados e a vista embaçada, foi até sua velha máquina Singer e costurou com um retalho de pano vermelho, uma bolsinha com um fio longo preso em cada lado da abertura onde guardou o Ás de Espada, então, chamou seu menino e sob seu olhar inquisitivo pendurou a bolsinha em seu pescoço, fazendo-o jurar que não importava o que acontecesse, daquele dia em diante, ele jamais deveria se separar daquele amuleto e nunca deveria mostrá-lo a ninguém.

  
 

A morte prematura e violenta de André causou grande comoção como sempre acontece quando a vítima de alguma tragédia é jovem, branco e rico, e uma onda de hashtags exigindo justiça invadiu as redes sociais, despertando ainda mais o interesse de todos por aquela triste história. Tudo o que aconteceu na madrugada do crime foi publicado em sites, blogs e canais de notícias para alimentar a curiosidade mórbida e insaciável do público em geral. Cada pequeno detalhe sobre o incidente foi exposto à exaustão: a noite na boate, a ideia do banho de mar com os amigos, o anúncio do assalto pelos três homens desconhecidos, a moça em lágrimas vendo André caminhar corajosamente em direção aos bandidos - "Ele queria me proteger" - disse ela, o som seco do tiro, os ladrões fugindo, a moça ajoelhada ao lado do corpo, o sangue borbulhando na garganta de André sem que ele tivesse forças para articular um sussurro sequer, a velha carta de baralho que ele levava no bolso da camisa e que foi perfurada pela única bala disparada naquela noite, que atravessou sua carne e atingiu o coração, causando sua morte.  

Os amigos que acompanhavam André na noite do crime foram convidados para dar entrevistas em programas sensacionalistas, enquanto cenas das manobras e aventuras do jovem assassinado eram exibidas ao fundo. Quando questionados sobre o Ás de Espadas que André levava no bolso, os amigos mais próximos contaram que André sempre lhes dizia que aquela carta, da qual ele nunca se separava, tinha sido um presente de seu avô para lhe dar sorte. As redes sociais foram à loucura com aquela explicação que comoveu ainda mais a todos e transformou André num símbolo de simplicidade apesar de sua gorda conta no banco.

Um último detalhe deu ao incidente um tom de ironia do destino que criou uma aura cheio de simbolismos e significados ao redor daquele triste acontecimento. Durante uma entrevista para um canal de TV, enquanto se esforçava para segurar o choro, o pai de André contou ao vivo que seu filho havia morrido no mesmo dia em que Matias, o falecido avô que havia presenteado o garoto com o Ás de Espadas que ele próprio desconhecia, completaria cem anos de idade. 
















 
Fefa Rodrigues
Enviado por Fefa Rodrigues em 08/04/2021
Reeditado em 08/04/2021
Código do texto: T7226609
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Tatuí - São Paulo - Brasil
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