A MALDIÇÃO DE ASDRÚBAL - CLTS 16

FÉRIAS EM KATMANDU

Minha excursão pelo Himalaia começou alegre, como deveria ser uma sonhada viagem de férias programada há dois anos. A extenuante rotina de trabalho na siderúrgica estava esgotando as minhas forças e deteriorando o meu espírito de forma tão visível, que já não era possível esconder os efeitos como eu fazia antes.

Chamo-me Gomes. Sem primeiros nomes. É só assim que quero ser conhecido nessas memórias. O que será descrito aqui, pode não ser novidade, nem tão extraordinário como outras histórias ficcionais. Porém é a verdade. Estranha verdade, diga-se de passagem. E começa no saguão do aeroporto, quando eu aguardava o voo, depois de ter comprado as passagens.

Foi breve o momento que eu o vi. Esbarrei com ele. Era um senhor de barba branca e benfeita. Vestia um terno bem alinhado, de grife. Mas encontrava-se assustado. Visivelmente abalado. Eu não veria essa expressão de novo até aquela noite no mosteiro abandonado, nas montanhas do Nepal.

Deixou cair um livro. Eu vi e corri atrás para entrega-lo. Ao passar pela confusão – pessoas se acotovelando e se amontoando, espremendo-se para passar, mal-educadas e agressivas – eu o vi acenando para um taxi. Ele entrou e eu estiquei o braço com o livro para entregá-lo. Ele repeliu o livro com aquele olhar de quem viu o próprio diabo na frente.

– Não quero. Queime-o, se tem amor pela sua vida. Queime-o para que ninguém leia essas páginas envenenadas.

E o taxi foi embora, levando o velho e deixando batendo na minha cabeça como um martelo persistente num prego torto, essa curiosidade fatal. É claro que eu não obedeceria o velho e o livro tornou-se meu companheiro na viagem que duraria 21 horas, entre as duas paradas que faria.

No voo eu conheci a Ana. Concentrado no livro eu não apreciei no começo as várias interrupções dela. Mas depois desisti de continuar a leitura e passei a dar atenção a ela. Era engraçada e uma bela mulher. Solteira, 33 anos. Esbelta e bem vestida. Cabelos pretos, olhos verdes, lábios volumosos, cobertos por um batom vermelho provocante.

Ana me fez esquecer do livro e despencar com tudo para o mundo real. Eu agradeceria mais tarde a ela por isso. Embora ela só tenha feito adiar a inquietude do meu espírito, eu ainda não sabia do que estava por vir.

–É sua primeira viagem internacional? Deve ser muito emocionante. E essa excursão para o Nepal? Eu fiquei tão empolgada. Posso ir junto?

–Eu não sei, –disse, surpreso. –Teríamos que conversar com os organizadores, ao chegar lá. Eu paguei um pacote fechado, então.

–Ah, tudo se ajeita. Não há nada que o dinheiro não compre. Você não acha?

–Olha. Há alguns anos atrás eu adoraria discordar de você veementemente. Mas hoje eu vejo que sim, você tem razão. O dinheiro pode mesmo comprar tudo.

Ao chegarmos no Nepal, me juntei aos meus companheiros da expedição. Fomos todos em uma vã para o Hotel. Não antes de fazermos o teste para COVID-19. Ficaríamos 10 dias de quarentena antes que pudéssemos finalmente conhecer as desafiadoras paisagens dos Himalaias.

Deitado na minha cama, depois de ter comido o cardápio sofisticado que pedi no quarto, composto de carne de búfalo, vegetais, feijões verdes e um tipo de panqueca feita de arroz, eu sentei com as costas apoiadas na cabeceira da cama e com o livro nas mãos, passei a folheá-lo. Era uma língua desconhecida para mim. E a encadernação e a tinta pareciam muito antigos. Salvo algumas anotações (em esferográfica) nas margens e nos rodapés, nada abrangia o meu estreito conhecimento linguístico.

Tentei, com esforço, levar a sério o seu conteúdo. Principalmente com as palavras do velho efervescendo na minha cabeça como aspirina num copo d’água. Mas eram coisas sem sentido e me fizeram desacreditá-lo como o louco que deveria ser. Mesmo assim, não pude deixar de tentar ler, na língua original, uma passagem, que segundo suas anotações, eram uma maldição capaz de despertar uma raça de demônios tão antigas quanto o próprio Caim.

“Mikgha zuvsly rak. Sepota nut mifan. Pfam Unin nut merspjan. Gacha, Gacha, restuqpa qysnla mon. Nonwero rak lontu gwan”.

Proferida a maldição, me entediei e joguei o livro no chão. Era uma bobagem. E eu estava cansado e precisava dormir. Mas bateram na porta e eu levantei para atender. Era a Ana toda arrumada, num vestido vermelho, maquiada, com brincos brilhantes e um sorriso contagiante. Convidou-me para ira até o bar beber. Fomos.

O bar estava quase vazio. A não ser nós dois, só mais dois homens nas mesas e outro casal na bancada conosco. Fiquei sabendo depois, que por causa da pandemia, o bar deveria ser reservado com antecedência e que Ana já tinha feito a reserva, assim que chegamos no Hotel.

–Engenheiro? Um cargo importante. Mas a sua vida pessoal, argh, uma chatice, por tudo que ouvi até agora. Eu teria me matado. Espero que essas férias façam você rever muitos conceitos.

–Mas então a sua vida deve ser muito mais interessante que a minha? Deixa eu adivinhar. Uma solteirona rica que passa os dias fazendo compras, arrumando admiradores e bajuladores, para inflarem o seu ego e tornarem todas as futilidades as quais você acha importantes de verdade, de fato importantes.

–Nossa. Você foi fundo. Me magoou. Pensa isso de mim? Que sou fútil e vazia?

–Desculpe. Eu não quis dizer isso. As palavras me escaparam. Claro que eu acho você interessante e sexy. Inteligente e também um pouco ousada, se me permite dizer. –Isso eu disse no pé de seu ouvido, comprimindo os lábios, tentando adotar um comportamento que eu achei oportuno e que surtiria algum efeito de conquista. O que na verdade causou foram risos dela.

–Você é mesmo uma figura. Olha só. O operário de São José dos Campos, que tenta parecer um Don Juan com uma mulher como eu. Pergunte pra mim se funcionou o seu teatrinho barato?

–Funcionou?

–Não, – ela disse e depois me segurou pela gola da camisa e me beijou. O bartender nos censurava balançando a cabeça. Então eu levantei, a peguei com a mão e cochichei no seu ouvido: “Vamos terminar isso em outro lugar. Sem plateia”. Entreguei uma gorjeta para o cara e pisquei, tirando uma com a cara dele.

Depois da envolvente e calorosa noite que passei com Ana, eu esqueci completamente o livro, como se ele nunca tivesse existido. Mas algo o fez ressurgir com tamanha força, que a partir daquilo eu passaria a ser assombrado pelos domínios do mal que aquilo comportava e que na verdade era uma pequena parte do todo. Do chão projetou-se uma luz tão intensa que parecia um farol. E o quarto inteiro banhou-se com essa claridade absurda e sobrenatural, que cobria tudo com tons de amarelo.

Desorientado eu cobri os olhos com o braço e abri as cortinas. Queria me livrar de tão ofensiva luminosidade, correndo para a sacada. Mas de repente assim como surgiu a luz foi embora e sob a luz da lua eu encarava boquiaberto outra situação estarrecedora. A cama coberta de sangue e pedaços de corpos espalhados sobre ela. No chão. Dois braços, duas pernas. A cabeça, fui perceber, estava bem embaixo de mim, entre minhas pernas. Com os olhos assustados, uma expressão de desespero, dor. Era Ana. Eu comecei a gritar e chorar. Até ser sacudido. Uma agitação, como cutucadas, safanões. Acordei assustado. Ana mexia em mim para me acordar. Tudo não passou de um sonho. Foi o que pareceu. Mas não sei se o livro realmente não teve nada a ver com aquilo.

Os 10 dias passaram e finalmente iríamos para a excursão. Foram dias maravilhosos, eu confesso. Passamos, eu e Ana, bons momentos, mesmo trancados no hotel. Ninguém do grupo positivou para COVID e seguimos vislumbrados pelas estradas de Katmandu. Ravi, nosso guia, um jovem animado e cheio de vitalidade, tornava o passeio muito mais agradável. Ele falava em inglês, com aquele sotaque engraçado e empolado. No local onde nos encontrávamos agora, um emaranhado absurdo de fios de energia elétrica e telefonia se entrelaçavam e cruzavam as ruas. Os prédios e casas eram uma miscelânea de construções antigas, outras não terminadas, com os rebocos chapiscados ou sem reboco nenhum. Comércios apinhados de mercadorias, que estreitavam ainda mais as vielas já estreitas.

Conforme nos afastávamos do centro o conturbado e cacofônico cenário ia sendo deixado para trás e as belezas mais idílicas do local brotavam. Fizemos uma parada para almoçar. Enquanto caminhava ao lado de Ana, tive uma sensação estranha de que estava sendo seguido. Mas um dos excursionistas que nos acompanhava me abordou empolgado e fez com que eu esquecesse isso.

–Ravi falou que vamos conhecer a Grande Stupa do Boudhanath. É o meu sonho conhecer esse templo, desde que assisti O Pequeno Buda. Vocês assistiram?

–Não, Felipe. Eu não assisti. Eu disse, para encerrar logo o assunto. Mas Ana puxou conversa.

–É aquele que o buda é interpretado pelo Keanu Reeves bem jovem, né? Eu assisti. Foi a primeira vez que tive contato com a história do Buda. Lindo filme.

Almoçamos. Por sorte o lugar oferecia uma comida típica brasileira para quem quisesse, fora do cardápio. A comida no hotel me fez passar uma noite horrível sentado no trono. Não queria arriscar de novo e estragar o passeio para mim.

Ao voltarmos para a vã eu vi com esses olhos que a terra há de comer, uma sombra projetar-se entre os sobrados de três andares dos dois lados de uma viela. Não era qualquer sombra. O dorso era espinhento, cheio de discrepâncias pontudas como nos dragões e tinha rabo. Eu tinha certeza do que vi, mas não falei nada. Nem pra Ana. Mas passei a sentir os estranhos efeitos dessas aparições demoníacas, que estavam só começando.

Nos arredores da Grande Stupa era impossível não sentir uma paz de espírito ao ver tanto devoção e religiosidade. Os turistas e nepaleses compravam oferendas, comidas e presentes. Uma mulher estendeu um grande tapete no meio da rua e sentada, apregoava as mercadorias que vendia e nas quais estava envolta. Abóboras, vagens, cebolas e temperos. Muitos temperos. Mas toda aquela adoração e espiritualidade não foram suficientes para afastarem aquela sensação estranha de perseguição. E mais uma vez, só que agora não apenas sombras projetadas na parede, mas algo substancial e palpável foi testemunhado por esses olhos. Eu vi os olhos da criatura. Eram olhos grandes e vermelhos. Espiava por cima de um muro. Seus dentes cravados nos tijolos eram como hastes de ferro puro e sua pele escamada de cor cinza esverdeada parecia como a pele dos lagartos. Dessa vez não apareceu ninguém para afugentar as perturbações causadas por aquela visão e eu me agarrei às orações.

Quando subimos o templo eu vi umas pessoas orando. Elas levantavam as mãos acima da cabeça e depois no queixo, lembrando um pouco o sinal da cruz dos católicos. Estão elas escorregavam em colchões, deslizando sobre as palmas das mãos e voltavam a ficar de pé, erguendo o peso dos seus corpos com os joelhos. Faziam isso algumas vezes, várias vezes. Usei um daqueles colchões que ninguém estava usando e repeti o ritual, sem nem saber o que pedir ou a razão daquilo.

Eu fiquei com medo de permanecer com aqueles inocentes e felizes colegas. Medo de trazer o mal que me perseguia para junto deles. E lhes fazer mal. Afastei-me da turba e segui meu caminho sozinho. Recebi uma mensagem no whatsapp da Ana, perguntando onde eu estava. Respondi que precisava fazer uma coisa, sozinho, mas que já me reuniria à eles. Eu tirei a máscara e a coloquei no bolso. Estava me sufocando e notei que fora da multidão não precisaria dela.

Segui por uma estradinha, a qual se erguia por uma elevação íngreme e na qual degraus de pedra foram construídos em tempos remotos. Corrimões delimitavam a escada e serviam de suporte para me apoiar. Não sabia o que encontraria lá em cima, mas seria um trajeto cansativo e a garrafa de água que trazia na mochila já se encontrava pela metade.

Ao alcançar o topo, parei para descansar uns cinco minutos. Vi à direita uma trilha que levava a algum lugar e decidi seguir por ela. Não muito distante ficava uma Viara, como vim a saber, pelo guia, que eram chamados os mosteiros budistas. O local parecia abandonado. Os raios de sol penetravam pelos buracos no teto e rachaduras nas paredes, impingindo um ar ainda mais sombrio e onírico à estrutura.

–Sente-se, peregrino.

Ouvi, quando já ameaçava dar meia volta. Eu não via ninguém, mas a voz vinha do centro, ecoando com estrondo assombroso.

–Eu sou um turista. Um viajante. Não sou um peregrino.

–Dá na mesma, peregrino. Vocês estrangeiros curiosos, sempre metendo o nariz onde não são chamados. Não é?

–O que é que você sabe de mim, monge? –Nesse momento, enquanto eu me aproximava, a presença misteriosa ia se revelando aos meus olhos. Um monge, como todos os monges. Um homem magro, careca, usando as vestes laranjas características e com um olhar sereno, mas que passava uma energia boa, um conforto.

–Eu sei que você esbarrou com um homem, que deixou cair um livro. Que você tentou devolvê-lo, mas ele não o aceitou de volta. E mandou você queimá-lo. Se livrar dele. Sei que você não obedeceu, o que ele suspeitou que você faria. Você evocou a maldição e agora os Gacha estão soltos por aí. Não é?

–O livro. Então, tudo isso é por causa do livro? O que são essas criaturas? O que elas querem?

–A maldição começou há 2.400 anos atrás, na Pérsia. Um demônio poderoso chamado Mahinvlak, querendo se rebelar contra Lúcifer e liderar sua própria legião de demônios, escreveu um livro e atiçou pessoalmente a sanha por conhecimento de um persa poderoso chamado Asdrúbal, uma espécie de Fausto da antiguidade. Com a seita iniciada e a primeira alma arrebanhada, o demônio conquistaria a liberdade para os seus seguidores, dos domínios de Lúcifer, enquanto durasse seu pacto com o mortal condenado.

–E depois? O que aconteceria?

–Depois? Não houve depois. Acontece que Mahinvlak fora ludibriado pelo engenhoso Asdrúbal, que para escapar da condenação eterna, conseguiu, pelos seus conhecimentos de magia e alquimia, conjurar outro demônio chamado Mamon e aliou-se a ele para que, conforme firmado, não ele, mas qualquer outro que proferisse a sentença, tivesse a alma condenada eternamente no fogo do inferno, enquanto ele, Asdrúbal, vagueia no mundo dos vivos, despertando esses demônios de tempos em tempos, enquanto a maldição é proferida e esses pobres mortais, como você, são levados pela curiosidade a abrirem os portões do inferno para que os Gacha atormentem os vivos por um tempo.

–Se isso que você está dizendo for verdade. Deve haver um meio de quebrar essa maldição.

–Deve haver caro amigo. Mas creio ser tarde para você. Pois as 30 gerações de amaldiçoados terminam com a sua linhagem. E agora uma corrida frenética contra o tempo se inicia.

–O que eu devo fazer? –Perguntei, mas antes que pudesse obter a resposta do monge, aquela criatura que rastejara pelas sarjetas, me perseguindo até ali, dilacerou a garganta do homem e ele caiu morto sobre seus pés.

Eu corri com todas as forças que ainda me restavam. Embrenhei-me pela floresta e procurei despistar o demônio enfurecido que vinha em meu encalço. Ouvia o seu farejar e sua respiração medonha tão próximos que o calor do seu bafo sufocava os meus nervos e me fazia vacilar na empreitada.

Depois de um tempo me escondendo e rastejando pelas sombras e moitas, eu consegui finalmente voltar à civilização. Ao ver diversas mensagens de Ana, me dei conta de que a excursão tinha acabado e eles voltaram para o hotel. Eu não podia voltar para lá, para não pôr em risco a vida de todos. Mas o livro estava lá, eu não tinha outra escolha.

O monge morreu daquela forma horrível, antes que pudesse me dizer o que eu devia fazer. Só poderia me socorrer com o livro. Nele encontraria as respostas. Mas ao me arriscar em voltar para o hotel e adentrar o quarto, eu não encontrei o livro. E ao bater na porta do quarto de Ana, não fui atendido. Retornei ao bar, onde nos encontramos naquela noite. Mas ela também não estava lá. Pedi uísque e fiquei praguejando e lamuriando a minha má sorte e o infortúnio que sofreriam todos aqueles cujas suas vidas se confrontassem com aquelas criaturas demoníacas. Estava tudo perdido para sempre agora.

Resignei-me em aceitar que talvez toda aquela história fossem loucuras de um monge solitário que ficou louco e inventou uma história absurda, esperando que algum dia um desavisado como eu cruzasse o seu caminho para poder proferi-las e então sentir-se em paz em confirmar que alguém acreditou nelas. Mas isso não explicava a criatura devorando o pescoço do próprio monge, nem as perseguições das mesmas criaturas desde o restaurante até o Grande Stupa.

Voltei para o Brasil com essa incerteza me corroendo os ossos de que me encontrava amaldiçoado e de que a minha vida condenada, não passava de um jogo e eu uma peça nas mãos do sobrenatural e de forças que desafiam e sobrepujam as miseráveis vidas humanas. Não voltei a ver de novo a adorável Ana. Ela tinha deixado o hotel antes do fim da nossa excursão. Quer dizer, ela nunca fizera parte de fato da excursão e seu comportamento furtivo e extravagância, davam conta de que ela era uma mulher do mundo e de que não tinha endereço fixo, nem de que seu coração tivesse dono.

O REINADO DOS GACHA

Tudo transcorreu conforme os desígnios de Asdrúbal, que sua ancestral, 30 gerações futuras, assegurou com perfeição que se confirmasse. Ana recuperou o livro e concretizou a maldição, libertando a alma do seu parente e condenando em seu lugar, para sempre, a alma do pobre e enganado Gomes.

O salão suntuoso do castelo espanhol, mergulhado no sangue de quarenta mortos, jamais foi palco de tanta carnificina, nem nos tempos áureos da idade média, quando todos os seus aposentos estavam sempre cheios de convivas, damas e cavaleiros.

Ana havia conquistado o que o seu ancestral, em vida, tentou, mas fracassou. A vida eterna, do corpo e da alma, indissociáveis. Seus servos, os Gacha, capturavam as presas que ela devorava ainda vivos, sentindo o sangue quente circular e misturar-se com o seu sangue em suas veias. Um coração quente pulsava agonizante na sua mão. Enquanto ela arrancava um pedaço, uma mulher gritava agonizando ao ter os braços arrancados por dois Gacha, um puxando de cada lado. A criança de colo que acabara de presenciar a morte da mãe, permaneceria viva mais alguns anos, até que estivesse pronta para o sacrifício. Seria uma serva humana, como Julieta, de 13 anos. Devotada e fiel mucama da senhora.

Sevilha, como outras cidades da Europa e da Ásia, sucumbiam diante da barbárie e da matança. Nada podiam fazer contra um inimigo tão poderoso. O velho, que passou o livro para Gomes, o qual talvez fosse o único agora capaz de fazer algo para parar aquilo, jazia morto na sua banheira com os pulsos cortados. Gomes, ignorante causador de toda aquela desgraça, ainda suspirava e gemia pela partida de Ana, seu grande amor.

TEMA: INVOCAÇÕES MALÍGNAS