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Pula pula geremias... pula.

Não há o que dizer de um conto que começa com a negação. Nesse instante nosso personagem principal atinge o clímax de sua felicidade. Um passo a frente, e dez andares abaixo. Dez andares de queda livre. Tudo que nos leva a morte nos leva à liberdade. No caminho da vida atalhos não são ruins.

Pouco antes:
  Não sei quem botou em nossas cabeças que atalhos são ruins. É culpa dessas merdas de contos infantis. Quando pensamos em atalhos logo pensamos no caminho escuro da floresta, no lobo mal... Mas a verdade é que se tivesse dado certo, ela teria chegado muito antes na casa da vovó. Olhe só, aqui estou, segundos antes de pular, pensando em chapeuzinho vermelho. O vento sopra tão poeticamente, o barulho do vento é tão cruel, me deixa tão isolado, é bom. É um nirvana particular, físico. Nada como ser ensurdecido pelo vento. Tudo está poético. Tudo é poétco quando se está perto de morrer. É sinal de que há realmente algo de especial na morte. Quem tem medo da morte tem medo de poesia.
Eu tenho medo de dar um passo. Como será que vou cair? É melhor tentar me virar e bater com a cabeça primeiro. Mas será que consigo me virar no ar? Os pára-quedistas conseguem. Eu posso dar um jeito. E, mesmo se não conseguir, eu vou morrer igual. São dez andares. Uma vez ouvi dizer que uma mulher pulou do oitavo andar de um prédio, pedaços de carne e cabelos ficaram tão compactados à parede que não puderam ser removidos. O zelador passou tinta por cima.
Meu pé direito testa o vazio. O outro saltita para manter o equilíbrio. E eu volto à beirada do concreto, assustado como um pássaro aprendendo a voar. Mal consigo respirar. Tem uma igreja lá do outro lado da rua. Será que consigo chegar até lá? Improvável. Devo só me deslocar alguns metros pra frente. E a queda vai levar só alguns segundos. Três ou dois. Talvez menos de dois. Não tenho nada contra católicos, mas acho hilário eles acreditarem que existe um paraíso e terem medo de ir pra lá. Na verdade existe o paraíso, a morte, a poética morte, os católicos estão certos. O único detalhe é que nesse paraíso nós deixamos de sermos nós, deixamos de ser. Nos tornamos tudo, nos tornamos nada. E isso é o que apavora. Por isso que as pessoas que não gostam de si acabam por se matar. Elas perdem o único medo que impede agente de ir para o paraíso. Os outros covardes ficam sendo arrastados na terra para o mesmo lugar. Dizendo que quem pega o atalho se fode. Mas não é verdade. O atalho deve ser pego pelos corajosos. Que conseguem realmente deixar de ser egoístas. Esquecem quem são, não para serem felizes, mas para serem a felicidade.
Ele sensatamente pulou.
Hillemack
Enviado por Hillemack em 26/09/2008
Reeditado em 27/09/2008
Código do texto: T1197117

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Sobre o autor
Hillemack
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 34 anos
1 textos (28 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/05/21 10:26)