O estranho mundo de Belmiro Maravalha

A primeira vez que Belmiro notou aquele edifício, acreditou ter visto algo de outro mundo ou presenciado a figura de um fantasma. Era comum, nem muito novo, nem muito velho, 5 andares, estreito e sem nenhum atrativo o destacando de qualquer outro. No lugar existia um terreno baldio tomado pelo mato, com restos de tijolos e tábuas velhas.

O motivo de tanto assombro, foi por aquele prédio não estar lá no dia anterior, e coisas daquele tamanho não apareciam de uma hora para outra, pensava Belmiro.

Quando chamou a atenção dos vizinhos, quanto ao fato daquilo ter surgido do nada, começaram a olhar para ele com cara de espanto, pois aquele edifício sempre esteve no mesmo lugar, "uns 20 anos", diziam.

Belmiro ficou matutando ainda, por alguns dias, se porventura existiria alguma possibilidade dele não ter notado aquela edificação tão próxima de sua casa, concluindo que, ou aquilo simplesmente não passava de uma brincadeira muito bem feita, ou algo de muito estranho havia acontecido.

Então, quando já conformado com a situação, aquele mistério jamais ser solucionado, pois todos negavam as evidências racionais de Belmiro, o famigerado fantasma de 5 andares some. Novamente o lugar abandonado, o mato, os entulhos.

Ao invés de ficar aterrorizado, Belmiro desandou a rir. Atravessou a rua rumo ao terreno, e entrando nele, no meio do mato, ficou lá gargalhando, de braços abertos. Era a síntese da loucura. Qualquer um o observando naquele estado, teria certeza que endoidara de vez. E não adiantou ponderar novamente, tentando se fazer entender, mostrando o ocorrido, porque todos reagiam com a mesma surpresa: "Qual prédio Belmiro, tá louco?".

Sendo um morador bem visto, relacionava-se razoavelmente com os vizinhos, porêm agora era cumprimentado e apontado com ares de desconfiança, e em pouco tempo existiam boatos sobre Belmiro estar usando drogas, pois somente isso, comentavam os moradores, faria com que um homem se portasse daquela maneira.

Viu então que continuando na sua teimosia de convencer as pessoas da estranheza da situação, dos fenômenos que ultrapassavam qualquer entendimento, iria acabar na sarjeta.

Tentou contudo levar uma vida normal. mas sempre surpreendido pelas mudanças que continuavam acontecendo embaixo do nariz de todos, ainda mantinha um olhar catatônico quando se aproximava do local. Dissimulando seus bate-papos com os amigos, desconversava quando tocavam no assunto. Mas o edifício continuava aparecendo e desaparecendo em variados intervalos de tempo e sem nenhuma seqüência lógica para Belmiro comparar, prever.

Montou inúmeras tabelas com as datas das alterações, tentando relacioná-las a algo, entender sua origem, seu mistério. Fases da lua, dias pares, ímpares, feriados, condições de tempo, aquele fenômeno não se condicionava a nada. Tudo era uma incógnita.

Belmiro temia aproximar-se, tocar, mas sabia ser isso inevitável. Tinha de investigar o que havia por trás daquela porta de vidro fumê, sempre tão silenciosa. Nunca vira ninguém sair ou entrar. Nenhum movimento em suas janelas com cortinas brancas, sempre fechadas. Nem sequer luzes eram acesas quando a noite caía. Se não desvendasse esse mistério, com certeza enlouqueceria. Isso o atormentava, e a cada mudança, sentia o temor daquilo continuar indefinidamente.

------"Vou entrar e levar alguém comigo", decidiu. Caso sucedesse algo, testemunharia a seu favor para não o julgarem ser o único doido da rua. Convidou Cícero, amigo de longa data, quase um irmão. Ele ficou desconfiado, perguntou o que iria fazer lá. Belmiro disfarçou inventando a necessidade de visitar um colega.

Mesmo assim Cícero estranhou. Belmiro contornou, dizendo ter esse colega uma fantástica coleção de discos de vinil dos Beatles, e por isso o estava chamando.

O amigo abriu um enorme sorriso. Falar dos Beatles para Cícero era como enfiar uma nota de cem em seu bolso.

E foram. Cícero saltitante de alegria. Belmiro numa naturalidade disfarçada.

-------“Como é o nome dele?”---perguntou Cícero.

Belmiro nem pestanejou:--- “Lúcio”.

Entraram. O primeiro temor de Belmiro era possibilidade do lugar estar trancado, mas para alívio seu, a fria maçaneta girou e a porta se abriu. O mistério finalmente iria ser desvendado.

A primeira impressão foi surpreendente. Um homem de olhos miúdos, sentado atrás de um balcão observava os dois que entravam. O coração de Belmiro acelerou. Mas o vazio no estômago e o sobressalto da aventura duraram poucos instantes. Cícero, entrando por último, cumprimentou o porteiro numa intimidade incompreensível. Apertos de mão, sorrisos. Cícero indagando sobre a família, o porteiro respondendo naturalmente.

------ “Conhece ele?”.-----Perguntou Belmiro ao amigo. Cícero estranhou, dizendo que Belmiro ainda não estava bem.

----“Como não haveria de conhecer o "seu" Sebastião? Tanto tempo trabalhando aqui”,----Reclamou Cícero, indignado com aquele disparate. Belmiro ficou ali parado, mudo, estático, somente observando todo o lugar com os olhos assustados. Um ventilador girava vagarosamente, e uma luz fluosflorescente piscava a todo o instante sobre suas cabeças, deixando o ambiente com um ar extremamente comum e real. E não era nada disso que esperava Belmiro.

Mas antes de poder entender a situação, os seus pensamentos foram interrompidos pelo amigo, perguntando se não tinham ido lá para ver o tal. Mas o porteiro não deixou Belmiro responder, avisou estar Lúcio esperando. Podiam subir. Último andar. Apartamento 5.

É quase impossível descrever o que Belmiro sentiu naquele momento. Não podia compreender aquilo. Sua mente, como mergulhada em uma tempestade, já tinha perdido o rumo a muito tempo, não conseguindo discernir o coerente, o racional, do absurdo e do impensável. Por isso não havia muito a fazer, a não ser manter-se inabalável e prosseguir com o que ele mesmo iniciara.

Partiu quieto para o lance de escadas no fundo da sala. seguido de Cícero. Não cruzou com mais ninguém no percurso até o quinto andar, e chegando, quem lhe abriu a porta foi um homem grisalho, óculos fundo de garrafa, segurando um controle remoto de televisão. Teve uma recepção extremamente calorosa, apesar de nunca ter visto aquele sujeito em toda a sua existência.

Lá dentro, durante a conversa, notou que o insólito Lúcio conhecia toda a sua vida, nos mínimos detalhes. Mostrou sua coleção de vinil do Beatles a Cícero, e esse radiante, nem notou a ausência de interesse de Belmiro quanto ao amigo recém reencontrado. Porém, aos poucos, foi se soltando naquilo que imaginava ser um jogo mental.

Inventou nomes e fatos, e mesmo contendo detalhes extravagantes, sempre se encaixavam em relação a Lúcio. A partir daí, Belmiro iniciou uma estranha rotina, com visitas semanais ao apartamento nr 5, proporcionando-lhe experiências inusitadas.

Criava coisas cada vez mais absurdas, e para seu divertimento, eram sempre abonadas com realidade instantânea, sem esforço. Certa vez cobrou uma quantia em dinheiro do amigo imaginado, suposta dívida antiga. Recebeu prontamente o valor com inúmeros pedidos de desculpas. Bastava Belmiro dizer, e tudo se realizava.

Mas aos poucos Belmiro começou a se enfadar daquilo. Não da situação, mas de Lúcio. Por isso resolveu livra-se dele. Disse a todos ter comprado o apartamento, trocado os móveis e ficado com a coleção dos Beatles, a qual daria ao amigo Cícero. Quando de uma nova visita ao prédio, foi avisado de já estar tudo pronto, com as chaves á sua disposição. A partir desse momento Belmiro começou a extravasar todos os seus desejos, até os mais obscenos.

Festas tornaram-se constantes por todos os 5 andares, já ocupados pelos mais estranhos personagens criados pela mente deturpada de Belmiro. Até o porteiro Sebastião fora trocado por uma estonteante Marilin Monroe.

Passava todo o tempo lá, ainda mais quando transformou-se no proprietário do fantasma o qual tanto o atormentara no passado, e outrora não tendo nome, chamava-se agora Edifício Belmiro Maravalha.

Nem seria preciso dizer que ele não mais se importava com os aparecimentos e desaparecimentos que tinham cessado. Sentia-se como um rei, capaz de realizar tudo.

Isso continuou por um bom tempo, sem nenhuma interrupção no reinado de Belmiro, até a rotina daquele estranho mundo ser interrompida bruscamente. O frenético e pulsante edifício, cheio de vida em seu interior, desapareceu.

Até aí nada de anormal, pois isso acontecia no passado cerca de 3 vezes por semana. O importante a destacar era o fato de Belmiro estar dentro dele. A partir de então o lugar voltou a ser novamente o que era antes, um terreno vazio e tomado pelo mato. E obviamente, como sempre acontecia, ninguêm notou nada.

O leitor pode se perguntar qual foi o destino de nosso personagem principal. Podendo andar pelas ruas da vizinhança, conversar com as pessoas, principalmente com Cícero (isso se conseguir faze-lo parar de ouvir, por um minuto, sua raríssima coleção de vinil dos Beatles), ficaria sabendo que nunca se ouviu falar de Belmiro algum. Principalmente de um prédio com 5 andares, estreito, onde esse sujeito morara recentemente.

Aqueles estranhos fenômenos nunca mais ocorreram. Quando partiram, levaram Belmiro Maravalha e toda a realidade criada por ele, de onde, provavelmente nunca mais volte.

FIM

Márcio José
Enviado por Márcio José em 23/10/2006
Reeditado em 14/06/2008
Código do texto: T271416