Meu Pequeno Grande Amor

Observando o final de tarde, fitando o pôr do sol que naquele dia parecia infinito, algo me chamou a atenção: uma borboleta voava ao meu redor. Pousou numa flor logo ao meu lado e ficou a balançar suas belas asas de um laranja forte, coberto com algumas marcas e pintas. Era tão lindo que eu quis tocar. Tão magnífico que não existe algo que possa ser feito que se iguale à beleza da vida. Eu estava arrebatado. Apoiei meu queixo em minhas patas e suspirei, desviando o olhar. Se a vida é tão bonita assim, por que eu não me sentia belo? O pôr do sol era estonteante, a vida correndo ao redor de mim trazia uma sensação apaziguadora, confortante. Leopardos escalando árvores, leões dormindo, gazelas pulando, outras criaturinhas que eu não sabia dizer o que eram, mas que estavam ali, complementando um vasto mundo sem objetivos... E lá, distante, além da vegetação, além do pôr do sol, além de qualquer coisa que pudesse ser vista ou deslumbrada, repousava o meu amor. O meu pequeno, grande amor. E eu não podia alcançá-lo, eu não podia senti-lo, muito menos admirá-lo; estava distante de mim, era uma utopia para a minha existência tão abençoada com coisas tão belas ao meu redor. Uma utopia. Heh. Não seria eu a utopia? Vivendo num mundo de harmonia e me sentindo à parte, me sentindo fraco, desnecessário, desprotegido... Eu era o monstro das histórias de filhote, eu era aquele quem estragava a harmonia por causa de um motivo que, realmente, não se justificava por si só. E por quê? Por que, eu perguntei. Mas resposta não há, quando na mente paira apenas o desgosto por ter se tornado algo estranho, algo distante, à parte, não mais incluído e, portanto, não mais necessitado. Minha única esperança eram o meu amor, aquele pequeno, mas tão grande amor. O amor que não podia ser vivido, nem expressado, apenas imaginado. Eu não sentia, imaginava. E com toda a magnificência do mundo, não me sentir parte dele era um sentimento cruel, destrutivo, cheio de raiva, ironia, incompreensão... E a pergunta derradeira se resume sempre à mesma: a quem culpar? Não tinha capacidade de lidar com a conseqüência da culpa, então teria que culpar algo ou alguém para aliviar meu interior conflitante. Mas quem? Se estava tão claro que não havia o que se culpar?

Nos braços do conforto eu queria me entregar, adormecer no acalento de um ronronar e, na companhia do amor, me sentir protegido, incluído, necessitado, num mundo onde todos nos temos abandonados e perdidos; caminhamos num escuro semi-iluminado pelos medos do ser e esperamos atravessar o corredor do que não pode ser ainda com vida para poder então realizar a utopia que é os nossos pensamentos.

Um toque suave em minha pata chamou minha atenção; a borboleta estava placidamente parada nela, mexendo suas asas em movimentos lentos, que acompanhavam as batidas de meu coração e, por um momento de perplexidade, parecíamos estar trocando olhares que reafirmavam a vida que existia dentro de mim, mas que eu não deixava sair. Logo o pequeno inseto saiu voando pelos céus, se perdendo naquele alaranjado intenso que vagarosamente ia dando lugar ao azul, cada vez mais escuro. Suspirei, assustado, e levei a mesma pata que a borboleta havia pousado ao meu peito, pulsando num ritmo acelerado; dali ainda emanava um fio de vida que lutava contra a minha vontade inconsciente de se fazer morrer. Fechei meu punho contra meu coração, descansei o olhar e tentei sentir a harmonia que existia dentro de mim. Ela estava longe, nas profundezas escuras da caverna de minhas razões, presa em uma cela dourada, mas segura por cadeados enormes e sem chave. Eu teria que percorrer o grotesco caminho até ela sozinho, sabia que as chaves viriam até mim se eu me dispusesse a encontrá-las. Eu beberia toda a água do oceano para encontrar aquele meu pequeno amor; se não fosse possível, eu o atravessaria a nado. Se ainda assim eu não conseguisse, encontraria um modo de aprender a voar, se apenas o sorriso do sonho amado pudesse ser visto em um curto vislumbre que me cobriria com determinação; eu correria o mundo para encontrá-lo. Mas ali dentro, onde pairam os piores medos, as fobias, as ameaças, a culpa, o remorso e apenas uma fagulha de amor apagando com o frio do temor, sem qualquer lugar para se tornar para receber apoio, para me sentir coberto com a esperança de que um dia eu hei de encontrar as chaves dos cadeados que eu mesmo coloquei, as coisas se invertiam. Ali, você, meu pequeno, já havia definhado pela falta dos cuidados que eu prometera lhe dar; ali, eu estava sozinho e seria por mim mesmo que teria que lutar.

Abri os meus olhos e fitei o horizonte, já descolorido na escuridão que engoliu a alegria do dia. Meu pequeno, grande amor tinha ido embora com o sol e, mais uma vez, era só eu mesmo. Se eu lutasse por você, amor, grande, mas pequeno, você lutaria por mim? Se eu fosse sempre atrás do sol, sempre em busca de admirar seu ser, você estenderia sua pata amiga, de onde emana o calor do carinho e aceitação e me guiaria - e me protegeria - dos caminhos tortuosos e sinistros que levam até a fonte de meu coração, até o último resquício de minha harmonia?

Mas você está longe demais para escutar a minha lamúria. Se meu amor, pequeno, porém grande, soubesse que era tão amado, ele não teria me deixado? Se eu estivesse incluído, isso teria importado? Eu sei que você gosta de mim, meu pequeno, eu sei que às vezes você acorda no meio da noite, num sobressalto, assustado, sozinho, acuado, necessitando carinho, e se pergunta o que faz, o que fazer. Eu sei que a noite chega também para você e que, por mais que você não tema a escuridão, os fantasmas da reclusão conseguem cobri-lo quando a guarda baixa e não há ninguém para avisá-lo do mal que se aproxima. Meu grande amor, você se sente amado? Sua alma também tem espaços vazios esperando para serem preenchidos? Será que nossos espaços se completam, ou o amor que eu sinto por você, meu pequeno, não passa de uma pergunta que ecoa na mente de alguém que, com todo o esforço, tenta suprimir a vontade e a vida que emana num coração débil que reluta a viver?

Se faço tantas perguntas é porque resposta alguma procuro, mas sim a estrada que me guiará para o sol, para a vida, chega de viver no escuro, não quero sofrer, mas estou num labirinto; quantas mais perguntas terei que fazer? Serei eu mais um que irá perecer neste curto, mas confuso, pensamento?

Não.

Eu não vou deixar. Eu vou buscar a esperança, eu vou buscar o meu sonho, irei em busca da vida que deixei para trás, pois pesava demais na bagagem. E eu vou encontrar. Por que meu pequeno grande amor me espera lá do outro lado, lá no além, lá onde eu não posso alcançar, e só poderemos nos reencontrar no dia em que eu deixar de lutar contra as intenções do coração e fingir que sou algo à parte de tudo. Meu grande, e pequeno, amor me incentiva. Ele já está fazendo tudo o que pode por mim, mas ainda assim eu lhe peço mais, lhe peço que faça tudo por mim por que sou medroso demais para tentar e talvez não conseguir na primeira vez. Eu já deixei esta oportunidade passar muitas vezes, diversas vezes. Agora não vou deixar escapar-me, vou me guiar pela luz que emana da fagulha que eu ainda não consigo ver, mas posso muito bem sentir. A presença deste meu pequeno, mas grande amor segurará minha pata e me acompanhará lado a lado enquanto eu lutar para me encontrar nas penumbras dos meus receios onde me escondi. Eu sou uma alma carente, uma alma necessitada, mas tenho força, tenho a determinação e a visão, mas acima de tudo, tenho a capacidade de aprender com todos aqueles erros que cometi.

Um passo após o outro, por mais lento e eterno que possa parecer, meu grande amor, eu chego até você!

Pois afinal, o sol há de brilhar por nós dois também.

Me aguarde; assim como você trabalha nos seus passos, eu estou trabalhando nos meus; nossos caminhos irão se reencontrar...

...se apenas tudo pudesse durar um pouco mais...

Vagner Albino
Enviado por Vagner Albino em 03/11/2006
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