Bola de pelo

“Taí o teu passaporte”, a mulher diz antes de fechar a porta atrás de mim. Eu levanto a cabeça. Tenho permissão ver o mundo girando novamente depois de 30 anos engavetado. O céu coalhado de nuvens parece mais azedo olhando daqui de fora. O papel eu levo apertado na mão.

Tenho as pernas cansadas de vagar pela rua. Já não sou mais um menino. Quando entrei, eu era novo, como tudo nesta cidade agora me é. Os carros, as cores, o cheiro, a paisagem, os sons são todos novos. As mulheres são novas e martelam as calçadas com seus saltos ruidosos. Me encantam as pernas femininas. São lisas. Sem pelos.

O sol dissolve os miolos depois de horas caminhando embaixo dele. O asfalto amolece e ondas de calor embaçam a visão.

Deitado no chão, eu vejo um homem velho. Ele fede a urina de gato. Eu tive uma gata. Eu me lembro bem. Ela se enroscava em qualquer um. Foi inútil tentar mantê-la presa. “Pegue um trem no final da ladeira”, diz o velho me jogando um pouco d’água na cara. Eu podia ter jogado água fria pra separá-los, mas não me arrependo do óleo quente. “No final da ladeira”, ele insiste. Eu não lhe pergunto nada, mas o ancião sabe para onde vou. Os velhos se entendem. Gostam de falar de suas doenças. Sou um deles agora e eu não sei falar sobre osteoporose. Os assuntos ficaram velhos. Eu fiquei velho. Talvez eu vomite um pouco.A garganta arranha.

Levanto-me para não ouvir mais o velho destilar enfermidades.

Me lanço à ladeira. Eu abaixo a cabeça por força do hábito.

Os trilhos me jogam de um lado para o outro, espalhando as minhas parcas moedas no chão. Eu as joguei na cara dela. Sua vira-lata, você vale menos que isso! Subo e desço sacudindo-me em suas curvas. O vento frio de morte lambe os meus fios cor de prata suja. O gosto de bílis me sobe à boca. A garganta arranha.Os fantasmas me olham de soslaio.

Fim da viagem.

Eu ando devagar. Tenho uma bola de pelo no estômago e a garganta arranhando.

O suor me imprimiu um número na pele. Feito um animal marcado a ferro quente sigo com as inscrições sobre o couro, procurando a pensão com o mesmo algarismo. Tonteio. Vou vomitar. Talvez. Eu tenho uma bola de pelo no estômago e a garganta arranhando.

Entro.

Há uma poltrona de couro-falso posicionada no meio do meu olhar. É prazeroso tocar uma coisa tão macia. A última vez foi há trinta anos. Era bom tocá-la, de cima a baixo. Mas ela era igualmente falsa.

O chão de assoalho treme enquanto eu caminho para os braços dela.

A tela da televisão é grande. Muito grande. O mundo é grande e eu estou cada vez menor, mais encurvado.

O filme não é inédito. Uma casa. Sete horas da noite. Sons vindos do fundo. A passos lentos, ele atravessa a sala. Ele surpreende a fêmea no quarto de quatro para um macho. As moedas tilintam no solo. Óleo quente no couro. Ela o arranha. Os fantasmas me olham de soslaio.

Final do filme.

Um copo d’água, eu peço. Tenho uma bola de pelo no estômago e a garganta arranhando. A voz não sai, a ânsia não a deixa sair. Há muitos botões nesta camisa. Os homens já não usam mais tantas camisas como há trinta anos. Eu gosto de camisas. Elas diferenciam os vira-latas dos bem-criados.

Desabotoo o colarinho.

O lustre treme. As janelas tremem. Minhas mãos tremem.

Água, por favor! eu grito. Grito pra dentro, ouço o eco, ninguém me escuta a não ser eu mesmo. Lá fora chove a cântaros. As ruas alagam com uma velocidade que me assusta. Eu ando devagar. Gato escaldado tem medo de água fria. Ou de óleo quente no lombo.

Vomitar. Preciso.Tenho uma bola de pelo no estômago e a garganta arranhando. Aperto o cinto em volta do pescoço para liberar o jato.

Nada mais treme neste lugar.

Cadê o passaporte dele? pergunta alguém antes de me fechar na gaveta.

(Maria Shu – 15 de abril de 2011)

Maria SHU
Enviado por Maria SHU em 16/04/2011
Reeditado em 17/04/2011
Código do texto: T2911736
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