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IMPOSSIBILIDADES

Certa mulher queria por fim e por todos acabar com a solidão do mundo. Tinha no seu peito muito amor pra dar e não admitia ante toda beleza vasta que se oferecia a vista dos mais óbvios sentidos haver gente que levava sua vida catando misérias do chão.

Essa mulher olhava os mares que tinham peixes da mesma forma que o peixe tem o mar pra si. As terras que tinham toda variedade de árvores e plantas que por conseqüência tinham frutos e por fim tinham sementes das quais brotavam novas árvores e plantas.

Contemplou os animais que tinham parceiros e aqueles que viviam sós. Viu que nenhum estava só sendo que os parceiros reproduziam-se e tinha uns aos outros para se reproduzirem mais e mais enquanto os solitários tinham a reprodução dos outros e a eles mesmos para se devorarem respeitando assim o ciclo da vida.

A mulher então concluiu que a natureza era perfeita livre da solidão da qual aprendeu e julgava que os outros sentiam. Em tais palavras a solidão que buscava erradicar só afetava um único ser: O Homem que sofria.

Ela encontrou o homem na beira de seu triste caminho com uma bengala de apoio e nas mãos um punhal brilhando. Intrigada perguntou: O que farás com este punhal Homem? O homem inflexível em sua jornada limitou-se a indicar: Espero o pôr-do-sol pra me matar.

Espantada a mulher interpô-se no caminho disposta a provar ali com o mais indicado dos homens sua determinação de acabar com a solidão e o homem por sua vez, querendo dar passagem a sua própria provação responderia o mais rápido que pudesse pra acalmar o coração da mulher e seguir seu caminho triste.

Ora, por que te mata Homem Vazio? Não vê o quão precioso é o que tens? Não o punhal, mas o sangue que está nas veias que é o mesmo do mar e os peixes e na terra com as plantas. Não vê que necessitam de ti? Há alguém cuja existência está fixada entre este teu murcho sorriso e tua dissociação aparente e que no final gerará fruto como todo mundo

Sim mulher, o precioso não é meu sangue, pelo contrário, o punhal. Sangue há demais em mim e com ele irei finalmente para casa onde cessará o sofrimento que me aleijou o joelho e colocou em minhas mãos o punhal e não penses que de mim alguém necessita conquanto do que necessitam é de qualquer bem que minha força de trabalho ou intelectualidade poderá conferir quanto a mim permanecerei nesse caminho solitário.

Não te vejo necessariamente em tal motivo posto ser tu mesmo quem escolhes o caminho que trilhas. Veja só a construção social que partilhamos por sermos inerente da mesma espécie, eu sou mulher, tu és homem ambos necessitamos um do outro e logo completamos a solidão que cada um por si e de maneira pessoal pensa e sente.

Está certa até certo ponto Mulher Equivocada. O que ao homem e mulher é reservado não é de maneira nenhuma particular, mas sim produto de uma consciência coletiva. Haverá na alma qualquer diferença entre tu e eu? Terão diferença para o espírito teus dois pares de seios ou os testículos nas minhas pernas? São aparências e aparências não remediam solidão nem a consomem.

Trabalhemos então na sua lógica Homem Infeliz, se concebermos nossas almas iguais como existiria a solidão com a qual justificas essa tua decisão? Sendo todos igualmente um único produto logo haverá um único fim que não é a morte pelas próprias mãos ou vontade continuamente morte pela vontade maior que nos fez como somos.

Sim, nisso tens razão embora não é a igualdade que nos assassina a solidão mas é ela que nos faz estarmos em situações de completa inexatidão. Tens por principio que os homens são iguais na sua alma então como explicar isto que vejo: o sofrimento atrelado à diferença de corpo e de raça, de posição social e outros inerentes ao físico, ao lógico e convencional? Sendo assim, se diferentes somos solitários, iguais somos mais solitários ainda e eu mais que todos pois fui nascido de ventre anterior de modo que não me encaixo em nenhuma dessas duas verdades.

Homem tu tens por base uma filosofia muito complexa que não existe, tenta justificar sua vida através de idéias que não deviam passar de idéias. A natureza não pensa, ela segue seu curso e então deverias fazer o mesmo para que te façam sentido essas coisas que te digo: que todos nós somos parte da mesma gente.

Eu não contrario sua afirmação Mulher Tola, somente penso com a cabeça que a própria natureza ou aquela que a rege deu-me. Se por um lado fui dotado deste corpo que declina que é o que vês, não por ser diferente mas simplesmente pelo fato de todo corpo declinar então quererás que eu acredite que também fui feito como todos ser pensante embora algo me falte e disso ninguém atenta pois se normalmente fui um ser vivente é porque disfarçava não sentir e vivia o contrário do que estava pensando.

O que poderia Homem pensar que lhe fizesse crer que é mais importante do que essa vida que temos e vivemos cheio de amantes e de responsabilidades das quais não se pode abster? Ou melhor, o que realmente és e ninguém mais é e do qual ninguém possa ser acusado de ser ou então ser-te e sofrer-te mais que tu?

Eu sou o homem cuja alma nasceu partida e o corpo deformado. Se condições tivessem dado para que crescesse de maneira igual a todos hoje seria o que todos são e meus olhos estariam cegos juntamente com todos meus sentidos. Nasci entretanto diferente e enquanto tu enfrentavas teus problemas destinados com a força destinada para superá-los eu enfrentava as mesmas coisas em sentidos diferentes só que sem a força necessária de modo a atingir minha alma e despedaçá-la, em certo ponto até matá-la e destruí-la involuntariamente de modo que eu fiz certos sacrifícios em busca de apoio e normalidade que me tornaram manco e de punhal na mão.

Dizes e tem mesmo esse atrevimento de querer-te fazer diferente só por que sofreste? Imbecil e desprezível Homem: todos sofrem e tu não me disseste o contrário mas só fizeste fugir de tudo, sem coragem para abrir o peito e encarar tudo de frente.

Eu não fugi de tudo. Encarei e recebi tudo que o mundo poderia me oferecer e este ser que vê é senão a forma decaída porém ainda aceita que eu tomei para não ser totalmente só. Se não fosse assim nem tu pararias teu caminho e nós não estaríamos trocando essas palavras embora nenhuma dessas palavras me faça menos sozinho, pelo contrário, só aumenta e deforma mais este peito que agora estou disposto que tu vejas.

O homem abriu o casaco velho que lhe cobria e mostrou tudo quanto guardava no peito. A mulher vomitou e passou várias horas sem poder dizer nada, daquilo negro que se incrustava entre o vazio e o coração sangrando debilmente vivente ela pode ouvir um grito, uma súplica igualmente vazia e distorcida como tudo que via. Eu te amo era o que dizia.

Ele então, cansado ou satisfeito de mostrar-se como realmente era fechou o casaco e a mulher, minimamente satisfeita com o ato não podia mais vê-lo como semelhante e seu gostar inicial era senão uma lembrança que seu teimoso e coletivo coração guardava dele. O homem tentou sorrir e no mesmo instante arrependeu-se pois já via o desprezo, o asco, a raiva que viu em toda vida. Sua solidão pareceu-lhe insuportável e pôs-se em continuar o caminho.

Por que eu parei? Será que podia pensar que pelo fato de falares comigo serias diferente de todos os que viram anteriormente meu coração e minha alma? Falaste muito que havia outras pessoas que sofreram mais do que eu e nem sequer consegues agüentar no que se transformou minha alma que no seu principio era igual a tua mas que agora é isso que te afasta de mim? E vens me dizer que não existe solidão sendo que tu mesma não compreendes e meu destino não é esse punhal em minhas mãos? Deixe-me com meu lúgubre pôr-do-sol e siga teu caminho feliz.

A mulher seguiu em frente, talvez com uma sombra de receio e lamentavelmente olhou pra trás vendo o homem também olhar pra trás. Porque aquele coração que vira estava destruído e tinha certeza que amaria qualquer um que o olhasse ou que lhe falasse e isso ao invés de reconstruí-lo só destruía-o mais por que lhe caíam os pedaços restantes, o vazio lhe aumentava e o pobre coração nem sequer sabia o que sentia e o que o Homem achava que guardava na verdade nem existia.

Tudo que podia fazer por aquele miserável homem era seguir em frente seu caminho porque sua presença só aumentaria a solidão do próprio homem e nem se preocupava mais como antes se preocupou. Ele não conseguiria o que dizia que faria; era demasiado covarde o Pobre Homem para fazer algo que lhe ajudasse e ficaria com seu coração mais e mais deteriorado e vazio afirmando que no próximo pôr-do-sol se mataria.



(Do Livro “Suicídico”)
Diego Duarte,
Poeta solitário
Diego Duarte
Enviado por Diego Duarte em 09/03/2012
Código do texto: T3544479
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Sobre o autor
Diego Duarte
Ananindeua - Pará - Brasil
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Diego Duarte